             Tnia Gonzales




Suzana, Letcia, Paula e Lcia
  uma histria de dor, amor e perdo




               1 edio




                So Paulo
             Edio do Autor
                  2009
           Gonzales, Tnia, 1971 -
               Suzana, Letcia, Paula e Lcia-uma histria de
           dor, amor e perdo / Tnia Gonzales  So Paulo,
           2009.
               ISBN 978-85-910249-0-2
               1.Literatura Brasileira


                                                    CDD-B869




                Copyright  2009 Tnia Gonzales
         contato com a autora: gonzalestania.gonzales@gmail.com
                   http://romancegospel.blogspot.com


 proibida a reproduo total ou parcial desta obra, por qualquer meio, sem a
                        autorizao prvia da autora.
            Obra protegida pela Lei de Direito Autoral n 9610/98.

 As citaes bblicas so extradas da edio Revista e Atualizada- Almeida-
                          Sociedade Bblica do Brasil.
       Sumrio
        Prlogo  11
     1-Aniversrio  13
       2-Perfumes  21
        3-Regime  31
     4-Informaes  37
       5-R.E.M.A.  48
      6-Problemas  57
    7-Um presente  65
8-Diagnstico: Anorexia  78
    9-Primeiro beijo 88
    10-Trufas e CDs  99
   11-Conversando  109
   12-Caf especial  122
     13-Por um fio  131
   14-Boas notcias  146
   15-Apaixonados  157
  16-Quase um beijo  167
     17-Decepo  178
     18-Revelao  190
19-Reao inesperada  202
   20-Treinamento  219
 21-Aconselhamento  231
        22-Lcia  242
   23-Namoro curto  249
 24-Tristeza e alegria  256
    25-Rindo  toa  268
         Sumrio
  26-De volta ao passado  280
       27-A verdade  294
         28-Viagem  308
        29-Saudade  322
      30-Expectativa  334
         31-Lcia?  346
 32- Novamente o passado 355
  33-Campos do Jordo  365
     34-O pai de Lcia  371
   35-Nunca fui beijada  381
         36-Valter  393
     37-Suzana e Lcia  405
       38-Novidades  411
      39-Casamento  419
      40-Lua de mel?  432
       41-O retorno  443
        42-Tentao  454
43-Presente de Aniversrio  467
          Eplogo-  475
               Agradecimentos


Minha gratido a Deus, a minha famlia e a todos os
                     leitores.
Para adquirir a verso impressa:
 www.clubedeautores.com.br
"Cure o passado. Viva o presente. Sonhe o futuro."

                Provrbio irlands
Prlogo
Dominada pelo pnico, ela no conseguia gritar. Ele a estava
machucando. Qual o motivo para tanta maldade? Por qu? Ela
queria gritar, queria fugir daqueles braos fortes, mas era frgil
demais...

_ Filha... querida... eu estou aqui!  a mame.
_ Me... me... foi horrvel!
_ Foi s mais um sonho, filha! Tente dormir novamente.
_ Estou com medo... e se recomear?
_ Querida, eu vou ficar aqui at que adormea, vou orar bem
baixinho para que Deus lhe d um sono tranquilo.
Aps alguns minutos, Suzana voltou a dormir.
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 1 -Aniversrio
Paula acordou cedo no dia de seu 19 aniversrio. Teria uma festa
surpresa. A me, Regina, bem que tentou esconder, mas no
conseguiu ser discreta o suficiente para que tudo ficasse em
segredo, a filha acabou por ouvir uma conversa aqui, outra ali, e
adeus segredo. Mas Paula resolveu fingir que no sabia de nada.
Hoje seria um daqueles dias que ela teria que sair da rigorosa dieta
imposta por ela mesma. Ela tinha um sonho: ser uma modelo
profissional. J havia feito alguns pequenos trabalhos, mas ela
queria mais, muito mais.

_ Filha, parabns! -disse Regina, em seguida deu um beijo e
entregou um presente, que fazia parte da estratgia para a festa
surpresa.
_ Obrigada, me!
_ Dezenove anos! Como o tempo passa depressa! Abra o seu
presente, espero que goste!
_  linda! - disse Paula ao ver que era uma bolsa que ela estava
paquerando h algum tempo- E o papai?
_ Ele precisou sair bem cedo, mas no vai demorar. Que tal voc
se levantar e tomar um belo caf da manh?
_ Me, no posso exagerar. S quero torradas e um copo de leite
desnatado.
_ S isso? Nem pensar, hoje  um dia especial, precisa se
alimentar bem.
Regina sempre tentava fazer a filha se alimentar melhor, mas era
muito difcil convenc-la, Paula sempre dizia que estava acima do
peso, mesmo pesando apenas 48 quilos. Era uma linda garota
loira, como a me; de olhos azuis, iguais aos do pai; que se


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                           Tnia Gonzales



destacava pela altura. No momento ela estava com os cabelos um
pouco acima dos ombros.
_ Olha s quem j acordou! Feliz aniversrio, minha linda filha!-
disse Paulo Reis e em seguida olhou para esposa  No disse que
voltaria logo? Ela nem saiu da cama ainda! Filha, v trocar a
roupa e depois venha tomar o caf conosco.

Paulo Reis saiu do quarto da filha, desceu as escadas do sobrado,
foi at a cozinha esperar por Paula, a esposa o seguiu, queria
muito falar com ele longe da filha.
_ E ento, conseguiu arrumar um substituto?
_ Regina, voc acha que  simples assim?
_  o aniversrio da sua filha! Est pensando em faltar?
_ Fale baixo, quer que ela oua? Eu j falei que no posso
desmarcar,  um congresso de jovens; o pastor Mrcio  sempre
to amvel comigo!
_ Ela vai ficar arrasada! Como voc foi aceitar...
_ Regina, voc sabe muito bem que o meu dia seria ontem, mas
ele me pediu um favor, eu no pude recusar. Eu s vou chegar
mais tarde, qual o horrio que voc marcou?
_Oito horas; voc vai chegar aqui no final da festa... o congresso 
em Pirituba, no ?
_ Sim, mas eu vou fazer de tudo para chegar pelo menos na hora
que ela for cortar o bolo.

Paulo Reis era um pregador itinerante muito requisitado pelas
igrejas para pregar em congressos. Sempre tinha convites para
os finais de semana, mas nos ltimos meses at durante a semana
surgia um compromisso. Ele pregava at em outros estados. Sua
igreja era a IGAG (Igreja Graa Abundante Graa), na cidade de
So Caetano do Sul, estado de So Paulo, mas era raro o dia em

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


que podia participar dos cultos. Esta situao entristecia Regina,
sua esposa, pois era muito difcil para ela conseguir acompanh-lo
aos compromissos; eles tinham uma loja de calados e ela tambm
precisava ficar com a filha, que s pensava na carreira de modelo.
Regina havia convidado alguns amigos de Paula que faziam
parte do grupo de jovens da igreja; seriam uns 30 convidados
apenas, j que eles no tinham parentes prximos, somente a irm
de Regina, Carmem e sua filha Aline, pois os outros parentes
tanto de Regina quanto de Paulo moravam no Rio de Janeiro.
Entre os convidados havia Leonardo, jovem de 23 anos, muito
esforado e ativo nos trabalhos da igreja, ex- namorado de Paula,
filho do Dr. Rafael Martins, advogado trabalhista e de Lgia,
cirurgi dentista. Regina ainda tinha esperanas que os dois
voltassem a namorar, Leonardo era o genro que ela havia pedido a
Deus. Recm formado em direito, trabalha com o pai, que  scio
em um escritrio de advocacia. O namoro durou 6 meses;
terminaram uma semana aps o aniversrio de 18 anos de Paula.
O motivo? O sonho de Paula em ser modelo. Leonardo
simplesmente no concordava com a escolha da profisso da
namorada, principalmente pelo fato dela sempre estar fazendo
regime. Quando os dois saam ela s tomava um suco natural e era
muito difcil convenc-la a comer. A princpio ele pensava que era
s uma ideia passageira, que logo ela esqueceria o assunto, afinal
ela havia decidido fazer faculdade de veterinria; mas quando
Paula comunicou que s se dedicaria  carreira de modelo, ele
achou melhor terminar o namoro. Definitivamente ele no queria
ser o namorado de uma modelo; mas a amizade continuou, por
isso ele era um dos convidados para a festa de aniversrio.
Enquanto Regina cuidava dos preparativos para a              festa,
aproveitando que a filha havia sado, pensava em como seria bom
se a filha voltasse a namorar Leonardo, j havia falado vrias

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                           Tnia Gonzales



vezes para Paula que ela ia se arrepender por perder um rapaz
como ele, que se ela demorasse muito, com certeza seria tarde
demais. Mas Regina sabia que os pais de Leonardo ficariam
satisfeitssimos se o filho namorasse a amiga Letcia Soares, filha
de Fernando, scio de Rafael. Eles tinham muitas coisas em
comum, alm dos pais trabalharem juntos, as mes tambm
tinham a mesma profisso e at trabalhavam na mesma clnica;
eles se conheciam desde crianas e eram grandes amigos.
Tambm moravam em So Caetano do Sul. As duas famlias mal
conseguiam esperar pelo dia em que os filhos anunciassem o
namoro. Letcia era uma boa menina, obediente aos pais, amava
participar dos trabalhos da igreja, muito simptica e alm de todas
estas qualidades, era muito bonita tambm; de estatura mediana,
cabelos loiros, olhos castanhos claros, tinha 19 anos e estava
cursando odontologia, seguiria a mesma carreira da me.

Poucos minutos aps o horrio marcado, os convidados
comearam a chegar, inclusive Leonardo e Letcia.
_Que bom que vocs vieram- disse Regina assim que os viu-
Fiquem  vontade. A Paula vai ficar muito feliz com a sua
presena, Leonardo.
_Boa noite, Regina. Onde est a aniversariante? - perguntou
Leonardo.
_A Aline saiu com ela, mas daqui a poucos minutos elas chegam.
_Conseguiu esconder tudo dela? - quis saber Letcia.
_Acho que ela j sabe de tudo, s est disfarando.
_ Elas esto chegando!- anunciou Carmem, irm de Regina.
Assim que Paula entrou, todos os convidados gritaram juntos:
"Surpresaaa!"- e comearam a cantar o famoso: " Parabns pra
voc, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida!"
Aps muito barulho e muitos abraos, Leonardo conseguiu falar

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


com Paula.
_Parabns, Paulinha!  pra voc, espero que goste- disse
Leonardo entregando-lhe um bonito pacote vermelho com um lao
dourado.
_ Obrigada, meu Lo! Como voc est gato hoje! Eu queria voc
embrulhado pra presente, pode ser?
_Voc no tem jeito mesmo! - disse ele.
_ Oi, L! Que bom te ver!- falou Paula cumprimentando Letcia.
_ Feliz aniversrio! Voc est linda, que novidade, n? - e em
seguida tambm entregou um presente.
_ Obrigada! E agora  s curtir a minha festa!

_ Como voc est gato! Hum... eu acho que algum est querendo
uma reaproximao... - comentou Letcia assim que Paula se
afastou.
_ Para com isso, Leca! - provocou Leonardo, chamando-a pelo
apelido que ela detestava.
_ Lo, fale baixo e no me chame assim novamente.
_ Assim como, Leca?
_ D pra voc parar? Vamos comer alguma coisa?
_  claro que vamos... minha Leca! - Leonardo deu um largo
sorriso e a puxou pelo brao.

Regina estava comeando a ficar preocupada, pois j passava das
23h e nada do marido chegar, ser que teriam que cortar o bolo
sem ele? A filha ficaria arrasada, ela j havia perguntado por ele
vrias vezes e Regina s repetia as mesmas palavras: " Ele est
chegando".
Perto da meia-noite, Regina percebeu que no seria mais possvel
esper-lo; chamou a filha para cortarem o bolo.
Quando Paulo Reis entrou, encontrou a esposa e a cunhada

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                           Tnia Gonzales



Carmem fazendo a limpeza. Era uma hora da manh.
_ Onde ela est?
_No quarto, abrindo os presentes, a Aline est com ela- respondeu
Carmem.
_Como voc foi capaz de fazer isso com a nossa filha? Ela
perguntou tanto por voc! Eu sabia que isso ia acontecer... - disse
Regina muito nervosa com o marido.
_Calma Regina! No adianta ficar brava comigo agora. Tinham
muitas igrejas convidadas... comecei a pregar muito tarde e
depois que o culto terminou o pastor me convidou para jantar,
estava tudo preparado na casa dele, no dava para recusar.
_ No acredito! Paulo, voc ficou l todo tranquilo sabendo que
estvamos esperando por voc?
_ Eu... eu vou falar com ela.
Paulo foi at o quarto da filha e por alguns instantes no teve
coragem de abrir a porta, pois ouviu que ela estava chorando.
_ Prima, no fica assim. Olha, deve ter acontecido algum
problema. Voc acha que o seu pai iria perder a sua festa de
propsito? - falava Aline tentando consol-la.
_ Acho! No  a primeira vez que ele faz isso. Sair pra pregar no
dia do meu aniversrio? Caramba! Ele no podia ter feito isso
comigo... no podia... que raiva!
Paulo resolveu bater na porta.
_ Entra! - gritou Paula.
_ A est voc! Quantos presentes! Todos os seus amigos vieram?
- perguntou Paulo meio sem graa.
_ Todos, s faltou o meu querido pai. Engraado, n?
Aline achou melhor deix-los a ss.
_ Filha, minha filha... me perdoe, por favor! Eu no consegui
chegar mais cedo, foi impossvel sair.
_ Claro, pai, grande novidade! Voc nunca est aqui mesmo.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_ No seja injusta...
_ Injusta? Eu? Um pai que falta na festa da prpria filha? E ele
mora na mesma casa... eu acho que at pais divorciados
participam mais da vida dos filhos - Paula parou de falar, no
conseguia segurar as lgrimas.
_ Filha, eu sinto muito - dizendo isso Paulo a abraou.
Ficaram os dois ali abraados, sem dizer uma palavra; at que
Paulo deu um beijo na filha e saiu do quarto.
_ Ela dormiu? - perguntou Regina assim que o marido apareceu
na cozinha.
_ No, mas deve pegar no sono logo, logo. A Carmem e a Aline?
_ J foram embora. Voc no podia ter feito isso com ela.
_ Regina, me d um tempo. Como voc acha que eu estou me
sentindo?
_ Espero que esteja pssimo.  isso mesmo... pois  assim que eu
me sinto. Voc deveria valorizar mais a sua famlia. Eu sei que
voc ama pregar, sei que as igrejas gostam de convid-lo, mas
aqui nesta casa existem duas pessoas que precisam de voc, nunca
se esquea disso.
_ Regina, voc est exagerando, ns at que passamos um bom
tempo juntos. Quantos pais saem de casa cedo todos os dias e s
voltam  noite... ns at trabalhamos juntos na loja.
_ No acredito! Paulo, voc est sempre viajando, passa dias
longe de casa pregando em congressos pelo Brasil afora. Eu sei
que o seu ministrio  muito importante, mas quando isso
atrapalha a harmonia do lar, tem alguma coisa errada. Tenho
certeza que Deus no se agrada disso. A famlia foi instituda por
Deus e Ele quer os casais sejam felizes. As coisas aqui em casa
no vo bem, por que mentir pra ns mesmos?
_ Regina, cuidado com o que voc fala. As pessoas precisam
ouvir uma palavra e eu sou um dos instrumentos de Deus. No

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                          Tnia Gonzales



posso recuar. Voc est exagerando. Eu sou um marido e um pai
bem presente, hoje, infelizmente, no foi possvel.
_Tudo bem, Paulo. Eu j sei que esta conversa no vai adiantar
nada. Boa noite!
_ Boa noite.

Paula no estava conseguindo dormir, ento resolveu provar
algumas roupas. Colocou uma cala jeans, presente de sua prima e
a blusa vermelha, dada por Leonardo, que sabia muito bem que
aquela era a cor favorita dela.
Deu uma olhada no espelho e no gostou do que viu. "Como estou
gorda! Amanh vou comear um regime daqueles bem radicais" -
pensou Paula.




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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 2 - Perfumes
_Minha irmzinha querida, preciso de sua ajuda. - disse Leonardo
ao entrar na casa da irm em uma tarde de sbado; duas semanas
antes do dia das mes.
_ assim que voc entra na casa de sua nica irm? E meu beijo? -
perguntou Beatriz.
_ verdade, que mancada!- Leonardo deu um apertado abrao e
dois beijos na irm, para em seguida completar- Me desculpe!
_Tudo bem, mas do que voc est precisando?
_Eu quero aproveitar para comprar o presente da mame, pra no
deixar para a ltima hora, estou sem nada para fazer mesmo, vou
at o shopping.
_Est adiantado, hein? Quer uma dica? Eu vou comprar um
vestido que eu vi outro dia, ela estava comigo e eu percebi que ela
ficou interessada nele, mas eu sei o que voc pode comprar. Ela
adorou o perfume que eu dei de presente para minha cunhada.
Voc pode comprar um kit; eu vou anotar pra voc, porque com
certeza se eu falar voc vai esquecer.
_Valeu!
_Voc vai com a L?
_No, vou sozinho mesmo. No tenho nem uma companhia, pleno
sbado... vou sozinho para o shopping. Voc acha que isso  justo?
_Que drama, Lo! Est sozinho porque quer. Por falar nisso...
bom.. ontem a mame ficou me perguntando sobre voc e a L,
ela no se conforma, quer saber o porqu de tanta indeciso.
_ Indeciso? Quem est indeciso? A mame no tem jeito! A L 
como se fosse minha irm mais nova e eu sou como um irmo pra
ela. Ser que  to difcil entender isso?
_  que a mame e o papai acham que vocs formam o casal ideal.


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As duas famlias se entendem; papai trabalha com Fernando,
mame com a Sandra. Sogros e sogras trabalhando juntos. E se
no bastasse, a L faz faculdade do qu? Odontologia. Ela vai ter
a mesma profisso da me e da "sogra". Perfeito! E tem mais um
detalhe: vocs dois tocam o mesmo instrumento na orquestra da
igreja. Concluso: vocs nasceram um para o outro.
_Seria perfeito se no fosse por um detalhe: ns no estamos
apaixonados.
_No esquenta. Quando cada um encontrar a sua cara metade, eles
param com esta histria. Voc est interessado em algum no
momento? - quis saber a irm.
_Bem que eu gostaria, mas... eu... como que eu vou explicar... eu
gostaria de conhecer algum bem especial, sabe? No ria de mim,
mas eu quero algum que me faa sentir algo que eu nunca tenha
experimentado antes. Eu estou esperando por uma princesa. Agora
eu estou falando como vocs!
_ Que fofo! Mulheres... ele est aqui!- gritou Beatriz.
_ Sem brincadeira.
_Lo, meu maninho, voc no precisa ter vergonha disso. Olha, eu
tenho certeza que voc vai encontrar algum muito especial, voc
merece. Eu entendo, viu? Quando eu conheci o Bruno foi
maravilhoso, eu olhei pra ele e pensei: " ele, s pode ser ele"; e
aconteceu. S no digo que est tudo perfeito, porque voc sabe
que est faltando algum muito importante aqui - ao dizer isso,
Beatriz ficou com os olhos marejados, era um assunto muito
delicado para ela.
_ Bia, minha irm... este algum to esperado vai chegar. Na hora
certa vocs vo conseguir realizar este sonho- Leonardo abraou a
irm e completou: Eu tambm estou ansioso para me tornar um tio
bem coruja!
_ Irmozinho lindo! Deus vai se lembrar de mim, no vai?  to

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


dolorido passar por isso! Por duas vezes ficar feliz, se sentir
realizada para em seguida...perder. Outro dia eu estava
conversando com uma me e ela me contou que uma sobrinha dela
ficou grvida aos 17 anos e por medo da reao do pai, resolveu
abortar. Eu me senti to mal. Quantos que recebem esta ddiva e
abandonam o beb at no lixo! No me conformo! Eu e o Bruno
queremos tanto...
_Bia, vocs vo conseguir! No perca a f, no desanime. Voc
ser uma me maravilhosa!
_Voc tem razo, vamos parar com esta conversa... eu vou fazer
um cafezinho pra ns e depois voc vai comprar o presente da
mame.
Beatriz estava casada com Bruno h 5 anos, por duas vezes ficou
grvida e sofreu muito por causa dos abortos. Estava com 30 anos
e tinha um desejo enorme de ser me. Era mdica pediatra, e o
convvio dirio com os pequenos pacientes aumentava ainda mais
este desejo.

Eram quase sete horas da noite quando Leonardo chegou ao
shopping; foi direto para uma conhecida loja de perfumes. Ao
entrar, ele deu uma rpida olhada pela loja e de repente parou o
olhar em uma bonita moa de cabelos castanhos.
Ela estava atendendo um cliente, mas ele no conseguia desviar o
olhar, o rosto dela era muito delicado, parecia uma boneca.
Leonardo estava to envolvido que no percebeu a aproximao
da outra vendedora.
_ Boa noite, senhor. Posso ajud-lo?
_ Oi? ... eu... me desculpe, mas eu gostaria de ser atendido por
ela- disse Leonardo apontando bem discretamente para a moa
que havia chamado sua ateno.
_ Tudo bem, mas o senhor vai precisar esperar um pouco, a

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                           Tnia Gonzales



Suzana est atendendo um cliente.
_ Eu espero, obrigado.
A vendedora se afastou e avisou a amiga que havia um cliente
esperando por ela. Enquanto isso Leonardo ficou pensando: " O
que est acontecendo comigo? Suzana,  isso, o nome dela 
Suzana. Mas, por que eu no consigo parar de olhar pra ela?"
Poucos minutos depois, ela foi atend-lo.
_ Boa noite, senhor. Em que posso ajud-lo?
_Boa noite. Eu... eu... - Leonardo ficou sem conseguir se expressar
por alguns instantes, mas o seu olhar estava fixo nos lindos olhos
verdes de Suzana- Me desculpe... eu gostaria deste perfume-
dizendo isso Leonardo mostrou o papel onde a irm havia anotado
o nome do perfume.
A vendedora se afastou por poucos segundos para em seguida
voltar com o perfume pedido por Leonardo.
_  um presente para minha me- explicou Leonardo- Minha irm
me falou sobre um ... kit?
_ Ns temos sim, eu vou buscar para o senhor.
E novamente a bonita moa se afastou para voltar em seguida.
_timo, eu vou levar o kit. - informou Leonardo sem desviar o
olhar da vendedora, que apesar de no se sentir  vontade diante
dele, conseguiu atend-lo demonstrando segurana.
Leonardo saiu da loja contrariado, sentia uma vontade
insuportvel de ficar ali s olhando para ela. " Que absurdo !" -
pensava Leonardo enquanto caminhava at o estacionamento- "
Para com isso, voc nem a conhece, que coisa maluca!"

Depois de trs dias Leonardo revolveu voltar ao shopping no
mesmo horrio. Ele no conseguia parar de pensar na vendedora
que o havia atendido. Ao entrar na loja, logo a avistou e pediu
para outra vendedora que gostaria de ser atendido por Suzana.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_ Suzana... Suzanaaa... tem um cliente esperando por voc! -
avisou Cludia, vendedora da loja e amiga de Suzana.
_ Quem? - perguntou Suzana, pois ainda no tinha visto
Leonardo.
_ O que no tirou os olhos de voc... sbado, lembra? Voc no 
fraca no! Eu que gostaria de ser a vendedora preferida de um
gato como aquele! Vai l, ele est esperando!
Suzana deu uma rpida olhada em Leonardo, se ela pudesse
pediria para Cludia atend-lo, pois havia ficado envergonhada
com o olhar persistente dele.
_ Boa noite, senhor! Posso ajud-lo?
_ Boa noite, Suzana! Hoje eu gostaria que voc sugerisse um
perfume para a minha irm.
_ Tudo bem, eu vou mostrar algumas opes.
Leonardo at que tentava, mas no conseguia desviar o olhar, no
era um comportamento normal dele, mas simplesmente no dava
para resistir. A vontade dele naquele momento era de convid-la
para sair, mas ele sabia que isso seria ridiculo, por esta razo, em
poucos instantes, estava saindo da loja com uma sacolinha,
contrariado novamente.

Aps 4 dias, Leonardo voltou quela loja , ele at que tentou
resistir, mas no conseguia parar de pensar em Suzana. Desta vez
ele no precisou cham-la, Suzana o viu assim que ele entrou.
_ Boa noite senhor! Posso ajud-lo?
Leonardo gostaria de poder dizer:" Eu preciso muito de sua ajuda,
pois no consigo parar de pensar em voc"- mas limitou-se a
dizer:
_ Sim, eu gostaria de uma sugesto, mas hoje eu quero um
perfume masculino. ... pra mim.
Suzana voltou com 4 opes.

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                          Tnia Gonzales



_ De qual voc gosta mais? - perguntou Leonardo.
_ Eu? ... o senhor no gostaria de escolher?
_ No, na verdade eu gostaria que voc escolhesse por mim. Qual
 o seu preferido?
_ Se o senhor deseja assim... este.
_ Ento eu vou lev-lo e voc teria a loo aps barba?
Leonardo saiu da loja e ficou pensando naquela situao. "Para
quem ele iria comprar o prximo perfume? Para seu pai? Ou quem
sabe para a Leca?" Ele mesmo no acreditava no que estava
fazendo. Comprar perfumes s para ficar alguns mseros minutos
com uma vendedora que ele nem conhecia e o pior de tudo era que
ele considerava aqueles minutos os mais importantes de sua vida
nos ltimos dias, o que era um absurdo- " Devo estar muito
carente, s pode ser isso!"-pensou.

_Suzana, destruindo coraes! Eu acho que na prxima vez ele vai
comprar perfume para o cachorrinho dele ou quem sabe para o
papagaio? - brincou Cludia.
_ Para com isso, Cludia! Ele estava precisando comprar um
perfume.
_ Suzana, o cara vem at aqui pra te ver, voc sabe muito bem!
Ele  um gato! Tremendo gato! Ele no tira os olhos de voc... se
liga!
Leonardo era um atraente rapaz de 1,90m de altura, cabelos e
olhos castanhos, dono de um lindo sorriso.
Suzana sabia muito bem que Cludia tinha razo. Ele no desviava
o olhar... era muito difcil para ela manter a concentrao. A
esperana dela era que ele no aparecesse mais, seria melhor
assim, ela no tinha ideia de como sair de uma situao como
aquela, simplesmente no tinha experincia nenhuma com rapazes
e nem queria ter.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Quase um ms havia se passado desde a ltima visita do cliente de
Suzana, ela se sentia aliviada e ao mesmo tempo uma certa
curiosidade a perseguia. Teria acontecido alguma coisa com ele?
"Que bobagem"- pensava ela-" Por que eu vou ficar pensando em
um rapaz que no vou mais encontrar?"

Suzana trabalhava naquela loja do shopping h quase dois anos, o
mesmo tempo que estava morando em So Paulo. A famlia
morava em Belo Horizonte e a me de Suzana, Marina, que era
tcnica em enfermagem, resolveu prestar um concurso em So
Paulo, se fosse aprovada fariam a mudana e outro motivo era o
fato da irm de Marina, Marisa, querer que eles morassem com
ela, pois era viva e no tinha filhos, estava se sentindo muito
sozinha. Ela morava em uma casa muito grande e tinha uma outra
casa nos fundos que seria perfeita para a irm morar, junto com o
marido Davi e as filhas: Sueli e Suzana. E foi justamente isso o
que aconteceu. H poucos meses comearam a frequentar a
mesma igreja de Marisa, a IGAG (Igreja Graa Abundante Graa),
uma igreja evanglica com cerca de 2000 membros. Em Belo
Horizonte eles estavam afastados da igreja j h alguns anos.
Marina, tinha um horrio de trabalho bem complicado e Davi, que
era motorista particular, tambm chegava tarde do servio. As
meninas iam s vezes, mas no participavam de nenhum trabalho
realizado pela igreja. Mas agora eles resolveram voltar a
frequentar, isso  bem complicado por causa do horrio de servio
de cada um, mas sempre que possvel eles esto presentes nas
reunies da igreja,  claro que dificilmente conseguem ir juntos.

Marisa, a tia de Suzana,  vizinha da famlia Soares, e se esforou
para que a sobrinha Suzana fizesse amizade com Letcia; era
difcil elas se encontrarem, por causa do horrio do trabalho de

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                           Tnia Gonzales



Suzana e tambm pelo fato das duas estarem na faculdade, mas
mesmo assim elas estavam comeando a se entender. Naquele
domingo Letcia havia combinado com Suzana de irem juntas ao
culto.
Chegaram uns vinte minutos antes do incio do culto e
aproveitaram para conversar em frente  lanchonete da igreja; de
repente, um rapaz se aproximou.
_Oi, Lo! Eu quero te apresentar a ... - Letcia no conseguiu
terminar foi interrompia por Leonardo.
_No acredito, voc aqui? - perguntou Leonardo olhando para
Suzana.
_ Vocs se conhecem? - foi a pergunta de Letcia.
_ Bem... mais ou menos - respondeu Leonardo sem tirar os olhos
de Suzana que tambm estava muito surpresa por encontr-lo ali.
_ Como assim? Se conhecem ou no? - perguntou Letcia sem
disfarar a curiosidade.
_ Eu ... andei fazendo umas compras e a Suzana  minha
vendedora favorita.
_ Que legal! Suzana, este  o Leonardo, ele  meu amigo.
_Oi. - disse Suzana simplesmente.
_Oi, que surpresa! Isso  que eu chamo de feliz coincidncia-
disse Leonardo.
_Coincidncia no, Lo! A Suzana congrega aqui e voc tambm.
_ Espera a, desde quando?- perguntou Leonardo.
_ H mais ou menos quatro meses  explicou Letcia.
_ No pode ser! Como que eu nunca te encontrei aqui?
_ Eu venho poucas vezes, por causa do meu trabalho. - esclareceu
Suzana.
_Mesmo assim...
_ A Suzana no participa dos jovens, nem da escola bblica... senta
bem l trs, sai assim que o culto termina. Alm dela ter um

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


horrio de trabalho bem complicado ela tambm faz faculdade.
_ L, ns podemos entrar agora? - perguntou Suzana que estava
sem jeito diante dos olhares de Leonardo.
_ T! Podemos sim! Tchau, Lo, depois a gente se fala.
Leonardo ficou extremamente feliz ao ver Suzana, pois nos
ltimos dias ele esteve por vrias vezes quase indo at o shopping,
mas sempre chegava  concluso que era melhor no ir para evitar
fazer papel de ridculo novamente, mas a verdade era que aquela
garota no lhe saa da cabea. O fato de Suzana pertencer  mesma
igreja que ele e ainda por cima ser amiga de Letcia era algo que
ele no podia sequer imaginar, era bom demais para ser verdade.
Precisava falar com a amiga ainda hoje, queria fazer algumas
perguntas.
Suzana tambm ficou muito surpresa ao ver Leonardo e ao
mesmo tempo muito preocupada. O pensamento dela era:
" Espero que ele mantenha distncia". O pensamento dele era: "
Preciso me aproximar dela".

Letcia e Leonardo sempre sentam-se juntos nos cultos em que a
orquestra tem participao, por tocarem o mesmo instrumento:
violino; mas como Letcia esteve ausente nos ltimos ensaios, ela
aproveitou para sentar-se ao lado de Suzana.

A IGAG  uma igreja que se preocupa em propagar o evangelho
de Jesus.  envolvida com misses, sustentando vrios
missionrios pelo Brasil e tambm exterior. Pedro Gabriel  o
pastor responsvel pelo trabalho; ele e a esposa Rute tem um filho
que  missionrio em Moambique, Lucas, que  casado com
Rebeca, eles tm uma filha de quase dois anos, chamada Raquel.
Quando terminou o culto, Suzana disse para Letcia que iria
embora, mas que ela poderia ficar para conversar com os amigos.

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                           Tnia Gonzales



_ No Su, eu vou com voc. Ns viemos juntas, vamos juntas.
Ns podemos aproveitar a carona de meus pais, eu preciso tomar
vergonha e tirar a minha carta.
Leonardo bem que tentou se aproximar, mas sempre aparecia
algum para conversar, ele viu as duas se afastarem, o que muito
o desapontou, mas j havia decidido que iria at a casa de Letcia.




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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 3 -Regime

Depois da festa surpresa, Paula havia feito uma promessa :
comear um rgida dieta alimentar; pois, segundo ela, precisava
perder pelo menos 5 quilos e bem rapidamente; por isso pela
manh s comia uma torrada e tomava uma xcara de ch, s
vezes substitua o ch por um suco de laranja com adoante.
_ Voc precisa se alimentar, filha! Onde j se viu comer s uma
torrada no caf da manh? Vai ficar doente e... - Regina no pde
terminar, foi interrompida por Paula.
_ Me, pode parar com isso? Estou seguindo uma dieta especial,
no insista! Vou perder peso custe o que custar, pode escrever
isso!
_ Quem disse que voc precisa emagrecer? Est to bem! Voc
no olha pra o espelho no ?
_ Vrias vezes ao dia e no gosto do que vejo. E sabe o que eu
vejo? Uma gorda,  isso mesmo, uma gorda!
_ Gorda? Voc deve estar com um problema srio na viso ou
ser na cabea?
_ Me! Se liga...
_ No fale assim comigo!
_ D licena! Voc no v que eu preciso ficar em forma? Vou
fazer umas fotos no prximo ms e assim do jeito que eu "t" no
d, n?
_ Voc j  to bonita, minha filha.
_ Bonita? Minha filha  linda! - disse Paulo Reis assim que entrou
na cozinha.
_ Est vendo? Escute o que o seu pai est dizendo, voc  linda! -
concordou Regina.
_ Parem com isso! Vocs no contam, os pais sempre vo dizer

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                          Tnia Gonzales



que seus filhos so lindos, maravilhosos, enfim, perfeitos!
_ Voc deveria parar de se preocupar tanto com a aparncia e
voltar a estudar, que tal? - sugeriu o pai.
_ Paizinho querido, por enquanto no, tenho coisas mais
importantes para fazer.
_ Mais importante do que se formar e ter uma carreira? -
perguntou Paulo Reis.
_ Filha, seu pai est certo e tem mais uma coisa... se voc no
tivesse cismado com essa histria de ser modelo, seria namorada
do Leonardo at hoje - completou Regina.
_ "Tava" demorando! Eu sabia que a minha amada me ia dar um
jeitinho para incluir o Lo nessa conversa. Chega. - dizendo isso
Paula foi para seu quarto.
_ No sei o que eu fao com essa menina- disse Regina.
_ Essas meninas de hoje sempre acham que  necessrio
emagrecer. Bom, na verdade no so s as meninas... vocs
mulheres nunca esto satisfeitas com o corpo.
_ Voc tem algum compromisso hoje?
_ Era isso que eu queria conversar com voc, Regina. O Pr. Pedro
Gabriel foi convidado para abrir um congresso em Poos de
Caldas amanh, mas voc sabe como  complicado para ele deixar
a igreja em um dia de domingo, por isso me pediu para represent-
lo.
_ Grande novidade! E eu que pensei que ns poderamos fazer
algum programa em famlia... que ingenuidade a minha!
_Voc no espera eu terminar... o que voc acha de irmos juntos?
Podemos ir hoje mesmo.
_Est falando srio?
_ claro que sim. Converse com a Paulinha, ela pode ir tambm.
Regina foi falar com a filha sobre a viagem para Poos mas ela
no se interessou, havia combinado ir ao shopping com Aline.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Paulo Reis concordou em deixar a filha passar o final de semana
na casa de Carmem, a irm de Regina e assim foi com a esposa
para o congresso em Poos de Caldas, o que era raro acontecer,
Paulo viajava quase sempre sozinho.

No final da tarde Paula e Aline foram ao shopping; deram uma
bela olhada nas vitrines; Paula gostou de uma cala jeans e
resolveu provar.
_ Que numerao  essa que voc pediu pra vendedora? Que eu
saiba o seu nmero ...
_Aline, priminha querida, esquea o meu nmero antigo... olha
pra mim... ficou apertada?
_ Apertada? Apertada  apelido! Paula voc vai passar mal com
essa cala...
_ Me aguarde! Daqui a poucos dias voc vai me ver novamente
com essa mesma cala.
_ Se liga, Paula! Como que voc vai conseguir? No viaja.
_ Ento t, espere e ver!
_ Voc est delirando, acho que  fome! Vamos comer?
_ Comer? Nem pensar! Hoje eu no coloco mais nada na boca.
_ Pois eu vou, estou morrendo de fome! Resista se puder.
_ Quer apostar?
Aline comeu hambrguer, batata-frita, um copo grande de
refrigerante e depois ainda pediu um sundae.
_ Nossa, como voc consegue? Para onde vai tudo isso? -
perguntou Paula impressionada com o apetite da prima.
_ Como voc consegue ficar a s me olhando comer?
_ Disciplina. Sabe o que  isso? E muita fora de vontade.
_ Pra mim isso tem outro nome: passar fome! Come...
_ Nem pensar! Eu tenho um objetivo e no vou permitir que
coisas suprfluas me impeam de alcan-lo. Gostou do discurso?

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                           Tnia Gonzales



_ E desde quando comer  suprfluo?
_ O que voc acabou de comer com certeza !
_ S que hoje eu no vi voc comendo nada, minha me ficou
chateada porque voc no almoou, ficou me perguntando se a
comida dela no estava boa.
_ A tia Carmem cozinha muito bem. E quer saber? Cansei dessa
conversa sobre comida, voc s pensa em comer! Vamos sair
daqui? Praa de alimentao  o lugar mais indesejado pra mim no
momento. E ser por muito... ... espera um... pouco...
_ O que foi? Voc "t" plida! O que voc est sentindo?
_ Eu ... estou bem... acho que me levantei rpido demais, foi isso.
_ Tem certeza?  isso que d no se alimentar! Voc vai comer
alguma coisa, vai sim.
_ Para, Aline! Estou bem, vamos embora.

Naquela noite, Paula se levantou e foi at o banheiro, no estava
se sentindo bem. Estava com uma forte dor no estmago e com
nsia de vmito; ficou ali por alguns minutos com uma sensao
terrvel de mal estar, por fim conseguir provocar o vmito, sentiu-
se aliviada, olhou para o vaso sanitrio, s havia lquido, o que
mais haveria? S havia comido uma torrada e tomado uma xcara
de ch durante todo o dia! "             A Aline est dormindo
tranquilamente, perfeito! A ltima coisa que preciso agora  de
um sermo!"- pensou Paula para em seguida se jogar na cama.

No dia seguinte, Paula acordou com uma forte dor de cabea, mas
no se queixou; comeu duas torradas e tomou suco de laranja, a
tia Carmem insistiu para que ela se alimentasse melhor, mas foi
em vo. No almoo no foi diferente, Paula colocou uma colher
rasa de arroz em seu prato e um pouco de salada de alface com
cebola e tomate; Carmem insistiu para que ela comesse um bife

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


pelo menos, mas no obteve sucesso. A sobrinha passou o dia
inteiro sem colocar mais nada na boca. Naquele domingo,
Carmem foi  igreja sozinha, pois Aline ficou com Paula que no
estava se sentindo muito bem.
Os pais de Paula s chegariam no dia seguinte, por isso ela dormiu
na casa da prima mais uma noite.
_ Aline? T acordada? - perguntou Paula segunda-feira de manh.
_ Que foi? Deixa eu dormir mais um pouquinho...
_ Aline! Eu preciso pedir um favor.
_ Fala.
_ No conta para os meus pais que eu passei mal ontem, t?
_ E sobre sbado no shopping?
_ Tambm no, n!
_ Eu no sei no...  melhor falar pra eles, quem sabe assim voc
resolve se alimentar melhor!
_ Nem pensar! Por favor... eles vo fazer eu comer e eu no posso
engordar!
_ Que droga Paula! Voc precisa comer, para com esta histria!
Voc no est gorda!
_ Aline, por favor.
_ Tudo bem, eu no falo nada, mas voc acha que a minha me
no vai contar? Com certeza ela vai dizer que ns no fomos ao
culto porque voc no estava bem.
_ Eu vou conversar com ela.
_ Boa sorte!
Paula at que tentou convencer a tia, mas assim que eles chegaram
Carmem conversou com a irm. Regina ficou muito preocupada e
teve uma conversa muito sria com a filha.
_ Minha filha, voc acha que est certo no se alimentar? O que
foi que eu disse? Eu sabia que voc ia acabar se sentindo mal.
_ No foi nada, me!

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                          Tnia Gonzales



_ Com a sade no se brinca! Eu vou pegar no seu p, quero ver
voc no comer!
_ Me,  claro que eu vou comer, s que no  porque vocs
enchem a barriga que eu tambm vou.
_ Vai, vai sim! Se voc acha que se alimentar bem  encher a
barriga, ento voc vai encher a barriga, pode ter certeza que eu
vou pegar pesado.
_ Que saco!
_ Cuidado como fala comigo!
_ Me desculpe, mas caramba voc quer que eu fique gorda?
_ Eu quero v-la com sade,  s isso que eu quero! E voc no
est gorda, no sei por que voc cismou com isso.
_ Cismei? Me, eu me olho no espelho todos os dias e no gosto
do que vejo, eu no...- ao dizer isso Paula comeou a chorar.
_ Filha, minha filhinha... vem aqui, querida, voc  to linda -
Regina a abraou com carinho- Pare de falar bobagens, voc tem
um corpo perfeito.
_ Perfeito? Desde quando? Me eu quero ser uma modelo
profissional e assim como eu estou  impossvel.
_ Voc no pode emagrecer mais.
_ Eu preciso e vou conseguir, pode ter certeza!
Naquele dia, por causa da insistncia de sua me, Paula se
alimentou um pouco melhor, mas quando ficou sozinha em seu
quarto e se olhou no espelho comeou a chorar e dizer:
_ Sua gorda! Vou me livrar de voc, pode ter certeza! Voc no vai
acabar com a minha carreira antes mesmo dela comear. No vai,
no vai mesmo... a Paula gorda est com os dias contados.
Em seguida foi ao banheiro e provocou o vmito.
_ No disse? A Paula gorda est com os dias contados.



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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 4 -Informaes
Leonardo? Que surpresa, entre! Letcia! Letciaaa! Olha s quem
est aqui! - disse Sandra sem se preocupar com a exagerada
demonstrao de alegria.
_ Obrigado Sandra, desculpe a hora.
_ No precisa se desculpar, so s dez horas.
_  que eu preciso falar com a L, mas prometo que no vou
demorar.
_ Voc pode ficar o tempo que quiser... at que enfim filha - falou
Sandra assim que Letcia apareceu.
_ Oi, Lo, voc quer falar comigo? O que ser?
_ Bom, eu vou preparar alguma coisa pra vocs comerem - disse
Sandra deixando-os a ss.
_ Voc foi embora to rpido - comeou Leonardo.
_ A Suzana quis sair quase correndo, acho que voc a assustou!
_ Eu? O que foi que eu fiz?
_ Brincadeira, mas e a?
_ E a digo eu. Quero saber de tudo.
_ Saber o qu?
_Para com isso! Bom, mas tudo bem, eu vou fazer as perguntas:
Qual a idade dela? Ela est namorando? Ela falou alguma coisa
sobre mim? E...
_ Calma! Que interrogatrio  este?
_ Leca, me ajuda vai, fala.
_ Lo, como voc est desesperado! Tudo bem, eu vou dar as
respostas: 19 anos. No namora. No falou nada sobre voc.
_ Nada?
_ S falou que voc foi algumas vezes at a loja e comprou
perfumes, s isso.


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                          Tnia Gonzales



_ Como ela ?
_ A Suzana  inteligente, esforada, boa filha, pelo que eu pude
constatar, mas  tmida quando o assunto  rapazes. Eu at que j
tentei saber alguma coisa, mas ela no diz nada. Outro dia eu
fiquei conversando com ela sobre namoro, rapazes e tal... mas s
eu que fiquei falando sem parar.
_ E a famlia dela?
_ O pai chama-se Davi, ele  motorista particular; a me, Marina,
trabalha em um hospital,  auxiliar, no,  tcnica em
enfermagem; ela tem uma irm que chama-se Sueli, de 27 anos
que trabalha em uma empresa de telemarketing e ...
_ E a Suzana faz faculdade do qu?
_Letras. Quer ser professora! O que mais eu posso contar?
Espera... eles moravam em Belo Horizonte se mudaram para c
h dois anos e moram com a Marisa, voc conhece... a minha
vizinha que ficou viva h quase trs anos, voc lembra... o
marido dela tambm era da igreja, o Lus, ele morreu de enfarto.
_ Eu lembro dele sim. Ento, ela  sobrinha da Marisa!
__ isso a! A Marisa tem uma casa nos fundos e eles moram l,
satisfeito agora?
_ Por enquanto, sim!
_ Como voc est interessado!
Letcia foi interrompida pela me que entrou com uma bandeja
nas mos.
_ Preparei um lanche pra vocs.
_ Sandra, no precisava.
_ Leonardo, Leonardo!  claro que precisava, fique  vontade e
aparea mais vezes, voc anda to sumido!
_ A Sandra est certa! Tudo bem, Leonardo? - perguntou Fernando
ao aparecer na sala.
_ Oi, Fernando! Tudo timo e voc?

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_ Eu estou bem, voc no imagina o que eu estava fazendo em
pleno domingo  noite.
_ No vai me dizer que...
_  isso mesmo, Leonardo!  exatamente o que voc est
pensando. Amanh eu tenho uma audincia complicada! Estava
relendo o processo.
_ Eu, hein? Precisa descansar.
_ Tem razo! Que coisa boa voc aqui em um domingo  noite!
Quer fazer algum pedido especial?
_ Pai! - protestou Letcia.
_ Filha, acalme-se, eu no perguntei nada...
_ No,  claro que no, o Leonardo s veio conversar comigo e me
desculpem, mas vocs esto atrapalhando.
_ Opa! Querida  melhor ns irmos dormir o que voc acha?
_ Concordo, e Leonardo, v se aparece.
_ Pode deixar Sandra e obrigado pelo lanche est uma delcia.
_ Como eles viajam, acham que ns dois ... - comeou Letcia
assim que os pais saram- formamos um casal maravilhoso... se
eles soubessem que voc estava          me perguntando sobre a
Suzana... coitados... no quero nem pensar.
_  verdade. Mas, por que voc nunca me falou sobre a Suzana?
_ Lo, eu comentei alguma coisa sim, eu falei pra voc que eu
tinha uma amiga nova, que era minha vizinha, mas voc nem se
interessou e mudou de assunto, acho que foi mais ou menos isso.
E quer um conselho? Vai devagar com a Suzana, escuta o que eu
estou dizendo, se voc quiser ter alguma chance com ela.
_ Voc vai me ajudar, no vai?
_ Vamos ver... eu tambm preciso da sua ajuda... eu acho que tive
uma ideia... a Suzana vai ter folga na prxima sexta-feira, eu
posso combinar com ela para irmos at o shopping e voc aparece
l com uma certa pessoa.

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                          Tnia Gonzales



_ Gostei da ideia, mas que pessoa  essa?
_ O Daniel- sussurrou Letcia.
_ Precisa falar to baixinho? O Daniel? Leca, Leca... o filho do
Isaque da mecnica?
_ Fala mais baixo...  ele mesmo, por qu?
_ Eu sabia, eu sabia! Leca, voc est apaixonada por ele?
_ Lo, vamos parar por aqui. Depois a gente conversa.
_ Espera... qual o problema?
_ Meus pais no podem nem sonhar que eu estou interessada nele.
_ Por qu?
_ Lo voc ainda pergunta? Para os meus pais voc  o namorado
ideal. Ento o primeiro problema  que o cara que eu estou
interessada no se chama Leonardo. E depois ...
_ E depois?
_ Nada.
_ Letcia, voc est preocupada com a reao de seus pais... no
acredito... voc acha que eles teriam algum preconceito?
_ Lo, eu acho que sim.
_ Que isso! Os seus pais no teriam uma atitude to...
_ Eu tenho medo, eles ficariam muito felizes se voc fosse meu
namorado, com o Daniel eu acho que eles ficariam muito
decepcionados.
_ Para com isso. Seus pais no seriam contra o namoro por causa
da cor da pele dele, isso no!
_ E tem mais um detalhe: O Daniel no terminou a faculdade,
precisou parar depois que a me morreu. O pai dele no conseguia
mais tocar a oficina pois estava muito desanimado, o Daniel
precisou assumir tudo e ficou sem tempo pra estudar, ele estava
cursando administrao. Voc sabe muito bem o quanto meus pais
valorizam os estudos e no quero brigar com eles, ento eu
prefiro esperar, afinal est tudo to recente! Ns estamos

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


conversando h poucos dias.
_ Tudo bem. Ento voc resolve tudo para o nosso programa de
sexta-feira.
_ Com certeza. Mas eu repito: vai devagar com a Suzana!
_ Valeu, Leca! Voc sabe que eu te amo?
_ Sei. Deixa minha me ouvir isso! Ela vai flutuar.
Leonardo voltou para casa e ficou pensando em tudo que Letcia
havia contado sobre Suzana. Letcia tinha razo, ele precisava ir
devagar com aquela garota. No seria nada fcil segurar a
ansiedade at sexta, mas era necessrio resistir a tentao de ir
at o shopping para comprar mais perfumes.

No dia seguinte Letcia conversou com Suzana sobre o passeio no
shopping, ela concordou com uma certa relutncia; tambm
aproveitou para combinar com Daniel, fez uma rpida ligao para
ele que ficou muito feliz com o programa.
Daniel  um rapaz de 21 anos, que participa ativamente dos
trabalhos da igreja,  evanglico desde o seu nascimento, mas
congrega na IGAG h cinco anos, tem trs irms, todas casadas.
Ajuda Isaque, seu pai, na oficina mecnica da famlia. Precisou
pedir para ser mandado embora da empresa que trabalhava para
dar apoio ao pai que no conseguia mais cuidar da oficina desde a
morte da esposa h dois anos. Ivone havia sofrido durante muitos
anos com srios problemas cardacos, at que chegou um dia em
que seu frgil corao no resistiu. Foi um baque para toda a
famlia, mas era necessrio seguir com a vida. Daniel lamentou
muito quando trancou a matrcula da faculdade, mas espera voltar
em breve.

Leonardo passou a semana inteira pensando no encontro que teria
no shopping; estava muito ansioso para rever Suzana, por isso

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                          Tnia Gonzales



naquela manh de sexta-feira, ele acordou muito animado,
havia recebido uma ligao de Letcia confirmando o encontro.
Qual seria a reao de Suzana? Ser que ela ficaria zangada com a
Letcia? Estas eram as perguntas que no saam da mente de
Leonardo. Tinha uma vontade imensa de ouvir a voz dela,
desejava conversar de verdade com ela. Queria saber quais os
sonhos de Suzana, o que ela gostava de fazer, qual a comida
preferida, enfim, Leonardo desejava muito conhec-la e fazer
parte da vida dela.

Leonardo chegou ao shopping uns trinta minutos antes do horrio
marcado por Letcia, alguns minutos depois foi a vez de Daniel
chegar.
_ Ol, Leonardo e a tudo bem com voc? - perguntou Daniel
assim que se aproximou de Leonardo.
_ Tudo beleza, Daniel! E voc?
_ Eu estou timo. Ser que as duas vo demorar?
_ Eu acho que no. E ento... voc e a Letcia esto namorando?
_ Estamos comeando... a Letcia  incrvel, ela  to especial...
bom.. voc sabe melhor do que eu.
_ Eu no vou negar que conheo bem a Letcia, nem daria, n?
Voc tem razo quando diz que ela  especial; a Letcia  como
uma irm mais nova pra mim... mas no precisa ficar com cime.
_ No,  claro que no! Eu entendo, a Letcia me contou que vocs
se conhecem desde crianas e ela tambm me falou que os pais
dela e os seus so dodos para que vocs namorem.
_  isso mesmo, mas no esquenta!  normal eles desejarem isso,
mas ... elas chegaram - disse Leonardo ao ver que Letcia e
Suzana estavam se aproximando.
Quando Suzana viu Leonardo sentiu uma vontade incontrolvel de
sair dali rapidamente, ela logo percebeu o que estava acontecendo

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


pois tambm avistou Daniel, ento, antes que eles pudessem ouv-
la, ela falou com Letcia:
_ No acredito que voc fez isso comigo, Letcia. Eu vou embora.
_ Suzana, olha, espera... no vai no! Me desculpe, mas  que eu
preciso conversar com o Daniel e ...
_ Eu vou embora, voc fica.
_ Mas Su... vai ficar estranho voc chegar sozinha... eu no quero
que voc v. Me d uma hora, s uma, vai!
_ E eu vou fazer o qu?
_ O Lo  um cara legal, converse um pouco com ele, no custa,
vai!
_ Letcia... eu...
_ Por favor! Faz isso por mim!
_ Mas  s uma hora!
_ Valeu, amiga! - dizendo isso Letcia pegou Suzana pelo brao e
foi ao encontro dos rapazes.
Letcia cumprimentou Leonardo e Daniel com um beijo no rosto,
Suzana falou um discreto "oi" para os dois e em seguida Letcia e
Daniel se afastaram. Por um momento Leonardo ficou sem saber
o que dizer, pois Suzana estava com uma expresso que no o
encorajava, mas ele sabia que tinha que fazer alguma coisa para
quebrar o gelo; ele era um rapaz bem extrovertido, mas diante dela
no estava conseguindo pensar direito.
_ ... ns temos uma hora, o que voc gostaria de fazer?
Suzana gostaria de dizer: " Quero fugir de voc". Mas como isso
seria muito embaraoso, ela disse simplesmente:
_ Eu quero ver uns livros- e em seguida comeou a se encaminhar
at a megastore que ela conhecia muito bem, pois estavam no
mesmo shopping onde ela trabalhava.
_ Tudo bem- respondeu Leonardo seguindo-a.
Suzana entrou na loja e comeou a procurar um livro, Leonardo se

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                          Tnia Gonzales



aproximou dela.
_ Olha, Leonardo, voc no precisa ficar aqui comigo, pode fazer
outra coisa que depois eu ligo pra Letcia.
_ Nem pensar, eu no vou me afastar de voc e adorei ouvir o meu
nome na sua boca, foi a primeira vez e eu ...
_ Vamos deixar as coisas bem claras- comeou Suzana em um tom
nada amigvel apesar de manter a voz bem baixa- eu no quero
conversar com voc, no estou interessada em conhec-lo... s
estou aqui porque a Letcia me pediu, s por isso, ento...
_ Calma, eu falei alguma coisa errada?
_ Eu j falei que no quero...
_ Suzana, qual o problema com voc? Eu s gostaria de conhec-
la melhor, ser seu amigo.
_ Eu no quero ser sua amiga... eu no sei o que voc est
pretendendo, mas...
_ Nossa, como voc  direta.
_  melhor assim - dizendo isso Suzana voltou a olhar para os
livros.
Leonardo ficou sem saber o que fazer, era uma situao bem
desconfortvel; permaneceu dentro da loja mas manteve uma certa
distncia de Suzana que continuava muito interessada nos livros.
Aps quase uma hora, ela pagou pelo livro que havia escolhido e
ligou para Letcia informando o local em que estava. Enquanto
esperavam por Daniel e Letcia, os dois permaneceram em
silncio; Suzana aproveitou para comear a leitura do livro,
Leonardo observava o movimento do shopping e s vezes olhava
para Suzana, bem discretamente.
_ Demoramos? - perguntou Letcia ao se aproximar.
_ Vamos embora? - perguntou Suzana apressadamente.
_ Embora? Vamos comer! Estou morrendo de fome, voc no? -
quis saber Letcia.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_ Eu prefiro ir embora.
_ Nem pensar, Suzana! Vamos comer.
Letcia puxou Suzana para lev-la  praa de alimentao.
Resolveram comer pizza. Daniel e Letcia conversavam
animadamente, mas Suzana e Leonardo ficaram em silncio quase
que o tempo todo, Letcia logo percebeu que o clima entre eles
no estava nada bom.
_ Agora sim podemos ir! - anunciou Letcia- Lo, voc d uma
carona pra o Daniel, ele preferiu vir sem carro s para poder voltar
juntinho comigo, ele no  um amor?
_ Beleza! Mas logo, logo, voc vai poder lev-la para casa,
Daniel! - disse Leonardo.
_ Assim eu espero.
A ltima coisa que Suzana queria naquela noite era sentar-se ao
lado de Leonardo no carro, mas ela no ia ser chata ao ponto de
separar um        casal apaixonado. Sentiu-se extremamente
desconfortvel por estar to prxima dele, ficou o caminho todo
olhando para o lado oposto e no disse uma palavra durante todo
o percurso; Leonardo dirigiu calado a maior parte do tempo, s
quebrava o silncio quando Letcia ou Daniel faziam algum
comentrio que o envolvia.
Depois que deixaram Daniel, Letcia tentou descobrir o que estava
acontecendo entre os dois, mas percebeu que no iria obter
sucesso, o clima estava tenso, ento ela resolveu esperar para
perguntar ao amigo.
Ao descer do carro, Suzana disse um quase inaudvel boa noite e
saiu rapidamente. Letcia aproveitou para questionar Leonardo.
_ O que aconteceu entre vocs? No me diga que tentou beij-la?
_ No viaja, Leca! Beij-la? Eu fizesse isso acho que ela me
mataria!
_ Que exagero! Mas o que aconteceu?

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_ Nada! Nem sei dizer... ela quis ver uns livros eu a acompanhei,
ela me falou que eu no precisava ficar ali... e... sei l, depois ela
falou que no queria ser meu amigo.
_ S isso? Lo, voc fez alguma coisa... no  possvel, o que voc
disse pra ela?
_ Olha, a nica coisa que eu disse...bom... no  nada demais...
_Fala.
_Ela disse o meu nome e eu gostei, uma bobagem, sabe? Eu gostei
de ouvir o meu nome na boca dela e mencionei isso.
_ Lo, eu no disse que era pra voc ir devagar?
_ Mais devagar do que isso?
_ A Suzana  ... diferente,  isso! J desanimou?
_ No! Mas eu fiquei to sem graa! Voc acredita?
_ Meu amigo! Eu preciso entrar, mas valeu! No fica triste.
Leonardo se despediu da amiga e durante o caminho para casa
continuou pensando em Suzana; ele havia esperado com tanta
ansiedade por aquele encontro que fora um verdadeiro fiasco. Mas
ele no iria desistir, o desafio estava apenas comeando.

Naquela noite Suzana sonhou que estava em um lugar escuro e
fechado e que de repente aparecia algum que se aproximava dela,
mas ela no conseguia enxergar... s dava para perceber que era
um homem e ele dizia algumas palavras que a princpio ela no
conseguiu entender, mas conforme ele repetia as mesmas palavras,
ele aumentava o volume da voz e ela pde ouvir:
_ Voc  minha! Voc  minha! Voc no pode pertencer a mais
ningum! E sabe disso muito bem.
Suzana queria dizer que ela no pertencia a ele mas as palavras
no saam.
_ Minha linda, vou faz-la feliz novamente! Voc  minha.
Ento ele a abraou e comeou a apert-la cada vez mais forte

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


enquanto dizia:
_ Minha, voc  minha! S minha!
Suzana acordou muito assustada, comeou a chorar bem baixinho
e dizer:
_Ser que isso nunca vai acabar? Ser que eu no vou me livrar
disso? Meu Deus! Meu Deus!




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Captulo 5 -R.E.M.A.
Regina estava muito preocupada com a filha, como era difcil
convenc-la a se alimentar melhor. Paula sempre dizia que no
estava com fome e quando olhava-se no espelho sempre
reclamava da aparncia. Nos ltimos dias sua obsesso pela
magreza havia aumentado, pois estava aguardando ser chamada
para realizar umas fotos.
_ Paula, voc precisa estudar, ocupar a mente com algo produtivo,
filha eu acho que...
_ No acredito! Voc vai comear com essa histria novamente?
Eu j disse mil vezes que no vou para a faculdade, pelo menos
por enquanto. Tenho outras prioridades, me.
_ Qual? Ficar doente por falta de nutrientes em seu corpo?
_ Que drama! Quem vai ficar doente? Sabe qual  o problema de
vocs? Sempre acham que os filhos precisam comer mais.
_ Voc est comendo como um passarinho.
_ Me, entenda uma coisa de uma vez por todas: eu preciso
perder 5 quilos! Preciso muito perder 5 quilos! Este  o meu
objetivo e por favor no me atrapalhe!
_ Voc sempre precisa perder 5 quilos! Se voc emagrecer tudo
isso voc vai ficar doente, filha!
_ Que papo chato, olha... eu no ia para a reunio da REMA, mas
pra no precisar ouvir esses absurdos...
_ Vai ser bom voc se encontrar com os jovens da igreja.
Paula estava se referindo a um trabalho especial que o lder de
jovens da IGAG, Mateus, havia criado. A REMA: rede melhores
amigos, era realizada h dois anos, desde que ele havia assumido a
liderana. Funcionava assim: era realizado um sorteio entre todos
os jovens que iriam participar; cada jovem pegava um papel onde


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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


estaria escrito o nome do grupo que ele iria fazer parte durante os
prximos trs meses; cada grupo era formado por 8 jovens e um
casal de lderes. Uma das regras da rede era que cada grupo
deveria se encontrar uma vez por semana e o encontro precisaria
durar uma hora pelo menos. Outra regra: todos os membros do
grupo deveria ter o nmero de telefone um do outro e tambm
saber o endereo de cada um, para que caso algum participante
faltasse pudesse ser contactado. Se algum jovem percebesse algum
problema com um membro do grupo tambm teria a liberdade de
entrar em contato para conversar e tentar ajudar de alguma
maneira. A REMA existia justamente para promover a unio e a
integrao entre os jovens. Naquele sbado seria o primeiro
encontro do grupo que Paula pertencia, o Alfa, que seria liderado
pelo casal: Jnatas e Jessica. O lder havia marcado uma rpida
reunio na IGAG para depois sarem.
Leonardo e Letcia tambm iriam fazer parte do mesmo grupo, era
a primeira vez que isso acontecia.
Apesar da maioria dos jovens ter muitos compromissos durante a
semana com os estudos e o trabalho, a REMA era um sucesso
entre eles; todos se esforavam para participar dos compromissos
que eram sempre combinados antes para no ocorrer problemas
com a agenda de cada um.
_ Oi, Lo! S vim porque voc faz parte do mesmo grupo que eu!-
disse Paula assim que se aproximou de Leonardo que j estava
esperando o incio da reunio do grupo Alfa.
_ Paulinha, minha linda! Voc est bem?
_ Estou legal! S espero que no inventem algum programa que
envolva uma poro de calorias!
_ Voc e as calorias no se entendem mesmo, n?
_  s elas ficarem bem longe de mim - comentou Paulinha para
em seguida cumprimentar o lder do grupo que havia chegado- Oi,

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Jnatas!
_ Ol! Paz queridos! Esto animados? - perguntou Jnatas.
_ Tudo depende de voc, lder. - disse Paula.
_Que responsabilidade, J! - foram as palavras de Leonardo.
_ Pois ! Quem est faltando ?
_ Acho que s a Letcia e a Ktia  disse Leonardo.
_Vamos esperar mais um pouquinho... nem vai ser preciso...
-constatou Jnatas ao ver Letcia que veio com Suzana.
_ Que vergonha! Vocs s estavam esperando por ns duas? -
perguntou Letcia.
_ Tudo bem, vocs esto dentro do horrio - disse Jessica, a
esposa de Jnatas.
Letcia cumprimentou todos os participantes do grupo e
aproveitou para apresentar Suzana. Como Letcia sempre
cumprimentava os amigos com um beijo ela precisou fazer o
mesmo, ficou sem jeito quando se aproximou de Leonardo, mas
seria muito estranho se ela o evitasse, assim Suzana tambm deu
um beijo no rosto dele, era a primeira vez que eles ficavam to
prximos um do outro, o corao dos dois disparou e Suzana
corou.
Jnatas iniciou a reunio com uma orao, em seguida agradeceu
a participao de todos e aproveitou para fazer uma explicao
que julgou necessria.
_ Eu preciso explicar para vocs o motivo da ausncia da Ktia
em nosso grupo. Ela agora pertence ao grupo gape e por qu? 
o seguinte: a Letcia me procurou para saber se seria possvel que
a amiga dela, Suzana, fizesse parte do mesmo grupo que ela, pois
 a primeira vez que Suzana vai participar da REMA. Como ela
ainda no conhece o pessoal daqui seria melhor as duas estarem
juntas. Bom, eu concordei, mas vocs sabem que o grupo 
formado por 10 pessoas e aqui vale uma explicao: Por que dez?

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


A razo  muito simples:  a quantidade certa para dois carros,
isso facilita nossas sadas.  s isso, no tem nada mstico.
Continuando, como ns j estvamos com os grupos todos
formados, eu conversei com a Ktia e ela concordou com uma
mudana de grupo. Como o gape estava apenas com 9
integrantes... Eu fao questo de esclarecer para no surgir
comentrios      do tipo: Ser que a Ktia no gostou dos
componentes? Existe algum problema entre ela e algum outro
membro do grupo? A resposta  no! O nosso objetivo com a
REMA  justamente a unio e a integrao de cada jovem. Suzana,
voc  muito bem-vinda  nossa rede; esta linda mulher aqui-
disse Jnatas apontando para Jessica-  a minha esposa, o nome
dela  Jessica e ela tambm  lder do grupo Alfa. Hoje ns vamos
ao shopping dar um passeio. Vamos fazer um sorteio para definir
as duplas que estaro caminhando pelo shopping para se
conhecerem melhor. Durante o perodo de uma hora vocs estaro
livres para conversarem com o seu parceiro. E depois... comida! O
local de reencontro das cinco duplas ser a praa de alimentao.
Vamos ao sorteio do nosso " Parceiros do dilogo".
Suzana estava torcendo para no tirar o nome de Leonardo e ele
queria muito ter uma hora para conversar com ela, mas como ele
foi o primeiro a pegar o papel, logo viu que faria dupla com
Paulinha; Letcia iria conversar com Jnatas; Suzana com Jessica,
o que a deixou aliviada; Willian faria dupla com Vitria e Renan
com Camila.
_ Hoje vamos usar o meu carro e do Leonardo, na prxima
semana ns mudamos. Ento aproveitem para j irem com os seus
pares,  claro que vamos precisar separar uma dupla, mas  s at
chegarmos ao shopping - explicou Jnatas.
Como Suzana fazia par com Jessica e Letcia com Jnatas, as duas
foram no carro do lder do grupo.

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Leonardo lamentou por no ter a oportunidade de se aproximar de
Suzana.
Quando chegaram ao shopping, cada dupla seguiu o seu caminho.
_ Fiquei feliz por fazer dupla com voc, Lo! - disse Paulinha.
_ Legal! Eu quero saber como voc est, pelo papo l na igreja
voc continua com a ideia fixa em dietas, estou certo?
_ Lo, meu querido! Eu no vou mudar de ideia! No adianta voc
comear com aquele velho discurso: Voc precisa se alimentar,
seno vai ficar doente... bl, bl, bl, bl... isso eu ouo todos os
dias. A minha me no se cansa...
_Ela est certa. Eu acho que voc deveria ouv-la, afinal ela fala
isso para o seu bem.
_ Lo, como voc est chato! Que droga! Eu tinha ficado feliz por
fazer dupla com voc, mas estou me arrependendo, eu nem ia
participar da reunio de hoje, s resolvi porque a minha me
estava com esta mesma conversa.
_ Voc sabe muito bem que no pode faltar.
_ Lo! D licena... se eu quiser faltar quem  que vai me
impedir?
_ Paulinha! Eu estou falando srio, eu acho que voc emagreceu
muito desde o seu aniversrio!
_ Voc est precisando usar culos! Olhe pra mim, olhou?
_ Olhei e sabe o que eu vi? Uma garota linda que no precisa de
dietas mirabolantes.
_ Agora eu comprovei que voc est mesmo com problemas na
viso. Lo, sua amiga aqui est gorda... gorda! Mas eu vou
resolver isso.
_ Paulinha, gorda? Acho que quem est com problema de viso 
voc! Vem comigo.
_ Aonde voc vai me levar?
Leonardo puxou Paulinha pelo brao e a levou at uma loja para

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


que ela pudesse se olhar no espelho.
_Para com isso, Lo! No vou me olhar no espelho!
_ Olha isso, veja que garota linda, veja!
_ Eu vou embora! Depois voc vai ter que se explicar com o
Jnatas e ele no vai gostar nada! Voc sabe muito bem que o
objetivo da REMA  a unio... e eu estou com vontade de brigar
com voc! Caramba!
_ Linda, para com isso! Tudo bem, se voc no quer... mas eu
estou falando srio, voc no precisa disso!
_Agora vamos falar sobre o advogado Leonardo, chega de falar
sobre mim... seno eu vou embora!
_Tudo bem, sua teimosa!
Leonardo e Paula passaram os minutos seguintes conversando
sobre o trabalho dele; depois encontraram-se com os outros na
praa de alimentao, Paula bem que tentou escapar, mas o amigo
a puxou pelo brao. Comeram esfiha. Paula s tomou um suco de
laranja disse estar sem fome, o que provocou um olhar de
reprovao de Leonardo.
Como Renan e Vitria deixaram os carros no estacionamento da
igreja, Jnatas combinou com Leonardo para que ele levasse
Letcia, Suzana, Paula e o Willian, assim s o carro de Jnatas
precisaria ir at a igreja.
Paula sentou-se ao lado de Leonardo e ficou conversando
animadamente com ele. Suzana percebeu o quanto os dois eram
ntimos e isso a desagradou, mas ela no sabia dizer o porqu.
Aps deixar Paulinha e Willian em suas respectivas casas,
Leonardo parou o carro entre a casa de Letcia e Suzana, desceu e
enquanto Suzana abria o porto ele se aproximou dela e disse:
_ Eu fiquei muito feliz ao v-la hoje, pena que o sentimento no 
recproco, mas mesmo assim valeu a pena. Especialmente ontem
eu fiquei com uma vontade imensa de falar com voc. Olhar para

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o seu rostinho lindo  como ganhar um presente muito especial.
Eu s ficaria mais feliz se voc dissesse o meu nome.
Suzana no sabia o que dizer, ela ficou surpresa com as palavras
dele, foram totalmente inesperadas, por isso o som que Leonardo
ouviu no foi o de seu nome sendo pronunciado, mas um tmido:
_ Boa noite!
_ Tchau, Su! Eu tambm estou aqui, lembra? - disse Letcia.
_ Desculpa Letcia... tchau, depois a gente conversa.
Suzana entrou rapidamente e Leonardo aproveitou para conversar
com a amiga.
_ Por que ser que para ela  to difcil pronunciar o meu nome?
_ Voc no tem jeito mesmo! Lo, pensa que eu no ouvi o que
voc disse pra ela?
_ Eu disse alguma coisa errada? Eu s falei a verdade. Disse
exatamente o que estava passando pela minha mente naquele
instante. Fui to sincero! No  disso que vocs gostam?
_ Meu amigo, eu fui to clara com voc! Eu falei pra voc ir com
calma, mas voc no consegue resistir. " Especialmente ontem";
ontem foi dia dos namorados, voc no tem jeito! Mas eu at
estou surpresa por voc no ter comprado um presente pra ela.
_ Voc no me disse para ir devagar? Hoje eu s fui...
_ Extremamente romntico!
_ Voc achou mesmo?
_ Lo, eu achei uma graa, mas a Suzana  muito tmida com
rapazes.
_ E eu torci tanto para formar dupla com ela! Pelo menos ela foi
conversar com a Jessica, menos mal.
_ Mas pode se preparar, voc sabe muito bem que todos vo ter a
oportunidade de conversar com cada membro do grupo. Vai
chegar um dia em que a Suzana vai ficar uma hora conversando
com o Willian, por exemplo.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_ Voc est certa, mas o meu dia tambm vai chegar.
Os dois amigos ainda estavam conversando quando o pai de
Suzana, Davi, chegou do trabalho, ele os cumprimentou e Letcia
aproveitou para apresentar Leonardo.
_  bom ir fazendo amizade com o sogrinho! - brincou Letcia
assim que o pai de Suzana entrou.
_ Quem sabe eu precise primeiro conquistar o pai ... eu acho que
deve ser bem mais fcil!

Davi encontrou as duas filhas assistindo TV, a esposa, Marina,
estava de planto no hospital naquela noite de sbado. Aps
cumprimentar as filhas, fez um comentrio sobre o jovem que
havia acabado de conhecer.
_ Que rapaz educado! E ele  bonito, n? No sei no, aqueles
dois devem ter mais alguma coisa... no deve ser s amizade...
formam um casal muito bonito.
_ Pai, os dois so s amigos! - disse Suzana, que no entendeu
porque a incomodava tanto esse tipo de comentrio sobre
Leonardo.
Naquela noite, Suzana teve um sonho bem diferente dos que
estava acostumada.
_ Voc no vai me fazer feliz?  to fcil!  s voc dizer meu
nome.. diz...por favor - eram a palavras de Leonardo.
_ Boa noite, Leonardo!
Leonardo agradeceu com um largo sorriso que fez o corao de
Suzana disparar. Neste momento ela acordou e disse sussurrando:
_ Boa noite, Leonardo!
Naquela noite, Leonardo tambm sonhou, o que era raro
acontecer. Sonhou que havia tirado o nome de Suzana para
conversarem durante uma hora.
_ Eu estava torcendo para que voc fosse a minha parceira de

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dilogo hoje- comeou Leonardo- Conversar com voc durante
uma hora ser maravilhoso.
_ Pois eu estava torcendo para no tir-lo! - revelou Suzana com
rispidez.
_ Por qu? O que foi que eu fiz?
_ O motivo  muito simples: eu no suporto voc! Eu gostaria
muito que voc no me dirigisse mais a palavra.
_ Calma! O objetivo da REMA  a unio entre os jovens...ns no
podemos ser amigos?
_ Eu no quero ser sua amiga e no quero mais falar com voc!
Ser que eu fui clara? J disse que no te suporto! E quer saber?
Eu vou embora, no preciso e no quero ficar aqui com voc.
O sonho de Leonardo terminou com Suzana correndo.

" Que sonho!  inacreditvel! Pelo menos em meu sonho ela
poderia ser mais gentil, mais meiga comigo... mas nem em sonho
ela me quer! "- pensou ele.




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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 6 -Problemas
Paulo Reis teria uma semana muito agitada. Os compromissos
para pregar j se iniciava em plena segunda-feira, o que provocou
uma sria discusso com a esposa.
_ Que maravilha, Paulo! Ento, hoje  tarde voc no vai ficar
cuidando da loja?  claro, as pessoas esto esperando pelo grande
pregador! - disse Regina com ironia.
_ Regina, cuidado! Isso  jeito de falar?
_ Me desculpe, querido!  que eu j fiquei a manh inteira
ocupada organizando algumas coisas na loja e pensei que o meu
querido marido iria ficar l  tarde.  que eu tenho pouco servio
aqui em casa, sabe? Quase nada, pensei que poderia descansar -
ela continuou com a ironia.
_ Regina, eu no estou gostando nada do seu tom, fala direito
comigo! Eu passei a manh inteira em orao e leitura da Palavra,
me preparando para o culto e voc com os seus comentrios
maldosos est atrapalhando tudo.
_ Me desculpe, grande pregador! Me desculpe por precisar de
voc s vezes e no poder contar, me desculpe por ser sua esposa,
me desculpe por viver- ao dizer isso Regina desabou, comeou a
chorar.
Paulo sabia muito bem usar as palavras certas em um sermo,
mas no conseguia se expressar quando o assunto envolvia
sentimentos. Saiu sem dizer nada para a esposa, que ainda ficou
por alguns minutos ali na sala de sua casa, em prantos. Voltou
aps uma hora e encontrou a esposa deitada no sof da sala.
_ Ainda est a, Regina? Almoou pelo menos? Eu j comi na rua-
informou Paulo.
_ Que considerao a sua, como voc  sensvel, Paulo! Olha, se


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tem uma coisa que eu admiro em voc  a sua sensibilidade!
_ Regina, j vai comear?
_  verdade querido! Voc  um esposo e pai sempre to
presente! Faz questo de fazer programas com a famlia e...
_ Para com isso, Regina! Voc  to injusta! Eu levei voc para
Poos de Caldas no faz muito tempo e  assim que voc me
agradece?
_ Demorou para jogar na minha cara, como demorou! Paulo, eu
nem sei como voc me convidou para irmos juntos, fiquei muito
surpresa.
_ Regina, eu estou ficando nervoso... estava to tranquilo hoje
pela manh, sentindo uma paz to gostosa e agora...
_ Como  duro ouvir a verdade, n, Paulo? Principalmente voc
que  um homem to respeitado, que sabe usar as palavras certas
para comover a multido, mas no sabe dizer uma palavra de
carinho que alcance o meu corao e o de nossa filha.
_ Pare com este drama, Regina.
_  difcil ouvir... mas eu preciso falar, cansei de ficar guardando
tudo. Cansei de ser a esposa perfeita, que entende a importncia
do ministrio do marido, sabe por qu? Porque o meu marido no
sabe a importncia de sua prpria famlia. Ele diz para os outros
valorizarem as suas famlias enquanto ele no valoriza a dele!
Voc acha mesmo que Deus est satisfeito com voc?
_ Voc est doente, Regina.  uma doena espiritual. Voc precisa
ter comunho com Deus.
_ Para, pode parar! Agora voc vai pregar pra mim? Viva o que
voc prega, entendeu? Se voc praticar o que diz em seus
sermes, com certeza nossa famlia ser feliz.
Paulo foi para o quarto, pois no sabia mais o que dizer .

Paulinha ouviu toda a conversa dos pais sem que eles percebessem

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


a sua presena, depois saiu e ficou andando sem destino pelas
ruas, at que decidiu ligar para Leonardo, que estava trabalhando;
combinou busc-la para que pudessem conversar, pois percebeu
que ela no estava bem.
_ Oi, Paulinha! O que aconteceu?- perguntou Leonardo assim que
ela entrou em seu carro.
_ Me desculpe, sei que voc estava trabalhando, mas eu precisava
desabafar.
_ No precisa se desculpar. Vamos para algum lugar, que tal tomar
um cafezinho?
_ Se for s um cafezinho, tudo bem!
Os dois pararam em uma padaria. Leonardo resolveu comer um
lanche, Paulinha s aceitou tomar um caf.
_ Sem comentrios  disse Leonardo ao ver que amiga no ia
comer nada- ou melhor s um- ao dizer isso ele segurou o brao
dela- que bracinho  este? At parece o brao de uma menina com
5 anos de idade!
_ Me poupe, Lo! S hoje, t?
_ Tudo bem, mas me conta, o que aconteceu?
_ So os meus pais. Hoje eles discutiram feio!
_ Se voc quiser contar os detalhes, tudo bem, mas se preferir
ocult-los no tem problema.
_ Leonardo... eu tenho medo que meus pais se separem.
_ Mas eles falaram alguma coisa nesse sentido?
_ No, mas minha me est to infeliz! Voc sabe que meu pai
viaja muito, que recebe muitos convites para pregar...
_ Sei...
_ E quando est em casa ele fica estudando... ajuda na loja, mas
sempre est com os livros nas mos.  to difcil conseguir a
ateno dele! Vive assistindo as prprias pregaes e tambm as
de outros pregadores renomados. Para ele no existe nada mais

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importante do que o ministrio. Outro dia eu comentei com ele
que o aniversrio da mame estava chegando... sabe o que ele me
disse? Qual  o dia mesmo? E quando eu falei qual era, ele
simplesmente me informou que este era o mesmo dia da abertura
de um congresso em Campinas. D pra acreditar? E pior, no  ele
quem vai ser o pregador neste dia, mas ele vai prestigiar um amigo
dele. Quer dizer que ele prefere prestigiar um amigo do que a
esposa?
_  complicado! Paulinha, eu acho que seu pai sabe muito bem
preparar um sermo, eu gosto de ouv-lo e admiro quem se dedica
ao ministrio da palavra, mas quando isso atrapalha a
comunicao dos membros da famlia, a  necessrio parar com
tudo e refletir, porque com certeza Deus quer o melhor para a
famlia. Eu sei que sou novo ainda, mas j aprendi a importncia
de haver dilogo entre as pessoas. Muitos querem realizar grandes
coisas nas igrejas, nos congressos, nas empresas e se esquecem
que a maior realizao  saber conviver com os seus. O tempo
passa to depressa... depois no adianta ficar chorando diante de
um caixo. Desculpe falar desse jeito... mas precisamos valorizar
mais as pessoas que amamos.
_ Leonardo, voc tem toda a razo, mas meu pai no aceita
conselhos, ele adora dar conselhos, mas na hora de ouv-los! Ele
no admite o erro. No sabe ouvir. Pensa que s porque estudou
muito,  o dono da verdade. Ele  bom na teoria, mas na prtica 
pssimo. Outro dia ele deu uma palestra sobre:" A comunicao
no lar", d pra acreditar?
_ Paulinha, voc precisa dar muito carinho para sua me e parar de
se preocupar tanto com a aparncia; outro dia ela comentou com a
minha me que voc no se alimentava direito e que ela tinha
muito medo de voc ficar anmica.
_ Leonardo, o assunto hoje aqui  o grande pregador Paulo Reis e

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     Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


no a filha dele. Que droga! Voc sempre volta neste assunto
chato!
_ Teimosa. Come alguma coisa, por favor! Por mim.
_ S se voc me dar um beijo bem gostoso! - provocou Paula.
_Paula, sem brincadeira!
_ Quem disse que eu estou brincando? Eu deixo voc me levar pra
jantar se voc me beijar.
_ Isso  chantagem.
_Isso  carncia... que custa? Voc est sozinho, que eu sei... e eu
tambm... estou com saudades! No seja mau.
_ Paula, o assunto mudou de uma maneira...
_ Voc quer que eu me alimente e eu quero um beijo, voc no
acha justo? J imaginou a alegria da minha me ao saber que eu
jantei com voc? Alegria em dose dupla: a filha dela resolveu
comer de verdade e em tima companhia.
_ Voc  to esperta!
_ E a? O que voc me diz? Ou melhor, no precisa dizer nada... 
s... voc sabe.
_ Voc est falando srio? Paula,  melhor no.
_ Se eu desmaiar a culpa  toda sua.
_ No faz isso.
_ Eu estou ficando tonta... no almocei hoje.
_Paula, para com isso.
_Que tontura... as coisas esto rodando... - ao dizer isso, Paula fez
que ia cair e Leonardo foi ampar-la, aproveitando que ele estava
prximo ela o beijou.
_ Que bom... eu tinha esquecido o quanto era gostoso.
_ Paula, isso no se faz ... voc se aproveitou da situao.
_ Voc no quis, foi mesquinho...
_Mesquinho?
_ isso mesmo! E j que eu te beijei ns no vamos jantar.

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_ Vamos sim, eu vou te levar em um restaurante bem legal, tima
comida...
_ Nem pensar, eu s vou com uma condio e voc sabe muito
bem qual.
_ Ento vou lev-la para casa.
_Pra sua? Voc prefere que o beijo seja l?
_Pare de gracinha! Para sua casa... e voc vai jantar a deliciosa
comida da sua me, porque voc  uma tima filha e no vai
querer que a sua me fique mais triste do que ela j est.
_Depois eu que sou a chantagista!
Leonardo levou-a para casa e s saiu de l depois que Paula se
alimentou. Regina ficou duplamente satisfeita.

Eram quase 23h30 quando Suzana chegou em casa naquela noite
de segunda-feira; Sueli, sua irm, estava assistindo TV; ela tomou
um banho, preparou um caf com leite, pegou algumas bolachas e
sentou-se ao lado da irm.
_ Suzana, voc no imagina quem eu vi hoje na padaria perto do
meu servio?
_ No imagino mesmo! Quem?
_ Eu estava l, esperando meu lanche ficar pronto, quando de
repente eu vejo um rapaz alto, bem vestido com uma camisa social
azul e blazer preto...
_ Sueli? No estou entendendo...
_Calma, deixa eu terminar a descrio do gato...
_Sueli, quem era? Nem sei por que eu estou me preocupando.
_Suzana, deixa eu fazer um suspense... o bonito estava muito
bem acompanhado de uma loira linda que parecia uma top
model...
_ Sueli!
_ Tudo bem... eu vou contar... os dois estavam conversando,

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


quando de repente ele se aproximou dela e os dois deram o maior
beijo, l mesmo na padaria!
_ E eu com isso?
_ Eu ainda no contei quem era o bonito... voc conhece... ele faz
parte do seu grupo.
Sueli tambm fazia parte de um grupo, o dela era o mega, que
tambm tinha Daniel como um dos componentes. Suzana agora
estava ansiosa e temerosa aguardando o nome do rapaz, mas a
irm insistia em continuar com o suspense.
_ Quem era?
_ Esqueci de um detalhe: a loira linda tambm faz parte do seu
grupo! Que grupo animado, hein?
_ Sueli! Para com isso!
_ T legal eu vou falar... o casal apaixonado era nada mais nada
menos do que: Leonardo e Paula.
Suzana ficou sem palavras. Ela no conseguia entender o que
estava sentindo.
_ Tem certeza?
_ Claro! Eles devem ter reatado o namoro, pelo que eu fiquei
sabendo eles j namoraram, n?
_  isso mesmo, agora chega de falar da vida dos outros... vou
dormir.
Suzana queria sair de perto da irm antes que ela percebesse o
quanto aquela notcia havia mexido com ela. Demorou muito para
ela conseguir dormir. As palavras de Sueli no lhe saam da
cabea e as de Leonardo tambm:" Rostinho lindo, n? Ele gosta
mesmo de um rostinho lindo! Ele  daqueles que adoram dizer
palavras bonitas para que depois as meninas bobas fiquem
lembrando e ... chega...        por que eu estou dando tanta
importncia pra isso?"
Naquela noite no foi s Suzana que demorou a conciliar o sono,

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Regina tambm ficou rolando na cama, s pensando na discusso
que teve com o marido. Paulo Reis chegou pouco minutos aps a
meia-noite e resolveu dormir no sof.
Paula tambm teve uma noite bem agitada; sonhou que havia
recebido uma proposta de trabalho, mas quando a sesso de fotos
ia comear, as pessoas comeavam a rir e dizer se as fotos eram
para alguma grife de roupa para gordinhas. Ela acordou muito
assustada. Levantou-se e foi direto para o espelho: " Aquelas
pessoas esto certas, voc  uma gorda! Por que voc jantou hoje
como uma gorda gulosa, hein? Mas amanh eu vou cuidar de
voc."

Naquela noite, Leonardo fez uma orao especial por Paulinha, ele
ficou muito preocupado com a amiga. Ele percebeu que todas as
vezes que a via ela estava mais magra e o pior  que sempre
Paulinha dizia o contrrio. Ele achava muito estranho a atitude da
amiga, ser que ela estava com uma daquelas doenas que afetam
as garotas que se preocupam demais com a aparncia? Ele se
levantou e foi fazer uma rpida pesquisa pela internet. Digitou:
Bulimia e anorexia. Entrou em alguns sites que falavam sobre o
assunto e chegou a concluso que a amiga apresentava sintomas
de anorexia.




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Captulo 7 -Um presente

Suzana no conseguia entender o motivo de ter ficado to
chateada com a histria contada por sua irm. No havia razo
para ela se sentir assim, afinal entre ela e Leonardo no existia
nada, nem sequer uma amizade. Foi para a faculdade naquela
tera-feira e passou a manh inteira imaginando a cena descrita
pela irm.  tarde, durante o trabalho foi a mesma coisa. Ela
reconhecia que Paula era muito bonita, Sueli tinha razo em dizer
que ela parecia uma top model. Leonardo deveria ser louco por
ela. Suzana comeou a lembrar de como os dois conversavam com
toda a animao no dia da REMA. O pior de tudo, era pensar que
quinta-feira eles teriam um novo encontro do grupo, pois Jnatas
resolveu marcar este dia para aproveitar a folga dela. Suzana
achava interessante o propsito da REMA, mas s de imaginar
que um dia teria que formar dupla com Leonardo, j se sentia
totalmente desconfortvel.
No mesmo dia, no incio da noite, Leonardo foi at a casa de
Letcia levar um presente.
_ Um presente para Suzana? Presente de dia dos namorados
atrasado? Voc est querendo conquist-la? - perguntou Letcia.
_ No  uma estratgia de conquista,  que eu percebi que ela se
interessou muito por estes trs livros, por isso resolvi compr-los.
_Como voc  observador! Bom,  de se esperar, n? Um
advogado precisa estar sempre atento aos detalhes.
_ Voc entrega?
_ Por que voc no entrega pessoalmente?
_ Do jeito que ela me trata  bem capaz de jogar os livros em cima
de mim!
_ A Su no faria isso!

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_Tenho minhas dvidas.

No dia seguinte, antes de ir para a faculdade, Letcia foi at a casa
da amiga.
_ Desculpe o horrio, eu sei que voc est na correria para sair e
eu tambm, mas eu precisava lhe entregar isso.
_ O que  isso? - perguntou Suzana ao receber a caixa da amiga .
_ Um presente.
_ Pra mim? Voc...
_No, eu s estou entregando. Foi o Leonardo que mandou.
_Leonardo? Eu no posso aceitar.
_Por qu?
_O que ele est pensando? Ele acha que  s mandar um
presentinho e ...
_Calma Su! Ele s quis ser gentil, abra!
_Abrir pra qu? No vou aceitar, diz para o seu amigo que eu no
sou dessas que se conquistam com presentes!
_ Suzana, espera a, o Lo no teve a inteno...
_ Voc que pensa! Eu sei que voc gosta muito dele, mas ...
_ Su, abra o presente... no custa... estou curiosa.
_ T bom, mas eu s vou abrir porque voc est pedindo.
Suzana abriu a bonita caixa florida, logo percebeu que Leonardo
havia comprado exatamente os livros que ela tinha se interessado
naquela dia em que eles se encontraram no shopping.
_ Como ele  espertinho! Ele ficou observando o tempo todo.
_Suzana, reconhea que ele merece um ponto por ter escolhido
direitinho!
_ Ele  muito esperto,  isso que ele ! Se ele pensa que pode me
comprar... ele gastou quase duzentos reais! Eu ia comprar estes
livros com calma, um de cada vez.
_ Ento... fique com eles! Voc vai precisar.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_ No posso! Por favor, Letcia, devolva.
_ Suzana, voc est sendo injusta e ingrata.
_ Injusta e ingrata? Eu no sou boba. Letcia, eu no sou uma
garota experiente, mas....
_Suzana, eu conheo o Lo h muito tempo, eu sei que ele no 
do tipo que...
_ Letcia, no adianta, eu sei muito bem que voc adora o
Leonardo, eu at entendo a sua preocupao em defend-lo, mas
eu no tenho nada com ele e nem quero.
_ Nem amizade?
_  isso mesmo, nem amizade. Eu j percebi qual  a inteno
dele, ento, por favor, devolva.
Letcia percebeu que no havia mais argumentos diante da amiga
que estava decidida a no aceitar o presente, por isso, naquela
noite, ela ligou para o amigo para que ele fosse buscar o presente
rejeitado.
_Ela rejeitou o meu presente? - perguntou Leonardo,
inconformado.
_Sinto muito, amigo, mas no teve jeito... e eu insisti... ela acha
que voc est querendo comprar a confiana dela.
_Ela pensa isso?
_ Lo, ela no te conhece.
_Ela no me d oportunidade, como  que ela vai me conhecer?
_ Eu no sei por que, mas eu j percebi que ela est... magoada... 
isso, at parece que voc fez alguma coisa muito errada, sei l.
_ O que foi que eu fiz? Sinceramente, no sei.
_ Lo, Lo... amanh voc pode confront-la, vamos ter mais um
encontro do grupo.
_ Confront-la? Est brincando, n? Deixa pra l, se ela quer que
eu mantenha distncia, eu vou fazer a vontade dela.
_ S faltava vocs dois formarem uma dupla amanh.

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                           Tnia Gonzales



_ Espero que no, no outro dia eu estava torcendo pra isso, mas
agora ... eu no vou impor a minha presena, se ela no me
suporta, o que eu posso fazer?
Letcia percebeu o quanto aquela situao estava machucando seu
amigo. Ele estava interessado em se aproximar de Suzana e ela
decidida a ficar bem longe dele.

A quinta-feira chegou e com ela o novo encontro da REMA.
Foram at um shopping em So Bernardo do Campo. Leonardo
formou dupla com o lder do grupo, Jnatas; Letcia com Jessica;
as outras duplas eram formadas por: Suzana e Willian; Renan e
Vitria e a ltima dupla: Paula e Camila.
Pensar que Suzana ficaria uma hora conversando com Willian,
deixou Leonardo muito chateado, mas ele sabia muito bem que
todos os participantes do grupo teriam a mesma oportunidade. Ele
gostava muito de Jnatas porque ele sempre tinha algo
interessante para dizer, mas naquele dia ele no conseguia se
concentrar no que o amigo estava dizendo, por vrias vezes
Jnatas precisou repetir o que havia dito.
_ Me desculpe, J, hoje eu no estou em meu melhor dia.
_ Voc est com algum problema? Quer se abrir comigo?
_ No  nada... no se preocupe.
_ Leonardo, o nosso objetivo aqui  justamente de um ajudar ao
outro, voc sabe! Mas se voc no se sente  vontade para contar o
que est te afligindo, eu no vou insistir, mas pode ter certeza que
estarei orando por voc.
_ Valeu amigo,  complicado...
_ Ser que o problema envolve alguma garota?- perguntou
Jnatas.
_  isso... uma garota muito difcil.
_ Leonardo, s vezes ns oramos por tudo, menos por aquilo que

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


mais est nos preocupando, pode at parecer contradio, mas 
verdade. Principalmente quando o assunto  o corao. Talvez
voc pense que no deve ocupar Deus com isso, mas Ele quer que
voc confie Nele nesses assuntos tambm. Se isso o est
preocupando, ao ponto de deix-lo completamente desligado das
outras coisas, ento, amigo, est na hora de conversar com o Pai.
No pense que pode resolver sozinho. Pra que se afligir tanto?
Deus conhece o corao da garota que est tirando o seu sono,
ento, com certeza no existe algum mais qualificado para voc
se abrir. Pea orientao a Deus.
_ Obrigado, J!  muito bom ter um amigo como voc!
Leonardo e Jnatas foram os ltimos a chegarem ao local
combinado pelo grupo. Leonardo logo percebeu que Suzana
estava toda animada conversando com Willian; ele concluiu que o
problema estava mesmo com ele, pois ela no tinha dificuldade
em fazer amizades.
_ E a, Paulinha, como esto seus pais? - perguntou Leonardo ao
ficar a ss com ela no carro, aps deixar Camila e Willian em suas
respectivas casas.
_ Voc acredita que eles no esto conversando, desde segunda?
_ Srio? Que coisa chata. E como voc est se sentindo?
_Pssima. Eles ficam me usando para poder atacar um ao outro. O
mais absurdo  que meu pai continua saindo, pregando por a,
como se nada tivesse acontecido. E o pior  que sbado ele vai dar
uma palestra sobre famlia, l em Indaiatuba. Pode?
_ E se algum tentar conversar com o seu pai, voc acha que ele
vai parar para ouvir?
_  claro que no. Eu no posso contar pra mais ningum... por
favor, Lo, isso no pode se espalhar... confio em voc!
_Tudo bem, fique tranquila. Sendo assim, ns s podemos orar
por eles. E voc est se alimentando melhor?

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_ Este assunto no vai rolar! Esquece isso.
Leonardo deixou Paulinha em casa e quando chegou na dele, fez
uma ligao para Letcia.
_ Oi, amigo! Eu sabia que voc no ia resistir...o que voc quer
saber?
_ Voc viu como que a Suzana se deu bem com o Willian?
_ Est com cime! No fica assim. O Willian trabalha no mesmo
ramo que a irm da Suzana. Eles trabalham em telemarketing,
ento ele contou algumas experincias dele. Ele comeou a
trabalhar h poucos meses,  o primeiro emprego. E tem mais: a
me dele  professora e voc sabe que a Suzana est cursando
Letras e o Willian  muito divertido.
_ S comigo que ela no tem nada em comum, muito pelo
contrrio.
_No fica assim.
_J me conformei... o caminho at o corao dela  muito
ngreme. Esta garota  inacessvel, pelo menos para mim.
_ Ah... no fala assim... mas eu gostei do: "o caminho at o
corao dela  muito ngreme", que potico! Uau!
_ Est se divertindo comigo, ?
_ No mesmo... voc sabe o quanto eu gosto de voc e falando
nisso, a minha me tambm e exatamente por este motivo,  que
no prximo domingo voc e a sua famlia esto convidados para
almoar aqui em casa, sua me j sabe.
_  mesmo? Tudo bem. Eu acho que vou aproveitar a
oportunidade e pedir permisso para te namorar... - brincou
Leonardo.
_Quem disse que eu quero?
_ At voc me despreza! Mas e o Daniel? Por que voc no
aproveita e o convida tambm? Voc tem todo o meu apoio.
_ No viaja, Lo! No vou arriscar, pelo menos por enquanto.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Sbado pela manh, Letcia foi at a casa de Suzana.
_ Oi, Sueli , tudo bem? - Letcia cumprimentou a irm de Suzana
que estava assistindo TV.
_ Ol, Letcia! Senta a, quais as novidades?
_ Nenhuma, e o seu grupo da REMA est bem entrosado? Voc
est gostando das atividades?
_ Eu estou e voc j est sabendo que na prxima semana vai
haver um torneio de boliche entre os nossos grupos?
_  mesmo... a Jessica comentou.
_ Voc perguntou se meu grupo est bem entrosado, n? Est sim,
mas nada que se compare ao seu.
_Por qu?
_ Sueli! Vai comear com a fofoca? - perguntou Suzana ao
perceber o que a irm quis dizer com o comentrio.
_ Suzana, d um tempo! Eu s quero fazer uma pergunta para
Letcia, tenho certeza que ela a melhor pessoa...
 _O que voc quer perguntar? Do que vocs duas esto falando?
_  que outro dia eu vi duas pessoas do seu grupo se beijando em
uma padaria prxima ao meu trabalho.
_ Sueli, para com isso! Que coisa feia ficar falando da vida dos
outros- protestou Suzana.
_ Agora voc me deixou curiosa... dois do meu grupo se beijando?
_  isso mesmo! Era o seu amigo Leonardo e a Paula.
_ No acredito! No pode ser!
_ Sueli... chega... eles so livres e voc no tem nada a ver com
isso! - disse Suzana.
_ Eu acho que deve haver algum engano.
_Letcia, eu vi, no foi algum que chegou e me contou. Eles
devem ter reataram o namoro...
_ O Lo teria me contado... tem alguma coisa errada nesta histria,
eu sei que voc no est mentindo, eu acredito em voc, mas deve

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ter alguma explicao.
_ Meninas, no vo oferecer nada para Letcia? - perguntou
Marina ao entrar na sala.
_ Oi, dona Marina! No se preocupe, j comi. Que bom que a
senhora est de folga hoje!
_ Eu estava mesmo precisando- disse Marina, dando um beijo em
Letcia e depois olhando para Suzana, disse: Filha, ontem eu
recebi uma ligao da me daquela menina que trabalha com
voc... a Cludia.
_ A me dela ligou?
_  isso mesmo e no gostei nada do que ela me contou, viu? Eu
quero saber o porqu de voc no me falar nada sobre os assaltos
que trs meninas do shopping foram vtimas?
_ Me, para que se preocupar com isso? Acontece.
_Acontece? Suzana, o ladro derrubou a Cludia no cho ao
puxar a bolsa dela e voc no me fala nada sobre isso? E a outra
garota quase que sofreu um abuso, s se livrou porque apareceu
algum na hora, o bandido se assustou e saiu correndo.
_Me, eu no queria que voc ficasse assim toda preocupada, foi
s por isso.
_ Suzana voc deveria ter me contado... eu vou dar um jeito... no
sei como, mas voc no vai mais voltar sozinha!
_ Me, que ideia  essa?
_ Nas duas semanas em que eu trabalho durante o dia eu vou
buscar voc, nas outras duas... eu vou pensar em uma outra
soluo.
_ Me, para com isso, a senhora chega cansada e ainda vai me
buscar? Nem pensar! Vai sair daqui de So Caetano para ir at o
Aricanduva? Todo esse sacrifcio pra qu?
_Voc ainda pergunta? No adianta voc falar nada.
_ Me, a senhora acha que todas as mulheres que trabalham vo

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


ter a me pra buscar? Eu no vou sozinha para a faculdade
tambm? E a, a senhora vai me levar?
_ No importa, eu estou falando de voc. Pelo menos a sua
faculdade  de manh, no que as coisas no aconteam nesse
horrio, mas  noite  pior e como logo as frias vo comear
sobre a faculdade ns podemos deixar para depois. Amanh
mesmo eu vou te buscar! Desculpe, Letcia, mas eu fiquei muito
preocupada com tudo isso.
_ D pra entender, dona Marina. Est cada dia mais perigoso
andar por a.
Letcia ficou mais alguns minutos conversando com as mulheres
da famlia Souza e depois foi para sua casa.

Domingo, a famlia Martins foi almoar na casa da famlia Soares.
At Beatriz, a irm de Leonardo compareceu junto com o marido,
Bruno. Letcia conseguiu conversar com Leonardo alguns minutos
antes do almoo.
_ Eu preciso fazer uma pergunta, muito sria- comeou Letcia.
_ Pergunta sria? Voc quer saber se eu vou ped-la em namoro
hoje?- brincou Leonardo.
_ Engraadinho! Lo, voc se encontrou com a Paula em uma
padaria, segunda-feira passada?
_ Como voc sabe disso?
_Ento  verdade! Voltaram a namorar e voc no me contou
nada?
_  claro que no! Que ideia!
_ Vocs se beijaram l na padaria?
_ Tem algum me seguindo?
_ Lo, no acredito! Depois fica a todo magoado porque a Suzana
no fala com voc e bl, bl, bl, bl...
_ Quem foi que te contou isso?

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_ Voc beijou a Paula?
_ Eu vou contar tudo o que aconteceu, mas depois voc vai me
dizer quem foi que nos viu l.
Leonardo explicou tudo para a amiga, s no entrou em detalhes
sobre qual o problema que Paula estava enfrentando, j que a
amiga havia pedido para guardar segredo.
_ Ento, foi isso, ela roubou um beijo seu! Como  difcil ser
irresistvel!
_Agora me diz, quem contou?
Agora foi a vez dela explicar ao amigo.
_  brincadeira, justo a irm da Suzana tinha que presenciar
tudo?- disse Leonardo inconformado.
_ Veja pelo lado bom, de repente isso explica a reao da Suzana.
Ela no aceitou o seu presente e me falou aquelas coisas... vai
saber... ela pode muito bem ter pensado assim: "que rapaz mais
abusado! Beija uma em um dia e d um presente para outra na
mesma semana!" Concorda? Mas no pense que ela me
confidenciou isso,  pura imaginao minha, t?
_ Tudo bem, voc pode ter razo. Quem sabe?
A seguir, Letcia aproveitou tambm para relatar sobre a
preocupao da me de Suzana por causa dos assaltos.
_ Como que a me dela vai at l... vai ser muito cansativo. Qual
 o horrio que a Suzana chega do servio todos os dias? -
perguntou Leonardo.
_ s onze e meia;  muito longe!
_ Se fosse de carro, ela chegaria dez e meia mais ou menos-
constatou Leonardo- Eu estou pensando... sem chance, ela nunca
iria concordar.
_ Concordar com o qu?
_ Se a Suzana no me detestasse, bem que eu poderia busc-la... 
um horrio em que eu estou totalmente livre e...

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_ Espertinho! Seria perfeito, imagine voc ter a misso de busc-la
todos os dias... voc no iria gostar nadinha, n?
_  melhor parar de sonhar acordado, ela nunca vai aceitar!
_ Eu posso conversar com a dona Marina... eu percebi que ela
ficou muito preocupada.
_ Comente com ela, de repente, se ela concordar, quem sabe ela
consiga convencer a filha.
Precisaram encerrar a conversa, porque o almoo j estava pronto.
Sandra, a me de Letcia, estava muito feliz por receber aquela
famlia to querida; ela no perdia a esperana de Leonardo
namorar Letcia. Aps almoarem, Beatriz disse que tinha uma
notcia muito importante para dar e queria aproveitar a ocasio.
_ Eu e o Bruno estamos muito felizes, porque ontem ns pegamos
o resultado de um certo exame que deu... positivo! - informou
Beatriz com todo o entusiasmo.
_ Parabns! - disse Sandra- Foi surpresa para todos aqui? Nem
voc sabia, Lgia?
_  isso mesmo! Ah, filha! Que notcia maravilhosa! - disse Lgia
dando um forte abrao na filha.
Todos os que estavam presentes, cumprimentaram o feliz casal.
_ Bia, minha irm! Chegou a sua vez, dra. Beatriz! - disse
Leonardo para em seguida cumprimentar o cunhado- Parabns,
papai Bruno!

Quando o culto do domingo  noite terminou, Letcia aproveitou
para conversar com a me de Suzana; a amiga estava trabalhando,
teria folga no prximo domingo.
_ Letcia, eu ficaria muito grata e muito aliviada tambm, mas no
sei... dar todo esse trabalho para ele e... seria muito difcil
convencer a Suzana... sei l, ns nem o conhecemos.
_ A senhora pode ficar sossegada quanto ao carter do Leonardo e

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no precisa se preocupar pelo trabalho que ele vai ter, pois foi ele
mesmo quem se ofereceu... agora, quanto  Suzana, bem... a eu
concordo que vai ser um problema convenc-la.
Marina prometeu que teria uma conversa com o marido e depois
falaria com a filha; aproveitou a oportunidade e pediu para
Letcia apresentar Leonardo para ela. Eles conversaram por
alguns minutos e Marina saiu muito impressionada com o rapaz,
achou-o muito educado e gostou da maneira como ele se referia 
Suzana. No caminho para o shopping, ela aproveitou para
conversar com o marido, pois eles iriam juntos buscar a filha
naquela noite e como o culto na IGAG terminava s 19h30, eles
teriam tempo de sobra para chegar at l.

_Davi, eu gostaria muito que a Suzana concordasse, isso me daria
muita tranquilidade e sabe o que mais? Eu percebi que o rapaz se
interessa por ela... Davi... voc sabe que eu gostaria que a Suzana
se apaixonasse... Davi... nossa filha merece ser feliz, ela sofreu
tanto! Eu gostaria que ela conseguisse se relacionar com algum
rapaz e o Leonardo parece ser um bom rapaz, a Letcia o conhece
h anos, desde que eram crianas e a minha irm comentou que a
me da Letcia, a dra. Sandra, gostaria muito que a filha
namorasse o Leonardo.
_E voc ainda quer ver a nossa filha envolvida? Eles tm um
padro de vida muito diferente do nosso... eu acho que a ideia
desse rapaz buscar Suzana... eu no sei... Marina esquece isso,
voc vai arrumar confuso, a dra. Sandra  nossa vizinha e ainda
por cima congrega na mesma igreja.
_ Davi, a Letcia disse que eles se gostam como irmos! A Marisa
tambm disse a mesma coisa.
_ O rapaz  advogado, trabalha no escritrio junto com a pai, o
dr. Rafael, e voc sabe que o pai da Letcia, o dr. Fernando, 

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


scio l? Esse pessoal gosta de deixar tudo em famlia, por isso
no fique sonhando!




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                           Tnia Gonzales



Captulo 8 -Diagnstico: Anorexia
Paula acordou muito feliz, pois ela iria participar de uma seleo
para a escolha de duas modelos para uma campanha publicitria.
Bebeu suco de laranja e comeu uma torrada com um pedao de
queijo branco.
_ Me, hoje  o meu dia! Estou sentindo que tudo vai dar certo,
finalmente vou fazer um trabalho de verdade.
_ Calma, filha! Voc sabe que eles s vo escolher duas meninas e
eu imagino que devem concorrer centenas e...
_ Me, uma das vagas com certeza  minha! E o papai?
_ Ele vai ficar o dia inteiro na loja, eu tenho que resolver alguns
problemas de documentao e fazer alguns pagamentos.
_ Ento vocs conseguiram conversar como duas pessoas
civilizadas?
_Mais ou menos! S o essencial.
_ Bom... eu j vou e fique torcendo por mim, t? Um beijo em
seu corao e tchau!
Quando Paula chegou ao local marcado para a seleo, viu muitas
garotas lindas e magras. Logo comeou a fazer comparaes. "
Como eu estou gorda! Olha s aquela menina, ela  linda e que
corpo perfeito! No tenho a mnima chance!"
Aps esperar por quase trs horas, finalmente chegou a vez de
Paulinha. Fez muitas poses para as fotos e estava sendo analisada
quando, de repente, ela comeou a perceber que iria cair, tudo
estava girando... ela estava se sentindo pssima.
_ Eu... por favor... me ajude... - disse Paulinha para em seguida
desabar no cho diante dos olhares assustados de todos.
Foi levada at o hospital mais prximo, Karen, uma funcionria
da agncia, conseguiu entrar em contato com a me de Paulinha.


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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Regina conversou com o mdico responsvel pelo atendimento da
filha, o dr. Romeu, e ficou sabendo que Paulinha estava com uma
anemia profunda e ele aproveitou para perguntar sobre os
hbitos alimentares da paciente e logo as suas suspeitas se
confirmaram: a bonita garota de 19 anos estava sofrendo de um
distrbio alimentar chamado de anorexia. O doutor, ento,
comeou a dar algumas explicaes sobre a doena. Ele informou
que  uma doena grave e que  o resultado da preocupao
exagerada com o peso.
_ A sua filha se olha no espelho e mesmo estando extremamente
magra, ela se v como uma obesa. Isso  muito perigoso, pois
pode causar problemas psiquitricos graves, alm dos problemas
fsicos. A Paula est pesando 45 quilos, ela tem 1,80m de altura,
precisa ganhar peso urgente, mas  claro que ela no pode de uma
hora para outra comear a ingerir muitas calorias,  necessrio um
acompanhamento nutricional muito bem feito, para que ela se
recupere aos poucos, mas ela precisa cooperar, precisa entender a
gravidade da situao.
Regina ficou muito aflita com tudo aquilo que o mdico lhe
contou e sabia que ia precisar da ajuda de Deus para convencer
Paulinha a se alimentar de maneira correta.
_ Filha, como voc est se sentindo?
_Pssima, eu estraguei tudo! Isso tinha que acontecer justo hoje?
Eles iam me escolher... tenho certeza! Preciso sair daqui, eu vou
terminar as fotos, quem sabe ainda d tempo e...
_Filha? Pode esquecer isso, voc precisa se cuidar! Eu falei tanto
para voc se alimentar...
_ No comea com esse papo chato, at aqui? Que droga!
_ Calma, no precisa ficar nervosa. Agora voc precisa de
cuidados especiais, o doutor me disse que voc est com anemia
profunda. Isso  muito srio, Paula!

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                           Tnia Gonzales



_ Anemia? Para com isso, deve ser algum engano. Eu estou tima,
foi s porque eu fiquei muito tempo esperando.
_Paula, por favor, me ajude! Voc precisa aceitar o tratamento.
Filha, eu no quero te perder... - disse Regina com lgrimas nos
olhos.
_ Ih... que drama! Me, para com essas ideias, voc vai me perder,
por qu? Voc acha que eu vou morrer assim to jovem? Eu estou
bem, os mdicos so assim mesmo, eles sempre exageram.
Foram interrompidas por uma batida na porta.
_Posso entrar? - perguntou Paulo Reis ao colocar a cabea na
porta semi-aberta.
_ Oi, pai,  claro que pode, mas j vou avisando que no quero
ouvir nenhum sermo. - ironizou Paula.
_ Oi, Regina, eu conversei com o mdico, ela j sabe?
_ J, eu contei para ela sobre a anemia profunda, mas ela no est
acreditando.
_Filha, como voc pode ser assim to irresponsvel? Sai de casa
sem se alimentar direito, fica por horas em uma fila e...
_ Foi pra isso que o meu querido e amado pai, o pregador das
multides, veio at aqui? Se a resposta for sim, pode sair... d
licena... no quero ouvir essas baboseiras... caramba! No
acredito nisso, que droga!
_  assim que voc fala com o seu pai? Ser que no aprendeu
tudo o que ns te ensinamos?- disse Paulo Reis indignado.
_Paulo, no  hora e nem o lugar para esse tipo de conversa.- disse
Regina.
_ O que voc me ensinou, pai? Bom... deixa eu pensar um pouco...
ah... lembrei: voc me ensinou que  melhor se esconder dos
problemas do que enfrent-los e uma boa viagem para pregar em
congressos  uma tima sada. Faz a obra de Deus para todos
verem e admirarem o grande pregador, e de quebra se livra da

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


filha e da esposa. Voc ensina como os outros devem agir; a teoria
 maravilhosa,  perfeita, mas na prtica a histria  bem
diferente.
_ Voc est indo longe demais, eu exijo que voc me respeite. 
por isso que voc est em uma cama de hospital, por no nos ouvir
e...
Paulo Reis foi interrompido por duas batidas na porta. Era
Leonardo.
_ Oi, boa tarde e ... paz  disse Leonardo que percebeu o clima de
tenso.
_ Lo! Que bom te ver, amigo! - disse Paula com entusiasmo.
_Paz, Leonardo. ... eu e a Regina vamos deix-los a ss- disse
Paulo Reis meio envergonhado.
_Eu te agradeo por ter vindo, Leonardo. Sei que voc estava
trabalhando- foram as palavras de Regina.
_ Eu que agradeo por ter me avisado.
_Que bom que voc apareceu  disse Paula com sinceridade,
assim que os pais saram.
_ E a, menina? Que susto voc nos deu!
_ No foi nada... eu s estava cansada, o que  normal, afinal eu
estava h trs horas naquela fila e...
_ Linda, voc sabe muito bem que no foi s por isso. Se voc
estivesse se alimentando como deveria isso no teria acontecido.
_ Ah, Lo... at voc? Eu estou to cansada de todo esse papo,
poxa... eu sempre estou errada? O meu pai vem at aqui e ao invs
de me ajudar, sabe o que ele faz? Me d a maior bronca e justo ele
que nunca est presente. Ele acha que eu... - Paula ficou em
silncio, as lgrimas ocuparam o lugar das palavras.
_ Linda...no fique assim - disse Leonardo tentando consol-la e
acariciando os cabelos de Paula, completou: Vai dar tudo certo.
Os dois permaneceram em silncio por alguns minutos. Leonardo

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                          Tnia Gonzales



a abraou com carinho. Era exatamente disso que Paula estava
precisando: de muito carinho.
_Eu quero sair daqui, Lo. Esse negcio vai me deixar uma bola-
disse Paula apontando para o soro.
_ Tenha pacincia. Voc no pode nem pensar em tirar o soro, est
me ouvindo?
_ Eu ouvi, mas no garanto nada.
_Linda, no faa nenhuma bobagem. Aceite o tratamento e logo
voc vai voltar pra casa.
_ Eles iam me escolher, eu tenho certeza, Lo! Minhas fotos
devem ter ficado timas.
_ No tenho dvida disso. Voc  linda... mas precisa se cuidar.
Com a sade no se brinca.
_ Eu quero sair daqui... quero trabalhar... se eu ficar aqui por
muito tempo eu vou engordar.
_Pare de se preocupar com isso. Agora pense em se recuperar.
Paulinha...
_J sei, eu tenho que me alimentar. Estou cansada, sabe? Muito
cansada ... s ouo as pessoas dizerem as mesmas coisas... que
droga!
_Se voc se alimentar direitinho ningum precisa falar nada. A
soluo est nas suas mos e na sua linda boquinha.
_ Oiii! Posso? - disse Aline, ao entrar no quarto.
_ Prima! Que bom te ver!
_Oi, Aline. Bom... j que voc chegou e vai fazer companhia para
esta linda garota, eu vou embora, preciso voltar ao escritrio,
tenho um servio para terminar- explicou Leonardo- Eu volto
amanh. Cuide-se, minha linda.

 noite, os componentes do grupo Alfa foram at o hospital visitar
Paulinha. Como ela estava em um quarto particular eles puderam

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


entrar, mas somente dois de cada vez. Leonardo tambm voltou ao
hospital, a nica que no pde comparecer foi Suzana que estava
trabalhando, mas havia pedido para Letcia avisar que ela iria no
dia seguinte assim que sasse da faculdade.
Aps a visita, Jnatas pediu para que todos os componentes do
grupo fossem at a sua casa, para uma rpida conversa.
_ Eu vou fazer um caf e para anim-los eu vou logo avisando que
a Jessica preparou um delicioso bolo, enquanto isso ela vai
conversar com vocs- avisou Jnatas.
_ Eu sei que vocs j esto orando por Paulinha- comeou Jessica-
mas ns precisamos nos unir ainda mais em orao e tambm no
sentido de visit-la. Vamos cerc-la de carinho. Ligando para ela,
indo at a casa dela. J temos os compromissos da REMA, mas
ela precisa ter mais contato com vocs. O problema dela  srio,
mas  necessrio que vocs sejam bem discretos. Ela est sofrendo
de um distrbio alimentar chamado de anorexia; ns sabemos
algumas coisa sobre o assunto por causa de reportagens, mas
agora cada membro de nosso grupo vai se informar melhor sobre
a doena, pensem nisso como uma lio de casa. Leonardo fez
uma pesquisa na semana passada justamente por ter desconfiado
dos sintomas que Paula estava apresentando.  muito importante
ter conhecimento do problema para poder ajudar. Concordam?
_ Voc est certa, Jessica  afirmou Vitria- eu vou pesquisar
tambm.
_ Muito bem. Hoje em dia com toda a facilidade da internet vocs
tero todas as informaes necessrias rapidamente. Aproveitem
para ler sobre histrias de outras meninas com o mesmo problema
e lembrem-se de manter isso em segredo. Vamos marcar uma
reunio para trocarmos as informaes, mas enquanto Paula no
admitir que tem este problema ns vamos precisar de muita
sabedoria para ajudar sem invadir a privacidade dela. E todos ns

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                           Tnia Gonzales



sabemos muito bem para quem pedir sabedoria, no ? Jnatas?
Amor? Venha at aqui para orarmos juntos. Vamos pedir ao nosso
Deus que nos d sabedoria, que Ele nos capacite para que
tenhamos vitria. Leonardo? Voc pode fazer esta orao?
_ Claro, Jessica. Oremos: " Nosso pai amado, estamos aqui
reunidos porque confiamos em Ti, sabemos que Tu s poderoso e
que s alcanaremos a vitria se estiveres  nossa frente. Estamos
com um srio problema, Paula, a nossa amiga querida, precisa de
todo o carinho, de toda a compreenso, mas se usarmos s a nossa
fora, no seremos vitoriosos, precisamos de Ti, pois Tu s, Pai
amado, a nossa fortaleza. Eu te agradeo por este abenoado
grupo, por cada um que reserva parte de seu precioso tempo para
se reunir e ajudar uns aos outros. Isso s  possvel pelo amor que
tens derramado no corao de cada um. Te amamos e oramos em o
nome de seu amado filho Jesus. Amm."
Ao chegar em casa, Letcia ligou para Suzana contando sobre a
reunio da REMA. No outro dia, Suzana foi da faculdade para o
hospital visitar Paulinha acompanhada por Letcia que j estava de
frias.
_  um problema muito srio, n? Esta necessidade de
acompanhar o padro de beleza imposto pela indstria da moda 
absurda. Quantas meninas se sacrificam para agradar aos outros,
para ter uma profisso que dura pouco tempo- constatou com
pesar Letcia durante o caminho de volta.
_ Tem razo, L!  uma loucura... elas fazem de tudo para manter
o corpo perfeito, quero dizer, perfeito de acordo com os padres
deles. E isso  to prejudicial! A Paulinha est to magra, mas
mesmo assim diz que precisa emagrecer mais. Isso  terrvel! Ela
realmente est precisando de muita ajuda.- disse Suzana.
_ E a, Su? Voc me falou ontem que sua v vinha pra c, n?
_ Ah...  verdade. A vov Vivi vai chegar hoje  tarde de Belo

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Horizonte. Estou to feliz!
_ Vov Vivi? Qual  o nome dela,  Viviane?
_ No,  Vilma, mas ns a chamamos de Vivi, nem sei dizer quem
comeou.
_ Ah, que legal! Ela  me de quem?
_ Da minha me.
_ Sua me deve estar muito feliz e a sua tia Marisa tambm, n?
_ Voc nem imagina. Quem no est nada contente  a minha tia
Marli, ela mora com a minha v, disse que j est com saudades.
Se no fosse pelo trabalho dela com certeza viria tambm. Ela 
enfermeira- explicou Suzana.
_ Tambm? No sei como voc no resolveu ser mais uma
enfermeira da famlia Souza.
_ Eu quero ser uma tima professora.
_ Antes muitas meninas tinham o sonho de seguir a profisso de
professora, mas hoje...
_  verdade, mas eu quero... a minha v lecionou por muitos anos
em uma escola estadual, ela amava dar aulas.
_ E a neta quer seguir os passos da vov... qual a idade dela?-
perguntou Letcia.
_ Ela tem 74 anos. Ela est muito bem de sade, o nico problema
 a viso, ela sente muito por no poder ler, d pra imaginar, n?
Ela lia muito, como toda professora e agora no consegue mais,
nem com os culos. Ela amava ler a Bblia. A minha tia, todos os
dias, faz a leitura de alguns versculos para ela. E ela adora
chocolates, principalmente trufas. Eu vou comprar uns chocolates
para ela.
_ Que graa! Eu sinto muitas saudades dos meus avs, eles moram
em Porto Alegre.
_ mesmo? Eu estou muito feliz com a chegada da minha vov
Vivi. Mudando de assunto... voc acredita que a minha me est

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                            Tnia Gonzales



me buscando no servio?
_Eu acredito, a sua me estava to preocupada...
_Eu me sinto to mal... ela trabalha o dia inteiro e depois vai at l
me buscar... mas no consigo convenc-la que no  necessrio.
Na prxima semana, por exemplo, ela volta a trabalhar no perodo
noturno e a o que ela vai fazer? E voc deve saber da ideia
absurda dela, n? Alis, tem um dedinho seu nesta histria.
Dedinho? Uma mo inteira.
_ Eu? Nem imagino. Qual a ideia dela?
_ Voc disfara to mal! Letcia, eu no vou aceitar que o
Leonardo me busque, no mesmo!
_ Por qu?
_ No faz sentido algum! Absurdo total! Ele sair da casa dele
depois de um longo dia de trabalho s pra me buscar?
_ Mais absurdo  a sua me sair de casa e demorar uma hora e
meia para chegar e depois precisar voltar tudo de novo. Isso sim 
um absurdo. O Lo se ofereceu com a maior boa vontade. De
carro ele vai demorar uns 30 minutos.
_ Sem chance!
_Porque voc  muito teimosa! Isso daria tranquilidade para sua
me e pouparia muito trabalho, concorda?
_ J decidi. Eu vou encontrar outra soluo, voc vai ver.
Suzana foi para trabalho, no daria tempo para almoar por isso
fez um lanche rpido. Naquela semana o seu dia de folga seria
domingo e o seu grupo participaria de um campeonato de boliche
contra o grupo de Sueli, iriam logo aps o culto.
Quando chegou em casa naquela noite de tera-feira, junto com a
me que foi busc-la apesar de todos os protestos, a vov Vivi
estava esperando.
_ Vov! Que bom t-la aqui! Minha vov querida, a senhora deve
estar cansada mas mesmo assim ficou me esperando...- disse

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     Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Suzana ao abra-la.
_ Minha neta linda, voc acha que eu ia esperar at amanh para
dar um forte abrao e muitos beijos em voc?
_Vov linda! Isso  para senhora- ao dizer isso Suzana entregou
uma caixinha para a vov Vivi.
_Obrigada! Mais no precisava gastar comigo.
_ Quando a senhora ver o que , vai mudar de opinio.
_ Hum... tem razo! Precisava sim! - brincou a vov- Voc sabe
que chocolate  algo que eu no resisto.
_Eu sei v. Agora, eu vou precisar de sua ajuda. Convena a
minha linda me que no precisa me buscar no servio, por favor!
A senhora viu a hora que ela saiu daqui, no viu?
_ Eu no vou convencer a sua me de nada.  voc quem eu
quero convencer. A Marina me explicou tudo e at me falou sobre
um rapaz que se ofereceu para busc-la de carro, sua me me disse
que ele  um bom rapaz.
_ Vov, at a senhora? Esquea este assunto e me conte as
novidades. Como a tia Marli est?
Suzana conversou com a vov Vivi at uma hora da manh.
Como estava muito cansada adormeceu rapidamente.

_ Menina linda! Como voc cresceu! Que saudades de voc...
chegue bem perto de mim, no se afaste, por que voc est
fugindo de mim? Eu sou teu e voc  toda minha, venha.
_ No... eu no sou ... me solte, por favor, me solte, no faa isso,
no... - dizia Suzana em seu pesadelo.
Acordou tremendo, estava muito assustada, mas ficou em silncio,
no queria acordar os outros, principalmente a av que estava
dormindo em seu quarto.



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                          Tnia Gonzales



Captulo 9 -Primeiro beijo

_ O doutor Romeu me disse que se voc prometer que vai seguir
direitinho a dieta, voc receber alta amanh cedo- informou
Regina.
_ Amanh? No pode ser hoje?-               Paula perguntou com
impacincia.
_ Filha, ele falou srio, agora depende de voc.
_ T legal! Eu vou me comportar. Pode dizer para o dr. Romeu
que a Julieta o ama e sempre o amar!
_ No  hora para brincadeira, que piadinha sem graa!
_ E o papai? Est cuidando da loja?
_ Ele... achou melhor no vir at aqui. Vocs no esto se
entendendo, ento ele disse que no queria prejudicar a sua
recuperao.
_ Ah! Ele est certo, pelo menos nisso, n?

Leonardo aproveitou o horrio de almoo para visit-la.
_ Oi, linda! Hoje voc est com uma aparncia bem melhor, est
at corada!
_ Eu estou merecendo aquele beijo, sabe? Estou limpando o prato,
acredita?
_ Parabns! Eu j fiquei sabendo que voc, provavelmente, sair
amanh.
_ No vejo a hora! Cansei, amigo, estou entediada.
_ assim mesmo. No quer voltar mais para este lugar entediante?
 muito simples: alimente-se corretamente.
_Ok, dr. Leonardo. Aqui s est faltando a Julieta, sabia? Meu
mdico  o Romeu.
_ Linda, seu senso de humor est timo. Estamos orando muito

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


por voc.
_ Obrigada, meu Lo. Agora eu s quero sair daqui e batalhar por
minha carreira,  isso.
_ Para se ter uma carreira  necessrio ter sade. Grave isso em
sua linda cabecinha loira.
_ O que voc quis dizer com cabecinha loira? Olha o preconceito,
hein?
_ Preconceito, eu? Paulinha, porque voc no volta  estudar?
_ Se liga, Lo! Nada a ver; voc sabe muito bem que a minha me
sempre sonhou em ser veterinria e como no conseguiu passou
este sonho pra mim, mas o meu sonho  outro.
_ Eu gostaria que voc sonhasse com um prato bem colorido,
cheio de legumes, arroz, feijo, fil de peito grelhado, saladas...
_ D um tempo, Lo! E isso seria um pesadelo.
_ Eu vou ter uma conversa com o dr. Romeu...
_ Para com isso, Lo. Eu vou sair daqui amanh. Se liga, t?

Naquela tarde, Paula recebeu a visita do Pr. Pedro Gabriel que
veio acompanhado de sua esposa, Rute; a tia Carmem tambm foi
visitar a sobrinha junto com a filha Aline.
No dia seguinte, Paula saiu do hospital com muitas
recomendaes do mdico que lhe entregou uma dieta especial
que deveria ser seguida  risca.
O grupo Alfa havia marcado uma reunio na casa de Letcia,
naquela quinta-feira  noite. Visitariam Paulinha no dia seguinte.
_ Letcia, em primeiro lugar eu quero agradecer por ceder a sua
casa para nossa reunio.
_Que isso, Jnatas!  um prazer receber o meu maravilhoso grupo
aqui.
_ Quem gostaria de falar sobre a pesquisa ?
_ Eu posso comear- disse Vitria- Anorexia  uma doena grave,

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                            Tnia Gonzales



onde existe uma distoro da imagem corporal, isso quer dizer que
a pessoa passa a se ver como gorda, mesmo estando abaixo do
peso. E por achar que est gorda recusa os alimentos. Uma pessoa
que sofre de anorexia, sempre diz que no est com fome, arruma
desculpas para no participar das refeies ou ento sempre
inventa dietas absurdas.
_ Eu li que a pessoa pode ficar com srios problemas psicolgicos,
alm dos fsicos- explicou Renan- Depresso, sndrome do
pnico...
_ Eu li sobre isso tambm  foram as palavras de Willian- A
pessoa pode ter problemas cardacos, anemia, como foi o caso da
Paulinha, atrofia muscular, insuficincia renal e... pode at morrer.
_  um problema muito srio- iniciou Leonardo- Esta preocupao
exagerada com a beleza e todas essas exigncias tm destrudo o
sonho de muitas meninas. Elas querem brilhar e para isso fazem
qualquer sacrifcio. Desejam ter o corpo perfeito, mas na verdade
esto acabando com a sade. A Paulinha sonha em ser uma
modelo profissional e isso no  um problema, mas quando vira
uma obsesso, a as coisas complicam. Vocs sabem que ela saiu
hoje do hospital e agora  que entra a parte mais difcil, ela precisa
seguir uma dieta especial e o mdico foi bem claro que dessa vez
ela teve muita sorte, ns sabemos que foi a mo de Deus, mas o
doutor disse que se ela no obedecer fielmente  dieta dada por
ele, as consequncias sero desastrosas, por isso, precisamos orar
muito e no perd-la de vista.
_O Leonardo est certo- disse Jnatas- a Paulinha  nossa
prioridade mxima. Ela precisa sentir que ns a amamos muito e
que  muito especial para todos ns e principalmente para Deus.
Ela tem muito valor e precisa saber urgentemente disso.
Queridos,  muito perigoso quando ns damos muito valor 
algumas coisas e desprezamos outras. O equilbrio  importante

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


em tudo o que fazemos, porque quando voc d muito valor 
uma carreira, por exemplo, e no consegue ser bem sucedido,
pronto, acabou o mundo. Outro exemplo: um rapaz se interessa
por uma garota que no est nem a para ele. O rapaz se apaixona
perdidamente por ela e nada. O que ele faz? Pensa nela o dia
inteiro. No consegue nem trabalhar direito. E ela? No est nem
a. E ele? J no suporta mais, chega nela e... leva o maior fora. O
que ele faz? Acaba com a vida, afinal viver pra qu? Nada faz
sentido! No  isso que acontece muitas vezes? No caso da
Paulinha, ela quer ser modelo e como est doente, ela se enxerga
obesa, mesmo estando muito magra e qual a soluo? No comer
ou comer pouqussimo, e a coitado do organismo dela que luta
desesperadamente para sobreviver. Vocs viram que ele reclamou
e ela foi parar no hospital. Cuidado com os exageros, t? Uma vez
eu ouvi algo mais ou menos assim: " Tudo o que toma o lugar de
Deus no vem de Deus". Eu no sei onde eu li isso ou quem foi
que disse essas palavras, mas eu concordo com elas. Analisem
alguma situao que vocs estejam vivendo e vejam se no existe
algo errado. Faam perguntas como: " Ser que estou dando mais
valor a isso do que a Deus? Ser que valorizo mais uma certa
pessoa do que o meu relacionamento com Deus?" As atitudes
extremas acontecem quando ns exageramos nos sentimentos.
Cuidado! Vamos orar?
Os pais de Letcia, que tinham sado para jantar, chegaram quando
os componentes do grupo estavam se despedindo de Letcia no
porto.
_ Leca, ser que eu posso falar com voc?  rapidinho.
_ Vocs dois vo ficar aqui no porto conversando?  melhor
entrarem- disse o pai de Letcia.
_ Tudo bem, Fernando, mas no se preocupe eu no vou
demorar.

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                           Tnia Gonzales



_ Fique o tempo que quiser, Leonardo.
_ Ns estamos cansados, por isso vamos deix-los sozinhos e eu
sei que  isso mesmo que vocs querem, estou certa? - perguntou
Sandra.
_Me querida, boa noite.
Assim que eles ficaram a ss, Leonardo perguntou ansioso.
_ E a, voc contou para Suzana a real histria do beijo?
_Ah, Lo, me desculpe mas ainda no tive oportunidade,  que
com tudo o que aconteceu com a Paulinha e tambm com a
chegada da v da Su, eu acabei esquecendo...
_ A v da Suzana?
_  a vov Vivi. Sbado eu vou conhec-la; a Suzana est muito
feliz,  me da dona Marina.
_ Ela veio fazer algum tratamento mdico?
_ No, ela est bem de sade, a Su at comentou comigo que a
nica coisa que a incomoda  o fato de no conseguir ler, nem
com a ajuda de culos. Ela era professora. E a Su disse que ela
sente muita falta da leitura, principalmente da Bblia, agora ela
depende de outros lerem para ela. Ela adora chocolates, no resiste
uma trufa.
_ Interessante... e a Suzana no comentou nada sobre a
possibilidade dela concordar que eu a busque?
_ Ela est irredutvel; diz que  um absurdo, mas est toda
preocupada porque a me dela a est buscando.
_ Quem sabe ela muda de ideia- disse Leonardo otimista- E voc?
_ Eu o qu?
_ J resolveu conversar com os seus pais sobre o Daniel?
_ Psiu! Voc quer que eles ouam? Ainda no, estou dando um
tempo.
_Tempo? Letcia, voc precisa resolver isso. No d para ficar
namorando escondido, concorda? D muito trabalho! No cansa

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


inventar histrias para vocs poderem sair?
_ Se cansa?  claro que sim. Eu gostaria de ter um namoro
normal, sabe? O Daniel poder vir at aqui, dele me trazer quando
ns sairmos, mas por enquanto no d.
_ Voc est orando por esse assunto?
_ Estou... mas eu sinto que ainda no chegou a hora.
_ L, o Daniel  um cara legal, os seus pais vo perceber isso e
entender o porqu de sua escolha.
_ Amigo, eu tenho medo da reao deles. Sei l, e se eles me
proibirem de v-lo?
_ Eu acho que voc deveria conversar com o Daniel e resolver
isso de uma vez. O caminho da verdade  sempre o melhor,
porque do jeito que vocs esto  necessrio mentir e isso no 
legal. Seus pais so pessoas que amam a Deus, no entra na minha
cabea a ideia deles no aceitarem o Daniel por causa de
preconceito.
_ Ah... amigo... eu no sei o que fazer- afirmou Letcia com toda a
sinceridade.

 Letcia resolveu ligar para Suzana naquela mesma noite.
_ Su, me desculpe por ligar to tarde, eu sei que est cansada, mas
eu preciso te contar uma coisa- comeou Letcia-  sobre o que a
Sueli presenciou outro dia em uma padaria.
_ L, eu no quero saber disso.
_ Deixa eu falar, eu perguntei para o Lo e ele me explicou o que
aconteceu.
_ Explicar um beijo?
_ Espera... eu vou contar tudo.
Aps escutar a explicao sobre o episdio do beijo, Suzana disse:
_ E ningum tem nada a ver com isso, se eles querem voltar a
namorar  assunto deles.

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                          Tnia Gonzales



_ Su, parece que voc no ouviu uma s palavra do que eu disse.
Eu no falei que foi coisa da Paulinha, que ela simulou uma
tontura para ele se aproximar?
_ Eu entendi. Mas e da? No estou nem a para a vida amorosa do
Leonardo.
_ Eu, hein? O que deu em voc?
_ Vamos mudar de assunto? Vocs vo visitar a Paula amanh 
noite, n?
_  isso mesmo. Pena que voc no possa ir com a gente.

Letcia desligou o celular e ficou pensando na reao de Suzana.
"Ser que a Su est com cimes dele? O Lo iria adorar se isso
fosse verdade. Ele est to interessado nela! Se ela soubesse o
quanto ele  especial!"
Letcia comeou a lembrar de algo que aconteceu quando ela tinha
15 anos. Especialmente de uma conversa dela com Leonardo em
uma tarde de domingo.

_ O que est acontecendo com voc, Leca?- perguntou Leonardo.
_As meninas da escola ficam com aquelas conversinhas sobre
beijo. Cada uma conta a histria mais incrvel do dia que
aconteceu o primeiro beijo!
_ Isso deve ser normal, no ?
_ ... mas... pra que ficar contando pra todo mundo? Que
caretice!
_ Por que voc est to nervosa? Vai me dizer que voc ainda...
_ Lo! At voc? Eu j tenho que aguentar um monte de meninas
curiosas na minha cola querendo saber quem foi que me deu o
primeiro beijo e voc tambm vai...
_ Calma, Leca!
_ No me chame assim! Que raiva! Amanh comea tudo de

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


novo... conta vai, conta Letcia!
_ Leca, na boa... no fique brava, mas, voc j foi beijada?
_ Lo! No acredito nisso! Que pergunta  essa?  claro que...
no. Pra voc eu posso falar a verdade, mas  segredo.
_Eu sabia,  por isso que voc est to nervosa! Ento, voc anda
mentindo por a, hein? Que coisa feia, Leca!
_ Leonardo Martins, para com isso!

A segunda-feira chegou e com ela as mesmas conversas sobre o
primeiro beijo de cada uma das colegas de classe, para desespero
de Letcia.
_ E a, L? Quando as suas amigas vo conhecer a sua aventura no
mundo do primeiro beijo?
_ Vocs no cansam? Eu no quero contar.
_ Eu acho que j descobri! Eu descobri! Meninas, ela no quer
contar por no ter nada para contar, simples assim- constatou uma
das colegas. Voc nunca foi beijada! Boca virgem! Boca virgem!
E elas comearam a gritar: " Boca virgem! Boca virgem!"
_ Parem com isso, eu j fui beijada, sim! Mas vocs nunca vo
saber quem foi, nunca!
Naquela tarde, Letcia fez um pedido muito especial para o amigo
Leonardo.
_ No d mais para aguentar! Elas esto certas... mas eu no
posso dizer que nunca beijei. Elas sempre vo ficar na dvida.
_ Leca... depois elas esquecem.
_ Voc no conhece aquelas meninas... eu estive pensando e tive
uma ideia, mas eu preciso da sua participao.
_ L vem coisa...que ideia?
_ Na verdade... eu quero fazer um pedido pra voc.
_ No estou gostando disso.
_ Lo, meu amigo querido, eu s confio em voc... ... eu no

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                           Tnia Gonzales



quero mais mentir para as minhas colegas, mas tambm no quero
dizer que eu nunca fui beijada, isso no... ento, a nica soluo
que eu encontrei depois de quebrar a cabea foi...... pedir para o
meu amigo... me beijar.
_ O qu?  brincadeira, n?
_ Lo, quem melhor que voc? Eu tenho vergonha, j pensou se
algum menino resolve me beijar? Ele vai perceber logo que eu no
sei como fazer... e a as minhas colegas vo...
_Letcia, se as meninas te contarem que no so mais virgens voc
vai querer... voc est me entendendo, no est?
_ Eu sei o que voc quer dizer, mas  claro que no, Lo!  s um
beijo...  uma coisa normal.
_ Leca, essas coisas so assim, daqui a pouco elas vo comear a
fazer presso sobre isso tambm e a voc vai se desesperar? No
entra nessa, amiga!
_ No  isso, Lo.  que eu quero dar meu primeiro beijo, eu estou
ansiosa... se fosse com voc seria perfeito. Eu no quero que algo
to especial de repente se transforme em algo ridiculo por causa
de algum menino idiota! Eu sei que voc no riria de mim.
_L, se o cara gostar de voc, com certeza no vai rir.
_Por favor! Faa isso por sua amiga!
_Voc s tem 15 anos, o meu primeiro beijo foi quando eu tinha
16 anos, eu no sou to experiente assim. Vou te contar um
segredo: foi com uma menina de 18 anos e a iniciativa foi dela.
Esquece esse assunto. Se eu a beijasse seria muito estranho
depois.
_Por favor!
Por vrios dias Letcia continuou com o mesmo pedido e
Leonardo com a mesma resposta. Um dia eles foram ao cinema
juntos. Era uma comdia romntica. Letcia estava assistindo com
muito interesse quando, de repente, Leonardo se aproxima dela e

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


sussurra algo no ouvido de Letcia que ela no consegue
compreender, ao virar o rosto para dizer que no havia entendido
uma s palavra, Leonardo aproveita que esto muito prximos e
atende ao pedido da amiga. Letcia vive o to esperado momento
do primeiro beijo. Aps alguns segundos, Leonardo se afasta sem
dizer uma palavra. Letcia olha para a grande tela, mas agora ela
no consegue mais se concentrar no filme, os pensamentos dela
esto voltados para o momento mgico de seu primeiro beijo.
_ O que voc quer fazer agora? - disse Leonardo aps sarem da
sala.
_ Podemos comer? - perguntou Letcia meio sem jeito.
Durante todo o tempo que estiveram juntos conversaram pouco,
pois estavam constrangidos. O clima entre eles ficou muito
estranho, nem parecia que eram amigos desde crianas.
E por alguns dias os dois amigos ficaram sem se encontrar, nem
pelo telefone se falaram. At que em um dia de sbado, Letcia
resolveu ir at a casa de Leonardo.
_ Oi, tudo bem? - Letcia comeou  eu......
_ Oi, comigo tudo bem, Leca! Voc est bem?
_ Eu? ... estou...Lo, eu quero te agradecer por... voc sabe.
_ No precisa tocar neste assunto.
_ Preciso sim, na hora de pedir eu tive coragem, no tive? Agora
eu fico com vergonha, mas eu quero te dizer que foi... incrvel!
To inesperado... voc aproveitou bem o momento.
_ Letcia, eu s achei que seria melhor assim de supeto, porque
entre ns no iria rolar nenhum clima... bom... pelo menos agora
voc no precisa mentir.
_ Eu j contei para aquelas meninas curiosas,  claro que no
mencionei a data.
_ Ento, agora que est tudo certo eu s te peo uma coisa: V se
no entra na onda dessas meninas quando o assunto for... voc

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                         Tnia Gonzales



sabe! Porque nisso, com certeza, voc no vai poder contar
comigo!
_ Engraadinho!
Depois daquela conversa o relacionamento dos dois voltou 
normalidade. Eram os dois melhores amigos novamente.
" A Suzana no pode sequer imaginar que foi o Lo que me beijou
pela primeira vez. Ela no vai acreditar que foi a nica vez e
tambm no vai entender que foi um grande favor que o Lo me
fez" - pensou Letcia aps terminar sua viagem ao passado.




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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 10 -Trufas e CDs
Na sexta-feira  noite os componentes do grupo Alfa visitaram
Paulinha. Conversaram muito, oraram juntos e tambm cantaram,
principalmente os louvores preferidos de Paula, que demonstrou
estar muito bem. s nove horas foram embora.
Leonardo saiu com muita pressa porque iria buscar Suzana no
servio, pois antes de entrarem na casa de Paulinha ele havia
pedido para que Letcia fizesse uma ligao para me de Suzana.
_ Lo, voc est abusando, a Suzana no vai gostar da surpresa.
Fala srio! Voc ir at l para busc-la?
_ Leca, eu no vou l especialmente para busc-la, eu preciso
fazer umas compras.
_Quem voc pensa que engana com essa conversinha, hein? E
no me chame de Leca.
Letcia ligou para dona Marina que concordou sem hesitao.
Prometeu fazer uma ligao para no pegar a filha de surpresa.
Leonardo chegou quando faltavam trinta minutos para o horrio
de sada dela. Precisou entrar em trs lojas diferentes para comprar
os presentes que pretendia dar. Vinte e cinco minutos depois ele j
estava esperando por Suzana.
_ Oi, tudo bem? - disse Leonardo com um largo sorriso.
_ Oi, mais ou menos. Voc no tem jeito mesmo, n? Eu no gosto
disso, sabia?
_ Do que voc no gosta?
_Voc est se aproveitando da situao. Voc sabe que a minha
me est muito preocupada comigo e tambm sabe o quanto 
complicado para ela vir at aqui e ...
_Suzana, calma! Eu s quis fazer um favor para sua me; eu
precisava fazer umas compras e...


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                           Tnia Gonzales



_S existe um shopping em So Paulo, no ?
_H vrios, mas s aqui eu encontro... voc. No fique brava.
Podemos ir?
Suzana foi at o estacionamento sem dizer uma palavra, entrou no
carro e continuou calada.
_Voc quer um chocolate? Melhora o humor - disse Leonardo-
tem uma caixinha no porta -luvas.
_No, obrigada.
_ Pode pegar um pra mim?
Suzana abriu o porta-luvas, pegou a caixinha, tirou um bombom e
entregou-o para Leonardo.
_ Voc no vai pegar um?  delicioso...  chocolate meio amargo,
voc gosta?
_Gosto, mas eu no quero melhorar o humor!
_Cuidado com o estresse; eu vou colocar uma msica para voc
relaxar.
Quando a msica comeou a tocar, Suzana pensou :"que atrevido,
o que ele est pensando?", mas no disse uma palavra. Era uma
msica gospel romntica que dizia :
"Me lembro bem, a primeira vez que te olhei
 Nos seus olhos eu encontrei ternura e amor
 Como nunca vi igual."1
Enquanto Suzana continuava calada, Leonardo pensava" Ser que
eu exagerei? .. eu acho que no foi uma boa ideia colocar este
tipo de msica. O que eu fao agora? Pense... pense."
Leonardo resolveu desligar o som.
_ ... ns fomos visitar a Paulinha - disse Leonardo para iniciar a
conversa.
_E como ela est?

1 Um verso de amor- Pmela  compositores: Davi Fernandes e Derek.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Est bem. Ela ficou muito feliz com a visita. Foi bem legal, ns
cantamos muito. Eu comprei um livro para ela... tem uma sacola
l trs, voc pode pegar para dar uma olhada.
_  melhor no, deve estar embrulhado para presente e...
_Pode abrir, eu vou fazer uma dedicatria.
Suzana pegou a sacola, abriu o pacote e leu o ttulo do livro: " A
Ditadura da Beleza e a Revoluo das Mulheres"2
_ um romance que conta a histria de Sarah; ela  uma menina
de 16 anos que  muito infeliz apesar de ser rica e ter uma
carreira de sucesso, ela  modelo profissional. Sarah tem um srio
problema de relacionamento com a me e sofre muita presso por
causa do padro de beleza imposto pelo mundo da moda e ainda
por cima os pais dela so divorciados. Em um momento de
desespero ela tenta acabar com a prpria vida. Felizmente ela se
recupera e a me procura um psiquiatra chamado Marco Polo.
Sarah, depois de resistir ao tratamento, comea a aceitar e aprende
com o sbio psiquiatra, o verdadeiro valor da vida.  muito
interessante.
_ Eu j li alguns livros deste autor. Marco Polo? Ser que  o
mesmo do livro "O futuro da humanidade?"3
_  ele mesmo; eu tambm li. No " O futuro da humanidade",
Marco Polo  um estudante ainda e no livro que eu comprei para
Paulinha ele j  um psiquiatra bem sucedido, lembra do poeta?
Qual o nome dele mesmo?
_ Falco. - lembrou Suzana.
_ isso mesmo, Falco. Ele tambm aparece no " A ditadura da
Beleza".
_Que legal, deve ser bem interessante mesmo.

2 Autor: Dr. Augusto Cury
3 Autor: Dr. Augusto Cury

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                          Tnia Gonzales



 Eles ainda falaram sobre os livros por alguns minutos. Leonardo
estava feliz, pois era a primeira vez que os dois conversavam de
verdade, sem Suzana se esquivar. Ele estava adorando ouvir a
voz dela e o fato de Suzana participar da conversa ativamente
era maravilhoso.
_ Eu tambm comprei uma roupinha de beb- disse Leonardo
preocupado em manter o dilogo- D uma olhada e me d a sua
opinio. Eu escolhi to rpido!
_ Um macaco salmo...  lindo! Letcia comentou que a sua
irm est grvida. Ela deve estar muito feliz, n?
_ Muito mesmo... a Bia no v a hora de ter um beb em seus
braos. Eu espero que d tudo certo, ela j sofreu muito, perdeu
dois.
_Que Deus abenoe a gestao dela. A minha me tambm
perdeu dois, antes de mim.
_ E Deus a compensou enviando uma filha linda e maravilhosa.
Este comentrio fez Suzana se calar novamente. Depois de cinco
minutos, Leonardo parou o carro, antes que Suzana sasse, ele
pegou uma sacola que tambm estava no banco de trs, em
seguida abriu o porta-luvas, retirou um pequeno presente e o
colocou dentro da sacola onde j havia uma caixa. Entregou para
Suzana.
_ Eu no posso aceitar  foram as palavras dela.
_ Ah, me desculpe... no so pra voc. Eu quero que voc entregue
para sua v.
_ Minha v? Como voc...  lgico... a Letcia contou!
_ Exatamente. Boa noite, Suzana. Eu gostei muito de conversar
com voc hoje. Foi timo.
_ Boa noite e obrigada pela carona.
_ No precisa me agradecer, se voc quiser amanh eu...
_ No ser necessrio.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Suzana saiu rapidamente do carro, abriu o porto e entrou sem
olhar para Leonardo.
Ao chegar em casa, Leonardo ligou para a amiga Letcia.
_ Nossa, como meu amigo est animado!
_ Eu estou mesmo, mas no  para menos, n? Hoje ns
conversamos. Bom... ns ficamos juntos uns 40 minutos mais ou
menos, contando tudo e eu acho que conversamos uns 20 minutos.
_ E os outros 20 minutos, o que vocs fizeram? Ser que ... no
acredito! Vocs se beijaram?
_ Letcia, como voc viaja! At parece... eu e a Suzana nos
beijando, conta outra!
_ Os 20 minutos continuam sobrando...
_ Silncio, muito silncio. Tudo bem que eu cometi uma ... gafe?
No sei se posso dizer assim, acho que... eu cometi uma falta
grave... isso mesmo.
_ Falta? O que voc fez?
_ Eu inventei de colocar uma msica para ela ouvir.
_Ai, ai, ai... que msica?
_Espera um pouco que eu vou colocar para voc ouvir.
Poucos segundos depois...
_ Lo, eu no acredito! "Me lembro bem a primeira vez que te
olhei nos seus olhos eu encontrei ternura e amor"; voc forou! A
msica  linda, mas...
_ Eu sei, pisei feio... mas eu desliguei rapidinho.
_Voc  demais! A Suzana deve ter ficado uma fera!
_No disse nada. Depois eu consegui reverter a situao, falei
sobre a Paulinha.
Leonardo contou sobre a conversa com Suzana.
_Voc  to esperto! Comprou presentes para v dela...como
conseguiu comprar tudo em to pouco tempo?
_ Os CD's da Bblia eu comprei hoje  tarde em uma livraria aqui

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                            Tnia Gonzales



em So Caetano, mas mesmo assim eu precisei correr.
_Quer conquistar a famlia inteira, n?
Enquanto Leonardo detalhava o seu " encontro " com Suzana, ela
entregava os presentes para a vov Vivi.
_ Que rapaz mais atencioso! Presentes para mim e ele ainda nem
me conhece! - disse vov Vivi muito admirada.
_ Abre, me! - pediu Marina.
_ Espera a... Suzana, me ajude... hum... parecem deliciosos- disse
vov ao ver a caixa com as trufas, para em seguida abrir o outro
presente- o qu  isso? CDs de msica?
_ No vov, so CD's da Bblia, neles esto gravados todos os
versculos da Bblia, agora a senhora vai poder ouvir as histrias
da Bblia sempre que tiver vontade- explicou Suzana.
_No sabia que existia isso! Que coisa linda... que beno! Esse
rapaz  um anjo...- disse vov toda emocionada com o presente.
_Como ns no pensamos nisso? - disse Marisa que estava l
esperando pela me que iria dormir na casa dela naquela noite.
_ Como ele teve essa ideia? - perguntou Marina.
_ Isso  coisa da Letcia. Eu falei sobre a dificuldade da vov e ela
comentou com ele.
_O Leonardo est te buscando no servio? - perguntou Marisa.
_No tia, foi s hoje.
_Isso porque a Suzana  muito teimosa. Marisa, ele se ofereceu
para busc-la todos os dias, mas a Suzana no aceita! - explicou
Marina.
_ Ele se ofereceu? Ele est interessado em voc, Suzana? A
Sandra no pode sequer sonhar com isso! - constatou Marisa.
_  claro que no, tia... isso  coisa da mame. Ela fica se
preocupando comigo e ...
_ No sei no, a tem- disse a tia.
_ Qual o problema se o rapaz estiver interessado na minha neta?

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Quem  Sandra?
_Me, a Sandra  a minha vizinha, ela  me da Letcia. Ela sonha
em ter o Leonardo como genro - explicou Marisa.
_ Ela sonha... mas se o Leonardo estiver sonhando com a Suzana,
o que ela pode fazer? - disse vov Vivi.
_V, que histria  essa? Vamos parar com este assunto?
_ Eu quero que voc ligue para ele e o convide para vir aqui
domingo  tarde tomar um caf comigo. Eu vou preparar umas
bolachinhas de nata e um bolo cremoso de fub e mais algumas
delcias.
_Vov, por favor, no faa isso - pediu Suzana.
_ Suzana, que coisa feia! O rapaz  to gentil e voc no vai me
deixar agradecer? Ligue para ele.
_T bom, v! Amanh eu ligo.

Mesmo estando muito cansada, Suzana ficou rolando na cama,
no conseguia dormir. Leonardo no lhe saa da cabea. Eram
quase duas horas da manh quando o sono finalmente chegou.

_ Eu estou to feliz por voc ter dito sim ao meu convite- dizia
Leonardo- voc no imagina o quanto eu tenho pensado em voc.
_ Leonardo, eu tambm tenho pensado muito em voc.
_Como  bom ouvir isso.
Leonardo se aproximou bem devagar e acariciou levemente os
cabelos de Suzana, deslizou a mo para o rosto dela e com os
dedos sentia a maciez da pele dela. Suzana estava com os olhos
fixos nos dele. O momento era perfeito... quando... de repente...
um homem se aproximou e puxou Leonardo com violncia. Ele
comeou a dar socos e dizer:
_ O que voc est pensando? Acha que pode ficar com ela? Pois
eu digo que no pode! Olhe bem para mim rapaz, eu digo que

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                           Tnia Gonzales



voc no pode ficar com ela e sabe por qu? Porque ela  minha!
Est entendendo? Ela  minha!
_ No faa isso... no o machuque - gritava Suzana desesperada.
_ Voc no quer que eu o machuque? Por qu? Olhe bem pra ele,
pois ser a ltima vez que voc o ver! A ltima! - ao dizer isso o
homem deu um chute prximo ao estmago de Leonardo, que
ficou gemendo no cho.
_No, no... por favor, no faa isso... no....
Suzana acordou com os prprios gritos, eram cinco horas da
manh. Olhou em volta e ficou aliviada por no ser real e tambm
pela v no estar dormindo ali naquela noite.

 No sbado pela manh Letcia foi conhecer a vov Vivi.
_Ento voc  a famosa Letcia? A Suzana me falou muito sobre
voc, querida!- disse vov Vivi.
_ Famosa eu? A senhora que  famosa, vov! Eu estava ansiosa
para conhec-la.
_Que bom! Eu estou muito feliz e agradeo a Deus por Ele ter
colocado uma menina to maravilhosa para ser amiga da minha
neta.
_ Obrigada, vov! A Suzana sim, que  maravilhosa.
_ Vamos parar com isso? Maravilhosa aqui  a vov Vivi! Isso
sim! - disse Suzana.
Vov Vivi contou vrias histrias de seu tempo de mocinha l em
Belo Horizonte e tambm aproveitou para saber mais sobre a
famlia de Letcia.

Leonardo acordou muito feliz, naquela manh de sbado. O lindo
rosto de Suzana no lhe saa da cabea. Como ele gostaria de
poder tocar naquele rostinho delicado, de acariciar aqueles cabelos
sedosos. Quando ela olhava para ele com aquele lindo par de

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


olhos verdes, o que era raro, pois na maioria das vezes ela
desviava o olhar rapidamente, era como se tudo o mais no
existisse, como se o tempo parasse.
_Leonardo? Filho? Ei! - era Lgia tentando chamar a ateno do
filho que estava sonhando acordado sentado  mesa do caf da
manh.
_O qu? Aconteceu alguma coisa?
_Onde voc estava?
_Eu? Aqui, eu acordei e vim tomar o caf da manh.
_No estava ... Leonardo, voc estava pensando em quem?
_Me, para com isso! Bom dia!  assim que as pessoas civilizadas
se cumprimentam e a senhora no vai beijar o seu filho?
_Bom dia e eu no vou s beijar, vou abraar tambm, meu lindo
filho. Mas em quem voc estava pensando? - insistiu.
_ Dra. Lgia, que tal ns tomarmos um belo caf?
_ No vai me contar... t bom! E como a Paulinha est? O pai
dela estava l?
_Ela est bem e o Paulo Reis no estava.
_  bvio! A Regina foi at a clnica ontem, ela estava com um
problema em um dente, e ela me disse que o Paulo ia pregar em
um congresso. Ela est bem chateada porque o marido no para
em casa mesmo com o problema da filha.
_ Ah, me, o Paulo Reis ama pregar.
_Ama mais do que a prpria famlia.
_Me, pegou pesado!
_ verdade, a Regina  quem disse isso, eu s estou repetindo.
Leonardo, voc no est pensando em voltar a namorar a
Paulinha, est?
_ claro que no! Me...
_Vai saber! Eu gostaria muito de entender por que voc e a Letcia
no namoram?

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                          Tnia Gonzales



_ simples: somos grandes amigos. S isso.
_ Mas, filho...
_Me, eu no ... ... deixa pra l.
_Voc quer me contar alguma coisa...
_ Por que vocs no me chamaram? - perguntou Rafael.
_Voc estava dormindo to gostoso, querido  explicou Lgia
dando um beijo no marido- Estvamos aqui conversando...
_ Sobre o presente que eu comprei para o beb que est chegando!
- disse Leonardo mudando de assunto.
_Voc comprou um presente? Eu quero ver! - pediu a me.
_ Espera um pouco, eu vou buscar.
Poucos segundos depois, Leonardo j estava de volta com um
pacote nas mos.
_Eu quero ver... que coisa mais fofa! Que macaco lindo!
Escolheu muito bem, titio coruja!- elogiou a me.
_  melhor vocs guardarem isso... a mame coruja acabou de
chegar  anunciou Rafael olhando pela cortina da sala de jantar.
Beatriz e Bruno entraram instantes depois.
_Famlia, bom dia! Eu e o meu beb estamos aqui para tomar o
caf da manh! E o papai Bruno tambm,  claro.
Depois de muito beijos e afagos na barriga, todos se sentaram para
compartilharem de um delicioso caf em famlia. Leonardo
aproveitou para entregar o presente.
_ Lo, meu irmozinho lindo, obrigada! Que fofo! Amei! Que
gostoso ganhar presente de beb!
_ Voc est to linda! - disse Leonardo passando as mos na
barriga da irm- e voc est bem confortvel a dentro? Seu tio
est te esperando ansiosamente.




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     Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 11 -Conversando
Paula olhou-se no espelho e pensou: " Como eu estou gorda! Essa
histria de alimentar-se bem est acabando com o meu corpo, se
eu continuar com isso no vou conseguir voltar ao peso ideal... eu
preciso dar um jeito nisso... mas com a mame pegando no meu p
como  que eu vou fazer? "
_ Filha? Filha? O almoo est na mesa! - anunciou Regina.
 Almoou para satisfazer a vontade da me, mas, assim que ficou
sozinha foi ato banheiro e provocou o vmito.
"  isso mesmo que eu vou fazer- pensou-  a nica soluo!"

Naquela tarde de sbado, Leonardo foi at a casa de Paulinha para
entregar-lhe o presente; assim que estacionou o carro o celular
tocou.
_ Al? Quem fala?-perguntou ele.
_Suzana - respondeu ela timidamente.
_ Suzana? Que surpresa! Tudo bem?
_Tudo bem... eu estou atrapalhando?
_  claro que no. Pode falar.
_ ... bem... a minha v pediu para eu ligar... ... ela quer que voc
v amanh l em casa tomar um caf; a vov gostou muito dos
presentes e quer agradecer.
_ Pode dizer para ela que eu aceito. Qual o horrio?
_ s trs horas da tarde. Este horrio est bom pra voc?
_Perfeito. Amanh  o seu dia de folga, no ?
_ isso mesmo. Bem, eu vou desligar agora.
_Suzana, espera um pouco... eu posso busc-la hoje?
_No, eu preciso desligar, estou trabalhando.
Suzana desligou o telefone sem dar chance para Leonardo se


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                           Tnia Gonzales



despedir.

_ J que os seus pais no esto, eu vou embora... isso  pra voc 
disse ele entregando o presente para Paula.
_ Pra mim? Obrigada! Vou abrir... ah, que gracinha! S voc
mesmo, Lo! " A ditadura da Beleza...", legal.
_Voc promete que vai ler? Responda, minha linda!
_ Ah... eu... prometo, quer dizer... eu... Lo voc sabe que eu no
sou muito chegada  leitura e... esse assunto... j vi tudo!
_Por favor, faz isso por mim! Paulinha, voc est se alimentando
direito?
_Estou, Lo!  uma droga... mas o que eu posso fazer? Minha
me "t" de marcao, mas olha pra mim... olhou? Percebeu o
estrago?
_Percebi que voc est linda! Se continuar assim vai se recuperar
rapidamente.
_ Quem quer recuperar peso? Diz pra mim? Qual mulher em seu
juzo perfeito gostaria de recuperar o peso perdido? Conhece
alguma?
_ O que est em jogo aqui  a sua sade, nunca se esquea disso.
Eu vou ser um pouco duro agora, mas acho que  necessrio. Do
que vai adiantar ter um corpinho de modelo dentro de um caixo,
hein? A nica vantagem  que vai ser bem mais fcil carreg-la.
_Lo! Que horror! Isso  coisa pra dizer? Caramba, agora voc
exagerou... pisou feio!
_  a verdade! Para de se preocupar com a esttica e pense em
voc. Entendeu? Pense na pessoa que est a dentro... voc 
especial do jeito que . As crianas da igreja cantam: " Aos olhos
do pai, voc  uma obra-prima, que Ele planejou, com suas
prprias mos pintou..."- lembra? A seguir Leonardo continuou
cantando:" Voc  linda demais, perfeita aos olhos do pai, algum

                               110
     Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


igual a voc, no vi jamais..."4
_ Voc vai participar de algum concurso para descobrir novos
talentos? - ironizou Paulinha.
_ Isso  no  uma brincadeira! Pare de pensar tanto em seu
exterior e cuide da garota linda que est a dentro!
_ Pra voc  muito fcil, ningum fica exigindo que voc tenha
um corpo perfeito...
_ Paula, o assunto aqui  muito srio. No quero v-la novamente
em um hospital... deixe que Deus oriente os seus passos... Ele quer
o melhor pra voc. Volte a estudar.
_ Lo, na boa... eu adoro voc mas este papo est muito chato.
Valeu o presente, no prometo que vou "devor-lo", mas qualquer
dia desses eu dou uma olhada nele. T?
_Tudo bem. Hoje, l na igreja, vai ter uma reunio de orao
com todos os grupos da REMA e na quinta-feira o grupo Alfa vai
se encontrar.
_ De repente... se eu estiver animada, tchau, gato.
_Tchau, linda. Cuide-se!
Leonardo deu um beijo na amiga e foi at a casa de Letcia
convid-la para tomar um sorvete com ele.
_ A Suzana ligou pra voc? Quem diria, hein? - disse Letcia,
saboreando o seu sorvete.
_Devo isso  vov Vivi. Vou l amanh tomar um caf.
_Que legal. Voc foi muito esperto ao escolher os presentes.
_Graas a voc. Mas no foi para falar de mim que eu te
convidei... eu gostaria de ajud-la com o seu namoro.
_Valeu, amigo, mas o que voc pode fazer?
_ Te encorajar! L, conversa com os seus pais.
_ Lo... eu sei que preciso abrir o jogo com eles, mas...

4 Crianas Diante do Trono: " Aos olhos do pai "

                                    111
                           Tnia Gonzales



_Pare de pensar na reao deles! Pense em como vai ser
maravilhoso oficializar o namoro de vocs! Pense no Daniel, deve
ser bem complicado pra ele! Ele sabe o motivo exato de toda a
sua preocupao?
_Eu digo que  por causa da ideia fixa deles  respeito de voc ser
o namorado perfeito pra mim.
_ Leca, isso no  justo. Os seus pais no so preconceituosos.
_Lo, ningum , at que tenham algum motivo pra isso.
_L, o Daniel  um cara legal, bom filho, trabalhador, temente a
Deus... eu acho que  isso que os pais desejam para seus filhos,
no ? Se ele fosse um mau-carter, tudo bem... mas no faz
sentido voc ficar to temerosa com a reao deles s porque ele
 negro. L, isso  um absurdo total!
_Eu tambm acho, mas...
_Amiga, pea coragem a Deus e converse com seus pais.
_ Voc tem razo, eu vou orar e agir. Bom... hoje tenho uma
tima oportunidade para orar, n?
_ isso mesmo. Vai ser timo orar com todos os grupos reunidos e
depois vamos saborear uma pizza!
_ Vamos para o shopping?
_No, vai ser l no salo da igreja mesmo. O horrio da Suzana
atrapalha tanto!
_Ligue pra ela e se oferea para busc-la, assim d tempo dela
comer pizza com a gente!
_Eu fiz isso e ela me respondeu com um redondo: no!

A reunio dos grupos da "rede melhores amigos", comeou s sete
horas da noite. O lder de jovens, Mateus, aps o perodo de
orao, falou sobre a importncia de no se conformar com o
padro do mundo, leu em Romanos 12.2 : " E no vos conformeis
com este sculo, mas transformai-vos pela renovao da vossa

                               112
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradvel e
perfeita vontade de Deus".
_Jovens, o mundo dita as regras, mas isso no quer dizer que
devemos segu-las. Eu sei que  difcil ser diferente, porm 
necessrio. Se voc quer agradar a todos os seus colegas l de
fora, com certeza no vai conseguir agradar a Deus. Para eles 
normal sair em um sbado  noite e se encher de bebidas,
conhecer algum e "ficar", s para ter um momento de prazer,
afinal, s se vive uma vez, no  verdade? Ento, vamos
aproveitar! Jovens, a Palavra de Deus diz para no nos
conformarmos com o sistema do mundo e o que seria isso? Voc
no deve viver seguindo o modelo ou o padro do mundo, aquilo
que eles acham que  correto, que no faz mal. No tenham medo
de discordar. Outro dia eu estava pensando em como este mundo
 cheio de contradies. Antes os crentes eram ridicularizados por
dizer que fumar  errado e existia propagandas que mostravam
uma linda paisagem, era um local maravilhoso, ar puro e aparecia
um homem bonito, forte e o que ele estava fazendo? Fumando!
Depois voc assistia queles filmes lindos, romnticos e aquele
ator lindo, fazendo o qu? Fumando. Agora a propaganda de
cigarros  proibida, colocam nos prprios maos uma imagem
nada atraente de algum que est muito doente e um aviso: "
Fumar  prejudicial  sade". E a bebida, hein? " Beba com
moderao" , e " Se for dirigir, no beba!". As estatsticas dizem
que os jovens esto bebendo e fumando cada vez mais cedo.
Muitos esto preocupados com isso. Outra assunto muito em pauta
 a respeito da virgindade. Os crentes esto sempre pregando
sobre a importncia de permanecer virgem at o casamento. E o
mundo achava uma caretice. Agora at existem grupos levantando
a bandeira da virgindade. Que legal! Mas para ns isso no  uma
moda, isso  a "boa, agradvel e perfeita vontade de Deus". Vale a

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                          Tnia Gonzales



pena esperar.  fcil? No, mas se vocs forem equilibrados em
tudo, com certeza vo conseguir esperar. Cuidado com as carcias,
no exagerem nos beijos, pois depois que a chama se acende, 
preciso muito auto-controle para tomar a deciso certa de apagar
o fogo. Dizem por a que as meninas esto engravidando cada
mais mais cedo, e  verdade, mas o que eles fazem com relao a
isso? Usem preservativos! Eu no sou contra o uso deles, pelo
contrrio, mas por que no lanam uma forte campanha contra o
sexo antes do casamento? Uma campanha para dizer ao jovem que
o correto  esperar. Por que no dizem aos jovens que a melhor
maneira de ficar livre das doenas sexualmente transmissveis e da
gravidez indesejada  a abstinncia sexual? Jovens, eu digo mais
uma vez que vale a pena esperar. Eu no me envergonho de dizer
para vocs que eu me casei virgem, porque para muitos, casar
virgem  s para a mulher. Homem? Que isso! Mas para Deus no
h diferena. No tem preo que pague voc chegar no dia do seu
casamento com a sua conscincia tranquila e com aquela
expectativa de como ser a primeira vez. Dizem que para o
casamento dar certo  necessrio ter experimentado antes, mas
isso  papo furado, se fosse assim no existiriam tantos casais
separados. Eu quero que vocs gravem estas palavras no corao.
A vontade de Deus : boa, agradvel e perfeita. Eu quero
agradecer a todos pela presena, estamos hoje aqui com cerca de
300 jovens e isso  uma beno. Eu quero agradecer tambm aos
casais de lderes de cada grupo da REMA que tm se empenhado
nas atividades. O pastor Pedro Gabriel pediu para que ns
fizssemos um trabalho especial para arrecadar fundos para
misses, ento cada grupo vai fazer algo para ser vendido. Depois
os lderes vo conversar com vocs sobre isso mais
detalhadamente. Antes de orarmos, eu quero agradecer aos que
ajudaram na cozinha hoje. Valeu!

                               114
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Aps a orao, Leonardo encontrou-se com a amiga Letcia que
lhe deu uma tima notcia.
_Srio? A Suzana est aqui? - perguntou Leonardo.
_ Voc sabe que nas datas especiais os funcionrios de shopping e
do comrcio em geral sempre trabalham mais, as horas se
acumulam, ento a Suzana aproveitou para sair mais cedo hoje.
Ela me ligou avisando que viria.
_ Isso  timo. Eu j estava com saudades.
_ Vai devagar... ela est se aproximando, cuidado com que voc
diz, t? - pediu Letcia.
_ Oi, L- Suzana cumprimentou a amiga com um beijo- Oi,
Leonardo.
_ Oi, eu no ganho um beijo tambm? - perguntou Leonardo,
Letcia olhou para ele com reprovao e Suzana brincou:
_ Se voc no tivesse falado nada...
_ Que pena, da prxima vez eu vou ficar bem quietinho! Que
bom que voc pde vir. Eu estou muito feliz por voc estar aqui.
Letcia estava fazendo sinal para Leonardo parar com aquele tipo
de conversa, mas ele no tirava os olhos de Suzana.
_Obrigada, eu tambm estou feliz por participar.
_ E por mim, voc est feliz ? - provocou Leonardo.
_ Leonardo, que tal ns irmos at o refeitrio? - perguntou Letcia
ao perceber que Suzana estava sem graa- Vamos Su?
Como Jessica se aproximou de Suzana e as duas comearam a
conversar, Letcia aproveitar para dar um toque ao amigo.
_ Voc  inacreditvel!
_O que eu fiz?
_Ainda pergunta? Lo, eu no falei para voc ir devagar?
_O que eu falei? Eu nem perguntei como que ela consegue?
_Consegue o qu?
_Ficar mais linda ainda! Hoje ela est acabando comigo. Est uma

                                   115
                          Tnia Gonzales



princesa. Princesa Suzana!
_Depois voc no entende o porqu dela fugir!
Foram at o refeitrio, Letcia sentou-se ao lado da amiga e
Leonardo precisou se afastar, pois Jnatas o convocou para ajudar
a servir.
_ E ento, qual pizza que devo trazer? Estou aqui para serv-los -
disse Leonardo ao se aproximar da mesa onde estavam Suzana,
Letcia, Vitria e Daniel.
_ E a, Leonardo, est precisando de ajuda? - perguntou Daniel.
_No, pode ficar tranquilo j tem um exrcito ajudando, mas e a?
Temos pizza: napolitana, portuguesa, calabresa, atum e  claro que
a famosa pizza de mussarela. Princesa Suzana? Qual  a sua
preferida?
Suzana ficou muito envergonhada, foi Letcia quem tirou a amiga
da incmoda situao.
_ Que tal voc trazer meio a meio? Napolitana e calabresa, todos
concordam? - perguntou Letcia.
Leonardo voltou instantes depois com a pizza pedida por Letcia,
mas mesmo assim insistiu com Suzana.
_ Se voc quiser outro sabor  s me pedir, princesa Suzana.
_ Obrigada, mas no precisa.
_ E voc, quando  que vai comer? - perguntou Letcia.
_Mais tarde, agora eu vou servir outras mesas, seno vo pensar
que  proteo- disse Leonardo afastando-se.
Leonardo retornou aps trinta minutos trazendo uma pizza
portuguesa, sentou-se ao lado de Suzana. Vitria no estava mais
entre eles.
_ Se voc no se importar eu gostaria de saborear esta deliciosa
pizza ao seu lado.
_Fique  vontade.
Letcia e Daniel acompanharam Leonardo, Suzana disse que

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


estava satisfeita.
_ Estava deliciosa, o pessoal caprichou- comentou Daniel.
_Concordo com voc, que tal ns darmos uma voltinha por a? -
sugeriu Letcia- Voc se importa, Suzana?
_ claro que no.
 Leonardo e Suzana ficaram a ss e em silncio por um breve
momento.
_Tem certeza que no quer mais um pedacinho? - perguntou
Leonardo.
_ Tenho sim, obrigada.
_ E a sua v?
_ Est toda animada com os preparativos de amanh.
_Diz pra ela que no precisa se incomodar, pode ser s um
cafezinho mesmo e...
_Voc no conhece a minha v. Pega leve no almoo, porque com
certeza ela vai preparar um banquete.
_No quero dar trabalho.
_ Ela adora, desde que chegou tomou conta da cozinha.
_ Deve ser muito bom t-la por perto, n?
_Ela  maravilhosa! Vamos fazer de tudo para que ela fique mais
tempo aqui... e os seus avs?
_Os pais da minha me moram em Fortaleza, o irmo mais velho
dela mudou-se por causa do trabalho e os levou tambm. Eles
vm aqui uma vez por ano e ns passamos as frias l.  um lugar
maravilhoso! Meu av paterno j faleceu e a minha av mora em
Santa Catarina, ela casou-se novamente. E os seus avs paternos?
_ Tambm moram em Belo Horizonte, mas detestam viajar. Vov
Samuel tem 77 anos e a vov Diva tem 75 anos.
_ Legal! A sua tia Marisa no tem filhos?
_ No. Com a minha tia estava tudo certo, os mdicos sempre
diziam que ela tinha todas as condies para engravidar, uma vez

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                           Tnia Gonzales



o mdico insinuou que poderia haver algum problema com o meu
tio, mas ele nunca concordou em fazer exames para confirmar
isso.
_ Que pena.
_ mesmo uma pena, a minha tia  uma pessoa maravilhosa, tenho
certeza que seria uma excelente me. Ela tem um corao enorme.
Eu s estou estudando por causa da ajuda dela. Ela ficou muito
chateada quando ficou sabendo que eu iria trancar a matrcula da
faculdade, pois estava muito complicado conseguir pagar. Eu no
queria dar despesas para ela, mas ela teve uma conversa bem sria
comigo e me convenceu. Eu percebi que era uma grande bobagem
no aceitar por causa de orgulho.
_ Que bom voc ter mudado de ideia, isso me d esperana.
_ Esperana?
_  isso mesmo, eu ainda tenho esperana que voc aceite ...
_ Uma coisa no tem nada a ver com a outra. Eu no vou aceitar
que voc me busque.
Letcia estava se aproximando com Daniel, mas como viu os dois
conversando, resolveu voltar e sugeriu ao namorado:
_O que voc acha de me levar para casa hoje? No quero
atrapalhar aqueles dois.
_ Est falando srio? E os seus pais?
_ Ele nem vo perceber, vamos? Eu vou ligar para Suzana
avisando.
Leonardo ainda argumentava com Suzana sobre a possibilidade
dela aceitar a carona, quando o celular dela tocou.
_ Al? L? O qu? No tem problema, pode ficar sossegada... 
claro que eu no vou ficar chateada. Um beijo. Tchau- Suzana
desligou o celular e disse - A Letcia j foi embora com o Daniel.
_ Ele vai lev-la para casa? Que legal! Ento, ela resolveu abrir o
jogo com os pais.

                               118
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_ Eu acho que no  bem isso, ela tem certeza que eles no vo
notar.
_ Eu vou procurar a Vitria e pedir que ela te leve para casa.
_ Voc tem algum compromisso?
_Compromisso, eu? No, vou direto para casa... por qu?
_ Por que a Vitria precisa me levar? Voc no...
_ Eu? Eu posso lev-la e quero,  que eu pensei que voc ... sei
l... voc deve estar pensando que eu combinei com a L, olha,
no foi nada disso.
_ Eu no pensei isso, se voc puder me deixar em casa, eu
agradeo.
_ claro que eu posso, voc quer ir agora?
_Quero, por favor.
Leonardo ficou muito surpreso com a atitude de Suzana, na
verdade, ela o havia surpreendido vrias vezes naquela noite. Eles
conversaram como dois amigos e a maior parte do tempo ela
esteve descontrada, nem parecia a mesma garota desconfiada e
distante. Durante o caminho para casa, eles continuaram
conversando. Suzana aproveitou a oportunidade e perguntou por
Paulinha, quis saber se ela havia gostado do livro.
_ No sei se ela vai ler, eu estou muito preocupado... a Paulinha
continua com as mesmas ideias, eu at falei para ela voltar a
estudar. Ela ia fazer faculdade de veterinria e mudou de ideia
para seguir a carreira de modelo.
_ Tomara que ela se recupere de verdade... seria timo se ela fosse
para a faculdade, a Paula precisa ocupar a mente com outras
coisas... precisa parar de se preocupar tanto com a aparncia.
_ Eu tenho a impresso que voc  bem tranquila com relao a
sua aparncia, no ?
_O que voc quer dizer com isso?
_ Espera um pouco, eu no fui claro, eu acho que voc no  do

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                           Tnia Gonzales



tipo que fica toda preocupada com isso... sei l... no que eu pense
que voc no liga para sua aparncia, ou que voc no esteja em
boa forma, no  isso, mas  que eu vejo que voc no exagera na
maquiagem, por exemplo, a sua  bem suave e eu gosto disso...
hoje, por exemplo, eu at comentei com a Leca que voc estava
ainda mais linda, no sei... voc tem uma beleza natural... me
desculpe.
Enquanto Leonardo se atrapalhava todo para explicar sobre a
beleza de Suzana, ela permaneceu em silncio, mas no desviou
os olhos dele.
_Boa noite, Leonardo e obrigada pela carona.
_D um abrao na sua v por mim. Boa noite.
Leonardo foi para casa pensando em como ele havia se
atrapalhado para falar com Suzana sobre a aparncia dela. " O que
foi aquilo?" - pensou alto.
Suzana tambm pensou muito nas palavras de Leonardo, ela
precisou reconhecer que havia gostado de conversar com ele
naquela noite. Pensou tanto nele que at sonhou que os dois
estavam em frente  casa dela conversando bem amigavelmente,
quando, de repente, ela ouviu um estrondo e a seguir Leonardo
caiu no cho todo ensanguentado. Suzana se desesperou e gritou
pedindo socorro.
_ Ele est morto! No adianta pedir ajuda, ele est morto, acabou!
Voc pensava mesmo que poderia pertencer a outro? No
aprendeu ainda que voc  minha?
_No! Algum me ajude! Por favor! Leonardo! Leonardo! No,
no, no...
_Querida? Suzana? Voc est bem? - perguntou vov Vivi.
_Ele morreu! Ele morreu! A culpa  minha... - dizia Suzana.
_Suzana, foi s um sonho, est tudo bem.
_V?- perguntou Suzana ainda confusa- Foi horrvel!

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Querida! Minha neta... eu sinto muito! Voc ainda tem aqueles
pesadelos?
_V, eles desapareceram por algum tempo, mas agora eles
voltaram e esto bem frequentes, desde que eu conheci o
Leonardo... eu no posso ser amiga dele, v, eu no posso!
_Suzana, isso  porque voc est se interessando por ele.
_No, eu no posso! Eu nunca vou me interessar por ningum.
Isso  totalmente proibido pra mim.
_Que histria  essa? Voc merece ser feliz, amar e ser amada.
_No, no posso... v, a senhora sabe muito bem.
_Pare de falar isso! Voc  uma menina linda e sabe de uma coisa?
Est mais do que na hora de voc ter um namorado. Pelo que
dizem, o Leonardo  um timo rapaz e...
_No.
_Voc no concorda com isso? Eu s vou conhec-lo
pessoalmente amanh, mas...
_  justamente por isso que eu devo ficar longe dele... ele  muito
bom e merece algum que tambm seja.
_ Voc  uma menina de ouro,  linda, inteligente, meiga...
_ No, eu no posso engan-lo, ele no merece.
_ Suzana, voc no est enganando ningum.
_ Eu no posso engan-lo... e eu no quero que ele se machuque,
nos meus sonhos ele...
_Querida, so apenas sonhos.




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                          Tnia Gonzales



Captulo 12 Caf especial
Naquela manh de domingo, Suzana foi com a vov Vivi para a
escola bblica. Na noite anterior ela fez a av prometer que a
conversa que elas tiveram seria mantida em segredo. Aps a aula,
vov Vivi pediu para Suzana apresentar Leonardo para ela.
_V, eu no o vi hoje. A Letcia est se aproximando, eu vou
perguntar para ela.
_Vov Vivi, paz! Tudo bem? - cumprimentou Letcia dando um
forte abrao e beijos na vov.
_ Querida! Que bom v-la, est to linda!
_ L, voc viu o Leonardo? A vov quer conhec-lo.
_ Ele no veio hoje. A famlia foi almoar em Jundia, um grande
amigo do pai dele, que  um cliente tambm, est comemorando
porque ganhou um processo complicado. At a Bia foi com o
marido para participar do almoo.
_Ento ele no vai comparecer ao meu caf especial? - perguntou
a vov.
_V, eu no sei, ontem ele no comentou nada comigo sobre o
almoo, mas confirmou que iria em nossa casa hoje, eu at disse
que a senhora estava preparando um banquete e o Leonardo falou
que no gostaria de dar trabalho - explicou Suzana.
_Ele deve ter esquecido que tinha um compromisso com a
famlia... mas  uma pena mesmo.
_Se o Lo confirmou com a Suzana com certeza ele vai chegar
para o caf, fique sossegada vov  assegurou Letcia.
_Voc tambm est convidada! - anunciou a vov.
_A Su j me convocou. Eu no vou perder... j estou ficando com
gua na boca s de pensar!
Vov Vivi foi para casa toda preocupada com a possibilidade de


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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Leonardo no aparecer. s duas horas da tarde Letcia chegou
para ajud-las nos preparativos.
Os sentimentos de Suzana estavam divididos, uma parte dela
queria que Leonardo no viesse, era tudo muito complicado para
ela... por outro lado, se ele faltasse ao caf especial, vov Vivi
ficaria muito decepcionada.
Quinze minutos antes das trs horas, Leonardo tocou a campainha.
Vov Vivi pediu para que Suzana atendesse.
_ Oi, princesa Suzana! Voc est bem?
_ Oi, estou bem e voc?
_ H alguns segundos atrs eu estava muito bem, agora eu estou
timo.
_ Entre, a vov est esperando  disse Suzana ignorando o
comentrio dele.
_ Voc est bem, mesmo? Dormiu bem a noite passada?
_Na verdade eu no dormi muito bem... mas...  melhor ns
entrarmos.
_Vov, o seu convidado chegou! - anunciou Suzana.
_ Voc  o famoso Leonardo? - perguntou a vov.
_ Famoso no.  um prazer conhec-la, vov Vivi, posso cham-la
assim?
_ Mas  claro! Eu estou muito feliz em conhec-lo e aliviada por
voc ter vindo.
_Aliviada? No entendi.
_ A Letcia nos disse que voc foi almoar fora - explicou a vov.
_ Oi, Leca! Que bom te ver  disse Leonardo cumprimentando a
amiga com um beijo.
_ Eu contei para elas sobre o almoo em Jundia  disse Letcia.
_ Ah! A senhora pensou que eu iria faltar a um compromisso to
importante? Os meus pais ainda ficaram l e eu seguindo as
recomendaes da princesa Suzana, peguei leve no almoo, pois

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                           Tnia Gonzales



ela me avisou que hoje aqui teria um verdadeiro banquete.
_A princesa Suzana disse isso, ? - brincou a vov dando nfase
na palavra princesa deixando Suzana mais sem jeito do que ela j
estava.
_  isso mesmo, hum... o cheirinho est timo! Boa tarde, dona
Marina- disse assim que a me de Suzana apareceu.
_Boa tarde, Leonardo.  uma alegria receb-lo aqui.
_Leonardo, quero te agradecer pelos presentes, voc foi muito
gentil, eu ouo todos os dias a palavra de Deus,  uma beno! O
outro presente no existe mais... estava delicioso!- explicou a
vov.
_Por falar em presentes, eu preciso ir at o carro, volto j, com
licena.
_Suzana, acompanhe o Leonardo  pediu a vov.
Suzana s o acompanhou por causa do pedido da av, mas sempre
ficava sem jeito perto dele.
Leonardo tirou do carro um lindo arranjo de flores.
_Leonardo, eu...
_No se preocupe, so para sua v... mas eu tenho que confessar
uma coisa... estas so para voc, me desculpe, no resisti- disse
Leonardo tirando um lindo bouquet de rosas vermelhas do banco
traseiro do carro.
Suzana, em uma atitude totalmente inesperada, comeou a
chorar...
_ Suzana, por que voc est assim? No chore... por favor... eu no
queria faz-la chorar. Me desculpe, o que eu posso fazer?
_A culpa no  sua... eu que peo desculpas, me d s alguns
segundos, preciso me recompor, no posso entrar desse jeito.
Suzana abaixou a cabea pois algumas lgrimas ainda teimavam
em cair, Leonardo se aproximou e tentou enxugar o rosto dela,
mas ela se afastou rapidamente.

                               124
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_ Suzana, voc est com algum problema? Eu fiz alguma coisa
errada? Olha, se no quiser aceitar as rosas tudo bem.
_Eu ... ... eu aceito... voc no fez nada errado, a culpa  toda
minha, me desculpe. Eu s peo que no conte pra ningum sobre
isso.
_Claro, fique tranquila... voc consegue entrar, agora?
Suzana balanou a cabea confirmando e pegou o bouquet das
mos de Leonardo.
_Obrigada, so lindas!
Os dois entraram em silncio.
_Nossa, que flores mais lindas! - exclamou a vov.
_So para a senhora, vov! - disse Leonardo.
_Obrigada, querido, voc  um cavalheiro! Agora, vamos comer?-
vov deu uma rpida olhada para a neta, mas preferiu no fazer
comentrio sobre as rosas vermelhas.
Vov Vivi havia preparado um bolo especial de fub cremoso,
bolo de chocolate, pezinhos folhados de ma e dois tipos de
pes com recheios salgados e bolachinhas de nata. Para beber
havia caf, ch, leite e suco de acerola com laranja que Marina
havia feito em sua centrfuga.
_ Nossa...  um verdadeiro banquete! Vov Vivi, a senhora no
precisava exagerar, deve ter passado horas na cozinha - disse
Leonardo.
_Fiz tudo com muito carinho e amor, pode ter certeza disso e 
claro que deu trabalho, mas  um tipo de trabalho que d prazer,
sabe? Ao v-los devorar tudo isso, eu terei a minha recompensa-
afirmou a vov para em seguida fazer uma orao- " Pai, eu te
agradeo por este momento especial, te agradeo pela vida do
Leonardo que  um bom rapaz, tambm te louvo pela vida dessa
menina linda chamada Letcia, a amizade dela  uma beno para
minha neta e te agradeo pela minha famlia, eu os amo muito. E 

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                          Tnia Gonzales



claro que dou graas pelo alimento que nos tem dado. Oro em
nome de seu filho amado Jesus, amm."
_ Podem se servir, fiquem  vontade  disse Marina.
_ Vov, esse po folhado  delicioso! Adorei! - elogiou Leonardo-
E o seu Davi?
_ Ele precisou levar o patro para uma festa hoje- explicou
Marina- Esse servio de motorista particular  assim.
_Leonardo, no fique tmido, sirva-se  vontade  pediu a vov.
_Eu no estou tmido, pode ficar tranquila, eu me sinto bem 
vontade aqui com vocs... e parabns, est tudo maravilhoso!
Aps o caf, vov pegou algumas fotos.
_ V, ele no est interessado em ver fotos- disse Suzana.
_ claro que eu estou! Principalmente se tiver alguma foto sua
quando era beb.
_Eu tenho sim, nesta foto aqui Suzana tinha 1 aninho.
_Que gracinha! E aqui? - perguntou Leonardo ao ver outra foto.
_Aqui ela tinha uns 5 anos, no era uma princesinha?
_Era uma princesinha, agora  uma verdadeira princesa  o
comentrio de Leonardo fez Suzana corar.
_Suzana, no precisa ficar com vergonha, ele tem toda a razo, a
minha neta  uma princesa.
_V, quer parar com isso? E a Sueli, hein? - perguntou Suzana
para deixar de ser o centro das atenes.
_Ela tinha uma reunio do grupo, ... qual o nome mesmo? -
perguntou Marina.
_Grupo gape. Hoje, depois do culto ns vamos participar de um
campeonato de boliche contra o grupo dela- anunciou Suzana.
Letcia e Suzana comearam a conversar sobre o campeonato de
boliche e os outros compromissos que teriam na prximas
semanas enquanto Leonardo e a vov Vivi olhavam os lbuns de
fotografia.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_ E esse pssaro? Suzana tem vrias fotos com ele... - perguntou
Leonardo.
_  a Meg,  uma calopsita que era de Suzana. A minha neta
resolveu me dar de presente dois dias antes de se mudarem para
c, eu fiquei to emocionada, me apeguei muito a esse bichinho...
mas a Suzana sente muitas saudades dela, olha... esta foto eu tirei
um dia antes de viajar , fiz um porta retrato e dei de presente para
Suzana.

_Bom... eu agradeo por tudo, vov, mas agora eu preciso ir 
disse Leonardo quase cinco horas da tarde.
_Eu adorei a sua visita e vou marcar para voc vir almoar ou
jantar aqui qualquer dia desses- foram as palavras da vov Vivi-
A Suzana vai te acompanhar e v se a convence sobre aquele
assunto- pediu a vov.
_V, que assunto? - quis saber Suzana.
_Qual seria? Sobre ele te buscar no servio,  claro.
_ Ainda isso? V, eu j conversei com ele e com vocs tambm...
_Voc  muito teimosa!  linda, mas tambm  teimosa!
_V, por favor! Isso no tem nada a ver.
_Nada a ver  a sua me ou seu pai ir at l para te buscar...
 _Eu concordo, eu j falei pra mame que  um absurdo!
_Eu j falei que voc no vai mais voltar sozinha! - disse Marina.
_Vamos parar com isso? O Leonardo no precisa ouvir este tipo de
conversa, n? - pediu Suzana.
_No se preocupe comigo e voc sabe muito bem que eu estou 
sua disposio,  s dizer sim- disse Leonardo.
_J conversamos sobre isso e voc sabe qual  a minha resposta.
_Se voc mudar de ideia  s me avisar.
_Agora voc est de frias mas quando as aulas recomearem vai
ser uma correria... se pelo menos voc aceitasse a carona de

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                           Tnia Gonzales



Leonardo chegaria mais cedo em casa... - disse Marina tentando
convencer a filha.
_ Quantas pessoas fazem o mesmo todos os dias, a vida  assim.
As coisas no so fceis- constatou Suzana.
_Voc tem razo, mas se d para facilitar ... - Marina foi
interrompida pela filha.
_Me, chega! Eu vou acompanhar o Leonardo at o porto.
Leonardo se despediu e seguiu Suzana pelo corredor.
_ Suzana? Por que voc...
_Leonardo, se voc vai me perguntar sobre o que aconteceu aqui
naquela hora das flores, pode esquecer.
_ Eu s estou preocupado com voc.
_Eu estou bem,  cansao, eu dormi muito mal a noite passada...
eu estou pensando que... eu acho que no vou participar do
campeonato... assim eu posso me deitar mais cedo.
_Voc vai fazer muita falta.
_No vou no, eu nem sei jogar boliche, s joguei uma vez com as
meninas da loja.
_ Mesmo assim, s de voc estar l seria um grande incentivo,
especialmente pra mim. Bom,  melhor eu ir... a sua v 
maravilhosa e adorei ver as suas fotos e... estar perto de voc ...
_Leonardo, por favor!
_Tudo bem, eu vou parar... mas, s um coisa , agora que voc est
de frias da faculdade o que voc acha que almoar comigo
qualquer dia desses, hein?
_Eu... no sei se vai dar.
_Pense com carinho. Tchau, princesa Suzana.
_Tchau! E obrigada por ter vindo, foi muito importante para
minha v.
_E pra voc?
_Voc no tem jeito mesmo... tchau!

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Ao chegar em casa, a me de Leonardo o estava esperando com
algumas perguntas. Beatriz tambm estava l.
_Quem  essa pessoa que o convidou para um caf especial?
_ a me da Marisa.
_ Me da Marisa? Mas, qual o motivo? No entendi.
_A mame est desconfiada de voc, cuidado! - brincou Beatriz.
_Desconfiada do qu? Eu fui convidado e aceitei o convite.
_Leonardo, como que a me da Marisa te conhece?
_Mezinha querida, a me da Marisa  a vov Vivi, que est
passando uns dias na casa das filhas.
_Tudo bem, mas por que ela iria convid-lo?
_Ai, ai, ai, ai... me, o que est passando na sua cabecinha, hein?
_ Esta histria  muito estranha.
_ No tem nada de estranho, acontece que a Letcia, que tambm
participou do caf...
_Agora ela comeou a gostar da histria- disse Beatriz
interrompendo o irmo.
_Como eu estava dizendo... a Letcia me contou que a vov Vivi
no pode mais ler por causa de problemas na viso, nem com os
culos ela consegue mais, como ela lia muito a Bblia, eu dei de
presente para ela CD's da Bblia, ela ficou extremamente grata e
me convidou para um caf, pois queria me conhecer, satisfeita?
_Parabns! Foi um gesto muito bonito... mas mesmo assim, eu no
sei... voc anda muito diferente e a Sandra tambm acha que a
Letcia est escondendo alguma coisa dela.
_Escondendo? Me...
_A Sandra est desconfiada que vocs dois esto namorando
escondidos.
_Como  que ? Por que eu e a Letcia iramos namorar
escondidos? Voc ouviu isso, Bia?
_Elas sonham tanto com isso que at ficam inventando que h um

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                           Tnia Gonzales



mistrio no ar- brincou a irm.
_  o que a Sandra est pensando, mas eu tambm acho que voc
anda me escondendo algo, mas no penso que seja isso.
_Eu vou tomar banho est quase na hora do culto, beijos para as
duas ou melhor para as trs- disse Leonardo passando a mo na
barriga da irm- ou beijos para os trs?
_Vamos esperar para ver, mas para mim o importante  que seja
um beb saudvel- disse Beatriz.
_  isso a, minha irmzinha! Voc  a grvida mais linda deste
mundo!
_Exagerado!
_Filho, a Marisa tem uma sobrinha que deve ter a idade da
Letcia, no ? Qual o nome dela?
_Suzana, depois a gente conversa mais, agora eu vou tomar
banho.
Antes de entrar debaixo do chuveiro, Leonardo ligou para a
amiga.
_Como ? Minha me acha que ns dois estamos namorando
escondidos?
_ isso a! Leca, eu j te aconselhei a abrir o jogo com seus pais.
A sua me j percebeu que existe algum segredo... ela tendo esse
tipo de pensamento s vai piorar as coisas para o seu lado.
_Valeu, amigo! Eu vou tomar uma deciso, at o prximo
domingo eu falo com eles.

Os dois grupos da REMA foram para o shopping participar do
torneio de boliche. Suzana decidiu ir para casa descansar, mas
antes avisou os lderes de seu grupo. Ela e Leonardo no tiveram
oportunidade para conversar.
Faltavam dez minutos para a meia-noite quando Sueli chegou em
casa, pois ela havia participado do torneio.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 13 - Por um fio
Mais uma semana se passou, Suzana estava inconformada com a
situao; o pai dela a estava buscando todos os dias. O grupo
REMA saiu na quinta-feira mas ela no pde ir. J fazia quase
uma semana que ela no via Leonardo. " Ele deve ter desistido da
ideia de me buscar"- pensou ela naquela noite de sbado.
Domingo ela foi  igreja mas tambm no o viu. Queria perguntar
para Letcia mas a ltima coisa que ela desejava era demonstrar
algum interesse por ele.

O celular de Leonardo tocou s trs horas da manh, era uma voz
desesperada de mulher.
_Eu no sei o que fazer... ela caiu e ficou parada sem se mexer, eu
estou com tanto medo de perd-la!
_ Calma, Regina! Voc chamou o resgate?
_Eles esto aqui.
_ Regina, o seu marido est a?
_O Paulo, aquele... ele s pensa nele mesmo, sabe aonde ele est?
Em Campinas.
_Eu vou at a...
_V direto para o hospital...
_Tudo bem... mantenha a calma, confie em Deus.
Leonardo trocou-se rapidamente e foi at o quarto dos pais para
avis-los. Rafael resolveu acompanh-lo.
_O Paulo Reis no tem jeito! Mesmo com a filha doente ele
continua com o mesmo ritmo... - disse Lgia inconformada.
Ao chegarem logo encontraram com Regina.
_Que bom que vocs vieram, at a minha irm precisou fazer uma
viagem rpida e a Aline foi junto.

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                           Tnia Gonzales



_Como ela est? O que aconteceu? - perguntou Leonardo ansioso.
_Eles no me deixaram ficar com ela. Eu estava dormindo, mas
como eu tenho o sono muito leve acabei acordando com um
barulho, fui at o quarto dela... ela estava cada no cho, sem se
mexer, estava to plida!
_Ela deixou de seguir a dieta passada pelo mdico? - foi a
pergunta de Rafael.
_A Paulinha fazia as refeies direitinho, eu ficava esperando ela
terminar para depois sair para a loja.
Aps uma hora, um mdico veio dar uma notcia nada animadora.
_Sra. Regina, a sua filha est muito fraca... desde quanto que ela
no se alimenta?
_ Ela faz as refeies todos os dias, eu permaneo ao lado dela at
que ela termine...
_Isso  impossvel, ela no tem se alimentado h muitos dias...
_No pode ser... eu vejo ela comendo.
_Ento s pode ser uma coisa: ela come e provoca o vmito. Isso
acontece muito... ela come para satisfazer a senhora e depois,
como no quer engordar, provoca o vmito- explicou o mdico
para desespero de Regina- Vocs so...
_ Somos amigos dela  explicou Rafael.
_Ela vai precisar permanecer na U.T.I, a senhora pode
acompanh-la;  melhor os senhores voltarem para casa, no vai
adiantar permanecer aqui. Boa noite.
_ Regina, se precisar de alguma ajuda  s nos ligar, estaremos
orando para que a Paulinha saia desta situao  disse Rafael.
_ Eu deveria ter percebido que ela estava fingindo- foi o
comentrio de Leonardo ao sarem.
_Como voc iria saber se a prpria me que passa mais tempo
com ela no percebeu?
_s vezes eu me sinto um pouco culpado.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Filho, por que isso?
_Por t-la feito escolher. Quando ela era minha namorada eu disse
que ela deveria fazer uma escolha... se eu no a tivesse
pressionado, talvez...
_Leonardo, isso no faz nenhum sentido. O namoro acabou
porque no havia amor. No fique se culpando. Ela vai se
recuperar, voc vai ver.

Regina olhou para o rosto da filha. Como doa v-la ligada a
vrios aparelhos. As lgrimas comearam a rolar, o corao da
sofrida me estava apertado. Em pensamento ela clamava: " Meu
Deus, no leve a minha filha, eu vou cuidar melhor dela, eu
prometo. Por favor, meu pai! Tenha misericrdia de mim."

Naquela segunda-feira pela manh estava difcil para Leonardo se
concentrar no trabalho, ele no conseguia parar de pensar em
Paulinha, ligou para Regina mas ela no tinha nenhuma novidade.
Saiu para almoar com seu pai, mas quase no tocou na comida.
_Filho, no fique assim! Voc precisa se alimentar; no vai ajudar
em nada voc ficar a se culpando. A Regina falou alguma coisa
sobre o Paulo Reis?
_Ele no sabe de nada. Ela disse que no vai avis-lo; est muito
magoada.
_Ele precisa saber, a Regina no pode fazer isso!
_Foi o que eu disse, mas ela est irredutvel.

No shopping Suzana estava tendo uma conversa com a amiga
Cludia.
_Se voc est to preocupada com o seu pai, por que voc no
aceita a carona daquele gato?
_Ah... eu no sei.

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                           Tnia Gonzales



_Suzana, pare de bobagem! Pense bem: o seu pai deve ficar
exausto,  bem distante, concorda?
_ claro que eu concordo. Eu j disse vrias vezes que isso 
totalmente desnecessrio, mas no consigo convenc-los.
_Ento, a nica soluo  aceitar a carona do gato. Que sacrifcio!
Estou com pena de voc- ironizou a amiga- Por que voc no faz
um acordo com os seus pais?
_Acordo?
_Quando as aulas recomearem eles vo querer lev-la para a
faculdade tambm, a voc pode fazer um acordo com eles: voc
aceita a carona do gato  noite se eles no inventarem de lev-la
para a faculdade.
Depois da conversa com Cludia, Suzana fez uma ligao para o
pai.

 tarde, Leonardo ligou novamente para Regina e as notcias eram
as mesmas. Ele ainda tentou convenc-la a ligar para o marido,
mas no obteve sucesso.

s quatro horas da tarde, o celular dele tocou.
_ Al? Suzana? Oi, que surpresa!
_ Voc est muito ocupado? Eu...
_Pode falar, Suzana. Voc est bem?
_Estou, obrigada. E voc?
_Eu... ... no estou muito bem.
_O que aconteceu?
Leonardo contou para Suzana tudo o que havia acontecido desde o
telefonema da madrugada passada.
_Que triste! Como  possvel uma moa to linda e inteligente
chegar a ter uma atitude dessas, isso  uma agresso ao prprio
corpo! Eu posso ajudar em alguma coisa?

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     Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Ore por ela, Suzana! Eu peo a Deus que ela ...
_Tenha f, ela vai ficar bem. Eu vou desligar, no quero te
incomodar mais.
_Ei, espera a, voc no ligou s pra ouvir a minha linda voz...
_Depois de tudo o que voc me contou eu fiquei meio sem jeito...
_Que isso, Suzana! Pode dizer.
Ento Suzana contou sobre o acordo que ela havia feito com o pai.
_Isso quer dizer que hoje eu vou poder busc-la?
_ isso mesmo. Mas, se voc precisar ir at o hospital...
_Eu vou no final da tarde... e  noite com certeza eu estarei a para
te buscar, voc salvou o meu dia hoje, eu confesso que estava
muito desanimado.
_No desanime, ela vai sair dessa. Se voc tiver algum problema
para me buscar hoje,  s me avisar.
_ Pode ficar tranquila, eu estarei a antes das dez- garantiu
Leonardo.
 Leonardo despediu-se de Suzana e mal havia acabado de colocar
o celular em sua mesa, quando ele tocou novamente, era Regina
pedindo para que ele fosse at o hospital, pois Paula havia
chamado por ele durante a tarde toda.
_ Eu conversei com o doutor Romeu e ele autorizou a sua entrada-
explicou Regina ao encontrar-se com Leonardo na recepo do
hospital.
Aps uma rpida preparao, ele pde entrar na U.T.I.
_Linda, voc est me ouvindo? - perguntou ao aproximar-se do
leito de Paulinha.
_Lo? Lo... -       respondeu Paulinha com uma voz quase
inaudvel.
_Sou eu... fique tranquila!
_Meu Lo, eu pre-ci-so fa-lar - disse bem pausadamente.
_Minha linda, no faa nenhum esforo.

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                             Tnia Gonzales



_E-u que-ro pe-dir... per-do ... co-lo-quei o li-vro na ga-ve-ta...
_Paulinha, pare de falar... primeiro voc precisa se recuperar.
_Eu... no li... des-pre-zei... o pre-sen-te... vo-c deu com ca-ri-
nho...
_No tem problema, minha linda, quando voc sair daqui...
_Eu...no... vou ter mais u-ma chan-ce... fui m... eu...
_Voc  uma menina maravilhosa,  claro que vai ter mais uma
chance, Deus vai permitir que voc saia deste hospital. Agora no
se esforce mais, por favor!- pediu Leonardo segurando a mo da
amiga.
_Pre-ci-so fa-lar... re-ce-bi tan... tan-tas vi... vi-si-tas e no... dei
va...va-lor... me perdoa- as palavras saam com muita dificuldade.
_Linda, pare de falar, tudo vai ficar bem. Muitas pessoas esto
orando por voc.
_Eu... no me...me-re-o.
_Merece sim, minha linda, voc vai sair daqui.
_Vo-c ... um an...an-jo... sempre cui-dan-do de mim... me pepe...
me perdoa.
_Paulinha, voc no precisa pedir perdo para mim, me escuta...
voc precisa descansar- ao dizer isso, Leonardo percebeu as
lgrimas no rosto da amiga, passou os dedos levemente para
enxug-las.
Neste momento, entrou uma mulher.
_Leonardo? Como ela est? - perguntou Marina.
_A senhora trabalha aqui? - perguntou Leonardo ao ver a me de
Suzana.
_ No... eu vim para visit-la, a Suzana me contou, ento como
vou entrar no servio s sete horas, aproveitei para dar uma
passada por aqui. A enfermeira que est cuidando dela  minha
amiga,  uma excelente profissional.
_ timo saber disso.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Agora voc precisa sair, ela vai dormir .
_Tudo bem...s vou me despedir dela. Paulinha? Amanh eu
volto... por favor, no desista.
Leonardo deu um beijo na testa da amiga e em seguida saiu da
U.T.I, acompanhado por Marina.
_ Fique tranquilo, ela vai ficar bem- disse Marina.
_ Assim eu espero... do muito v-la desse jeito.
_Ela est bem fraca, mas logo se recupera, voc vai ver.
_ Eu vou buscar a Suzana hoje, ela me ligou.
_Eu estou sabendo, fiquei muito aliviada com a deciso dela. Eu
te agradeo.
_No precisa me agradecer, eu fao isso com um sorriso enorme
no rosto, hoje est complicado para demonstrar; quando a Suzana
me ligou eu quase no acreditei.
_A minha me ficou muito contente, ela quer conversar com voc
e marcar um almoo.
_Que timo, pode falar pra ela que  s marcar, com certeza eu
estarei l.
_Eu falo sim, agora eu preciso ir e fique tranquilo, Leonardo, a sua
amiga vai se recuperar, fique na paz.
_ Eu tambm vou embora, a senhora quer uma carona?
_No  necessrio, antes de ir para o hospital eu vou passar em
uma loja aqui perto.

Leonardo aproveitou para fazer uma visita  irm, pois sabia que
naquele dia ela havia comparecido a uma consulta de pr-natal.
_E ento, como o beb est?
_Est bem, graas a Deus. Estou mais tranquila agora. E a Paula
est melhor?- perguntou Beatriz.
_ Est na mesma. Ela conversou comigo hoje, est to fraca, a voz
dela quase que no saa...

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                           Tnia Gonzales



fiquei arrasado.
_Ah, Lo, Deus ajude que ela fique bem.  to jovem e bonita!
Essa loucura de querer ter o corpo perfeito... isso precisa mudar...
essas meninas fazem tanto sacrifcio!
_ Eu espero que ela se recupere,  muita dor para uma me; como
 difcil ver o sofrimento da Regina!
_As mes querem a felicidade dos filhos, desejam que os sonhos
deles se tornem em realidade. De repente voc v o seu maior
tesouro em um hospital, com a vida por um fio, abala a estrutura
de qualquer um. E voc se alimentou direito, hoje?
_No estava com fome... comi pouco no almoo.
_Ento voc vai jantar aqui, o Bruno j deve estar chegando.
Leonardo aceitou o convite da irm. Bruno, como Beatriz havia
previsto, logo se juntou a eles. s nove horas e quinze minutos,
ele saiu para buscar Suzana. Ficou esperando por ela durante uns
20 minutos. Ao v-la se aproximar, seu corao acelerou... era
difcil disfarar os sentimentos que ela provocava nele, era uma
sensao maravilhosa saber que ela estava se aproximando e que
eles sairiam dali juntos e melhor ainda: Suzana havia ligado para
ele e sabia que ele estaria esperando por ela.
_Oi, Leonardo, esperou muito?
_ S um pouco, por voc eu esperaria o quanto fosse preciso.
O comentrio dele deixou Suzana sem reao, ela no estava
esperando algo to direto, por isso ele mesmo precisou desfazer o
constrangimento.
_ Eu vi sua me hoje l no hospital.
_ mesmo? E como a Paula est?
_Na mesma. Bom, ela conversou um pouco. Ela est muito fraca,
a voz saiu com muita dificuldade. Ela queria se desculpar, fez
questo de me dizer que no leu o livro que eu dei...  melhor ns
irmos at o carro.

                                138
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Ao entrarem no carro, Suzana perguntou:
_ O mdico no disse nada?
_Ele diz que o estado dela  muito delicado... sabe, Suzana,
quando ela estava falando eu fiquei com muito medo de que ela
estivesse se despedindo, eu... fiquei orando em pensamento,
pedindo a Deus que no a levasse... enquanto eu ouvia aquelas
palavras que ela pronunciava com tanto esforo um medo terrvel
se apoderou de mim, se ela ... se ... acontecesse o pior...
Suzana sentiu que Leonardo estava sofrendo muito com a situao
da amiga, ela queria ter a capacidade de consol-lo, ela sabia que
ele estava necessitando de um ombro, mas qualquer tipo de
contato fsico era muito complicado para ela, por isso se limitou a
dizer:
_ Calma... confie em Deus, ela vai ficar bem.
_E se ela... Suzana, s vezes eu me sinto culpado.
_Culpado? Como assim?
_Se o nosso namoro no tivesse terminado quem sabe ela poderia
at estar na faculdade. Eu no sei...
_Leonardo, isso  um absurdo. Ela fez uma escolha. Nesta vida
ns sempre temos que escolher algo e se a escolha for mal feita
vamos precisar arcar com as consequncias.
_Acontece que eu a fiz escolher, as opes eram: eu ou a carreira
de modelo, ela escolheu a carreira. Se eu no a tivesse
pressionado, se ...
Leonardo abaixou a cabea e Suzana se viu novamente no
mesmo dilema: o que deveria fazer? Como consol-lo? Ela sentia
que naquele momento ele estava precisando ser tocado. Ele
permaneceu em silncio e na mesma posio. Suzana comeou a
mover uma das mos em direo a ele. Leonardo estava com uma
mo segurando o volante e com a outra em uma das pernas e foi
nesta que Suzana tocou. Aquele toque fez Leonardo levantar a

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                          Tnia Gonzales



cabea e olhar diretamente para os olhos dela.
_Vai dar tudo certo- disse Suzana e em seguida afastou a mo.
_Bom...  melhor sairmos do estacionamento.
Os dois ficaram em silncio a maior parte do caminho.
_ Semana passada eu estive trabalhando muito, nem consegui
participar da REMA e tambm no fui ao culto domingo.
Trabalhamos at tarde todos os dias.
_Ah... at domingo?-perguntou Suzana.
_Isso mesmo, mas conseguimos colocar tudo em ordem. Eu fiquei
com... saudades. Ser que voc tambm sentiu...
_... eu no pude participar da REMA, mas fui ao culto, agora eu
estou entrando s 9h nos dias de domingo.
_Que bom, assim voc pode participar dos cultos; Suzana, eu
gostaria de dar uma explicao... eu mencionei o namoro, mas
isso no quer dizer que h alguma possibilidade de eu e a
Paulinha reatarmos, com certeza no h... eu s quero o bem
dela... ela  uma menina incrvel, eu gosto muito dela como
amigo. Eu quero que fique bem claro isso.
_Leonardo, voc no precisa me dar este tipo de explicao, eu...
_Eu achei melhor esclarecer isso.  uma pena, mas j chegamos.
_Ento... boa noite e obrigada.
_Boa noite, Suzana. Durma bem.
Com um sorriso tmido, Suzana saiu do carro.
 O pai de Suzana, estava assistindo TV; ela o cumprimentou com
um beijo e ele perguntou:
_ Est tudo bem? Qual  a sua opinio sobre voltar para casa de
carro?
_Pai,  claro que  muito melhor, n? Eu no vou ser hipcrita. Eu
estou bem e o senhor?
_Hipcrita, que palavra forte! Eu estou bem. Que tal voc fazer
uma "boquinha"? A comida ainda est quentinha.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Eu vou tomar um belo banho e depois eu vou beber um iogurte.
_S isso? Suzana! Voc almoou bem? Fez um lanche no incio da
noite?
_Almocei muito bem e tambm lanchei. Satisfeito, agora?
_Mais ou menos. E a moa que est internada, tem alguma notcia
dela?
Suzana falou sobre o estado de sade de Paulinha e mencionou a
visita da me ao hospital.
_Agora eu vou tomar um belo banho! - disse Suzana.
Aps o banho, Suzana pegou um iogurte na geladeira e uma fatia
de po de forma com requeijo, foi para seu quarto com um prato
na mo. O celular tocou assim que ela entrou. Era Leonardo,
constatou ao olhar no visor. "Ser que aconteceu alguma coisa
com a Paulinha?"- pensou Suzana.
_Oi, Leonardo, o que aconteceu? - perguntou ansiosa.
_Calma, por que voc est to apavorada?
_Voc recebeu alguma notcia da Paulinha?
_Ah... eu no fiquei sabendo mais nada; eu nem pensei nisso, me
desculpe. No imaginei que voc ficaria preocupada ao receber
uma ligao minha.
_Tudo bem. Mas, por que voc ligou?
_Eu poderia inventar uma desculpa qualquer, mas a verdade  que
eu ... queria ouvir a sua voz, foi s isso.
_Ento me pergunta alguma coisa.
_Como ?
_Se voc quer ouvir a minha voz vai precisar me fazer perguntas,
vou esperar por elas bem quietinha.
Leonardo ficou surpreso com a reao de Suzana.
_Voc est certa. Eu vou comear o interrogatrio, est
preparada?- brincou Leonardo.
_Estou esperando.

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                           Tnia Gonzales



_O que voc estava fazendo antes de falar comigo?
_Eu estava segurando um prato.
_Segurando um prato? O que h nele?
_Uma fatia de po de forma com requeijo e na outra mo estava
com um copo de iogurte.
_S isso? Voc se alimentou bem hoje?
_Sim, senhor. Eu almocei muito bem.
_Depende o que voc chama de muito bem. Descreva o seu
almoo pra mim.
_Eu cheguei em um restaurante self service e... no... espera, antes
disso eu encontrei uma amiga que trabalha comigo, ns
almoamos juntas.
_Voc est brincando comigo e eu estou adorando isso.
_Brincando? Voc que pediu para eu descrever o meu almoo e
como voc quer ouvir a minha voz eu vou ser bem detalhista.
_Voc est me surpreendendo, sabia?
_Eu? Vou continuar... tudo bem, vou pular algumas partes, t? Eu
fiz um prato bem colorido: arroz, feijo, bife  rol, refogado de
chuchu... salada de beterraba, alface com tomate e cebola e ainda
peguei um pouquinho de uma salada de berinjela. Bebi suco de
abacaxi. Aprovou a minha dieta?
_Gostei. Fico feliz que voc esteja se cuidando. Suzana, eu... vou
desligar.
_Nossa, j cansou de ouvir a minha voz?
Leonardo estava cada vez mais surpreso com as palavras de
Suzana.
_Quem  voc? Eu acho que liguei para o nmero errado.
_No posso brincar um pouquinho?
_Pode. Eu pensei vrias vezes se deveria mesmo ligar. Fiquei
discutindo comigo mesmo. "Que ideia  esta de ligar pra ela?
Vocs acabaram de se encontrar." O outro Leonardo dizia: " Qual

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


 o problema? Eu estou com vontade de ligar e  isso mesmo o
que eu vou fazer." Foi uma discusso feia, mas venceu o melhor
argumento.
_Depois sou eu que estou brincando, n?
_Eu no estou brincando, princesa Suzana. Eu acho que vou ligar
mais vezes, pelo celular ns estamos nos entendendo melhor.
_ mais fcil, no preciso enfrentar o seu olhar envolvente.
_Definitivamente voc no  a Suzana. Me diga quem  voc e o
que fez com a minha amiga?- disse Leonardo dando uma
gargalhada.
_Voc est se divertindo comigo, ?
_Eu estou desfrutando de uma agradvel conversa com voc. Pelo
telefone voc est mais solta, as palavras esto fluindo
naturalmente, mas eu confesso que mesmo assim eu ainda prefiro
falar com voc pessoalmente; nada substitui estar diante dos seus
lindos olhos verdes. Eu adoro olhar para o seu rosto, voc tem uns
traos to delicados e...
_Agora voc est abusando da minha boa vontade.
_, voc tem razo. Eu vou desligar, mas estou feliz e satisfeito
comigo mesmo por ter tomado a deciso certa. Suzana, boa noite e
durma bem, at amanh.
_Boa noite, Leonardo. At amanh.
Suzana tambm estava surpresa com a prpria atitude. Era
exatamente como Leonardo havia explicado. A conversa entre os
dois fluiu de maneira natural, Suzana se sentiu muito bem. "Pelo
menos  distncia eu consigo esquecer os meus medos e receios,
com certeza  porque no existe a possibilidade de qualquer
contato fsico." - pensou Suzana.

No dia seguinte, Leonardo foi at o hospital antes mesmo de ir
para o escritrio. Ligou para o celular de Regina, encontraram-se

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                          Tnia Gonzales



na recepo.
_Como ela passou a noite? - perguntou Leonardo.
_Dormiu a maior parte do tempo, graas a Deus. Posso considerar
que foi uma noite tranquila. O mdico me disse que ela est
reagindo bem, est bastante otimista, bem diferente do dia
anterior.
_Que boa notcia, Regina. E o Paulo?
_Ele est l com ela, chegou ontem  noite. Ficou uma fera, disse
que eu deveria ter avisado.
_Regina, ele est certo. Ele  o pai dela, os problemas que vocs
dois esto enfrentando precisa ficar em segundo plano, pelo
menos por enquanto.
_Ah, voc est certo.
_Agora eu vou trabalhar, mas eu volto  tarde para v-la, diz isso
pra Paulinha.
_Eu digo, sim. Eu agradeo todo o seu carinho, eu sei que voc 
muito especial pra ela. A Paula o admira muito.
Antes de chegar ao estacionamento do hospital, o celular de
Leonardo tocou.
_Leca?
_Me desculpe ligar to cedo, mas eu precisava falar com voc. E
a Paulinha?
Leonardo deu a boa notcia para Letcia.
_ Que timo! Lo, ontem a minha me veio com uma histria...
bom, ela acha que ns dois estamos namorando escondido.
_A minha me comentou isso comigo tambm.
_Lo, voc no est entendendo, ela cismou com isso. Eu ia falar
com eles, domingo, mas...
_L, eu acho que agora  a hora certa. Ela est desconfiada porque
voc tem se encontrado com o Daniel, no ?
_ isso mesmo, s que ela acha que  com voc. A sua me tem

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


uma parcela de culpa, nesta histria. Ela disse que voc est muito
misterioso. Acontece que os nossos horrios esto coincidindo. A
sua me acha que voc no foi participar de um caf especial
naquele domingo e a minha tambm no, elas pensam que ns
dois inventamos isso.  mole? Contamos a verdade e elas no
acreditam. Para completar, ontem eu sa com o Daniel e voc foi
buscar a Suzana. A imaginao delas est correndo solta... hoje no
caf da manh a minha me me deu um abrao e disse: " Como
eu esperei por este dia! "
_Mes! Por isso mesmo voc deve esclarecer tudo.
_Agora que eu estou com mais receio ainda. Voc no ouviu a
minha me. " Filha, eu estou to feliz, no estou entendendo o
porqu de tanto mistrio, mas se vocs querem assim! Eu sei que 
muita presso em cima de vocs dois, mas  porque ns queremos
o melhor. Como eu pedi a Deus que vocs se decidissem! " Lo, o
pior  que ela no me ouve, eu digo que ela est confundindo tudo
e  como se eu no dissesse nada.
_Calma, L. Mas eu continuo com a opinio de que voc deve
esclarecer tudo o mais rpido possvel. Esta situao  muito
injusta para o Daniel.
_Ah, meu amigo! Eu preciso desligar, eu estou com tanto medo
da reao deles.
Letcia tinha todos os motivos para ter medo da reao dos pais. A
notcia de seu namoro cairia como uma bomba, principalmente
para sua me.




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                          Tnia Gonzales



Captulo 14  Boas notcias
Naquela noite, durante o jantar, Lgia teve uma conversa com o
filho.
_Leonardo, eu sei que voc no gosta deste assunto, mas eu
preciso falar com voc.
_Que assunto, me? No vai me dizer que...
_ isso mesmo, voc e a Letcia. A Sandra ficou o dia inteiro
falando sobre isso. Ela diz que a Letcia est escondendo alguma
coisa, ela acha que existe algum segredo. E voc sabe qual  a
suspeita dela?
_Eu sei e ela est enganada.
_Diz a verdade pra mim, voc a Letcia esto namorando?
_Me, por que eu e a Letcia teramos a necessidade de esconder
isso? No entendo. Isso  o maior sonho de vocs. No estamos
namorando.
_Ento o que est acontecendo? Eu tambm tenho a impresso
que h alguma coisa no ar. Filho, voc no est pensando em... a
Sandra me fez uma pergunta que no me sai da cabea.
_Que pergunta, me? E o pai, hein? Preciso que ele me salve.
_Ele e o Fernando foram jantar com um cliente. Leonardo, voc
est pensando em voltar a namorar a Paula s porque ela est
doente?
_Como vocs duas viajam... me! No d pra entender... primeiro
a Sandra pensa que eu e a filha dela estamos namorando, depois
ela pergunta se eu vou voltar a namorar a Paula?
_Ela acha que  justamente por isso que vocs no oficializam o
namoro. Vocs preferem esperar que a Paula se recupere. E ao
mesmo tempo ela tem medo que a Paula pea para voltar e voc
aceite por pena.


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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Que confuso! Como vocs conseguem?
_Filho, h alguma possibilidade de isso acontecer?
_Me, eu no vou voltar a namorar a Paulinha, ela est precisando
de amigos e eu sou um deles. De repente foi algo que eu disse que
formou toda essa confuso, no dia da internao da Paula eu
comentei com o papai que me sentia culpado por t-la feito
escolher, eu pensei que se tivesse acontecido tudo diferente, quem
sabe ela no teria passado por isso. Agora, quanto ao meu
namoro secreto com a Letcia, isso no tem o menor fundamento.
Fui claro? Eu vou escovar meus dentes, preciso sair.
_Est vendo s?  isso. Por que voc vai sair agora?
_Me? Eu vou dar uma sada.
_Aonde voc vai?
_Que isso? Eu vou sair um pouco. No vou demorar.
Leonardo no queria mencionar o nome de Suzana, j estava tudo
to confuso! Mas ele sabia que no iria conseguir mant-la em
segredo por muito tempo.

Suzana saiu da loja e olhou ao redor para localizar Leonardo, mas
no o avistou. Andou um pouco e parou para observar as pessoas
que passavam. Eram dez e vinte e nada de Leonardo chegar. Ela
estava comeando a ficar preocupada. Teria acontecido alguma
coisa?
_Oi... mulheres bonitas no faltam por aqui, mas voc com certeza
ganhou de todas- disse uma voz desconhecida.
 Ao virar o pescoo, Suzana se deparou com um homem alto e
forte, com a barba por fazer, aparentando uns 40 anos.
_O que uma beldade como voc est fazendo aqui
desacompanhada? Isso  um pecado. Eu vou resolver isso agora.
Vou acompanh-la para onde voc quiser, voc manda, boneca!
Suzana ficou paralisada, no conseguia falar e nem se mover,

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                          Tnia Gonzales



queria sair dali, mas sabia que no era uma boa ideia, pois ele a
seguiria, pensou em voltar para a loja, mas os seus ps no
obedeciam.
_Vamos, boneca! Eu vou lev-la comigo, voc no vai mais ficar
sozinha... no mesmo.
Suzana no conseguia responder, queria dizer que estava
esperando por algum, mas as palavras no saam, uma sensao
terrvel de pnico comeou a tomar conta dela, e se ele mostrasse
uma arma e a obrigasse a acompanh-lo? Ela no iria, nem que ele
ameaasse atirar nela, ela no iria a nenhum lugar com ele,
preferia morrer ali.
O homem se aproximou mais um pouco e disse:
_Vamos, minha bonequinha... estamos perdendo tempo aqui, h
tantas coisas boas para se fazer! Eu quero ficar sozinho com voc
e...
_Desculpe a demora, estava tudo parado por causa de um
acidente- disse Leonardo ao se aproximar, em seguida colocou o
brao no ombro de Suzana.
O homem se afastou rapidamente. Suzana ainda estava sem
nenhuma reao.
_Ei, est tudo bem agora, eu vi de longe que ele a estava
incomodando. Me desculpe o atraso. Suzana?
_Eu... preciso sentar.
_Vem comigo, isso... aqui  disse Leonardo ao se aproximarem de
um banco- Calma, est tudo bem... eu sa cedo, mas foi como eu
disse, o trnsito estava terrvel...eu sinto muito.
_Eu...estou bem. Agora, eu estou bem. Que bom que voc
chegou... eu estava apavorada!- confessou Suzana.
_Suzana... aquele sujo, falou alguma coisa...
_Ele s dizia que queria me acompanhar e levar pra algum lugar,
sei l... eu fiquei com medo, na verdade eu fiquei paralisada de

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     Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


tanto medo.
Leonardo se aproximou e ia abra-la para que se sentisse
protegida, mas Suzana se afastou. Ele percebeu que ela sempre
fugia de qualquer contato fsico.
_ J d para voc andar? Podemos ir para o carro?
_ Podemos, sim.
_  melhor voc me esperar dentro da loja- disse Leonardo ao
entrarem no carro.
_No  necessrio.
_Por qu? Voc no quer que algum da loja me veja?
_No  isso, espero em frente  loja, est bom assim?
_Tudo bem. Eu vou sair mais cedo ainda, no quero te fazer
esperar novamente.
_Leonardo, voc j est me fazendo um grande favor, no precisa
sair mais cedo...
_Eu prefiro esperar por voc do que correr o risco de acontecer
algo semelhante novamente.
_No conte isso pra ningum, t?
_Voc no vai dizer para os seus pais?
_No,  claro que no. Eles j se preocupam muito comigo, no
precisam de mais um motivo.
_Tudo bem, eu no conto, vai ser mais um segredinho nosso.
Outro dia voc chorou depois que eu mostrei o bouquet, eu no
entendi nada, no sei se voc ficou emocionada por causa do
presente ou ...eu acho que foi por outra coisa, mas no sei explicar.
_Vamos esquecer tudo isso? Leonardo, amanh  o meu dia de
folga.
_Que pena! Quer dizer que timo, pra voc!
_Amanh tem uma reunio na casa do Jnatas.
_Que bom! Pensei que no teria a oportunidade de ver o seu lindo
rosto.

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                          Tnia Gonzales



Suzana ficou em silncio, estes pequenos comentrios que ele
fazia sempre a deixava sem jeito.
_Ei, onde est aquela garota do celular?
_Voc mesmo respondeu a sua pergunta: garota do celular.
_Em nosso prximo encontro voc poderia traz-la?
_No. Ela  a garota do celular.
_Ento, eu j sei como resolver isso- Leonardo tirou o celular do
bolso e aproveitando que o semforo estava fechado, fez uma
ligao para Suzana.
_Engraadinho- disse Suzana ao ouvir o seu celular tocando- No
adianta, assim ela no aparece.
_Por causa do meu olhar envolvente?- provocou Leonardo.
_Eu me recuso a responder.
_Voc  to m, no me d nem um pontinho!
_Vamos mudar de assunto, a L est to preocupada!
_Esse assunto? A minha me me pegou na hora do jantar. Ela me
disse que a Sandra est certa que eu e a L estamos comprando as
alianas, os mveis, procurando imvel e...
_Nossa, vocs nem me convidaram para o casamento?
_Com isso voc brinca, n?
_A Leca precisa esclarecer tudo, est virando uma bola de neve...
_Leca? Eu reparei que s vezes voc a chama assim.
_Ela diz que detesta o apelido, mas eu a chamo assim desde que
ramos crianas.
_Leca.  Leonardo, o jeito vai ser vocs dois assumirem o
namoro.
_Sei, j que voc gosta de brincar com os sentimentos dos outros,
eu vou dizer uma coisa agora e no vou poup-la,  algo que eu
diria com tranquilidade para a garota do celular, mas foi voc
quem pediu... eu gostaria de assumir um namoro, mas no com a
Letcia, eu teria o maior prazer e seria o homem mais feliz do

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


mundo, se ...
_Leonardo,  melhor voc parar com isso.
_Agora, eu vou falar tudo... voc no vai me impedir.
_Pare com isso, no estrague tudo.
_Relaxa, eu estava s brincando com voc. Eu sei que voc j
esgotou a sua cota de emoes hoje. Vamos conversar
amenidades. Vamos comear com este livro- disse ele apontando
para o livro que Suzana estava segurando- Qual  o nome dele?
_Orgulho e preconceito5.
_Hum... e ele fala sobre o qu?
_ um romance ingls. Fala sobre o julgamento que fazemos das
pessoas pelo fato delas terem dinheiro ou no, ocuparem uma alta
posio na sociedade ou no.  bem interessante.
Suzana deu mais alguns detalhes sobre o livro e poucos minutos
depois Leonardo estacionou o carro em frente  casa dela.
_Est muito cansada, hoje? - perguntou Leonardo enquanto
Suzana abria o porto.
_Um pouco, tem algum motivo pra me perguntar isso?
_Tenho. Voc por acaso gostaria de receber uma ligao mais
tarde?
Suzana ficou calada por alguns segundos. A garota do celular
queria dizer que sim, a Suzana cheia de receios e medos queria
dizer que no. Por fim disse:
_Voc acha que deveria me ligar?
Suzana entrou e fechou o porto sem olhar para Leonardo.

_Oi, filha! Chegou mais tarde hoje.
_Oi, pai! O Leonardo se atrasou por causa do trnsito, ele disse
que aconteceu um acidente.

5 Autora Jane Austen

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                           Tnia Gonzales



Aps o banho, Suzana foi at a cozinha fez um lanchinho rpido e
foi para o seu quarto. Olhou para o celular eram onze e trinta e
cinco, ser que ele ligaria?
Leonardo no parava de pensar na pergunta de Suzana: " Voc
acha que deveria ligar?"- por que ela no disse simplesmente sim
ou no? Tinha que complicar. Ser que eu deveria ligar? Suzana!
Eram onze e quarenta quando o celular de Suzana tocou. O
corao dela comeou a bater mais forte.
_No, tudo bem. Pode falar, L.
_Su, eu sei que  tarde e voc deve estar cansada, mas eu tinha
que conversar com voc, estou to perdida. No sei o que fazer.

Leonardo com o celular na mo, pensou: " Ela respondeu a minha
pergunta, ligou para algum s para no falar comigo."

Aps dez minutos de conversa, Suzana desligou o celular e
pensou: " Ser que ele tentou me ligar? Acho que no" - concluiu.

Leonardo ficou aliviado ao receber uma ligao de Regina naquela
tarde de quarta-feira, pois ela tinha timas notcias, a filha havia
sado da U.T.I.
_Que notcia maravilhosa, Regina! Obrigado por ter ligado,
preciso terminar um servio, mas depois vou visit-la.
Leonardo resolveu ligar para Suzana e contar a boa notcia que ele
havia acabado de receber.
_Al? Suzana? Posso falar com voc?
_Oi, Leonardo, pode sim, est bem tranquilo agora.
_ que a me da Paulinha me ligou e contou que ela saiu da
U.T.I., j est no quarto.
_Que timo, eu fico muito feliz por saber disso! Quer dizer que o
pior j passou, n?

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_ isso a. Bom... eu vou deixar voc trabalhar. Tchau.

Paulinha estava conversando com o pai quando Leonardo chegou
ao hospital.
_Com licena, o quarto da minha linda amiga  aqui? Isso  pra
voc- disse Leonardo mostrando um bouquet de flores- vou
coloc-las nesta mesa.
_O-bri-ga-da, Lo! ... bom...te ver- disse Paulinha ainda com
dificuldade.
_Minha linda, estou to feliz por voc estar melhor. E a, Paulo,
tudo bem?
_Oi, Leonardo, agora as coisas esto melhorando. Obrigado pela
fora que tem dado a minha filha.
_No precisa agradecer, voc sabe o carinho que eu sinto por ela.
_Eu sei; vou deix-los a ss para que conversem melhor, com
licena.
Paula esperou o pai sair para dizer:
_ Ele me... disse que a mi-nha... me no a-vi-sou pa-ra ele.
_Tudo bem, Paula. No fique se preocupando com isso agora, o
mais importante aqui  a sua sade. Eu senti um alvio to grande
quando a sua me me ligou, ah... minha linda, fiquei com muito
medo de voc nos deixar. Mas Deus teve misericrdia de ns e
agora voc est melhorando,  isso o que importa.
_Vo-c  um... amor. ... ...
_No precisa falar mais nada, poupe seu flego.
_Eu... pro... pro-me-to que ... vou me cui-dar...
_Tudo bem, eu estou muito feliz por ouvir isso - disse Leonardo
com os olhos marejados e como percebeu que Paulinha tambm
estava, tocou no rosto dela e enxugou as lgrimas.
_An-jo... Le-o-nar-do.
_Para com isso, eu sou um amigo que se preocupa muito com

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                            Tnia Gonzales



voc.
Leonardo ficou mais alguns minutos fazendo companhia  amiga,
ao sair do quarto dela, encontrou-se com Regina no corredor.
_ Regina, eu queria mesmo falar com voc. Eu posso te pedir um
favor?
_Claro, Leonardo! Depois de toda a fora que voc ...
_Regina, no precisa mencionar isso, eu estou aqui porque a
Paulinha  uma amiga muito querida. Eu sei bem que no  nada
educado se envolver em problemas de casais, mas este caso 
especial, eu fao isso por ela. Por favor, Regina, espere que ela se
recupere, depois voc e o Paulo se acertam. Ela sofre muito com
esta situao. Ela precisa ser poupada agora.  momento de vocs
esquecerem as diferenas e se unirem pelo bem da filha de vocs.
Eu no vou pedir desculpas por isso. Amanh eu volto.
_Leonardo, voc tem toda a razo, eu vou me esforar. Obrigada.


Suzana aproveitou o seu dia de folga para almoar fora com a
me, a tia Marisa e a vov Vivi, chegaram em casa por volta das
trs horas da tarde. Minutos depois saiu com Letcia para visitar
Paulinha.

_ Fico feliz... por ... vocs estarem aqui  disse Paulinha, agora as
palavras estavam saindo com mais facilidade.
_Paula, graas a Deus que voc est bem. Estvamos to aflitas!
Havia uma multido orando por voc  disse Letcia.
_ A L est certa. Foi um alvio saber que voc estava reagindo
bem. Quando o Leonardo contou que voc havia sado da U.T.I,
eu agradeci a Deus e fiquei muito feliz!-disse Suzana.
_Obrigada, valeu amigas! O Leonardo  um anjo, ele veio todos
os dias, ele j esteve aqui hoje, saiu poucos minutos antes de

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     Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


vocs chegarem. Ele me trouxe um MP3. Ele  to gracinha que
colocou esta msica, vem aqui perto Suzana, quero que voc oua.
Suzana se aproximou e colocou o fone de ouvido: " Voc  linda
demais, perfeita aos olhos do pai, algum igual a voc jamais..." 6 -
Foi a msica que ela ouviu.
No ntimo, Suzana lamentou no ter encontrado Leonardo no
hospital, mas lembrou que  noite ele participariam de uma
reunio do grupo Alfa, seria na casa dos lderes, Jnatas e Jessica.
Combinou o horrio com Letcia para irem juntas.
_Que dia de folga  este, minha neta? Vai sair novamente?
_Vou em uma reunio do grupo Alfa. Foi um dia bem agitado
hoje, mas eu gostei; almocei com trs mulheres maravilhosas,
visitei uma amiga no hospital e o mais importante  que ela est
melhor.
_Fico feliz por isso, minha neta. Com quem voc vai?
_Com a Letcia.
_E o Leonardo vai tambm?
_Ele tambm faz parte do grupo.
_Que bom! Diga que eu mandei um abrao.
_Eu j vou, at mais tarde, vov linda!
A reunio comeou s oito horas, Jnatas explicou que o pastor
Pedro Gabriel marcou um evento especial para arrecadar fundos
para misses. Cada grupo seria responsvel por criar algo que
seria vendido no evento.
_Na prxima reunio cada um vai apresentar a sua ideia para o
evento. Nos encontraremos na quarta-feira e eu j combinei com o
Leonardo, ser na casa dele. Ele no est aqui hoje, mas ele me
ligou justificando a ausncia. Pessoal, vamos fazer uma orao
agradecendo a Deus pela vida da Paula. Ela ainda vai ficar mais

6 Msica: " Aos olhos do pai", Crianas Diante do Trono.

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                          Tnia Gonzales



alguns dias internada. Continuem orando por ela e faam uma
visita.
Aps a orao todos se despediram. Suzana e Letcia aproveitaram
a carona de Vitria.
Eram dez horas quando Suzana chegou em casa. Seu pai e a vov
Vivi, estavam assistindo um DVD.
_Vem assistir com a gente, filha,  uma comdia.
_Obrigada, pai, mas eu vou aproveitar para deitar mais cedo.
_Faa isso, querida! Voc deve estar muito cansada, no parou
hoje- disse vov Vivi.
_Boa noite pra vocs.




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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Capitulo 15- Apaixonados
Suzana foi para seu quarto e ficou pensando nos acontecimentos
daquele dia, que ela poderia at consider-lo como um dia
perfeito, se no fosse por um detalhe: no ter visto Leonardo. Ela
no conseguia parar de pensar nele. Esperava v-lo na reunio,
mas ele no apareceu. Ficou o tempo todo ansiosa, pensando que 
qualquer momento ele chegaria, mas saiu de l frustrada. Ela era
obrigada a reconhecer que gostava da companhia dele.
_Suzana, filha? O seu celular est tocando- avisou o pai- voc
esqueceu a sua bolsa aqui na sala.
Davi levou a bolsa at o quarto da filha.
_Obrigada, pai- disse Suzana enquanto abria a bolsa e tirava o
celular.
Ela olhou o visor e seu corao disparou, era Leonardo.
_Al? Princesa Suzana? Voc j estava dormindo?
_Oi, Leonardo, no, eu cheguei da reunio quase agora.
_Tudo bem com voc? Estou atrapalhando?
_ No est atrapalhando. Eu estou bem e voc?
_Agora eu estou timo. Eu precisei sair com o meu pai, por isso
no pude participar da reunio. Quando eu cheguei em casa liguei
para o Jnatas para saber se vocs ainda estavam l, mas ele me
avisou que a reunio havia terminado. Eu ia at l para buscar
voc e a L. Com quem vocs vieram?
_Com a Vitria.
_Que bom. Agora eu gostaria de falar com a garota do celular.
Posso?
_ Voc no quer saber como foi a reunio?
_No. Amanh a Suzana me conta. Eu quero falar com a garota do
celular. Porque ontem uma certa pessoa me fez uma pergunta,


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                          Tnia Gonzales



deixou tudo por minha conta e risco, mas depois ocupou o celular
s para no falar comigo.
_Voc tentou ligar, ontem? - perguntou Suzana, surpresa.
_Claro que sim. Mas voc...
_A Letcia me ligou, ela estava precisando conversar.
_Ah, foi ela quem ligou! Gostei de saber, mas sobre isso eu
converso com a Suzana, amanh, hoje eu quero falar com a garota
do celular, pode cham-la?
_O que voc quer com ela?
_ Eu quero continuar uma conversa que eu comecei com a Suzana
e ela me cortou, eu acho que a garota do celular vai me ouvir.
_Leonardo, eu...
_Eu disse para a Suzana que gostaria de assumir um namoro, mas
no com a Letcia...
_Leonardo, eu acho melhor voc no falar...
_Eu estou conversando com a garota do celular, com a Suzana eu
falo amanh. Desde a primeira vez que eu ...
_Leonardo!
_Naquele dia, quando eu fui comprar um presente para minha
me, eu olhei pra voc eu nunca mais fui o mesmo, eu voltei
algumas vezes e depois sumi porque fiquei com vergonha, me
senti ridculo, mas eu queria muito v-la novamente, quando eu vi
voc conversando com a Letcia na igreja quase no acreditei.
Voc estava to perto e eu nem sabia. Suzana, tenho que dizer
que eu estou...
_Leonardo, eu acho melhor voc parar, por favor!
_Amanh eu no vou falar sobre isso, a menos que a Suzana
queira, mas hoje, como eu estou conversando com a garota do
celular, eu vou continuar... eu tenho que dizer que... estou
apaixonado por voc.  isso, eu estou completamente apaixonado
por voc.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Suzana no sabia o que dizer, ele simplesmente a havia deixado
sem palavras.
_Suzana? Voc ainda est a? Ei, garota do celular?
_Oi, eu... eu pedi pra voc no dizer.
_Eu falaria isso pessoalmente se voc no...
_Leonardo, eu acho que  melhor voc desligar agora- pediu
Suzana.
_Suzana, no faz isso comigo, diga alguma coisa que eu queira
ouvir... diga!
_Eu... no posso!
_Por qu? Esquea por um momento a Suzana cheia de medos e
receios que h dentro de voc e viva, deixe que a garota do celular
converse comigo. Ela est sufocada a dentro de voc, por qu?
Voc tem medo de ser feliz?
Suzana no sabia o que responder, ele estava certo, ela se sentia
sufocada com toda aquela situao. A verdade era que ela no
podia ser feliz completamente.
_Eu vou desligar, Leonardo, no quero falar sobre isso e se
amanh voc tiver a inteno de continuar com esse assunto eu
peo que no me busque no servio. Boa noite.
Suzana no esperou ele responder.
" Por que tudo  to complicado? Por qu? Por que eu no posso
dizer que eu tambm estou completamente apaixonada por ele?
Por qu? Na verdade eu sei porque. No posso engan-lo. Ele no
merece isso. " - eram os pensamentos desesperados de Suzana.
_Minha neta? Eu bati na porta, mas voc no respondeu- disse
vov Vivi ao entrar no quarto de Suzana.
_Me desculpe, v. A senhora pode deitar agora, eu tambm vou...
_Suzana, que carinha  esta? Voc estava chorando?
_No, v, est tudo bem.
_Voc acha mesmo que me engana? O que aconteceu?

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                          Tnia Gonzales



_V... eu no quero falar sobre isso... por favor!
_Querida, conte pra mim, faz bem desabafar.
_V... eu me esforcei, eu fiz de tudo, eu tentei ficar longe dele,
mas eu no consegui evitar... - disse Suzana entre soluos.
_Querida, acalme-se, o que voc no conseguiu evitar?
_De me apaixonar, eu sei que no posso, mas eu estou apaixonada
pelo Leonardo... e ele disse que est apaixonado por mim.
_Querida, isso  maravilhoso!
_No ; a senhora sabe o motivo.
_Suzana, ele  um timo rapaz, eu pedi tanto a Deus...
_No... a senhora sabe que no posso... eu no posso contar a
verdade, mas tambm no posso engan-lo; justamente por ele ser
to bom, ele no merece isso.
_Suzana, que bobagem! Voc no teve culpa de nada, voc foi
uma vtima, esquece isso e seja feliz.
_V... eu no quero mais falar sobre isso, preciso dormir. Por
favor, no conte pra ningum, nem para mame- pediu Suzana.
Vov Vivi concordou e ficou acariciando os cabelos da neta at
que ela adormeceu.
Suzana sonhou que Leonardo estava se declarando para ela, mas
no era pelo celular. Eles estavam bem prximos um do outro e
ele dizia:
_Eu abri o meu corao pra voc e agora  a sua vez. Diga o que
voc sente por mim.
_Leonardo eu... eu amo voc.
Ele acariciou o rosto dela, segurou em seu queixo e se aproximou
mais um pouco, quando estava prestes a beij-la, ele disse:
_Mas por que voc me enganou? Por que no me falou a verdade
sobre voc? Por qu? Pensou que daria para esconder?

_ Filha, eu tive uma tima ideia- disse Sandra durante o caf da

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


manh daquela quinta-feira.
_Que ideia, me?
_Eu quero que voc convide o Leonardo para almoar aqui
domingo.
_Me, j vai comear com isso? Eu no vou convid-lo.
_Por que no, Letcia? Ento eu vou ligar para ele.
_Me, no faa isso, olha, domingo a gente conversa.
_Como assim? Domingo?
_ isso mesmo. No convide o Lo. Domingo a senhora vai
finalmente entender. Estamos combinadas?
_Voc est to misteriosa! Mas, tudo bem.
Assim que ficou sozinha Letcia ligou para o namorado.
_Dani, amor, eu me decidi.  isso mesmo, domingo  tarde.
Cansei, eu sei que voc tambm. Por isso ns vamos esclarecer as
coisas. Tambm te amo. Um beijo enorme. Tchau.
Em seguida fez uma outra ligao.
_Lo? Tudo bem? Ah, meu amigo, est uma confuso! Eu preciso
te pedir uma coisa, se a minha me te convidar para almoar voc
inventa uma desculpa qualquer para no aceitar. Isso mesmo, eu
vou apresentar o Daniel como meu namorado, domingo  tarde.
Tem razo. Obrigada, amigo, eu vou precisar. Beijo. Tchau.

Foi difcil para Suzana se concentrar no trabalho, tanto por no ter
dormido direito como por no conseguir parar de pensar nas
palavras de Leonardo. Passou a maior parte do tempo em silncio,
entregue aos pensamentos.
_Nossa, como voc est calada hoje! Aconteceu alguma coisa?
Voc est doente?- perguntou Cludia.
_Me desculpe, Cludia, no estou em meu melhor dia.
_Isso deu pra notar. Mas qual o motivo? Conta, vai!?  por causa
de algum gatinho?

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                          Tnia Gonzales



_Cludia, eu no quero falar.
Cludia, aps quase dois anos trabalhando com Suzana, j sabia
muito bem que no adiantaria insistir.
s dez horas, Suzana saiu da loja, com uma enorme interrogao
em sua cabea: Leonardo estaria esperando por ela?
A dvida de Suzana no durou nem um minuto, ela o avistou
rapidamente. E agora a interrogao era outra: Ser que ele
tocaria naquele assunto?
_Boa noite, princesa Suzana! - Leonardo a cumprimentou com
um largo sorriso.
_Boa noite - respondeu simplesmente.
Os dois andaram lado a lado sem dizer uma palavra, por duas
vezes entreolharam-se, mas Suzana desviou o olhar rapidamente.
_ E ento, como foi a reunio ontem? - perguntou Leonardo ao
sair do estacionamento.
_Foi produtiva.
_Nossa, que comentrio mais frio!
_No foi a minha inteno. Ns precisamos de ideias para
arrecadar fundos para misses. Na prxima reunio, que ser
quarta-feira em sua casa, cada um vai dar uma sugesto.
_Certo, me diga uma coisa, quarta ser a sua folga?
_No. Na prxima semana minha folga cai no sbado.
_ um belo dia, mas que pena que voc vai faltar justo na minha
casa. Existe alguma possibilidade de troca?
_No  difcil, principalmente pelo meu dia de folga ser sbado.
Eu vou tentar.
_Legal. A L me ligou hoje pela manh, ela e o Daniel vo
assumir o namoro. Domingo  tarde ele vai at a casa dela.
_Tomara que tudo d certo. Que Deus ilumine os pais dela.
_Tomara! E voc? Est com uma carinha de cansada! O dia foi
muito corrido hoje?

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Hoje estou muito cansada. O pior  que desde cedo que eu estou
assim.
_No dormiu bem?
_No. Foi uma longa noite...
_Suzana, foi por minha culpa?
_Leonardo, no estou gostando do rumo que esta conversa est
tomando...
_Tudo bem, esquea.
_Sabe os livros que voc comprou pra mim? Voc poderia traz-
los?
_Claro, at que enfim voc... o que significa isso? - perguntou
Leonardo ao ver que Suzana estava lhe dando dinheiro.
_So R$185,00. Foi isso que voc pagou, certo?
_Era muito bom pra ser verdade! Por que voc simplesmente no
aceita como um presente?
_Eu no vou discutir isso com voc. - disse colocando o dinheiro
no porta luvas.
_Tudo bem, amanh voc estar com eles nas suas mos. Voc 
inacreditvel! Eu j entendi, voc est me castigando por ontem,
no ? Eu sei que ontem eu acabei me empolgando e cometi uma
falta grave, fui ntimo demais, no ? Exagerei. Mas, pode ficar
tranquila, eu no vou mais dizer que estou apaixonado por voc,
alis eu nem sei por que eu disse...
_Leonardo, para com isso! Eu no estou te castigando, eu j tinha
pensado nisso h alguns dias, eu preciso dos livros, mas estava
sem o dinheiro, foi isso, no tem nada a ver com o que voc disse
ontem.
_Por que voc tem tanto medo? Por que  tudo to difcil com
voc? Voc foge do qu?
_Eu disse que se fosse para ter este tipo de conversa ...
_Eu sei, tudo bem. Eu no vou falar mais sobre isso. Acho que 

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                          Tnia Gonzales



melhor eu no falar mais nada.
Durante vinte minutos os dois permaneceram em silncio.
Finalmente, Leonardo virou  esquerda e estacionou em frente 
casa de Suzana.
_Boa noite, Leonardo.
_Boa noite.
Suzana entrou em casa desejando que todos j estivessem
dormindo, mas ela sabia que isso era impossvel.
_Minha neta linda, boa noite!
_Oi, v, boa noite! E o meu pai?
_Est tomando banho. Acabou de chegar. Tenho algo especial para
te mostrar.
_Algo especial? O qu?
_Vem comigo at a lavanderia.
_O que a senhora est inventando?
_Eu? Nada. A ideia no foi minha.
_O que  isso? Que gaiola  esta? A senhora comprou uma
Calopsita?
_Eu no, querida!  um presente e ele disse que no aceita
devoluo.
_Ah...  um presente do Leonardo.
_Ele passou aqui hoje  tarde. O nome dela  Meg, foi o Leonardo
quem disse. Ela  to mansinha!
_Meg, vem aqui comigo, gracinha... - disse Suzana, em seguida
abriu a gaiola e colocou o dedo para Meg subir- que fofa! Voc 
linda...
_Ele no esqueceu de nada; trouxe rao, brinquedos e voc viu o
tamanho da gaiola? Ele pensou em tudo!
_ Meg linda, olha v, ela est no meu ombro, ... que coisinha!
Voc gosta de carinho, no ?- disse Suzana acariciando a
cabecinha de Meg.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Suzana, esse rapaz s quer te fazer feliz, por que voc no
permite isso? Seja feliz!
_V... minha v linda, eu no sei o que fazer.
_Seja feliz,  simples assim. No tenha medo do sentimento que
est dentro de voc,  algo lindo e puro.
_ Puro? Onde est a pureza?
_Suzana, no confunda as coisas, voc precisa deixar que Deus te
cure. Permita que as feridas cicatrizem. Est na hora de voc ser
feliz e o Leonardo  o rapaz certo para isso.
_V... vamos parar com esse assunto, por favor! Meg...
aqui...isso... agora voc vai dormir e eu tambm. Boa noite, Meg-
disse Suzana colocando-a de volta na gaiola.
_Vai ligar pra ele?
_No, v, eu prefiro falar pessoalmente.
_Oi, filha! Que presente, hein?- disse Davi ao se aproximar da
filha.
_Oi, pai!  um belo presente- respondeu Suzana dando um beijo
em seu pai- Agora eu vou tomar banho.
Em seu quarto, Suzana comeou a pensar em sua ltima conversa
com Leonardo: " Como ele ficou chateado por eu ter pago pelos
livros! Agora d pra entender, ele havia deixado um presente aqui
pra mim e eu pagando pelo outro! Leonardo, Leonardo, voc
precisava ser to maravilhoso? Precisava ser to gentil? Voc tinha
que ser lindo e encantador? E eu tinha que me apaixonar? Eu no
posso viver esse amor, sei que vou sofrer, mas  melhor assim,
principalmente pra ele. O Leonardo merece algum sem traumas,
sem um passado triste e terrvel como o meu.
Enquanto isso, em sua casa, Leonardo estava pensando em
Suzana: "  to difcil entend-la! Ao mesmo tempo que ela
demonstra que gosta da minha companhia, ela foge. Parece que
ela tem medo que eu queira algo mais do que uma amizade e 

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                         Tnia Gonzales



exatamente isso que eu quero, mas parece que ela tambm quer. 
tudo to confuso! Se amanh ela aparecer com dinheiro nas mos,
eu no vou aceitar. No vou mesmo. Ah, Suzana, o que voc tem
de linda tem de complicada!"




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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 16- Quase um beijo
No dia seguinte, Leonardo foi logo pela manh ao hospital visitar
Paulinha. Encontrou-se com Paulo Reis no estacionamento.
_ E a, Leonardo, tudo bem? Paz.
_ Paz. Eu estou bem e como est a sua filha?
_Melhorando, mas vai demorar para sair daqui, o doutor Romeu
disse que desta vez no vai liber-la to cedo! Disse que no quer
arriscar nem um pouquinho. Vai l conversar com ela, eu preciso
sair, hoje eu tenho um compromisso em Osasco, preciso me
preparar. Sabe como  que : orar, ler, meditar...
_Tudo bem, Paulo, eu vou ver a Paula. Tchau.
_Bom dia, Leonardo! - cumprimentou-o Regina assim que ele
entrou no quarto.
_Bom dia, Regina, Paulinha! Como est a minha linda, hoje?
_Ainda um pouco fraca, mas bem melhor, estou conseguindo at
falar direito!
_E isso  maravilhoso! Se continuar neste ritmo, logo...
_Sair daqui, logo? Nem pensar, eu estou de castigo, eles no
confiam mais em mim.
_No  bem assim, Paulinha,  que voc precisa ganhar fora
novamente. Precisa de cuidados especiais...
_Tudo bem, quem mandou eu vomitar!- brincou Paulinha.
_Quem mandou! Voc est com um timo humor, isso tambm
ajuda- comentou Leonardo.
_Quem no ajuda  o Paulo. - afirmou Regina.
_Me, vai comear?
_Regina, eu me encontrei com ele no estacionamento, ele passou a
noite aqui?
_Pelo menos isso. Hoje ele vai voltar  atividade que ele mais


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                            Tnia Gonzales



ama: pregar.
_Acho que  melhor mudar de assunto- sugeriu Leonardo.
_Eu vou deix-los a ss.
_s vezes eu acho que eles nunca vo se entender- foi o
comentrio de Paulinha assim que a me saiu.
_No pense isso. Agora o importante  a sua sade, ter esse tipo de
pensamento no vai ajudar. E a, voc est precisando de alguma
coisa?
_Eu "t" precisando de carinho, ser que voc pode me ajudar?-
pediu Paula cheia de dengo.
_ claro que eu posso- respondeu Leonardo para em seguida se
posicionar ao lado dela- ser que vou arranjar problema se me
sentar na sua cama?
_ claro que no, senta aqui.
Leonardo sentou-se e comeou a acariciar os cabelos de Paula e
com a outra mo segurou uma das mos dela.
_Voc est to cheiroso, pena que eu estou horrvel...
_" Aos olhos do Pai, voc  uma obra-prima que Ele planejou,
com suas prprias mos pintou, a cor de sua pele, os seus cabelos
desenhou, cada detalhe, com um toque de amor..."7 - cantou
Leonardo.
_Voc  um sonho... mas me conta as novidades do grupo Alfa;
ontem a Jessica e o Jnatas estiveram aqui, mas eles s falaram
por cima, quero saber dos detalhes... mas no precisa parar de me
fazer carinho,  to bom!
Leonardo passou a manh e o incio da tarde com Paulinha;
Regina aproveitou para resolver algumas pendncias da loja, j
que Paulo Reis estaria muito ocupado durante todo o dia se
preparando para o sermo da noite.

7 Msica " Aos olhos do Pai", Crianas Diante do Trono.

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     Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


s duas horas da tarde Regina voltou para o hospital e Leonardo
se despediu de Paulinha. Ao sair, encontrou-se com Marina, a me
de Suzana.
_J est de sada? - perguntou Marina depois dos cumprimentos.
_Eu cheguei aqui hoje s nove horas da manh, aproveitei para
passar algumas horas com ela.
_Estas visitas fazem um bem enorme.
_A senhora veio do trabalho?
_No, esta semana eu estou trabalhando  noite, mas hoje  meu
dia de folga. A Meg  uma graa.
_Ah...  verdade. Espero que a Suzana no pense em me devolver
e nem em pagar por ela, afinal  um presente. No sei se a senhora
sabe, mas ontem ela me pagou por uns livros ...
Leonardo explicou tudo para Marina.
_Sinto muito, Leonardo. Eu espero que voc tenha pacincia com
ela, a Suzana  uma boa menina, ela no fez por mal. Ela no est
acostumada a receber presentes de rapazes.
_Eu confesso para a senhora que ontem eu fiquei bem magoado. O
que ela disse sobre a Meg?
_Ela adorou. Voc foi muito sbio ao escolher o presente. Eu
estou muito feliz por vocs serem amigos, mesmo que a minha
filha no facilite as coisas, no se sinta desencorajado, eu j notei
que ela gosta da sua companhia, mesmo que s vezes ela
demonstre o contrrio. Se no fosse assim, com certeza ela no
teria concordado que voc a busque. No pense que ela s aceitou
a sua carona para poupar-nos, isso s foi um incentivo.
_Obrigado, dona Marina.  bom ouvir isso.

Suzana saiu s 22h20, Leonardo a estava esperando bem prximo
 entrada da loja.
_Oi, esperou muito tempo? - perguntou Suzana.

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                          Tnia Gonzales



_Uns 40 minutos, eu cheguei mais cedo-disse sem olhar para ela.
_Me desculpe, eu estava atendendo um cliente muito indeciso.
_No tem problema. Vamos?
_... voc me deu um presente maravilhoso, eu amei! Obrigada.
_De nada. Podemos ir agora?
_Eu... estou com fome e voc? - perguntou Suzana sem acreditar
no que havia acabado de dizer.
_Eu no. Que tal voc sair do lugar, agora? - disse Leonardo em
um tom nada amigvel para em seguida dar uma gargalhada-
Estou brincando, ser que eu entendi direito? A princesa Suzana
est me fazendo um convite?
_Voc me assustou! Deveria ser ator.  isso mesmo, eu estou lhe
convidando para sair, por mais incrvel que possa parecer.
_Santa Meg!
_Leonardo, eu no estou fazendo isso por que voc me deu uma
calopsita de presente, no me interprete mal, eu no sou uma
interesseira que ...
_Ei, calma! Eu no quis dizer isso,  que ontem o clima ficou
meio pesado...
_Eu sei e a culpa foi minha. Quando eu vi a Meg ontem  noite eu
entendi porque voc ficou to chateado com aquela histria dos
livros, afinal voc foi at a minha casa levar um presente
especial... voc deve ter pensado que eu iria fazer o mesmo com a
Meg, mas voc se enganou, eu estou sem dinheiro, agora no vai
dar para eu pagar por ela.
_Suzana...
_Agora eu estou brincando; no pensei em devolver e nem em
pagar. Eu recebi a Meg como um lindo presente de um amigo que
acertou em cheio na escolha.
_Ufa, que alvio! Voc quer ficar por aqui mesmo ou...
_Vamos pra outro lugar.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Voc manda, princesa Suzana. O que voc quer comer? Assim eu
penso em um lugar.
_Eu quero comer beirute.
_Boa escolha, ento vamos saborear um beirute.
Saram do shopping e resolveram parar em um lugar mais
prximo de So Caetano.
_Acho que aqui est perfeito- disse Leonardo, em seguida entrou
no estacionamento.
_Voc visitou a Paulinha, hoje? - perguntou Suzana enquanto
aguardavam o beirute.
_Fiquei a manh inteira com ela, encontrei com a sua me , ela foi
at o hospital.
_Ela comentou que ia dar uma passada l. E como a Paulinha
est?
_Melhor. Mas ainda no h previso de alta. Ela me pediu uma
coisa hoje e eu fiz- disse Leonardo para provoc-la.
_Ser que eu devo perguntar? Bom... o que ela pediu?
_... ser que eu devo contar? Tudo bem, acho que voc sabe
guardar um segredo... eu perguntei se ela estava precisando de
alguma coisa e ela me respondeu que sim.
_E...
_Posso fazer um suspense?
_Eu acho que voc vai precisar deixar o suspense para depois, o
beirute chegou- avisou Suzana.
_Hum... est uma delcia! Depois do que aconteceu ontem, eu
nunca poderia imaginar que hoje ns...
_Eu me senti pssima por ontem, foi muito chato... o caminho at
em casa foi terrvel; que silncio insuportvel!
_Voc tem razo. Era um silncio insuportvel, mas teve o seu
lado bom, hoje ns estamos aqui juntos e voc me chamou para
sair, mas e a? No vai querer saber o que a Paulinha me pediu?

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                          Tnia Gonzales



_Ela no pediu pra voc dar um sumio no prato dela, n?
_Suzana fazendo piadinhas?
_Parece piada, mas no . O assunto  muito srio. Eu queria saber
se o pedido dela tinha alguma coisa a ver com a alimentao.
_No e nem se tivesse, eu nunca a ajudaria nisso. Ela me pediu
algo que eu gostaria... eu vou falar mesmo que voc fique um ms
sem me dirigir a palavra. Eu gostaria que voc me fizesse um
pedido igual.
_Leonardo!
_Ela me pediu carinho.
Suzana no disse uma palavra mas continuou olhando para
Leonardo.
_Calma, no fique com esta carinha de espanto; quer que eu
demonstre?
_ claro que no!
_Voc no confia em mim? O que voc est pensando que eu fiz?
_No estou pensando nada.
_Confie em mim, afinal eu estava em um hospital com uma garota
frgil e indefesa. Me deixe demonstrar. Suzana, voc no confia
em mim?
_Confio, mas...
_ Se existe um "mas"  porque voc no confia.
_Leonardo, voc  ...
_Convincente?
_Persistente! Tudo bem, pode demonstrar.
_E convincente. Eu s me aproximei dela e fiz isso- Leonardo
ficou bem prximo e comeou a acariciar os cabelos de Suzana,
enquanto isso ela ficou imvel olhando fixamente para ele,
permaneceram assim por alguns segundos, at que Leonardo tocou
levemente em uma das mos dela e em seguida suas mos
entrelaaram-se. Suzana ainda olhava para ele. Por alguns

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


instantes parecia que s existiam os dois ali. Leonardo pensou: "
como eu gostaria de beij-la agora, eu vou me aproximar mais e
vou beij-la, eu... "- e estes eram os pensamentos dela: " preciso
me afastar... mas no consigo me mexer, preciso... antes que
ele..."- neste momento os dois estavam to prximos que bastaria
um simples movimento para que os lbios se tocassem... de
repente, Suzana comeou a tremer e se afastou rapidamente.
_Suzana, voc est bem? Est tremendo!
_ Me d um minuto. - disse Suzana, em seguida abaixou a cabea
e colocou uma das mos em seu rosto.
Leonardo esperou por alguns segundos em silncio.
_Suzana, est tudo bem? Fala comigo, eu... estraguei tudo. Voc
estava to descontrada, estvamos tendo uma conversa agradvel
e eu tinha que... me desculpe. O que voc vai pensar de mim?
Com certeza no vai ser uma coisa boa. Suzana, no foi isso o
que eu fiz com a Paulinha. Foi s um carinho como um amigo.
Ns no ficamos assim, olhando um para o outro e nem tentei
beij-la,  que aqui entre ns o clima era outro.
_Voc me leva pra casa?
_Claro.
Andaram lado a lado at o estacionamento e entraram no carro em
silncio. Leonardo queria falar com ela mas no tinha certeza se
seria conveniente, pois apesar de estarem prximos fisicamente,
ele sentia que naquele momento Suzana estava distante e
inacessvel. Teria que aguentar novamente aquele insuportvel
silncio. Ele lamentou profundamente ter provocado aquela
situao, mas estava difcil esconder seus sentimentos, por estar
completamente apaixonado por ela.
" Faa alguma coisa, no a deixe sair assim"- pensou Leonardo.
Estavam bem prximos da casa de Suzana, chegariam em menos
de cinco minutos.

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                          Tnia Gonzales



_D pra voc prolongar o caminho? Preciso falar com voc- disse
Suzana surpreendendo Leonardo.
_ Vamos dar um passeio pela cidade.
_Leonardo... ... o problema no est em voc, est em mim. Voc
no precisa se desculpar. A nica pessoa culpada aqui sou eu por
no conseguir agir com naturalidade diante de algo to normal, eu
no sei se estou me expressando direito, no sei se voc est
compreendendo, mas, ah... o que  fcil para a maioria das
garotas para mim  muito complicado. Eu gostaria que tudo fosse
diferente, voc  muito especial,  to gentil e eu gosto muito da
sua companhia.
_Eu no quero que voc se afaste de mim, que me impea de
busc-la. Eu prometo que vou me comportar. No quero que pense
que entre mim e a Paulinha...
_Tudo bem, eu entendi, voc  amigo dela e isso  timo. D para
perceber que ela gosta muito de voc e que o admira tambm.
Fique tranquilo, eu no pensei que voc se aproveitou da
situao.
_ que tem aquela histria do beijo na padaria e voc pode querer
ligar os pontinhos e...
_No. Pode ficar tranquilo.
_Eu tinha que fazer uma gracinha! Voc nunca mais vai me
convidar pra sair.
_No fale assim. Voc est enganado e para provar isso eu te
convido para almoar na minha casa domingo. Na verdade, este
convite no  s meu,  que a minha v pediu para convid-lo.
_Domingo voc entra cedo no servio, no ?
_Eu saio s duas horas. Voc me busca e depois almoa em casa.
_Voc me surpreende. S que tem um problema, domingo  tarde
o Daniel vai conversar com os pais da Letcia e eu no gostaria de
estar to perto. A Sandra est confundindo tudo, voc sabe.

                               174
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Marque um outro dia com a sua v. Mesmo assim eu vou busc-la
e se voc concordar ns podemos almoar juntos, l no shopping
mesmo. O que voc acha?
_Tudo bem, estamos combinados. Eu espero que d tudo certo
para L e o Daniel. E agora, que tal voc me levar para minha
casa?
Em dez minutos, estavam em frente  casa de Suzana.
_Eu j ia me esquecendo- disse Leonardo pegando uma sacola no
banco de trs- Seus livros, afinal voc pagou por eles, e... espera
um pouco... isso... R$1,50,  o seu troco.
_Meu troco? Voc  pior do que eu! Ah...amanh o meu pai vai me
buscar, o patro resolveu dar uma folga pra ele. Ento voc pode
aproveitar a noite de sbado.
_Sem voc? Impossvel.
_Voc no tem jeito mesmo. Boa noite.
_Espera um pouquinho... olha s o que eu estou lendo- dizendo
isso Leonardo mostrou um livro para ela.
_O qu? Voc est lendo "Orgulho e Preconceito"?
_Para voc ver o quanto eu me interesso por voc. Confesso que
no  uma leitura muito fcil, mas voc tinha razo  bem
interessante. Vou ler mais um pouco e depois ns conversamos
sobre " Elizabeth e Mr. Darcy", ok?
_Voc ...  ...
_Nossa, valeu a pena comprar o livro, eu at a deixei sem fala!
_Engraadinho! Boa noite.
Enquanto Suzana abria o porto, um carro parou e Letcia saiu
dele.
_Oi, L. Era o Daniel ?- perguntou Leonardo apontando para o
carro que havia sado.
_Oi, Lo, Suzana. Era a Vitria. Samos juntos, eu e o Daniel, ela
e o Renan.

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                          Tnia Gonzales



_E a, vocs vo mesmo conversar com seus pais domingo?-
perguntou Leonardo.
_Sim. Orem por ns.
_Estamos orando! Vocs merecem ter um namoro normal. Agora
eu preciso entrar, est tarde! Boa noite pra vocs- disse Suzana
despedindo-se.
_Tchau, amiga.
_Tchau, princesa Suzana.
_Vocs dois, hein? Hoje vocs fizeram um programinha?-
perguntou Letcia assim que Suzana entrou.
_Eu fui busc-la e depois ns samos para comer.
_Vocs esto se entendendo?
_ complicado. Qualquer dia desses a gente conversa. Seus pais
esto chegando, agora?- perguntou Leonardo ao ver o carro de
Fernando se aproximando.
_So eles mesmos, eles saram para jantar. Esto chegando tarde!
_Que mancada! Se eu soubesse... a sua me vai entender tudo
errado!
_Pior que voc tem razo, Lo. L vem ela...
_Boa noite! Leonardo, que bom te ver!- disse Sandra.
_Boa noite, Sandra. Tudo bem?
_Tudo timo, que tal vocs conversarem l dentro?- sugeriu.
_Boa noite, Leonardo!  melhor vocs entrarem.  imprudente
ficar conversando no porto, est muito tarde- disse Fernando.
_Eu j vou embora. Tem razo, est tarde! Boa noite pra vocs,
tchau, L, amanh a gente conversa.
_Eu deveria ter convidado o Leonardo para almoar aqui
domingo, esqueci, que cabea a minha! - lamentou Sandra ao ver
o carro se afastar.

Suzana se sentiu aliviada por sua v j estar dormindo, no queria

                               176
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


contar para ningum o que havia acontecido e como a vov Vivi
era muito observadora, com certeza perceberia rapidamente. " Eu
nunca vou conseguir me relacionar com ningum, isso para mim 
impossvel. Coitado do Leonardo, deve estar to confuso! Eu
tentei no tremer, tentei no me afastar, mas..."




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                          Tnia Gonzales



Captulo 17 -Decepo
Leonardo e Letcia encontraram-se no corredor, quando estavam
se dirigindo para suas classes da escola bblica, naquela linda
manh de domingo.
_E a, amiga? Tudo certo para a grande revelao?
_Ah, meu amigo, estou to ansiosa! Nem dormi direito.
_Fique calma, "lanando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque
ele tem cuidado de vs."8
_Tem razo. Acho que nunca orei tanto como nestes ltimos dias.
sexta-feira a minha me ficou toda animada, no adiantou eu dizer
que ns no havamos sado juntos, ela simplesmente no me
ouviu. Ela est to certa que voc vai l em casa hoje  tarde que
fez um banquete, com tudo o que ela sabe que voc gosta.
_Hum... acho que vou dar uma passadinha l!
_Lo, no brinque com isso!
_Tudo bem, eu no vou, mas guarda alguma coisa pra mim, t?
_S voc mesmo... e a, o que est acontecendo entre voc e a
minha amiga?
_ muito complicado, nem sei explicar. Quando parece que
estamos evoluindo, de repente tudo volta  estaca zero. Eu acho
que a Suzana teve algum problema muito srio no passado, deve
ter acontecido algo, eu no sei, eu percebo que os pais e a v se
preocupam muito com ela. Um dia, conversando com o Jnatas,
ele me disse que s vezes ns temos dificuldade em entregar para
Deus certos assuntos em orao, e so coisas importantes, que nos
preocupam muito, mas pensamos que d para resolver sozinho,
que no  algo para falar com Deus, ento eu percebi que era
justamente isso que eu estava fazendo. Mas eu mudei, agora eu

8 1 Pedro 5.7

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


tenho orado bastante sobre isso. Quem conhece a Suzana
realmente? Quem sabe o que ela pensa e o que ela sente? S
Deus, ento, no posso deix-lo fora disso.
_Ah, meu amigo, isso  verdade. s vezes nos esquecemos que
cremos em um Deus vivo e que se interessa por ns. Eu j notei
isso que voc mencionou sobre a Suzana, tambm acho existe
alguma histria, algum segredo. Precisamos parar com a conversa,
est na hora da aula.

s 14h20 Leonardo e Suzana j estavam juntos em uma fila de
um restaurante self service no shopping.
_Estou gostando de ver, o seu prato est bem colorido! - comentou
Leonardo.
_E o seu est bem cheio! - brincou Suzana.
_No seja m, ele no est to cheio assim! Bom... agora chega,
seno vou precisar de outro prato! Vamos procurar um lugar?
_E a sua v ficou chateada comigo? - perguntou Leonardo, ao
sentar-se.
_No, ela entendeu. E quando eu disse que ... - parou Suzana,
arrependida por ter comeado.
_Disse o qu?
_... que amos almoar juntos.
_E a?
_Ela gostou, mas voc est convidado para almoar l no prximo
domingo.
_Estarei l, se voc no se opor,  claro!
_Eu?  claro que no, por qu?
_De repente voc est cansada de mim, j precisa me suportar
todos os dias e...
_Leonardo, pode parar com essa conversinha, depois o clima vai
ficar pesado e eu no quero que isso acontea. Vamos conversar

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                          Tnia Gonzales



amenidades. A comida est deliciosa!
_E voc est linda! Eu no tenho jeito mesmo, mas o que eu
posso fazer? Eu no resisto. Eu senti muito a sua falta ontem.
_Voc quer ficar sozinho? Se a resposta  no, mude de assunto.
_... voc tem razo a comida est deliciosa e... eu adoro a sua
companhia, opa! Me desculpe!
Suzana sorriu, pegou o garfo dele e o espetou em um pedao de
carne, em seguida colocou-o na boca dele.
_Mantenha a sua boca ocupada- disse.
Leonardo s ficou calado enquanto mastigava a carne, depois
disse:
_Eu conheo outras maneiras de...  melhor eu no continuar.
_Concordo. Voc est entrando em um territrio muito perigoso.
Vou avisar pela ltima vez.
_Tudo bem, eu vou mudar de assunto. Sexta-feira depois que
voc entrou, os pais da Letcia chegaram, eles pensaram que eu e a
L ...
_No acredito! Que confuso!
_Confuso  apelido; a Sandra est me esperando l, ela preparou
um caf da tarde especial pra mim. Ela cismou que eu e a Leca
vamos oficializar o namoro.
_Ela vai ficar muito decepcionada e isso  um problema. O
ambiente no vai ser nada favorvel para o Daniel. S Deus!
_, princesa Suzana, o amor precisa enfrentar muitos obstculos,
mas vale a pena quando se ama de verdade; as coisas mais
valiosas so adquiridas atravs de sacrifcios.
Entreolharam-se por alguns instantes sem dizer uma palavra.
Suzana sabia muito bem que ele no estava se referindo s ao
relacionamento de Letcia e Daniel.

Aps o almoo, Sandra ligou para Lgia, ela estava muito ansiosa,

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


pois Letcia havia sado para almoar fora e ela queria muito saber
se ela e Leonardo estariam juntos.
_Hoje  o grande dia, Lgia. O Leonardo almoou com vocs?
_No, ele saiu. Por que voc quer saber isso?
_A Letcia tambm saiu para almoar fora, eles devem estar
chegando aqui, j so quase quatro horas!
_Sandra, eu no sei no, se o Leonardo fosse oficializar o namoro
hoje, eu saberia, voc no acha?
_Eles esto fazendo um mistrio, no sei o porqu, mas tudo bem,
eu no ligo, estou to feliz!
_Sandra, cuidado, voc pode ter uma decepo!
_Decepo? Tenho certeza que no. Amiga, finalmente aqueles
dois resolveram se acertar. Agora eu vou desligar. Acho que eles
chegaram. Beijo, tchau.
Letcia entrou com Daniel na sala de estar. Fernando estava lendo
jornal e Sandra terminando de arrumar a mesa na sala de jantar.
_Oi, pai! Ns precisamos conversar com o senhor e a mame-
comeou Letcia.
_Boa tarde, seu Fernando, tudo bem? - cumprimentou Daniel.
_Boa tarde, voc  ...
_ o Daniel, pai, ele  filho do irmo Isaque, da mecnica-
explicou Letcia.
_Ah... como o seu pai est?
_Est bem, obrigado.
_Filha, que bom que vocs chegaram, Leonardo olha s o que eu
fiz pa...- Sandra no terminou, ficou parada olhando para Daniel.
_Me, este  o Daniel. Ele quer falar com vocs.
_Sente-se, Daniel, fique  vontade- disse Fernando tentando
desfazer o constrangimento.
_Obrigado, bom...eu vou ser bem objetivo. Eu estou aqui para
pedir a permisso do senhor e da senhora para namorar a Letcia.

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                          Tnia Gonzales



_O que significa isso, minha filha? Onde est o Leonardo? -
perguntou Sandra em um tom nada amistoso.
_Me, o Leonardo no tem nada a ver com isso. Por favor,
mantenha a calma.
_Calma? Eu no estou entendendo nada. O que este rapaz est
fazendo aqui?
_Sandra, a Letcia tem razo, tenha calma. Vamos ouv-los- pediu
Fernando.
_Ouvir o qu? Voc s pode estar brincando comigo!- disse
Sandra olhando para a filha.
_Dona Sandra, eu peo desculpas, mas eu acho que ocorreu algum
mal entendido. A senhora no estava esperando por mim, eu sei,
mas eu quero dizer que eu gosto muito da sua filha e...
_Vocs  que no esto entendendo nada, s pode ser brincadeira!
Onde est o Leonardo?
_Me, o Leonardo no vem! Pare de falar sobre o Leonardo, isso 
to constrangedor para o Daniel,  ele que  o meu namorado!
_Namorado? Que ideia  essa? Este rapaz no  o seu namorado!
Pare com isso!
_Sandra, por favor, no se exalte! Vamos tentar resolver isso. -
pediu Fernando.
_Eu no quero ouvir mais nada, com licena. - disse Sandra
retirando-se.
_Me? Como ela pde sair assim, pai!?
_Filha, tenha pacincia com ela. A sua me confundiu as coisas e
agora ficou decepcionada.
_Tudo bem, Letcia. Podemos resolver isso em um outro dia... -
disse Daniel.
_Outro dia? A minha me no podia fazer isso! Sair desse jeito?
_Filha, Daniel, eu acho melhor adiar isso por enquanto. Eu vou
conversar com a Sandra.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Adiar? Pai?
_Seu pai est certo, Letcia, eu vou embora, depois ns
conversamos. Voc me acompanha at a porta?
_T... mas eu acho que isso no est certo!
_Boa tarde, seu Fernando e me desculpe...
_Voc no precisa se desculpar, eu  que peo desculpas. Boa
tarde e mande um abrao para o seu pai.
Letcia acompanhou Daniel at o porto; estava inconsolvel.
_Que absurdo! Eu imaginei que no seria fcil, mas... ela nem nos
deu a oportunidade de falar.
_Calma, meu amor, a sua me no estava esperando por mim. Foi
uma grande decepo para ela! Ela tinha certeza que veria um
rapaz alto, branco, de cabelos castanhos, chamado Leonardo.
_Isso no tem graa!
_Tenha pacincia.  uma questo de tempo. Agora eu vou embora,
nos vemos na igreja- disse Daniel e em seguida despediram-se
com um beijo.

Fernando entrou em seu quarto e entregou Sandra deitada na
cama.
_Sandra, meu bem... ei... voc est chorando?
_Ela no podia fazer isso comigo! Como ela teve a coragem de
aparecer aqui com aquele... rapaz? Ela fez isso para me afrontar,
s pode ser isso!
_Sandra, voc confundiu as coisas! Eu bem que falei que voc
podia estar errada, mas voc no me ouviu, colocou na cabea que
o Leonardo...
_Coloquei na cabea? Os dois esto nos castigando,  isso...
_Sandra, isso no faz nenhum sentido! A Letcia ficou muito
chateada por voc ter sado daquele jeito e o rapaz saiu to
envergonhado!

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                          Tnia Gonzales



_ mesmo? E eu? Estou muito decepcionada com a Letcia e
tambm com o Leonardo!
_Eu vou tomar um banho para ir ao culto.
_Eu no vou sair daqui hoje, estou arrasada!

Leonardo e Suzana voltaram do shopping s 16h30; ela o
convidou para entrar e ele aceitou com um sorriso de satisfao.
_Que sorrisinho  este?- perguntou Suzana.
_Quer mesmo saber?
_Eu sei que vou me arrepender, mas eu quero saber.
_Traduo literal do meu sorriso: Ela quer desfrutar mais um
pouco da minha presena, isso  um timo sinal!
Agora foi a vez de Suzana sorrir.
_E qual a traduo do seu?
_ Eu sei que vou me arrepender, mas l vai: Ele tem razo.
Leonardo deu um largo sorriso e disse:
_Um sorriso pode dizer coisas maravilhosas, eu amo o seu sorriso.
_ melhor ns entrarmos, de repente voc resolve dar umas
gargalhadas e ...
_Voc  incrvel. Por mim eu ficaria aqui de sorriso em sorriso
at...
_Vem... Leonardo, voc acha que o Daniel ainda est...
_No tem nenhum carro em frente  casa, isso  um pssimo sinal.
A conversa foi rpida demais.
_O pior  que voc tem razo. Vem.
_Adoro quando voc me chama- disse Leonardo acompanhando-a.
_Oi, Leonardo, fico feliz em v-lo -disse a vov assim que eles
entraram.
_Boa tarde, vov Vivi, pode ter certeza que o sentimento 
recproco.
_Oi, v, eu vou mostrar a Meg para o Leonardo.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Oi, dona Marina, tudo bem com a senhora? Seu Davi, boa tarde.
_Oi, Leonardo, comigo tudo bem e como foi o almoo de vocs?
- perguntou Marina.
_ Foi timo, almoar com uma princesa  uma honra  brincou
Leonardo.
_Eu concordo com voc, a minha filha  uma princesa! - disse
Davi.
_Podem parar com isso?- pediu Suzana envergonhada- Olha a
Meg aqui, Leonardo.
_Oi, Meg, ser que ela vem comigo? Ei... Meg... isso... vem aqui
menina!
_Ela  muito meiga... gostou de voc.
_Agora ela quer a dona...eu no culpo voc Meg, pode ir...
A calopsita ficou no ombro de Suzana recebendo afagos.
_Viu como ela  dengosa? - perguntou Suzana.
_ Eu nunca pensei que um dia iria desejar ser uma calopsita!
O comentrio de Leonardo provocou risos em todos, menos em
Suzana que olhou para ele com olhar de reprovao.
_Uma calopsita macho, que constem nos altos! Meg sortuda!
_Aceita um caf, Leonardo? - perguntou vov Vivi ainda sorrindo.
_Aceito, v. A Suzana me avisou que eu tenho um compromisso
no prximo domingo,  isso mesmo?
_Com certeza e voc no pode faltar, vamos preparar um almoo
daqueles!
Depois de alguns minutos, Leonardo se despediu de todos, pois j
eram cinco e dez; teria poucos minutos para se arrumar e chegar
ao culto.

Lgia estava muito ansiosa para conversar com o filho, assim que
ele entrou, ela o interrogou:
_Leonardo, voc sabia que a Letcia e o Daniel esto namorando?

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                              Tnia Gonzales



_Oi, me, boa tarde!
_Desculpe, boa tarde, querido! E ento, voc sabia?
_Sabia. Mas, o que aconteceu? Por que a senhora est me
perguntando isso?
_A Sandra me ligou, est muito magoada. Ela ficou decepcionada!
Disse que foi enganada pela filha e por voc tambm.
_Eu? Ela confunde tudo e agora eu sou culpado? Coitada da L,
deve estar arrasada! Preciso conversar com ela.
_Filho, com quem voc almoou, hoje?
_Com uma amiga. Me, eu preciso tomar banho, vou chegar
atrasado, a orquestra vai tocar...
_Mas antes me diga o nome da sua amiga.
_Me? Suzana, ela  sobrinha da Marisa.
_Sobrinha da Marisa? E vocs dois esto...
_Somos amigos, me. Depois a gente conversa, a senhora j est
linda e maravilhosa, mas eu...
_Tudo bem, vai l.

Letcia sentou-se ao lado de Leonardo para tocar o seu violino.
No conseguiram conversar, a orquestra estava pronta para tocar o
louvor: "A face adorada de Jesus"9.
_E a, amiga, como voc est? - perguntou Leonardo quando
pararam de tocar.
_Estou pssima. Minha me nem nos deu a chance de explicar, ela
no veio ao culto, est muito magoada!
Foram interrompidos pela voz do Pr. Pedro Gabriel:
_Amados, vamos louvar ao nosso Criador com mais um belo hino,
quero chamar aqui o jovem Daniel para louvar com a sua bela voz,
o hino 265, "Doce  crer em Cristo", e voc que est aqui neste

9 Hino 304 da Harpa Crist.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


culto e ainda no creu em Jesus, abra o seu corao, creia que Ele
morreu na cruz para te salvar, para que voc pudesse se reconciliar
com Deus, aceite o sacrifcio de Jesus, pois crer Nele...  doce.
Louvemos.
_Depois de uma tarde amarga, o meu Daniel est mesmo
precisando cantar : Oh! Quo doce  crer em Cristo."
_Calma, minha amiga. Tenha pacincia, espere em Deus, Ele vai
acalmar o corao da sua me. D um tempo. Eu tenho certeza
que a Sandra vai adorar o Daniel.
_Voc  to otimista!

Pontualmente, s 19h30 o culto terminou. Beatriz, a irm de
Leonardo chamou a famlia para comer pizza na casa dela.
Leonardo chegou at a pensar em convidar Suzana, mas logo
mudou de ideia, no seria prudente e com certeza ela no aceitaria.
Letcia despediu-se rapidamente de Daniel e foi para casa com o
pai. Ao chegarem, ela pediu para ir at a casa de Suzana, precisava
muito desabafar. Como eram vizinhas, Fernando no fez nenhuma
objeo.
_Minha amiga, o que eu vou fazer se eles proibirem o namoro?
_Letcia, voc precisa dar um tempo para sua me se acostumar
com a ideia.
_O Lo disse a mesma coisa, vocs dois esto na mesma sintonia,
isso  timo! Vocs  que so felizes, no vo ter que enfrentar
algo assim. Seus pais ficariam muito felizes se...
_Que papo  este? Eu e Leonardo somos amigos. No h
possibilidade alguma de ns dois...
_Por que no? Vocs esto se dando bem e...
_Letcia, pode parar com isso. Eu no pretendo namorar.
_Su, que histria  esta? No pretende? Isso  normal. Voc
conhece um rapaz, se interessa por ele e ele por voc e ento

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                          Tnia Gonzales



vocs...
_Vamos falar sobre voc e o Daniel.
_Do que voc tanto tem medo? O Lo  ...
_Pare com isso, Letcia! Eu no quero que voc comece a
enumerar as qualidades do Leonardo. Esquea... entre mim e o
Leonardo no vai existir nada alm de uma amizade.
_Suzana, voc no deveria ser to taxativa. No tenha medo de ser
feliz. Tenho certeza que voc e o Lo...
_Chega! E a, o que vocs pretendem fazer agora?
_Vamos precisar fazer algo que eu detesto: esperar. Preciso dar um
tempo para minha me, vocs esto certos. Mas, eu no vou
esperar muito tempo.

_Fernando, voc no deveria ter deixado a Letcia sair. Voc
acreditou que ela ia s at a casa da Suzana?- perguntou Regina
contrariada.
_Regina, eu a vi entrar l, pare de desconfiar da nossa filha.
_Tenho todos os motivos para isso, afinal ela e aquele rapaz
estavam namorando sem o nosso consentimento. Minha filha
fazendo uma coisa dessas! Isso  influncia da pssima companhia
que ela arrumou.
_Pssima companhia? Regina, voc est sendo muito
preconceituosa!
_ S faltava essa! Eu preconceituosa? Fernando, voc acha mesmo
que eu ...
_Regina, eu falei de acordo com as suas prprias palavras e
tambm pelo comportamento reprovvel de hoje  tarde.
_Reprovvel? Fernando, a Letcia me enganou, me fez sonhar que
estava finalmente se entendendo com o Leonardo e de repente ela
aparece com aquele... rapaz?
_Voc confundiu tudo, Regina, a culpa no  dela.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_E voc concorda que ela namore com ele? Pois eu nunca vou
aceitar esse namoro. Voc est me ouvindo, Fernando? Nunca.




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                          Tnia Gonzales



Captulo 18 - Revelao

Aquela segunda-feira no foi fcil para Lgia, pois precisou ouvir
as queixas de Sandra sobre o namoro da filha.
_Lgia, voc no concorda que eu fui trada? At o seu filho me
traiu!
_Sandra, eu avisei que voc poderia estar enganada  respeito da
Letcia e o Leonardo. Mas voc com essa sua obsesso, nem me
deu ouvidos.
_Obsesso?  assim que voc chama o meu desejo de ver os
nossos filhos juntos?
_Sandra, eu adoraria v-los juntos, mas as coisas no so assim.
Eles tm direitos tambm. Ns devemos ajud-los e orient-los,
mas eles precisam de liberdade para escolher.
_Acontece que a Letcia no soube escolher. O Leonardo  o rapaz
perfeito e ela aparece com aquele... rapaz.
_Sandra, o Daniel  um bom rapaz. Ele trabalhou na mesma
empresa que o meu genro e o Bruno lamentou muito quando ele
pediu a conta para poder ajudar ao pai, voc sabe que depois da
morte da esposa, o Isaque no conseguia fazer mais nada, a oficina
ficou parada e o Daniel precisou assumir tudo.
_ fcil dizer que ele  um bom rapaz, no  com a sua filha que
ele vai namorar! Eu no aceito esse namoro e ponto final.
_No seja radical, Sandra. D uma oportunidade para ele. Espera
a, no pode ser... ser que o problema ... no... acho que no.
_O que  Lgia?
_O que te incomoda no Daniel, Sandra, fale honestamente.
_O que me incomoda? O fato dele no se chamar Leonardo, o fato
dele no ser o Leonardo.


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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Sandra, e o fato dele ser negro, isso incomoda?
_Lgia, o que voc est pensando? Voc est me chamando de
racista?
_Sandra, eu s estou querendo entend-la..
_Acho melhor encerrar esta nossa conversa.

Leonardo aproveitou o horrio do almoo para fazer uma visita 
Paulinha. Ele ficou sabendo que naquela semana ela receberia
uma visita especial de uma ex-paciente do dr. Romeu que h cinco
anos teve o mesmo problema que ela e agora estava curada. Na
poca ela tinha apenas 15 anos. Paulinha tambm disse ao amigo
que ainda no tinha previso de receber alta, mas que estava se
sentindo bem melhor e at havia pedido  me para trazer o livro "
A revoluo da beleza10, para que pudesse comear a leitura.

 noite, Leonardo foi buscar Suzana no shopping.
_Letcia foi at a minha casa ontem depois do culto- disse Suzana.
_Ela est arrasada, n?
_Est muito preocupada com a possibilidade dos pais proibirem o
namoro, ela no gostaria de desobedec-los, mas tambm no quer
perder o Daniel.
_Eu acho que o Fernando vai aceitar numa boa, agora a Sandra vai
dar um pouco de trabalho.
_O problema  que para a Sandra  Deus no cu e voc na terra,
pelo eu pude perceber. Para ela voc  o namorado ideal. O Daniel
 uma pessoa excelente, mas ser que ela vai dar uma
oportunidade para que ele demonstre isso?
_Eu espero que sim. E para voc, o que eu sou?
_Por que voc sempre d um jeito de me envolver nesses

10 Autor: Dr. Augusto Cury

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                          Tnia Gonzales



assuntos?
_Eu fiz uma pergunta to difcil assim?
_Leonardo, voc  um amigo e eu quero que continue assim. Se
voc estiver pensando que entre ns dois pode existir algo mais,
s est se iludindo.
_Voc adora jogar balde de gua fria em mim, no ?
_No, eu adoro a verdade,  s isso.
_Pois, eu no vou perder as esperanas, eu sei que voc sente algo
por mim, s no entendo por que voc no deixa que esse
sentimento...
_Eu no quero conversar sobre isso... e a sua irm, est bem?
_Est. Ontem ns fomos comer pizza na casa dela, quase que eu a
convidei, mas... voc teria aceito o convite?
_Provavelmente no.
_Foi o que eu pensei. A princesa Suzana no iria se expor dessa
maneira.
_Acontece que seria muito estranho eu participar de um programa
com a sua famlia. Eles iriam pensar que...
_E voc no gostaria que eles pensassem que entre ns...
_ claro que no! Pra qu? No existe nada e nunca vai existir.
_Nunca? Voc no deveria dizer isso. E se voc for um presente
de Deus pra mim?
_Deus no faria isso com voc. Leonardo, eu j disse uma vez,
mas vou repetir, o problema no est em voc.
_Qual  o problema ento? Suzana...
_Chegamos... obrigada pela carona.

No dia seguinte os dois vieram o caminho inteiro conversando
sobre tudo e todos, menos sobre os dois,  claro. Ele queria
aproveitar cada segundo ao lado dela sem comentrios que
pudessem chate-la; no queria provocar qualquer situao que a

                               192
     Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


fizesse afastar-se dele, mas s vezes era difcil resistir.
_O que voc de comentarmos sobre aquele livro?
_Em qual parte voc est?- perguntou ela.
_Na parte que ele se declara para ela. Achei a declarao dele bem
diferente. Imagine algum chegar e dizer mais ou menos assim:
"Voc no serve para mim por causa da sua situao financeira, a
maioria dos membros da sua famlia  muito inconveniente,
sinceramente eu no gosto da atitude deles, voc deveria se
envergonhar da famlia que tem, mas mesmo assim eu estou
perdidamente apaixonado por voc, quer casar comigo?"  hilrio.
_A Elizabeth11 no achou nada hilrio. Mas voc est lendo
mesmo! Pensei que voc estivesse brincando, que s fosse dar
uma olhada bem superficial e pronto.
_Eu fao isso por voc. Eu quero fazer parte da sua vida de todas
as formas possveis, se  necessrio ler um livro de romance
antigo, tudo bem. Suzana, voc precisa concordar comigo que em
matria de declarao de amor eu ganho fcil do Mr. Darcy. Tenho
ou no tenho razo?
_Assunto encerrado.
_Ento voc concorda...
_No foi o que eu disse. Est na hora de encerrar o assunto, foi s
isso que eu disse.
_Como voc foge!
_Chegamos. Obrigada pela carona. Boa noite.

A quarta-feira chegou e com ela a reunio da REMA que seria
realizada na casa de Leonardo; Suzana conseguiu trocar a folga
com a amiga Cludia. s 20h todos os componentes do grupo j
estavam reunidos.

11 Livro: Orgulho e Preconceito- autora Jane Austen

                                    193
                          Tnia Gonzales



_Sejam bem-vindos e fiquem  vontade- disse Lgia ao receb-los-
eu arrumei a mesa na sala de estar com alguns petiscos, se
quiserem fazer a reunio l, tudo bem. Quem eu no conheo
daqui? - perguntou dando uma boa olhada no grupo- Voc ... - ao
dizer isso Lgia apontou para Suzana.
_Me, esta  a ... Suzana, a sobrinha da Marisa- explicou
Leonardo rapidamente.
_Ento voc  a famosa Suzana, muito prazer!
_O prazer  meu, dona Lgia.
_Voc  muito bem-vinda  nossa casa- disse Lgia ao
cumpriment-la com um beijo.
_Ento... vamos para a sala de jantar? O que voc acha, Jnatas? -
perguntou Leonardo ansioso.
Jnatas concordou e assim todos foram para a espaosa sala de
jantar onde uma grande e bela mesa, repleta de vrios tipos de
petiscos, os esperava e como haviam 12 cadeiras estofadas, foi
possvel acomodar a todos muito bem.
Jessica comeou a reunio com uma orao e a seguir pediu para
que Renan fizesse a leitura.
_" Angustiou-se Amnom por Tamar, sua irm, a ponto de adoecer,
pois sendo ela virgem, parecia-lhe impossvel fazer-lhe coisa
alguma."12
_ Obrigado, Renan. Eu gostaria de agradecer ao Leonardo e  sua
famlia por ceder a casa para a nossa reunio- iniciou Jnatas-
Hoje ns vamos ter uma conversa sobre paixes. A histria de
Amnom e Tamar vai nos ajudar. Ele era filho do rei Davi e ela
tambm. Eles eram irmos s por parte de pai. Amnom
apaixonou-se por ela e o versculo no diz que ele at adoeceu por
isso. Um amigo dele chamado Jonadabe percebeu que havia algo

12 2 Samuel 13.2

                               194
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


errado, quando Amnom lhe contou, Jonadabe teve uma ideia; ele
diz para Amnom deitar na cama e se fingir de doente e ao receber
a visita do rei era para ele pedir que Tamar cuidasse dele, assim
os dois ficariam sozinhos. E foi assim que aconteceu; quando
Amnom ficou sozinho com Tamar pediu para que ela se deitasse
com ele, mas como ela negou, Amnom a forou. Renan, leia o
versculo 15, por favor.
_" Depois, Amnom sentiu por ela grande averso, e maior era a
averso que sentiu por ela que o amor que ele lhe votara. Disse-lhe
Amnom: Levanta-te, vai-te embora."
_Valeu, Renan. Vocs notaram que depois que Amnom conseguiu
o que queria, o sentimento por ela acabou? O que ele sentia por
ela?
_Atrao fsica- respondeu Leonardo.
_ isso mesmo- concordou Jnatas- Nada alm disso. Amnom s
queria satisfazer o seus desejos sexuais. Queria sentir prazer, s
isso. Depois que conseguiu, ele a desprezou. O amor no  assim.
O amor sabe esperar. Ele quer o bem da outra pessoa. Na primeira
carta do apstolo Paulo aos Corntios no captulo 13 diz que o
amor "no procura os seus interesses". O amor  muito diferente
de uma paixo que leva o outro ao desespero. Quantas histrias
vocs j ouviram de pessoas que abandonadas por seu amor se
desesperam; uns, por acharem que a vida j no vale mais nada, se
suicidam, outros, por dio, matam a quem um dia chamou de
amor. Isso no  amor.  sentimento de posse; ela me pertence, ele
me pertence; se no vai ficar comigo, ento com mais ningum. O
filho de Davi provocou uma grande desgraa em sua famlia,
acabou sendo assassinado por Absalo, irmo de Tamar, que no
se conformou com o que ele fez. Tudo isso por causa de alguns
minutos de prazer. Jovens, vale a pena esperar. E cuidado com os
sentimentos, talvez aquilo que voc acha que  amor,  somente

                                   195
                           Tnia Gonzales



uma atrao fsica.
_Jnatas, quando um rapaz pedi para a namorada uma prova de
amor... voc sabe - disse Camila, meio sem jeito.
_Entendi, Camila. Prova de amor? A maior prova de amor que
algum pode dar  justamente esperar pelo momento certo. Se ele
vem com essa histria, caia fora rapidamente, ele s quer te usar.
_Jnatas, s vezes os dois se gostam de verdade e como passam
muito tempo juntos, acabam por adiantar as coisas, no ? - foi a
vez de Vitria se pronunciar.
_Sim,  por isso que ns sempre aconselhamos aos namorados
tomarem muito cuidado com as carcias; pois as emoes ficam 
flor da pele, no  fcil, por isso no provoquem. Mas queridos, se
acontecer, no se sintam as piores pessoas da terra, no fiquem se
culpando,  importante que vocs sejam sinceros, procurem
algum para conversar.  por isso que cada grupo  liderado por
um casal, isso facilita muito.
_Ns estamos aqui para ajud-los, se voc estiverem com algum
problema  s nos chamar para conversar; qualquer problema, no
necessariamente esse tipo de problema que estamos falando hoje-
explicou Jessica.
_ isso mesmo. Agora, vamos conversar sobre o evento para
arrecadar dinheiro para Misses. Ideias? - perguntou o lder.
Passaram a prxima hora conversando sobre o evento, cada um
apresentou a sua ideia. Ao encerrar a reunio, Jnatas avisou que
teriam um encontro domingo aps o culto, iriam ao shopping.
Leonardo lamentou por Suzana e Letcia irem de carona com
Vitria.
_Filho? Ei... voc est aqui? - perguntou Lgia ao notar que
Leonardo estava distrado.
_Oi, me, eu s estava pensando...
_Em uma moa muito bonita chamada Suzana?

                               196
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Minha querida me, agora a senhora quer adivinhar os meus
pensamentos?
_Agora eu descobri o porqu do meu filho ficar suspirando.
_Suspirando? Me?
_No precisa ficar com vergonha! Ela  uma graa... eu fiquei
observando e cheguei a concluso que vocs formam um belo
casal.
_Quem  que forma um belo casal? - perguntou Rafael ao sair de
seu escritrio.
_Nosso filho est apaixonado, Rafael!
_Me, para com isso, eu...
_Eu nunca vi voc assim, nem quando era um adolescente!
Querido, voc est completamente apaixonado! Ela no
corresponde?
_Me, deixa esse assunto para outro dia.
_Voc est sofrendo... eu vejo isso em voc. Meu filho, cuidado!
Eu me preocupo porque isso  to complicado! No faa nenhuma
bobagem, olha, eu sei que s vezes no  fcil, mas...
_Me! Eu e a Suzana somos amigos. Tenha calma, t? A senhora
est pensando o qu?
_ que nos noticirios aparecem histrias de pessoas que por no
serem correspondidas acabam fazendo alguma loucura...
_Minha me, fique tranquila, eu no estou desesperado e nem
desiludido da vida. Pode ficar sossegada que o seu filho no vai
aparecer em nenhuma reportagem policial. Agora eu vou dormir.
_Ei, espera... eu quero saber.
_Pai, a mame est viajando.
_Eu estou viajando? O nosso filho est apaixonado, Rafael. E ela
esteve aqui hoje.
_E vocs nem me avisaram? Eu tambm gostaria de conhec-la.
_Pai, ns s tivemos uma reunio do grupo.

                                   197
                           Tnia Gonzales



_Rafael, eu conto tudo pra voc, deixe o nosso filho dormir.

Com a Bblia aberta em 2 Samuel 13, Suzana, pensava: " Que
coisa terrvel! Pobre Tamar, deve ter sofrido tanto! Eu sei muito
bem. "

Sandra entrou no quarto da filha, queria muito ter uma sria
conversa com ela.
_Me, eu estou com sono, no acho que  uma boa hora...
_Eu preciso falar, no estou suportando mais. Letcia, voc
pretende nos desafiar?
_Desafiar? Me, eu s quero ter permisso para namoraro Daniel.
Eu gostaria que vocs aprovassem,  s isso.
_S isso? Filha, voc no tem ideia da minha decepo ao ver
aquele rapaz aqui. Eu estava certa que o Leonardo viria...
_Me, a senhora s sabe falar do Leonardo! Compreenda de uma
vez por todas que ns somos grandes amigos e quer saber? Ele
est apaixonado.
_O Leonardo? Por quem? Entendi... ento  por isso... voc est
magoada e...
_Me, no confunda as coisas, eu estou apaixonada pelo Daniel.
_Apaixonada? No fale bobagens! O Leonardo  o rapaz ideal:
ele  bonito, inteligente, gentil,  fiel a Deus, tem uma boa
profisso, boa famlia...
_Faltou uma coisa na sua lista: ele  branco.
_O que voc quer dizer com isso?
_ isso mesmo. A senhora  preconceituosa. Me, isso  racismo!
Quem diria, hein? A Sandra, uma pessoa que diz ser uma
seguidora de Jesus!
_Letcia, no fale assim comigo, eu sou sua me! No sou racista.
_No? Ento prove! Aceite o meu namoro.

                               198
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Isso no.
_No,  claro que no.  muito fcil dizer: Eu, racista? De jeito
nenhum! Eu respeito todas as pessoas, eu as aceito, desde que
fiquem bem longe da minha filha.
_Voc est indo longe demais... cuidado, eu sou sua me.
_Eu falei para o Leonardo, eu disse que eu estava com receio
justamente por isso... mas ele no, ele disse:" Que isso! Voc acha
mesmo que os seus pais vo ter esse tipo de preconceito?"
_E ele estava certo, eu no tenho. S no quero que voc namore
com esse rapaz.
_Me, eu gosto do Daniel, d uma chance para ele, conhea-o, por
mim.
_Eu sinto muito, mas no posso. Esquea. Por quem o Leonardo
est apaixonado?
_Por que a senhora quer saber?
_Me conte, eu quero saber se ele soube escolher.  claro que para
escolher bem mesmo s se fosse voc, mas...
_Para com isso. No vou falar.
_Letcia, voc est impossvel! Voc no quer falar porque no 
verdade,  isso!
_Agora eu sou mentirosa.
_Bem... quem  que estava saindo s escondidas? Agora, me
conte por quem ele est apaixonado?
_A senhora no vai desistir, no ? Pela Suzana.
_Suzana? A sobrinha da Marisa?
_ ela, quem mais?
_Nossa! Vocs esto brincando com a gente, s pode ser isso! A
Suzana? Aquela garota no tem nada a ver com ele. Vive de favor
nos fundos da casa da tia,  uma vendedora que trabalha em
shopping, o pai  um ex-presidirio...
_O qu? Me, que histria  essa? O pai dela  um ex-presidirio?

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                           Tnia Gonzales



_Eu no deveria ter falado isso, esquece... vou deixar voc dormir.
_Me, agora a senhora vai falar...
_Eu j disse para voc esquecer, eu falei sem pensar, foi isso.
_Me, que absurdo! A Suzana  uma excelente pessoa, 
esforada, est na faculdade, trabalha...eu no sabia que a minha
me era to preconceituosa!
_Eu vou dormir, cansei desse assunto, mas tenho certeza que a
Lgia no vai ficar nada...
_ Agora vai se intrometer na vida do Leonardo tambm?
_Letcia, isso no  problema seu, pode deixar que eu me entendo
com a minha amiga. Boa noite.
Naquela noite foi difcil para Letcia dormir, no conseguia parar
de pensar nas palavras da sua me: " O pai  um ex-presidirio"-
de onde que ela havia tirado isso?

Era quinta-feira, Suzana recebeu uma ligao de sua me no final
da tarde avisando que Leonardo precisou fazer uma viagem com o
pai e s voltaria sbado ou talvez, domingo.
_Ele ligou para a senhora? Por que ele no me ligou?
_J est com saudades? Isso  muito bom. Ele me ligou para
garantir que voc no voltaria sozinha. O seu pai vai busc-la,
no discuta, Suzana, ele j est sabendo.
_Me, no precisa. O papai vai estar to cansado!
_Querida, vou desligar. Ah... o Leonardo confirmou presena no
almoo de domingo. Um beijo. Tchau.
Suzana no sabia explicar, mas pensar que no veria Leonardo a
deixou muito triste, no dia anterior os dois nem tiveram a
oportunidade de conversar e ela tinha que confessar que sentiu
falta disso.
Naquela noite, ao ver o pai esperando-a no lugar de Leonardo,
pde perceber o quanto a presena dele fazia bem para ela, isso

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


era algo que no podia negar.
No dia seguinte Suzana sentiu ainda mais falta dele, "como era
possvel isso?"- pensou- " So s dois dias e eu estou desse jeito?
Bem que ele poderia ter ligado... mas, por que ele ligaria? E se eu
ligasse? No. Que bobagem,  claro que no!"

Letcia queria muito encontrar-se com Daniel, pois desde domingo
eles no se viam, s se falavam pelo celular, mas a me estava de
marcao. Ela tentou por vrias vezes retomar o assunto sobre o
pai de Suzana, mas a me desconversou.




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                           Tnia Gonzales



Captulo 19 -Reao inesperada
Paula recebeu uma visita muito especial naquela semana: Jlia,
ex-paciente do dr. Romeu. As duas conversaram muito,
descobriram que tinham muita coisa em comum.
_ Paula,  necessrio muita fora de vontade para sair dessa e eu j
pude perceber que isso voc tem.
_Eu quero muito ficar completamente curada,  horrvel se olhar
no espelho e sempre achar que est tudo errado.
_Voc vai conseguir. Isso tambm acontecia comigo e agora eu fiz
as pazes com o espelho e com a balana. Voc acredita que eu
cheguei a quebrar trs espelhos e duas balanas?
_Srio? Bom... isso eu nunca fiz!
_Ento voc est em melhores condies do que eu estive naquela
poca. Paula, eu passava horas me olhando no espelho e de
repente me dava uma raiva to grande que eu jogava o que
estivesse na minha frente. Uma vez eu joguei um vidro de
perfume, era novo e caro! Joguei-o no espelho. Eu sempre fui
fissurada por balanas, daquelas que ficam no banheiro, sabe?
Pois, estraguei duas elas. Uma foi pela janela, a outra, eu joguei
na parede com muita violncia! Eu sentia dio das coisas que
estavam ao meu redor e me odiava tambm. Sentia raiva das
meninas que eu achava que eram magras demais. Ficava brava por
no ser como elas.
_E voc tambm provocava o vmito?- perguntou Paula.
_Sim, muitas vezes ao dia. Na maioria das vezes, os meus
sintomas eram de anorexia, mas algumas vezes tambm os da
bulimia. Era complicado, eu ficava muito tempo sem comer e
depois eu queria compensar isso, foi a que as coisas se
complicaram ainda mais, pois o meu organismo no suportava


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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


essas mudanas... e os exerccios? Sempre fui obcecada por
academias, mas como me sentia muito feia, parei de frequent-las,
ento a soluo foi me exercitar em casa, fiz de tudo para a minha
me comprar uma esteira, insisti tanto que ela me deu de presente
de natal. Me exercitava como uma maluca! Caa de exausto. Um
dia no consegui me levantar mais. Minha me chegou do servio
e me encontrou no meu quarto, eu estava inconsciente. Ela
precisou chamar uma ambulncia, entrei em coma. Fiquei uma
semana assim. Os mdicos no davam nenhuma esperana para
minha me.
_E seu pai, Jlia?
_Meu pai mora em Manaus, eles so divorciados. Eu... s estou
aqui conversando com voc hoje por um milagre. Cheguei a pesar
35 quilos, estava esqueltica e mesmo assim me sentia gorda e
muito feia. Isso  terrvel! Me tornei uma pessoa depressiva,
amarga... sempre achava que as pessoas falavam mal de mim, que
zombavam de mim. Paula, no permita que isso destrua a sua
vida, ela  muito preciosa; agora eu aprendi a dar valor para o que
realmente tem valor, no tem dinheiro que pague a paz, a alegria
de viver, estar satisfeita consigo mesma. Eu tinha um sonho, eu
queria muito ser uma modelo reconhecida, famosa, mas isso no 
para todas, mas a vida, esta sim,  para todas e todos. Deus nos
deu esse presente precioso e ns temos a obrigao de cuidar
direitinho.
_Voc est certa! - disse Paula enxugando as lgrimas- Eu
agradeo a Deus por ter me dado uma nova oportunidade e no
vou desperdi-la. Jlia, eu agradeo muito por sua coragem de
vir at aqui compartilhar a sua histria comigo, foi muito
importante pra mim.
_Paula, eu recebi uma nova oportunidade e sinto que devo ajudar
as pessoas que esto passando pelo mesmo problema que eu j

                                   203
                           Tnia Gonzales



enfrentei. Oua bem, no permita que a moda, que as pessoas
ditem as regras pra voc, no permita que o externo prevalea,
valorize o seu interior, voc  uma pessoa nica e especial, nunca
se esquea disso. Pois aqueles que cobram a perfeio no so os
mesmos que lhe estendem a mo quando voc cai, nestas horas
eles ficam longe, muito longe. No vai ser fcil, mas voc vai
vencer! O importante  no se fechar em um mundo particular,
isso  muito perigoso. Aceite a ajuda das pessoas, eu sei que voc
tem amigos muito especiais, a sua me me contou. E eu sei
tambm que voc cr em Jesus e isso  maravilhoso. Ele est
junto com voc nesta jornada. Eu tambm confio em Jesus, s que
eu o conheci no hospital atravs de uma jovem que estava
internada no mesmo quarto que eu. Ela me apresentou Jesus, me
explicou que ele morreu na cruz para que ns tivssemos uma
vida de comunho com Deus. E me disse que ele deu a vida por
mim para que eu pudesse viv-la plenamente, e que a vida no
constitui no que voc pode adquirir: fama, dinheiro, poder. Pois
isso um dia acaba e ningum consegue levar essas coisas para a
eternidade. Ela leu um versculo para mim, posso pegar a sua
Bblia? - perguntou Jlia.
_Claro, leia pra mim, por favor!
_" Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscncia; mas
aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre." 13
Paula, tudo passa... a beleza, as riquezas, o poder, a fama... o que
permanece  o que voc faz para Deus. A vontade Dele no  que
voc fique desesperada para manter um peso impossvel, Ele no
quer que voc olhe para o espelho e se sinta feia, no! Deus no
nos criou para isso. Ele nos ama e quer o nosso bem. Da prxima
vez que voc se olhar no espelho diga: " Eu sou importante para

13 1 Joo 2.17

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Deus, eu sou linda e preciosa aos olhos dele"; pois  isso mesmo
que voc , tenha certeza disso, amiga!
As duas se abraaram e choraram muito. A visita de Jlia foi
realmente um presente muito especial para Paulinha.
Naquele mesmo dia Paula recebeu uma tima notcia do dr.
Romeu, se a recuperao dela continuasse no mesmo ritmo ela
teria alta no incio da prxima semana. O que ela no sabia e
tambm no deveria saber, era que os pais falavam at em
separao, a situao deles estava bem complicada, no
conseguiam manter um dilogo, pois sempre acabava em
discusso.
_Eu no aguento mais a sua indiferena, Paulo! Voc no se
importa comigo, eu sei que voc j no me ama mais.
_Como voc  dramtica, Regina! Pare de pensar s em voc, a
nossa filha est internada e voc falando esse tipo de coisa? S
rindo!
_, eu sei que faz tempo que eu virei um motivo de piada para
voc!
_Pare com isso! No suporto quando voc fica a choramingando.
_Voc no me suporta, no ? As pessoas que adoram convid-lo
para pregar e dar palestras sabem disso?  claro que no! Elas
pensam que o grande pregador Paulo Reis  um santo, acham que
ele  um excelente pai e um timo marido... coitados... esto sendo
enganados!
_Regina, eu j avisei para voc que eu estou cansado de ouv-la
lamentar!Voc  uma ingrata,  isso o que voc ! Est sempre
insatisfeita, deveria sentir orgulho em ter um marido to
respeitado e requisitado, mas no, isso pra voc no tem a menor
importncia. Estou cansado disso!
_Eu eu j me cansei faz tempo. Vamos resolver isso de uma vez
por todas, para que viver de aparncias...

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                           Tnia Gonzales



_O que voc quer dizer com isso?
_Voc no sabe? No consegue adivinhar? Eu no acredito, que o
grande pregador e palestrante, Paulo Reis, ainda no percebeu do
que eu estou falando?! Eu quero o divrcio,  isso, Paulo.
_Voc est maluca? Regina, o qu? Voc deve estar com
problema na cabea, s pode ser isso, vou lev-la a um psiclogo.
_No preciso de psiclogo, eu quero o divrcio! Chega de mentir.
_Regina, nunca mais toque nesse assunto, est me ouvindo? Voc
quer acabar com o meu ministrio,  isso?
_Olha s com que ele est preocupado! No  por ficar sem a
famlia, ele est preocupado com o ministrio dele! Mas,  claro, o
que eu esperava? Voc  to previsvel, Paulo, e desprezvel  isso
o que voc . Eu vou ao hospital, mas a nossa conversa no
termina aqui.

Eram quase dez horas daquela noite de sbado e Suzana estava
atendendo um cliente, havia pensado em Leonardo durante a tarde
inteira. Ela gostaria de ter fora para deixar de pensar nele, mas
era impossvel, tinha que reconhecer que estava com muitas
saudades dele. Como era possvel, algum fazer tanta falta assim?
Ela no conseguia compreender. Ele iria adorar saber o quanto a
ausncia dele havia mexido com ela. " Pelo menos a Cludia no
est aqui hoje, seno ela teria percebido tudo"- pensou ela e aps
dez minutos saiu da loja.
Suzana deu uma boa olhada ao redor para encontrar seu pai, mas
de repente seu corao disparou, ela ficou esttica olhando para o
rapaz sorridente que se aproximava dela, ela no podia acreditar,
era ele, Leonardo estava ali esperando-a. E, sem se preocupar em
disfarar a alegria que sentiu ao v-lo, retribuiu o sorriso. Por
alguns segundos os dois ficaram se olhando sem dizer uma nica
palavra.

                               206
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Boa noite, princesa Suzana! Gostou da surpresa?
Neste momento Suzana fez algo que nem ela mesma acreditou
que seria capaz: ela o abraou, simplesmente, o abraou. Aquele
movimento inesperado fez Leonardo ficar sem ao a princpio,
mas logo ele a aconchegou em seus braos. Ficaram por alguns
instantes, assim, abraados, sem dizer nada, s desfrutando
daquele momento de ternura. Era a primeira vez que os dois
ficavam to prximos um do outro. De repente, Suzana se afastou
dele, envergonhada.
_Que recepo! Eu acho que vou viajar mais vezes.
_... me desculpe... eu...
_No se desculpe, voc foi espontnea; eu perguntei se gostou da
surpresa e voc me respondeu, foi s isso, no precisa se sentir
culpada, voc no cometeu nenhum pecado.
_Eu nem sei o que dizer...
_Vamos comer? Eu cheguei em casa, tomei um banho e vim
busc-la, estou com fome. E voc?
_Tambm estou.
_Ento, vem comigo... Suzana no precisa ficar com vergonha de
mim, eu estou muito feliz por estar aqui com voc, especialmente
porque voc demonstrou que sentiu saudades de mim. Sabe o que
aconteceu? O seu sentimento foi muito mais rpido do que o seu
pensamento, voc no teve tempo para pensar, a o seu corao
agiu por conta prpria; ainda bem que eu no liguei, se voc
soubesse no teria reagido assim. Foi uma surpresa e tanto, no
foi?
_Voc est adorando isso, n?
_No vou negar que eu adorei tudo, desde o seu olhar, passando
pelo seu sorriso e terminando em seu abrao... foi quase perfeito,
s faltou uma coisa...
_Nem vou perguntar o que; voc no disse que estava com fome?

                                   207
                          Tnia Gonzales



Os dois foram at a praa de alimentao, desta vez escolheram
uma pizza.
_Voc viajou para onde? Se  que eu posso saber...
_Claro que pode, eu no escondo nada de voc, sou um livro
aberto e voc ?
_Eu fiz uma pergunta, voc respondeu com outra, no aprendeu
que isso  muito feio?
Suzana ficou bem desconfortvel com a pergunta de Leonardo.
Ela nunca poderia ser um livro aberto, especialmente para ele.
Com certeza ele no iria gostar...
_Tudo bem, calma. Meu pai precisava conversar com um cliente
que mora em So Carlos, e como ele tem dificuldade para se
locomover devido a um acidente de trabalho, ns fomos at l,  o
Agnaldo. H meses que ele faz o convite para conhecermos o stio
dele, ento aproveitamos a oportunidade.  um lugar muito
agradvel; at pesquei, foi timo, mas eu fiquei com muita
saudade, percebi que no posso ficar nem dois dias sem voc.
_Tanta saudade... poderia ter ligado.
_Ah... que gracinha! Voc ficou esperando uma ligao minha...
ah... Suzana, voc est me surpreendendo! Eu confesso que pensei
em ligar, mas resisti e gostei do resultado!
_Para com isso! Agora eu vou precisar suportar um Leonardo
convencido e ...
_Apaixonado!
_Exagerado,  isso que voc .
_E a sua v, est inventando muita coisa para amanh?
_Est toda animada... ela cozinha muito bem! Hum...com aquele
tempero especial que s ela sabe fazer.
_Neta coruja. E a L?
_As coisas esto bem complicadas para a nossa amiga. A me dela
est de sentinela, no quer que ela encontre o Daniel de jeito

                              208
     Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


nenhum.
_Que coisa chata.

Leonardo deixou Suzana em casa alguns minutos aps a meia-
noite.
Naquela noite Suzana demorou muito para pegar no sono, s
pensava na reao que teve ao v-lo. " Que foi aquilo? Como eu
tive a coragem de abra-lo? Eu no posso negar que fiquei muito
feliz ao v-lo, mas, me jogar nos braos dele? At agora eu no sei
como isso foi acontecer. Mas, eu me senti protegida e... feliz... foi
to maravilhoso! Ser que eu conseguiria me relacionar com ele?
No,  claro que no. Mesmo que eu vencesse todos os meus
medos, no seria justo para ele. Ele merece algum melhor do que
eu."

O dia amanheceu, seria um domingo de muito sol. Leonardo
participou da escola bblica e do ensaio da orquestra, estranhou a
ausncia de Letcia, tentou falar com ela pelo celular, mas no
conseguiu. Como ainda era meio-dia, aproveitou a oportunidade
para visitar a amiga Paulinha. Saiu de l muito animado, pois ela
estava toda confiante e alegre com a possibilidade de receber alta.
Antes das duas horas da tarde, Leonardo j estava esperando pela
sada de Suzana. Por alguns minutos ficou lembrando do
reencontro com Suzana no dia anterior. Como aquele abrao foi
inesperado! Ela era sempre to contida, mas ontem...aquela reao
de Suzana fez com que Leonardo tomasse uma deciso. Uma
importante deciso.
Ela se aproximou dele com um certo constrangimento, por causa
da noite anterior, e ele se aproveitou disso.
_E ento? Estou esperando...
_Esperando o qu?

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                            Tnia Gonzales



_O meu abrao... por que essa carinha brava? Hoje no tem
abrao? E se eu disser que estou precisando ser abraado hoje, que
estou muito carente?
_Problema seu!
_U, o que voc fez com a Suzana de ontem?
_Ela faltou hoje.
_Que pena. Eu gosto mais daquela, ela  mais feliz,
livre...corajosa e espontnea.
_O que voc acha de irmos? Eles esto nos esperando para
almoar, lembra?

s 14h35, Leonardo e Suzana chegaram para o almoo especial da
vov Vivi.
_Agora podemos almoar! Leonardo, hoje voc no vai comer a
tradicional macarronada de domingo, hoje  dia de comida
mineira! - avisou a vov.
Vov Vivi havia caprichado no cardpio: Vaca atolada, feijo
tropeiro e outras delcias. Para a sobremesa: doce de leite e doce
de abbora com coco.

Aps o almoo, enquanto saboreavam a sobremesa, Leonardo
anunciou que tinha algo importante para dizer.
_Ento, por favor, pode falar, Leonardo  pediu o pai de Suzana.
_Bom... eu quero aproveitar que a famlia est toda reunida, at a
Sueli est aqui hoje e a tia Marisa, ento, eu... eu gostaria de pedir
a sua permisso, seu Davi, para ser o namorado da Suzana.
Neste momento todos se manifestaram, houve uma alegria geral.
Davi nem conseguiu falar por causa da empolgao das mulheres
da famlia, menos de Suzana, que estava com uma enorme
interrogao naqueles lindos olhos verdes. Ela olhava fixamente
para Leonardo, querendo entender o que ele havia acabado de

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


fazer.
_Posso falar agora? - perguntou Davi- Acalmem-se! Estas
mulheres, so capazes de nos deixar malucos! Pois muito bem, eu
estou muito feliz e  claro que voc tem a minha permisso para
namorar a minha filha. Voc  um bom rapaz e tem demonstrado
que gosta muito da Suzana e a respeita tambm, o que  muito
importante. S espero que vocs no exagerem no horrio e que
tomem muito cuidado.
_Quanto a isso, o senhor pode ficar tranquilo, eu respeito muito a
sua filha e  claro que eu gosto muito dela e...  isso.
_Ento, s temos que dar os parabns ao novo casal de
namorados- disse vov Vivi- Querida, estou to feliz por voc!- a
seguir abraou Suzana- Leonardo, venha aqui me dar um abrao...
ganhei um novo neto.
_E eu ganhei uma v linda e maravilhosa.
Ainda ficaram se confraternizando por alguns instantes, at que
Leonardo disse que precisava ir embora seno se atrasaria para o
culto. Suzana o acompanhou em silncio at o porto.
_O que foi aquilo? - perguntou quebrando o silncio.
_ assim que voc chama o nosso namoro?
_Leonardo, como voc pde fazer isso comigo? Voc se
aproveitou de uma situao... eu deveria ter sido consultada antes,
estou errada?
_Em circunstncias normais, sim, mas...
_O qu? Leonardo voc no pode decidir por ns dois, isso no 
correto!
_Eu sei qual seria a sua resposta se eu falasse com voc antes.
Mas eu tambm sei que voc gosta de mim, no pode negar isso,
eu j desconfiava e ontem tive a certeza.
_Ontem? Voc tomou uma deciso dessas por causa de ontem?
Aquilo foi s...

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                           Tnia Gonzales



_No sabe nem explicar, pois eu sei o que foi aquilo, foi o seu
corao me dizendo que voc tambm est apaixonada por mim.
_Eu... voc est...
_Eu estou o qu? Mentindo? Delirando? Viajando? Tenho certeza
que no. Se eu estiver errado, ento me corrija, vamos, diga que
no sente o mesmo por mim, mas seja convincente!
_Pare com isso... eu no vou dizer nada.
_No pode negar,  por isso que voc no vai dizer nada.
_Eu no posso namorar voc.
_Por que voc no falou l dentro? Quer voltar l? Vamos...
_No. Eu no tive coragem de dizer porque eles ficaram muito
felizes.
_S por isso? Se foi s por isso ns vamos l agora e eu vou me
desculpar e dizer que fui precipitado. Vamos?
_Leonardo... no.
_Ento me diga que no foi s para no estragar a alegria deles,
me diga.
_Eu... por que voc faz isso?
_Porque eu te amo,  s por isso. Diga.
_No foi s por esse motivo... no foi s por eles, foi por voc...
eu no queria mago-lo.
_E por voc? Diga.
_Tambm.
_Tambm? Fale claramente... fale... eu preciso ouvir.
_Eu tambm gosto de voc... ah... mas no posso, voc merece
algum melhor do que eu.
_Isso sou eu quem decide. Eu quero voc, Suzana, no quero
algum melhor ou pior. Eu s quero voc,  to difcil entender
isso?
_Eu... no sei se consigo ser uma namorada pra voc, eu j disse
mais de uma vez que o problema est em mim.

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     Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_No entendo por que voc diz estas coisas, mas quando voc se
sentir  vontade para me contar eu estarei pronto para ouv-la.
_Eu no vou conseguir, eu tenho tanto medo...eu no sei ... voc
precisa de algum que possa ser carinhosa e no algum cheia de
receios e medos...
_Fique tranquila, eu espero at que voc...
_Leonardo, voc quer uma namorada que fique tremendo quando
voc se aproxima e ...
_ No sei por que voc tem dificuldade para se relacionar, eu sinto
que no  s por timidez... Suzana, ontem voc me abraou,
lembra? No fique ansiosa, eu sei que voc est preocupada com o
nosso primeiro beijo, no ? No precisa ficar envergonhada, eu
vou esperar, no quero for-la e nem vou peg-la de surpresa ...
fique tranquila, eu sou bem paciente. O importante  que eu sei
que voc corresponde ao meu amor,  claro que  sua prpria
maneira. S peo uma coisa, que voc me autorize a segurar na
sua mo, seno vai ficar estranho um casal de namorados que
mantm distncia um do outro. Agora eu preciso ir, eu volto daqui
a trinta minutos para busc-la, afinal voc agora  minha
namorada.
Leonardo se despediu de Suzana dando-lhe um beijo no rosto.
Poucos minutos antes das cinco e meia ele j estava de volta, para
busc-la.
_Voc est linda... vamos, eu tenho pouco tempo, a orquestra vai
tocar... e voc nunca pensou em tocar algum instrumento?
_Eu j pensei em aprender a tocar violo, mas nunca tentei. Voc
gosta muito de violino?
_Muito, tocar faz muito bem,  claro que  necessrio se esforar,
ter disciplina, mas pra mim  algo muito relaxante, que eu fao
com muito prazer. Voc deveria experimentar, tenho certeza que
iria gostar, se quiser eu posso ser seu professor, s que tem que ser

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                          Tnia Gonzales



de violino.
_Eu agradeo, mas, por enquanto, no. Voc falou com seus pais
sobre ns?
_Ainda no. A minha me notou que eu voltei mais feliz, voc
acredita?
_ mesmo? Leonardo, como voc consegue se contentar com to
pouco? O que eu posso oferecer pra voc? Quase nada.
_Suzana? E desde quando o amor pode ser considerado assim? Eu
amo estar com voc,  to difcil voc entender isso? Depois
conversamos mais,      agora vamos participar de um culto
maravilhoso, venha minha linda namorada.

Leonardo mal teve tempo de se posicionar, o pastor j havia
anunciado o louvor e a orquestra estava pronta para comear a
tocar.
_E a, meu amigo? Est to difcil da gente conversar, estou com
saudades, sabia?- foram as palavras de Letcia ao parar de tocar
seu violino.
_ verdade... mas como vo as coisas na casa da famlia Soares?
_Complicadas ao extremo! Minha me est fazendo de tudo para
eu no ter a mnima oportunidade para ver ou falar com o Daniel.
Ela no quer que eu v nem na casa da Suzana, voc acredita?
Quando eu falei que hoje teria um compromisso com o grupo, ela
ligou para o Jnatas para confirmar, d para suportar isso?
_Sinto muito, amiga. Eu gostaria de poder ajud-la, mas como?
_Eu sei como. Ns vamos ao shopping, certo? Quando o encontro
do grupo terminar, ns...
Letcia explicou o seu plano para Leonardo e depois ficou muito
surpresa com a notcia que ele deu.
_No acredito? Vocs esto namorando!? Que legal, Lo! Ah... eu
fico to feliz por vocs!

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Aps o culto, o grupo Alfa se reuniu em um shopping. Jnatas
anunciou que fariam mais um parceiros do dilogo e separou as
duplas. Leonardo e Suzana seria uma delas.
_Justo hoje voc ser a minha parceira, isso  muito engraado, eu
adorei- comentou Leonardo sorrindo.
_Em todos os sorteios eu ficava torcendo para no cair com voc,
agora...
_Que revelao, hein! Voc deveria ter vergonha de dizer isso!
Suzana, eu vou dar uma palavrinha com o Jnatas, j volto.

_O qu? Vocs comearam a namorar hoje? Parabns!- disse
Jnatas.
_Eu achei melhor esclarecer isso, porque eu sei o quanto o
trabalho dos grupos  srio e eu respeito muito.
_Fique tranquilo, Leonardo, pode ir conversar com a sua parceira
especial. Foi timo voc ter contado, valeu!

_Pronto, aqui estou, j esclareci as coisas com o lder- disse
Leonardo ao se aproximar de Suzana.
_Voc falou pra ele sobre ns?
_Eu contei para no dar a impresso errada, pode parecer que
estamos participando s pra namorar, sei l, que no levamos isso
a srio...
_Tem razo. E a, vamos andar um pouco ou...
_Se voc no se importar eu gostaria de ficar parado e de
preferncia sentado. Vamos procurar um lugar?
_Concordo.
A hora passou rapidamente quando eles perceberam j estavam
atrasados para se juntarem ao grupo.
_Faltam quinze minutos para as dez, isso significa que estamos
quinze minutos atrasados, vamos correr... - disse Leonardo.

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                          Tnia Gonzales



_Esqueceram do horrio, ? - perguntou Vitria sorrindo.
Foram at a praa de alimentao. Jnatas aproveitou para
anunciar que o grupo deles fariam Yakissoba daqui a duas
semanas para arrecadar fundos para misses. Seria um trabalho
em conjunto com o grupo gape. Aproveitou para marcar uma
reunio na prxima quarta-feira na casa da Vitria.
Aps o lanche, se despediram; Leonardo, Suzana e Letcia ainda
permaneceram no shopping pois se encontrariam com Daniel.
_Valeu a fora, Leonardo, est difcil ficar longe da minha
loirinha- confessou Daniel.
_ s uma fase, logo vocs vo poder ficar juntos, a Sandra vai
acabar aceitando, ela s precisa se acostumar com a ideia. Vamos
combinar... daqui a trinta minutos nos encontramos no
estacionamento, eu sei que  pouco, mas precisamos voltar antes
da meia-noite- disse Leonardo.
_Estavam com tanta saudade! Esta semana foi muito complicada
para eles- foi o comentrio de Suzana ao ficar a ss com
Leonardo.
_Precisamos intensificar as nossas oraes. S Deus pode
amolecer o corao da Sandra. Eu percebi como voc ficou ao v-
los juntos. O que passou por essa sua cabecinha linda, hein?
_Ah... eu sinto muito... eu acho que no vou conseguir ser sua
namorada. Pra mim  como se fosse um obstculo intransponvel.
Se algum soubesse disso com certeza iria pensar que  bobagem
minha ou que eu fao isso para te provocar... voc est me
entendendo? De repente at voc pensa que eu estou dificultando
as coisas s pra...
_Que histria  essa?  claro que eu no penso nada disso. Eu sei
que existe alguma coisa que te incomoda muito, eu j disse que
vou esperar.


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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Como no sabiam quando teriam uma nova oportunidade para
ficarem juntos, Letcia e Daniel aproveitaram cada minuto, as
demonstraes de carinho entre os dois s fazia Suzana sentir-se
pior com relao ao seu namoro. Passou o caminho todo pensando
que ele merecia uma namorada normal, algum que pudesse
retribuir-lhe o carinho.
Eram onze e quarenta quando deixaram Daniel na casa dele e
cinco minutos depois, Leonardo estacionou em frente  casa de
Suzana. Letcia despediu-se do casal e entrou em sua casa
torcendo para que a me j estivesse dormindo.

_Tem algum aqui que est muito preocupada e eu no estou
gostando disso. Suzana, eu no quero que o nosso namoro seja um
peso pra voc, a minha vontade  faz-la feliz.
_E voc vai conseguir ser feliz comigo?
_Eu j estou muito feliz por voc ser minha namorada.
_Namorada? At parece que somos irmos!
_Isso no. Eu estaria cometendo um pecado terrvel se voc fosse
minha irm. O que eu sinto por voc no tem nada a ver com amor
fraternal.
_Voc ainda consegue brincar?
_Princesa Suzana, pare de se culpar, o nosso namoro comeou
hoje, teremos muitas oportunidades para nos comportar como um
casal de namorados. No se preocupe com isso, no  bom ficar
fazendo comparaes com outros casais. Agora  melhor voc
entrar, boa noite.
Leonardo despediu-se dela com um beijo no rosto.

Naquela noite, Suzana teve um pesadelo. Ela estava trabalhando,
de repente um homem entra na loja mancando, ela o reconhece
imediatamente, um sentimento de pnico comea a tomar conta

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                         Tnia Gonzales



dela, ele olha fixamente para ela e diz:
" Voc no tem jeito mesmo! Acha que pode pertencer  algum
que no seja eu? No sonhe, menina linda, no sonhe! Um dia
voc foi toda minha, acha que pode mudar isso? Voc sempre ser
a minha menina linda!"
Neste momento Suzana acordou e passou a mo no rosto para
enxugar as lgrimas.




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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 20 -Treinamento

Naquela tarde de segunda-feira, Suzana recebeu um lindo bouquet
de rosas.
_Nossa, meu Deus! Uau! Quem mandou? Foi o gato da carona?-
brincou Cludia.
_Gato da carona? S voc. Bom... voc vai acabar descobrindo
mesmo... ns estamos namorando.
_No acredito? Aaaaa, que mximo!- gritou Cludia.
_Calma... no precisa exagerar.

s dez horas Leonardo estava esperando por Suzana.
_Boa noite, princesa. Quer uma ajuda?
_Oi, as flores eu mesma levo e obrigada, so lindas.
_Qual  o dia da sua folga? Eu tive uma ideia- disse Leonardo ao
entrarem no carro.
_Quinta, qual  a sua ideia?
_Meu plano  o seguinte: passar mais tempo com voc.
_Como?
_Eu quero almoar com voc e s traz-la de volta  noite.
_E o seu trabalho?
_Pode deixar que eu me entendo com o patro.
_Aonde voc vai me levar?
-O que voc acha de passar a tarde na praia?
_Praia? Voc est brincando, n?
_No. Ns precisamos de um pouco de privacidade, no se assuste
comigo, espera, eu explico. Eu tive uma ideia que vai ajud-la a se
acostumar comigo. Como eu explico sem que voc me entenda
mal? Eu tenho um plano. Voc tem um certo ... medo, digamos
assim, de se relacionar comigo como seu namorado, ento eu

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                            Tnia Gonzales



pensei que em primeiro lugar voc precisa se sentir segura e que
para isso voc tem que confiar em mim, certo?
_Certo, mas eu no entendi. Que plano mirabolante  esse?
_No tem nada de mirabolante,  bem simples e pode se
concretizar com facilidade, vai depender de voc. Ns precisamos
de mais tempo juntos e de um lugar tranquilo, no me olhe assim,
eu no estou com segundas intenes,  que em um shopping, por
exemplo, voc no iria se sentir  vontade e nem na garagem da
sua casa, ento eu pensei que se ns fssemos em uma praia ou
em um outro lugar bem espaoso que voc no precisasse se
preocupar com as outras pessoas... Suzana, fala que est
entendendo... eu no estou pretendendo lev-la para um lugar
fechado, no  isso.
_Entendi. Est vendo como  complicado ter uma namorada como
eu? Voc fica cheio de cuidados, todo preocupado e...
_Princesa Suzana, eu j disse e repito, no se culpe.  que agora
fica difcil para explicar tudo, mas  uma boa ideia, voc vai ver. E
a?
_Tudo bem, mas pense em um outro lugar.
_Ns podemos almoar e depois irmos a um parque, quem sabe o
Ibirapuera?
_Tudo bem, eu concordo, mas ainda no entendi.

No dia seguinte, Leonardo foi visitar Paulinha e teve uma grande
surpresa.
_Voc vai sair hoje?
_Isso mesmo, meu amigo lindo! S estou esperando o dr. Romeu.
Estou to feliz, eu prometo que vou me comportar direitinho desta
vez  disse Paulinha muito emocionada.
_Minha linda, eu tambm estou muito feliz por voc! Est
recebendo uma nova oportunidade e eu sei que vai saber

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


aproveit-la.
_Pode ter certeza, aquela Paula maluca no vai ter vez! Eu sei que
no vai ser fcil, o doutor me explicou tudo muito bem, ele disse
que  muito perigoso, que para ter uma recada  num piscar de
olhos. Eu tenho que ser monitorada, foi bem esta a palavra que ele
usou, o tempo todo, que a minha me precisa ficar de olho em
mim. Mas eu estou bem mais consciente agora, da outra vez eu
estava aqui no hospital pensando em como perder peso
rapidamente, maluquinha! Eu vou cuidar da minha sade pode
ficar tranquilo, meu amigo lindo, meu gato! A sua amiga colocou
um pouco de juzo na cabecinha teimosa dela. S estou
preocupada com os meus pais, eles esto to estranhos! Quase
no se falam, eu acho que eles esto me escondendo alguma
coisa...
_Voc no deve se preocupar com isso, o mais importante  a sua
sade,     provavelmente         s impresso sua, eles esto
preocupados com voc. Ficar todos esses dias no hospital no foi
nada fcil para eles. Deve ser cansao,  isso.
Duas horas depois da visita de Leonardo Paula saiu do hospital
com seus pais.
 noite, Leonardo foi buscar Suzana e contou sobre a sada de
Paulinha do hospital.

O grupo Alfa se reuniu na casa da Vitria, quarta-feira  noite; s
faltou Suzana, por estar trabalhando. Conseguiram deixar tudo
certo para o evento de misses. s nove e meia Leonardo saiu
para buscar a namorada.

_Tudo certo para amanh? - perguntou Leonardo durante o
caminho para a casa de Suzana.
_Acho que sim, embora eu esteja meio confusa... no sei o que

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                          Tnia Gonzales



voc est pretendendo, alm  claro de passar algumas horas
comigo.
_Voc est dormindo bem esses dias ou no para de pensar nisso?
_Mais ou menos. Confesso que estou um pouco ansiosa.
_No precisa ficar assim, confie em mim.
Naquela noite Suzana teve um sono bem tranquilo.

O dia amanheceu, seria um belo dia de sol. Suzana passou a
manh inteira pensando. " Qual ser a ideia dele? No consigo
nem imaginar! "
_Ol, princesa Suzana, vamos almoar? Hoje eu estou me
sentindo como uma criana no dia do aniversrio: feliz, na maior
expectativa e ansiosa para abrir os presentes- brincou Leonardo.
_Voc est me assustando!
_Ei,  s uma maneira diferente de dizer o quanto eu esperei por
este dia,  s isso. O dia est lindo, tudo contribui para quem
deseja viver momentos inesquecveis hoje.
_Leonardo, o que voc est planejando?
_Ter momentos agradveis com voc.
Almoaram em um restaurante chins, para satisfazer a vontade de
Leonardo que ficou com gua na boca de tanto que falaram sobre
Yakissoba na reunio do grupo Alfa.
Aps o almoo foram para o parque Ibirapuera. Caminharam
durante algum tempo de mos dadas e depois se acomodaram
embaixo de uma rvore, o sol estava bem forte, eram trs horas da
tarde.
_Suzana, eu estive pensando e cheguei  concluso que a melhor
maneira de voc perder o ... medo ou o receio... bom... seria voc
mesma controlar a situao, ... a minha ideia  que voc tome a
iniciativa.
_Voc deve estar brincando, n? Eu devo tomar a iniciativa, eu

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


nunca vou...
_Calma... me escuta, eu pensei assim: eu vou fechar os meus
olhos, ficar imvel, esperando que voc me beije.
_Leonardo, se  esta a sua ideia eu sinto informar que...
_Espera... no seria um beijo daqueles... e sim um selinho. Eu
fico com os olhos fechados e totalmente parado, sem mexer um
msculo, as minhas mos vo ficar em cima das minhas pernas, eu
no vou abra-la... voc vai estar no controle. Se por acaso voc
desejar que eu ... a beije, voc aperta uma das minhas mos. E a?
_Ah... sinceramente eu no sei.
_Vamos tentar?
_E se eu... Leonardo... eu falei pra voc que ns dois juntos no ia
dar certo. Voc acha que j existiu algum casal de namorados com
esse tipo de conversa?
_Isso eu no sei e tambm no estou interessado em saber. Suzana,
somos s ns dois, eu acho que  uma boa ideia, tente... olha... vai
ser tudo de acordo com o seu ritmo, voc vai estar no controle,
confie em mim, eu no vou me aproveitar da situao. Tudo vai
depender de voc. Tente... por ns.
_Tudo bem, vou tentar.
_Ento... vou fechar os olhos e esperar,  s isso que eu vou fazer.
Leonardo fechou os olhos e ficou imvel esperando por Suzana,
que a princpio no teve qualquer reao... alguns segundos se
passaram e Suzana s olhava para ele sem conseguir sair do lugar.
" Tente... por ele... coragem, isso no pode ser to complicado, ele
est esperando... por que  to difcil pra mim?  s encostar
meus lbios nos dele,  s isso... eu preciso, eu tenho que
conseguir... se algum o visse assim acharia que ele est fazendo
um papel ridiculo e eu no consigo sair do lugar..."
Suzana foi se aproximando bem devagar, com o corao
disparado, ela tocou nos lbios dele com os dedos e depois chegou

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                          Tnia Gonzales



mais perto e enfim os seus lbios tocaram nos dele bem
suavemente, Leonardo fez como havia prometido, ficou imvel;
mesmo desejando com todas as suas foras, beij-la, ele resistiu
pois no queria que ela perdesse a confiana nele. Poucos
segundos depois, Suzana afastou-se bem devagar e ficou
observando-o, at que Leonardo abriu os olhos e lhe deu um
sorriso.
_Adorei... no foi to difcil, foi?
_Menos do que eu esperava.
_Vamos repetir isso at que voc esteja pronta... no precisa me
olhar assim... por hoje est timo. Considere isso como um
treinamento. Que tal ns caminharmos um pouco e depois irmos
ao shopping assistir um filme?
_Gostei da ideia.

s 22h Leonardo estacionou o carro em frente  casa de Suzana.
_Passar todas estas horas com voc foi timo, eu quero repetir
isso- disse ele.
_Eu tambm gostei muito... de tudo- confessou ela, tmida.
_De tudo?  bom ouvir isso... ah... minha princesa, voc  a
namorada mais linda e...
_E mais complicada, com toda a certeza.
_No fale assim. Voc precisa ver as coisas por um outro lado, se
no existisse esse medo, ns provavelmente j teramos nos
beijado como qualquer outro casal e a perderamos a
oportunidade de viver todo esse clima, essa expectativa, entende?
 uma sensao deliciosa... fica um mistrio no ar.
_ uma maneira bem diferente de ver o problema, parabns!
_No pense nisso como um problema e lembre-se que voc j
passou pela primeira fase do nosso treinamento. Eu vou deixar
voc descansar... boa noite e sonhe comigo.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Olha s quem chegou! - disse vov Vivi com toda animao, ao
ver a neta.
_Oi, v. Tudo bem por aqui?
_Tudo timo e como foi o seu passeio?
_Foi um dia maravilhoso; ele me levou para almoar...
_Esperem por mim, eu tambm quero saber de tudo- falou Marina
saindo da cozinha.
_Oi, me. Ns almoamos em um restaurante chins e depois
passamos a tarde no parque do Ibirapuera...
Suzana contou tudo, menos sobre o treinamento.

Letcia passou uma semana bem complicada; sua me no lhe deu
trgua, aproveitou cada oportunidade para falar mal do
relacionamento dela com Daniel e tambm no poupou nem
Leonardo e muito menos Suzana.
_ Voc e o Leonardo formam um par perfeito, mas vocs adoram
nos contrariar, no  mesmo?
_Me, deixe o Leonardo fora da nossa conversa.
_Ele teve a coragem de trocar uma menina linda, de boa famlia
como voc, por aquela...
_Me, cuidado como fala da Suzana, ela  uma pessoa
maravilhosa.
_Sei... por que ela no se interessa pelo Daniel, hein?  claro que
no, ele no  um advogado, no tem uma boa famlia e...
_Me, para com isso... o Daniel tem uma famlia tima. So
honestos, trabalham, so unidos e...
_E no conseguem chegar a lugar algum. O Daniel e a Suzana
formam um casal perfeito, assim como voc e o Leonardo!
_Eu no sabia que a senhora era to preconceituosa! S d para
descobrir esse tipo de coisa quando...
_Preconceituosa, no, eu sou realista e sincera. Por que mentir?

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                           Tnia Gonzales



Para que fingir? No sou hipcrita!
_No? Na igreja canta: " Uma famlia sem qualquer falsidade,
vivendo a verdade... eu preciso de ti querido irmo, precioso s
para mim, querido irmo..." 14Precioso? Desde que mantenha
distncia da minha filha, no , me?
_Voc est confundindo as coisas.
_No, infelizmente, no. A teoria  uma coisa, na prtica as coisas
so bem diferentes. A verdade  que a senhora no aceita o meu
namoro por dois motivos: por ele ser negro e pela situao
financeira dele. No adianta negar.
_Letcia, cuidado! Voc est chamando sua me de racista? Eu s
quero o melhor para voc. O Leonardo  o rapaz ideal, e
justamente por esse motivo  que no vou deixar que aquela
menina se aproveite. Para ela  muito conveniente se envolver
com ele; o Leonardo  bonito, gentil, atencioso, tem uma boa
profisso, pertence  uma famlia excelente e ela? O que ela tem
para oferecer? No posso negar que ela  bem bonita, mas isso
voc tambm . A Lgia no vai gostar nada de saber em que
famlia o filho est...
_Me, deixe o Lo em paz, ele est apaixonado!
_Depois que ele descobrir algumas coisas sobre a famlia dela, vai
mudar de ideia.
_No prejudique a Suzana, ela no merece.
_Eu tenho a obrigao de alertar a minha amiga Lgia.
_A senhora acha que Deus aprova a sua atitude? Quer acabar
com a felicidade das pessoas, por qu?
_No coloque Deus no meio disso.
_No? Me, ser cristo no  simplesmente fazer parte de uma
comunidade e participar das programaes, vai muito alm disso...

14 Louvor: Corpo e famlia-Compositor: Daniel Souza

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


 no viver dirio que demonstramos a nossa f.
_Agora ela vai pregar pra mim. Quem voc pensa que ? Letcia,
no me venha com essa conversa mole, voc no vai me
convencer, eu nunca vou aceitar o seu namoro com aquele rapaz e
vou ter uma conversa sria com a Lgia.
Letcia foi para o quarto e l se desfez em lgrimas.

A felicidade de Paula era imensa. Estar novamente em casa era
timo. S havia uma coisa que no estava bem: o relacionamento
de seus pais. Ela notou que os dois mal se falavam. Aps o almoo
daquela sexta-feira ela resolveu conversar com a me.
_Mezinha linda, o que est acontecendo entre voc e o papai?
_Nada. Por qu?
_No tente me enrolar... caramba, vocs acham que eu sou boba?-
perguntou Paula sem disfarar a irritao.
_No fique assim, no  bom para a sua sade, minha filha. Pense
s em sua recuperao, est bem? Eu no vou aguentar se voc...
_Calma, me. Eu s gostaria de saber o porqu desta distncia
entre vocs.
_Isso  coisa da sua cabea. A campainha est tocando, deve ser
alguma visita para voc.
_Leonardo! A Paulinha vai ficar muito feliz.

_Lo? Que bom, que voc veio, meu gato!
_ timo v-la em casa novamente, minha linda!
_Bom... fique  vontade Leonardo, eu vou fazer um cafezinho-
disse Regina.
_Ah... meu amigo... eu estava mesmo querendo falar com voc.
Estou desconfiada que meus pais esto me escondendo alguma
coisa.
_Por que voc pensa assim?

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                          Tnia Gonzales



_Eu j comentei com voc que eles esto se evitando, s falam o
essencial, eu questionei a minha me, mas ela disfara... deve ser
algo grave! Estou com medo deles... se separarem- revelou Paula.
_Que isso, minha linda! Eu j disse que voc no pode se
preocupar com esse tipo de coisa, faz mal para sua sade.
Paulinha, voc precisa se cuidar. Por favor, no interrompa o
tratamento. Voc precisa seguir a dieta mdica  risca.
_Lo, relaxa! Eu estou me alimentando legal, pode confiar. Voc
pode me ajudar? Tente descobrir alguma coisa.
_Tudo bem, se  que tem alguma coisa para descobrir.
_Com licena, olha o cafezinho- anunciou Regina interrompendo
a conversa.
No tiveram mais oportunidade de tocar no assunto, mas, ao sair,
Leonardo teve uma conversa com Regina e no gostou nada do
que descobriu.
_Regina, como vocs podem estar pensando em separao? A
Paulinha acabou de sair do hospital. - sussurrou Leonardo.
_Eu sei que no  um assunto para tratar com voc, mas j que
perguntou,  isso mesmo, eu pedi. No d mais para viver de
aparncias. E o que mais me do  que ele s se preocupa com o
ministrio. Ele no quer prejudicar o ministrio dele! No est
nem a para o nosso casamento. Isso machuca muito... desculpe o
desabafo.
_Regina... deve haver uma soluo para vocs. Voc orou por
isso?
_Eu no consigo orar.
-Tente...  necessrio. No tome uma deciso assim sem falar com
Deus. A Paulinha est desconfiada, voc j imaginou o quanto ela
vai ficar arrasada?
_Eu sei... gostaria de poup-la, mas eu no aguento mais.
_Eu vou pedir um favor. D um tempo para ver se as coisas

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


mudam, se depois voc ainda continuar com a mesma deciso...
_Nada mudou durante anos...
_Faa isso pelo amor que voc sente por sua filha. Tente mais um
pouco, ore e evite conflitos.
_Tudo bem, eu vou tentar. Obrigada, voc  um grande amigo, a
minha filha tem muita sorte. Pena que so s amigos...
Leonardo saiu da casa de Regina, entrou no carro e fez uma
ligao para o pastor Pedro Gabriel. No dia seguinte eles teriam
uma sria conversa.

 noite foi buscar Suzana no servio e aproveitou o percurso at a
casa dela para conversarem sobre Paulinha e o problema dos pais.
_Isso precisa ficar sem segredo, eu contei para que voc ore por
eles.
_Tudo bem, pode confiar em mim. Ento, amanh voc vai contar
para o pastor?
_Suzana, eu sei que esses assuntos so complicados. Dizem que
em briga de casal no  certo se envolver, mas eu acho que eu
posso para dar uma mozinha. Mas mudando de assunto... e o
nosso treinamento?
_O que voc quer saber?
_Vamos treinar mais um pouquinho, hoje?
_Hoje? Como? A pergunta certa seria: onde?
_Na garagem da sua casa... agora que voc j sabe como , fica
mais fcil.
_Leonardo, eu...
_No faa esse biquinho.
_Biquinho? Eu fiz um biquinho?
_Fez e ele era lindo... assim eu no resisto.
_Para com isso... ah... eu acho que no vai dar.
_Chegamos, eu vou descer e entrar com voc, s at a garagem.

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                           Tnia Gonzales



Entraram, Suzana fechou o porto e ficou parada meio sem jeito.
_Vem aqui pertinho de mim... ei, princesa Suzana?
_Leonardo, e se algum aparecer...
_ Ver um casal de namorados, fazendo o bvio : namorando.
_ T bom.
_As regras so as mesmas: eu fico bem quietinho com os olhos
fechados e voc... j sabe... e se quiser apertar a minha mo, fique
 vontade.
Ali, na garagem de sua casa, era bem mais difcil para ela se
soltar, mas mesmo assim...
Suzana olhou para Leonardo e se aproximou... deu um beijo no
rosto dele e deslizou o seu por aquela pele bem barbeada e
perfumada por uma loo que ela conhecia muito bem.
Aquela sensao a fez estremecer, mas ela no se afastou, tocou
com os seus lbios nos dele e por um momento desejou que ele a
beijasse, em uma frao de segundos ela apertou a mo dele e...
imediatamente ele entendeu qual era o pedido dela, Leonardo
moveu os lbios lentamente, mas este movimento fez com que
Suzana se afastasse com um leve tremor. As mos estavam suadas
e o corao disparado.
_Sinto muito- disse simplesmente.
_No se desculpe, est tudo bem. Boa noite, minha princesa- disse
Leonardo encaminhando-se at o porto.

Suzana sonhou com uma voz ameaadora que dizia: " Voc nunca
vai conseguir, nunca! E sabe por qu? Porque voc me pertence!
Ele no vai suportar isso por muito tempo e vai desistir de voc,
mas eu nunca vou abandon-la, nunca! Minha menina linda!




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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 21 - Aconselhamento
Leonardo acordou cedo, era uma linda manh de sbado; havia
marcado com o pastor Pedro Gabriel de tomarem o caf juntos,
por isso, s oito horas da manh j estava tocando a campainha da
casa do pastor.
_Paz, meu querido, vamos tomar um belo caf da manh, me
acompanhe.
_Paz, pastor Pedro. E a primeira dama, como est?
_A Rute est muito bem, obrigado. Ela saiu para caminhar com
uma amiga dela.
_Pr. Pedro, eu sei o quanto  complicado falar sobre a vida dos
outros, mas eu fao isso pela Paulinha- comeou Leonardo assim
que se acomodaram.
_Pode ficar  vontade, Leonardo. Fale tudo o que for necessrio.
_ sobre o Paulo Reis e a Regina. Ela quer divorciar-se dele.
_ um assunto muito delicado; e justamente agora que a filha
precisa tanto dos dois!
_ isso o que mais me preocupa, ela pediu a minha ajuda, mas s
est desconfiada. Eu tive uma conversa com a Regina e ela no
teve nenhum receio em dar a notcia. O senhor poderia conversar
com eles, sem que...
_Fique tranquilo, eu dou um jeito nisso.
_No sei se o senhor est disponvel, mas...  o seguinte: Hoje 
noite o nosso grupo vai realizar uma reunio especial para tratar
do evento de misses e a Paulinha faz parte do grupo. Se o senhor
pudesse conversar com eles...
_Eu posso sim. Eu acho que sei o que vou fazer... vou convid-los
para jantar, o que voc acha?
_Excelente.


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                           Tnia Gonzales



_Deus vai nos ajudar. Leonardo, parabns, eu fico muito feliz em
saber que posso contar com jovens como voc, que se interessa
pelo bem-estar das famlias de nossa igreja,  maravilhoso.

Leonardo saiu muito satisfeito de sua visita  casa do pastor Pedro
Gabriel e muito confiante tambm. Ligou para Paulinha avisando-
a sobre a reunio que seria realizada na casa de Jnatas e como ela
concordou em ir ele combinou que a buscaria s sete horas da
noite.

_Um aviso especial aos homens desta casa- comeou Lgia- se
comportem bem na minha ausncia.
_Quando voc volta, meu amor? - perguntou Rafael fazendo uma
carinha triste.
_No fique assim, tera-feira estou de volta. Leonardo, no
prximo final de semana eu gostaria que voc trouxesse a sua
namorada aqui, estamos combinados?
_No sei, me... vamos ver. Est animada com a viagem, dra.
Lgia?
_Estou mais ou menos, eu no queria ficar longe da minha
filhinha querida, no precisa ficar com cimes, mas  que esta
semana ela anda meio cansada, se queixando de dores na barriga,
estou preocupada, eu sei que ela teve uma consulta ontem, mas
mesmo assim...
_Fique tranquila, a Bia vai ficar bem e o beb tambm. E a
Sandra, resolveu ir e dar uma folga para a Letcia?
_Decidiu de ltima hora. Eu acho que se ela pudesse levaria a
Letcia junto! Mas vai ser bom para ela passar esses dias longe e
ela adora Poos. Nem vai se lembrar dos problemas daqui.
_Vai ser bom para Letcia, isso sim. Faa uma boa viagem.
Lgia e Sandra tinham um encontro especial com algumas amigas

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


da poca da faculdade, o passeio estava combinado h meses,
passariam quatro dias em um hotel fazenda.

Sandra conversou muito com a filha fazendo-a prometer que iria
se comportar bem. Antes de sair disse algo que muito preocupou
Letcia:
_Vou aproveitar para conversar com a Lgia sobre a famlia da
namorada do Leonardo, eu evitei falar at hoje, mas no est
certo, como amiga dela de muitos anos eu devo alert-la.

Paulinha e Letcia foram para a reunio acompanhadas por
Leonardo. Como o evento da semana seguinte seria realizado
pelas duas equipes, o grupo gape tambm participou da reunio,
o que muito agradou Letcia, pois Daniel fazia parte do grupo.
Conseguiram resolver quase todos os detalhes do evento e
tambm ficaram sabendo que outros grupos tambm estariam
trabalhando, pois, alm da comida, seriam vendidos: livros,
camisetas e vrios outros produtos para arrecadar fundos para
misses.
Leonardo precisou sair antes da reunio terminar, mas j havia
avisado Jnatas, mas antes certificou-se que Vitria levaria
Paulinha para casa. No se preocupou com a amiga Letcia, pois
imaginou que ela iria aproveitar para passar alguns momentos com
o namorado.

Na casa do pastor Pedro Gabriel...
_Fiquei muito feliz ao receber o seu convite, pastor Pedro- disse
Paulo Reis.
_Eu  que eu estou muito feliz por t-los aqui. Vamos at o
escritrio para conversarmos um pouco, deixemos as esposas
tranquilas aqui na sala.

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                           Tnia Gonzales



 Rute no perdeu tempo, assim que se viu sozinha com Regina,
iniciou uma conversa.
_Regina, eu percebi que voc est muito triste, o que est
acontecendo? A Paulinha est se recuperando bem, no est?
_Est sim, graas a Deus; o problema  outro, eu no sei se devo
ocup-la com ele.
_Pode se abrir comigo, Regina, eu estou aqui para ajudar.
_Rute,  um assunto muito delicado.
_Fique  vontade para falar.
_Eu... eu quero me separar do Paulo.

No escritrio...
_Paulo, voc est viajando muito ultimamente, no ?
_Estou sim, graas a Deus tenho muitos convites. Voc sabe que
eu amo pregar.
_... eu sei, Paulo. Mas ser que este amor no est exagerado?
_No entendi.
_Ser que voc ama mais o seu ministrio do que a sua famlia?
_Pastor Pedro, o que  isso? Eu amo a minha famlia,  claro, mas
eu tenho que valorizar o dom que Deus me deu. Concorda?
_Sim,  claro. Mas, Paulo, seja bem sincero comigo, voc tem
dedicado tempo  famlia?
_Bem... nem sempre  possvel; preciso atender aos convites.
_Paulo, falar a palavra de Deus s pessoas  muito importante,
mas quando isso atrapalha o relacionamento familiar  necessrio
parar um pouco e fazer uma anlise. A unio da famlia  muito
importante para Deus e para a igreja, pois ela  feita de famlias.
Paulo, quando os compromissos se avolumam e tomam todo o seu
tempo, alguma coisa est errada. Para um casal viver bem 
necessrio companheirismo e comunho, como ter isso estando
sempre ausente?

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Pastor Pedro, eu no posso deixar o meu ministrio de lado.
_Concordo, mas voc tambm no pode deixar a sua famlia de
lado.  preciso encontrar o ponto de equilbrio. Paulo, no use o
ministrio como desculpa.
_Eu no estou usando, mas  que a Regina no entende... ela est
sempre reclamando, diz que eu estou sempre ausente...
_Que bom que ela reclama, que timo que ela sente a sua falta. J
imaginou se ela nem ligasse? Paulo, ela quer a sua companhia
porque ela o ama.
_No ama.
_Paulo, se no fosse assim ela nem se importaria com a sua
presena.
_ difcil conciliar as coisas.
_Voc  um homem inteligente, vai saber encontrar o equilbrio.
Paulo, voc ministra s famlias e isso  muito importante, mas a
sua famlia precisa ver em voc aquilo que voc prega. A teoria 
boa, a prtica  melhor ainda. Assim voc ter um ministrio
muito mais abenoado, pode ter certeza disso. Eu, por exemplo,
sempre reservo um dia da semana para sair com a minha Rute. s
vezes ela quer simplesmente ficar aqui em casa mesmo, ento ns
preparamos a refeio juntos, conversamos bastante, partilhamos
da vida um do outro. Isso  to bom! A Regina quer a sua ateno,
Paulo, ela necessita de sua companhia.
_Ela quer a separao. Vai acabar com o meu ministrio. As
pessoas vo...
_Paulo,  um absurdo o que voc disse. Quer dizer que a sua
preocupao  com o ministrio,  com o que as pessoas vo dizer
e no com o fim de sua famlia? Est errado, muito errado. A sua
esposa e a sua filha precisam de voc. A vida da Paula esteve por
um fio, voc sabe muito bem disso. Paulo, j imaginou se a tivesse
perdido? Voc hoje seria um homem amargurado e cheio de

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                          Tnia Gonzales



remorsos. E a Regina iria colocar parte da culpa em voc.
Valorize a sua famlia, Paulo; se assim o fizer com certeza a
Regina e a Paula valorizaro o seu ministrio. Pense bem, no
podemos ser egostas, a nossa famlia precisa de ns.
_Eu estou muito envergonhado... ento eu no deveria nem pregar
mais...
_Ei, no seja radical. Busque o equilbrio. Paulo, se a sua vida
familiar estiver em harmonia, voc ser um pregador muito
melhor, pois em suas palavras haver verdade, haver amor.
_Eu vou tentar... mas e se a Regina no concordar?
_Paulo, se voc prometer mudar, ela vai concordar, afinal ela s
quer o marido dela de volta.

Rute e Regina...

_Regina, Deus quer sempre o melhor para as famlias. Voc est
interessada em reconstruir o seu lar?
_ claro, Rute, mas eu quero que a minha filha tenha um pai
presente.
_E voc quer ter um marido presente tambm?
_Sim, eu quero.  por isso que eu reclamo.
_Ento, Regina, abra o seu corao para uma reconciliao. Com
muito amor, respeito e compreenso, vocs vo conseguir.
_Obrigada, Rute, por me ouvir, mas se o Paulo no mudar, o que
eu posso fazer?
_Confie em Deus.

Alguns minutos depois, Pedro Gabriel e Paulo Reis saram do
escritrio.
_E ento, podemos jantar? - perguntou o pastor.


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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Suzana saiu poucos minutos aps s dez horas e logo avistou o
namorado. Leonardo conversou com ela atualizando-a dos
ltimos detalhes decididos na reunio, depois falou sobre o jantar
na casa do pastor, de como ele estava na expectativa e na torcida
de que tudo desse certo. Ainda mencionou a viagem de sua me e
tambm sua preocupao com Beatriz.
_J falou sobre tudo e todos hoje, menos sobre ns, por que ser?
Voc nem quis sair hoje, j estamos quase chegando em casa- foi
a observao de Suzana.
_O que voc quer dizer com isso?
_Voc sabe muito bem... ficou magoado por ontem, no foi?
_Por ontem? Suzana, do que voc est falando?
_Voc sabe... a sua namorada no consegue lhe dar uma
demonstrao de carinho.  claro que voc no vai querer sair, pra
qu? Eu sei que voc gosta de conversar comigo, mas no  s
isso que voc pretendia ao me pedir em namoro,  claro que no!
_Voc queria sair hoje? Me desculpe,  que nem pensei nisso, mas
no tem nada a ver com o que aconteceu ontem. Pare com isso.
_Eu sei que sim. Voc merece uma namorada de verdade... algum
que... ah...
_Suzana, voc est chorando? No faz isso, meu amor. Estamos
chegando, quer ir para algum lugar?
_No.
Leonardo estacionou o carro e ficou olhando para ela, passou a
mo no rosto de Suzana para enxugar-lhe as lgrimas.
_Voc vai embora ou quer entrar?
_Eu quero ficar com voc, posso?
Suzana fez um sinal afirmativo com a cabea e desceu do carro,
foi seguida por Leonardo.
_ melhor ns ficarmos aqui mesmo na garagem, no vai dar para
voc entrar agora com este rostinho triste.

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                          Tnia Gonzales



_Eu quero tentar novamente hoje, podemos?
_Tem certeza, Suzana, voc no est bem.
_Eu quero, por favor.
_Tudo bem.
Leonardo fechou os olhos e esperou, mas desta vez no precisou
esperar muito, de repente Suzana j estava prxima tocando-lhe
os lbios... a seguir ela apertou a mo dele com fora e Leonardo
achou que havia alguma coisa errada, as coisas estavam indo
rpidas demais... desta vez foi ele que se afastou.
 _O que voc est fazendo? - perguntou ele.
_Eu que deveria fazer esta pergunta. Por que voc no me...
_Suzana, isso no est certo, eu j entendi tudo. Voc acha mesmo
que eu gostaria de beij-la sabendo que voc est se forando a
isso?
_Eu no estou.
_Est sim. Eu sei muito bem o que est acontecendo aqui, voc se
sente culpada por ontem. Olhe bem pra mim, eu no vou fazer
isso sem que voc realmente queira, ontem eu percebi que voc
queria, mas hoje no.
_Voc acha que eu no quero?
_Eu sei que voc quer, mas hoje voc est se punindo,  isso.
_Nossa... ser beijada por voc  uma punio? Tenho certeza que
muitas garotas ficariam muito felizes para cumprir a sentena.
_Eu no quero que isso vire um peso pra voc. Suzana, l no
parque foi timo... e  assim que eu quero que seja. No estou com
pressa. Agora  melhor voc entrar, est cansada.
Leonardo deu-lhe um beijo na testa e saiu.

_Minha neta linda, qual a razo para toda esta tristeza? -
perguntou vov Vivi ao ver Suzana deitada na cama, olhando para
o teto.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Ah... no  nada.
_Quem voc pensa que engana? Fale comigo, faz bem desabafar.
_V, eu no quero preocup-la.
_ O que est acontecendo com voc? Tem alguma coisa a ver com
o seu namoro?
_Que namoro? Coitado do Leonardo, eu sou uma pssima
namorada... eu no consigo...
_O que voc no consegue, minha querida?
_No consigo dar e nem receber carinho...  isso... eu tenho
medo... no conte para ningum, v, mas o meu passado est mais
presente do que nunca... eu no consigo ser beijada pelo
Leonardo, eu quero, mas na hora eu entro em pnico, aparecem
umas imagens na minha cabea, imagens horrveis...  to difcil
de explicar, mas  como se tudo fosse acontecer novamente... eu
nunca vou me libertar disso e  tudo to injusto para o Leonardo,
por que eu tambm no teria coragem de contar para ele, eu no
suportaria o seu desprezo. Ele  to compreensivo mesmo sem
entender nada... ele diz que vai esperar at que eu me sinta 
vontade, at que eu consiga, mas... v, e se eu no conseguir?
_Suzana, voc no pode pensar assim, deixe que Deus cure as
suas feridas... Leonardo  o instrumento Dele para isso. Ele 
como um blsamo, preparado especialmente para curar a sua dor.
No se afaste dele.
_V, ele no merece ser enganado.
_Voc no o est enganando. Suzana o que aconteceu no foi
culpa sua, voc  uma vtima. E se voc conversasse com ele?
Quem sabe voc se sentiria melhor e...
_No, v. Eu nunca teria coragem, morreria de vergonha. O
Leonardo no pode nem imaginar... ele me desprezaria e... no v,
por favor.
Suzana no conseguiu mais segurar as lgrimas.

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                           Tnia Gonzales



_Querida, acalme-se, ningum vai contar nada para ele, isso  algo
que s voc pode decidir.
Vov Vivi colocou a cabea da neta em seu colo e ficou
acariciando os cabelos dela por um longo tempo.

_Acorde... ei... Suzana, tem algum muito especial te esperando
para tomar caf- disse Marina.
_Tomar caf? Quem est aqui? Ainda so sete horas.
_Ele chegou cedo para dar tempo de tomarem o caf bem
tranquilamente; trouxe tanta coisa!Ele vai lev-la para o trabalho.
_Eu vou tomar um banho...
Enquanto isso Leonardo estava na cozinha ajudando a vov Vivi
na organizao da mesa.
_Leonardo, Leonardo, voc  um daqueles que Deus fez e jogou a
receita fora. Eu agradeo tanto a Deus por sua vida- foram as
palavras sinceras da vov.
_Eu  que agradeo a Ele por me dar a oportunidade de fazer parte
da vida de vocs. Eu me sinto muito bem aqui, sabia?
_Ah, querido! A Suzana precisa muito de voc; s vezes as coisas
podem parecer confusas e sem sentido, mas tenha certeza que ela
gosta muito de voc.
_Bom dia, minha princesa! Voc continua linda, mesmo com os
olhinhos inchados- constatou Leonardo ao v-la.
_Oi, bom dia. Voc deveria ter aproveitado para dormir mais um
pouquinho hoje- disse Suzana dando-lhe um beijo no rosto.
_Eu prefiro aproveitar a sua companhia, venha, est tudo pronto,
eu at ajudei a vov!
_Esse menino exagerou, olha s... - disse a vov apontando para a
mesa onde havia pes variados, bolos e at frutas.
Aps o delicioso caf, Suzana e Leonardo saram, pois ele a
levaria para o trabalho.

                               240
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Voc est bem? - perguntou Leonardo ao entrarem no carro.
_Estou.
_S isso? Ei, fale comigo! Suzana... eu fiquei muito preocupado
com voc ontem- confessou Leonardo.
_ s isso que eu sei fazer: deixar todo mundo preocupado.
_Minha princesa... no fale assim, eu amo voc.
_No deveria me amar, seria muito mais fcil pra voc e... pra
mim tambm.
_ Se voc soubesse o quanto a sua presena me faz bem, com
certeza no diria essas coisas.
_Leonardo, eu gostaria de ter uma conversa sria com voc, hoje 
tarde.
_Tudo bem, mas nem pense em me dar o fora, t? Se a sua
inteno for essa, pode esquecer. Eu s aceitaria me afastar de
voc se eu tivesse a certeza que no sou correspondido, a sim.
_Vamos deixar esse assunto para mais tarde. Podemos almoar
juntos hoje?
_Claro. Eu estava pensando em almoar na casa da minha irm,
mas, a minha me no vai gostar nada,  melhor esperar que ela
chegue. Ela ficaria uma fera! E j que voc precisa tratar de um
assunto srio comigo,  melhor almoarmos s ns dois.




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                          Tnia Gonzales



Captulo 22 -Lcia
Leonardo foi at a igreja para o ensaio da orquestra; conseguiu
participar do final da escola bblica.
_Eu precisava tanto falar com voc!- disse Letcia ao se
encontrarem aps o trmino da escola bblica.
_O que aconteceu, Leca?
_Lo, uma pessoa me procurou hoje, logo cedo, aqui na porta da
igreja.
_Que pessoa?
_ uma histria bem esquisita, mas... eu tenho uma colega dos
tempos do colgio,  a Elisa, a me dela estudou com a minha me
tambm. Ela me procurou hoje acompanhada de uma senhora
chamada Rita, que tem uma filha de 19 anos. Bom...ela est
enfrentando srios problemas com essa filha que no sai do
quarto, quase no se alimenta, no faz mais nada, alm de ler,
assistir filmes romnticos e escrever em um dirio.
_E...
_ aqui que voc entra na histria...
_Eu?
_A Rita encontrou uma foto debaixo do travesseiro da filha e
como no reconheceu a pessoa da foto perguntou para a Elisa,
que  muito amiga da filha dela, e ela disse quem era a pessoa que
estava na foto.
_Letcia, desenrola isso logo, daqui a pouco vai comear o nosso
ensaio- disse Leonardo impaciente.
_T legal. A Elisa disse que o rapaz da foto se chamava...
Leonardo.
_O qu?
_ isso mesmo. A garota tem uma foto sua, bom... a Elisa disse


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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


que na verdade no  s uma.
_Mas por que essa garota teria uma foto minha?
_A Elisa contou que a Lcia, este  o nome da garota, fez o
primeiro ano da faculdade de direito no ano passado, na mesma
faculdade que voc.
_Eu tive algum contato com ela? No lembro de nenhuma garota
com o nome de Lcia e tambm se ela estava no primeiro ano...
no tnhamos contato com o pessoal do primeiro ano.
_Voc est certo, no a conhece. A questo  que ela cismou com
voc.
_Cismou?
_A Elisa disse que desde a primeira vez que a Lcia te viu ela
ficou... obcecada por voc, tanto que ela desistiu de estudar s
porque voc no estaria l.
_Letcia, voc s pode estar brincando comigo. No estou
acreditando nisso... a minha vida j est to complicada e aparece
mais isso?
_O que aconteceu?  sobre voc e a Suzana?
_, um dia eu converso com voc sobre isso, mas... e a?
_A me dela pediu, no... a palavra ... implorou que eu leve voc
at a casa dela, ela tem esperanas que ao v-lo a filha reaja.
_Meu Deus! O qu? Letcia... eu no sei se isso  conveniente.
_Eu vou com voc, quem sabe d pra ajud-la e...
_Mas como pode uma coisas dessas? Ela nem me conhece.
_Lo, ela  uma garota muito inteligente, sempre se destacou nos
estudos, mas tambm era s isso. Ela  muito retrada, se mantm
sempre distante das pessoas. Ela sofre de depresso.
_E se a minha presena complicar ainda mais as coisas, hein?
_A me dela acha que v-lo poderia ajud-la. Vamos l depois do
ensaio, ela mora em um apartamento aqui em So Caetano
mesmo.

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                          Tnia Gonzales



Participaram do ensaio da orquestra e poucos minutos antes do
meio-dia estavam em frente a um edifcio de alto padro.
_Vamos l e que Deus nos ajude- disse Leonardo.
Letcia fez uma ligao e em poucos segundos Rita estava na
portaria para receb-los.
_Rita, este  o Leonardo- disse Letcia.
_Leonardo, lhe serei eternamente grata, a Lcia est to distante,
no consigo conversar com a minha prpria filha.
_A senhora no precisa me agradecer, podemos v-la agora?-
perguntou Leonardo querendo sair daquela situao o mais rpido
possvel.
Entraram em um apartamento amplo e muito bem decorado. Rita
pediu para que a acompanhassem at o quarto da filha. Era um
lindo quarto decorado com mveis requintados, porm delicados,
havia aparelhos eletrnicos de ltima gerao, era um ambiente
moderno e alegre que contrastava com a tristeza da jovem que
estava sentada em sua cama escrevendo em um dirio.
_Filha, olha s quem veio visit-la.
Lcia no demonstrou qualquer reao, parecia que continuava
sozinha em seu quarto.
_Lcia, minha filha, ele veio visit-la... o rapaz da foto.
Ao ouvir isso, Lcia levantou a cabea rapidamente e olhou em
direo  porta onde estavam: Leonardo, Letcia e Rita. Fixou o
olhar em Leonardo e permaneceu assim por alguns segundos.
_Oi, Lcia, eu vim at aqui para v-la, como voc est? -
perguntou ele para iniciar uma conversa.
Lcia continuou olhando para ele por mais alguns segundos, ento
de repente disse:
_Voc existe! No  s um sonho. Voc existe! No  s um
sonho. Voc existe! No  s um sonho. Voc existe! No  s um
sonho. Voc existe! No  s um sonho- repetia sem parar.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_ claro que eu existo. Lcia, a sua me est muito preocupada,
voc precisa se alimentar.
Ela continuou olhando para Leonardo, era como se s ele estivesse
ali.
_Voc est aqui. Estou dormindo...  isso mesmo...  um sonho.
No quero acordar.
_Lcia, voc no est dormindo, eu estou aqui para ajud-la- disse
Leonardo com uma voz bem mansa.
_A sua voz  to doce... sinto uma paz... meu anjo.  isso, voc 
um anjo. Por que voc se afastou de mim? Voc sumiu.
_Lcia, voc faria um favor para mim?
_Qualquer coisa.
Por alguns segundos, Leonardo ficou em silncio, contemplando
aquela jovem  sua frente. Lcia era uma bonita garota de 19
anos, que no momento estava com o peso abaixo do ideal por se
alimentar pouco; seus cabelos, castanho escuro, estavam curtos e
com uma franja que lhe dava um aspecto de garotinha frgil e
carente; os olhos azuis clarssimos no se desviaram uma nica
vez de Leonardo.
_Lcia, a sua me vai trazer-lhe o almoo e eu quero que voc se
alimente, estamos combinados?
_Sim.
Rita afastou-se rapidamente para providenciar a comida da filha.
Letcia, encostada na porta do quarto, por um momento pensou em
acompanh-la, mas resolveu ficar com o amigo diante da situao
incomum.
_Por que voc se afastou?- perguntou Lcia ainda sem desviar os
olhos dele.
_Lcia, eu no sei do que voc est falando?
_Eu... eu fui por vrias semanas e voc no apareceu mais...
_Leonardo, eu acho que ela est falando sobre a faculdade-

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                          Tnia Gonzales



interveio Letcia.
Parecia que Lcia no podia ouv-la, pois continuou com o olhar
fixo em Leonardo esperando pela explicao dele.
_Ah... eu terminei a faculdade, era o meu ltimo ano.
_Terminou sua misso? No... no faa isso comigo, eu preciso
muito de voc, preciso que voc me proteja... que cuide de mim.
Por um breve momento, Leonardo pensou em abra-la e dizer
que estava tudo bem, que ela no precisava se preocupar, mas
resolveu ficar onde estava, era melhor agir com cautela, por no
saber qual seria a reao dela.
Lcia, com o olhar fixo nele, continuava sentada em sua cama.
Leonardo no sabia o que dizer, por isso ficou em silncio, sentiu
um grande alvio quando Rita voltou com a refeio da filha.
_Filha, veja que delcia, fiz o seu macarro favorito- disse Rita.
A garota nem se mexeu, continuou olhando para Leonardo sem
dizer uma palavra.
_Lcia, lembra do que ns combinamos? Voc concordou em se
alimentar- falou Leonardo.
Ao ouv-lo, Lcia levantou-se e pegou o prato das mos de sua
me; comeou a comer imediatamente, ali como estava, em p.
_Sente-se, por favor- pediu Leonardo apontando para uma
delicada cadeira.
Prxima  cadeira havia uma pequena mesa, Lcia colocou o
prato e reiniciou o almoo.
Rita no conteve as lgrimas pois h meses que no via a filha se
alimentando de verdade. Nos horrios das refeies as duas
sempre discutiam muito, pois Lcia dava s uma ou duas
garfadas e j afastava o prato dizendo estar sem fome.
Em poucos minutos o prato de Lcia estava vazio.
_Obrigado, Lcia, isso foi timo. Eu quero lhe propor um acordo-
comeou Leonardo que durante os minutos em que acompanhou a

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


garota se alimentando, ficou orando em pensamento, pedindo a
Deus sabedoria- Eu prometo voltar daqui a quatro dias se voc
prometer que vai se alimentar direitinho. Voc aceita?
_Aceito- respondeu Lcia sem hesitao.
_Fico feliz. Ento, eu vou ligar para sua me na quinta-feira e se
ela me disser que voc cumpriu a sua parte no acordo eu volto
aqui para v-la. Agora eu preciso ir. Lcia, fique com Deus.
_Espere um pouco- pediu Lcia para em seguida pegar uma foto
debaixo de seu travesseiro- Veja...
Leonardo olhou para a foto que a garota mostrava, era ele durante
algum intervalo na faculdade, em seguida Lcia tirou a fronha do
seu travesseiro, que na verdade era uma almofada e Leonardo
pde ver o seu rosto estampado nela. Por alguns segundos, ele no
soube o que fazer ou dizer, pois era algo que ele absolutamente
no esperava.
_Tudo bem, Lcia, eu j vi. Agora eu preciso mesmo sair. Tchau.

Rita acompanhou-os at a porta dizendo:
_Eu no sei como posso agradec-lo, voc no sabe o alvio que
me deu ao ver a minha filhinha comendo com tanto apetite! Deus
o abenoe!
_Que isso, dona Rita, no me custa nada ajud-la. Bom... eu ligo
para a senhora na quinta. Uma boa tarde.
_Boa tarde, dona Rita.
_Obrigada por t-lo trazido, muito obrigada.
Os dois amigos no trocaram uma nica palavra at entrarem no
carro.
_O que foi aquilo? - perguntou Letcia.
_E eu sei? Ah... s Deus sabe o que se passa na mente das
pessoas... que situao!
_Voc  o dolo dela,  isso! Ela estampou a sua foto em uma

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                         Tnia Gonzales



almofada! Ai, meu amigo, voc est na profisso errada, deveria
ser um psiclogo.
_Letcia, por favor, no conte isso para ningum.
_Voc no vai contar para a Suzana?
_ claro que no. Temos nossos prprios problemas. Por favor, a
Suzana no pode nem imaginar uma coisa dessa!
_Tudo bem, mas eu no sei se voc vai conseguir esconder isso
por muito tempo.
_Leca, minha amiga, eu preciso que voc me ajude. Agora, vou
deix-la em casa, preciso buscar a Suzana.
_Leonardo, s quero pedir uma coisa: fique esperto com a minha
me, t?
_Sua me? Por qu?
_Bom... ela no est nada satisfeita com o seu namoro, me disse
umas coisas absurdas...
_Que coisas, Leca?
_No importa, s fique esperto, eu no quero que voc se
machuque, voc sabe o quanto eu gosto de voc, meu irmozinho!
_Eu tambm adoro voc. No vai dar para conversarmos, mas
depois eu vou querer saber tudo com detalhes. Tchau, amiga.




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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 23- Namoro curto
Suzana j estava esperando em frente  loja quando Leonardo se
aproximou.
_Me desculpe, foi uma correria para chegar at aqui!- explicou
Leonardo dando-lhe um beijo no rosto.
_No tem problema, eu esperei s uns cinco minutinhos. Vamos
almoar?
Durante o almoo, conversaram sobre vrios assuntos, menos
sobre o relacionamento dos dois.
_Leonardo, eu disse que precisava conversar com voc- disse
Suzana ao caminharem at o estacionamento.
_Suzana, por que voc no deixa esse assunto para outro dia?
_No, eu preciso falar.
_Olha, se  sobre o nosso treinamento, esquea, por enquanto ele
est suspenso.
_Suspenso por qu? J desanimou?  isso no ?
_ claro que eu no desanimei, entre - pediu Leonardo e assim
que se acomodaram dentro do carro continuou- eu no pensei que
isso seria um peso pra voc. Eu achei que seria bom para voc se
acostumar comigo, mas est to ansiosa... ontem voc estava com
raiva de si mesma por no conseguir e no  isso o que eu tinha
em mente quando lhe propus o "treinamento"; era para ser algo
muito tranquilo, suave e at romntico. E foi isso o que
aconteceu no parque, mas agora voc fica se cobrando como se
tivesse uma data marcada. Quem estipulou data? Isso  algo entre
ns dois. Eu tenho toda a pacincia, eu espero, quando voc
estiver pronta...
_Se algum nos ouvisse nunca iria imaginar que estamos falando
sobre um simples beijo. Isso chega a ser ridiculo... no por voc,


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                           Tnia Gonzales



mas por mim.
_Para com isso. Eu j disse que  algo entre ns. Se nenhum casal
passou por isso, no me interessa. Como voc complica as coisas.
_Por isso mesmo que  melhor ns acabarmos com isso.
_Acabarmos com o qu?
_Com o nosso namoro. O namoro mais ...
_Mais o qu?
_Mais nada a ver que j existiu,  isso! Leonardo, namore com
algum que...
_No me venha com esta conversa, Suzana. Ns s estamos
namorando h uma semana.
_ isso mesmo, eu no sou sua namorada, sou uma amiga. Eu sei
que nunca vou conseguir e no me pergunte por que eu sei disso.
_O nosso namoro  um peso pra voc? O meu objetivo era faz-la
feliz, mas se ... Suzana, voc est infeliz com nosso namoro ?
Suzana no gostaria de mago-lo, mas se essa fosse o nica
maneira dele aceitar o fim do namoro...
_Sim. Eu quero acabar com isso agora,  melhor, antes que
passem semanas, meses...
_Voc tem certeza disso?
_Tenho, me desculpe, mas eu prefiro terminar agora. Ele j
comeou errado. Voc nem havia falado comigo e pediu permisso
ao meu pai na frente de todos da minha famlia... eu fui obrigada a
aceitar. V? No tem como dar certo.
_Se  isso o que voc deseja... eu... concordo.
Leonardo deu a partida no carro e dirigiu em silncio at a casa
de Suzana que virou-se para a janela para que ele no percebesse
suas lgrimas; assim que ele parou o carro, ela desceu sem dizer
nada.

Suzana entrou em casa e sentiu-se aliviada por no encontrar

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


ningum, por certo estavam na casa da tia Marisa. Apressou-se
at o seu quarto e deixou-se cair na cama.
Alguns minutos se passaram at que vov Vivi entrou no quarto.
_A est voc. Muita cansada, querida?
_Estou com dor de cabea- disse Suzana, no mentindo mas
tambm no revelando o motivo daquela dor repentina.
_Quer tomar algo? Est quase na hora de irmos para o culto, o
Leonardo deve chegar...
_Ele no vir. V, eu no vou ao culto hoje.
_Aconteceu alguma coisa?
_Eu estou muito cansada.
_Suzana, fale comigo, o que aconteceu? Voc estava chorando,
no estava?
_ por causa da dor... eu preciso descansar.
_Tudo bem. Eu vou ficar com voc.
_No precisa, v. Pra que faltar ao culto?  s dor de cabea e
cansao, s preciso dormir. Amanh recomeam as aulas eu
preciso estar bem.
Vov Vivi percebeu que havia alguma coisa errada, mas deixou a
neta descansar e decidiu que se tivesse uma oportunidade,
conversaria com Leonardo. Foram ao culto sem Suzana e Marina
que estava de planto no hospital naquele domingo.

Suzana chorou muito ao lembrar da primeira vez que viu
Leonardo e ao pensar em como ele soube conquist-la. Ele era to
gentil e amvel. Foi at a lavanderia e pegou Meg, colocou-a em
seu ombro e ficou acariciando-a, estava com os olhos marejados e
o corao partido."  melhor assim, ele no merece algum com
um passado to triste como o meu, eu nunca vou conseguir
superar e ele sofreria muito ao meu lado. Se para dar um beijo 
to complicado, o que eu faria           se chegssemos at o

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                           Tnia Gonzales



matrimnio?"
Aps o culto, vov Vivi ficou observando os jovens que saam na
esperana de ver Leonardo, de repente avistou Letcia.
_Minha querida! Voc viu o Leonardo?
_Ele estava conversando com o pastor Pedro Gabriel. E a Suzana?
_Ela no veio hoje, estava com dor de cabea.
Letcia conversou com vov Vivi por mais alguns segundos e em
seguida despediu-se dela pois iria embora com o pai que seguia as
recomendaes da esposa. Sandra o fez jurar que ficaria de olho
na filha.

Leonardo ficou satisfeito ao saber da conversa franca que o pastor
teve com Paulo Reis e bem como a de Rute com Regina; mas
estava muito desanimado, pois no conseguia pensar em outra
coisa a no ser no trmino de seu curto namoro com Suzana. Saber
que ela estava infeliz com ele o magoou muito, pois tudo o que ele
queria era faz-la feliz." Se eu no tivesse inventado de ped-la em
namoro agora ns ainda seramos amigos; era to bom poder
busc-la e passar alguns momentos com ela! Agora nem isso eu
vou ter mais!"- lamentou.

Em Poos de Caldas, Sandra aproveitou que estava dividindo o
quarto com a amiga Lgia, para conversar com ela sobre Suzana.
_Lgia, voc sabe o quanto a nossa amizade  importante para
mim e  por isso que eu tenho que contar-lhe algo sobre a famlia
da Suzana.
_O que voc tem para me contar sobre a famlia dela, Sandra?
_Ah, amiga,  um assunto chato, mas, como o Leonardo est de
namoro com ela eu tenho a obrigao de avisar em que tipo de
famlia ele est entrando.
_Ai, Sandra, voc est me assustando!

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_ de se assustar mesmo. Lgia, o pai da Suzana ficou preso
durante quase trs anos por agredir um homem.
_O qu?
_ isso mesmo. O homem era patro dele e tinha um problema na
perna e por isso usava uma bengala, pois o pai da Suzana o feriu
com a prpria bengala, ele foi parar no hospital, ficou na U.T.I de
tanto que apanhou. Eu sei disso porque a Marisa procurou o
Fernando no escritrio para saber se ele tinha algum amigo que
fosse advogado l em BH, pois ela queria ajudar o cunhado.
_E o Rafael no ficou sabendo disso?
_S por cima, na poca ele estava com um processo complicado
que ocupava todo o tempo dele, mas o Fernando chegou a
comentar com ele. Lgia isso no faz muito tempo... uns cinco ou
seis anos. O Fernando indicou um amigo dele. Eles devem ter se
mudado para c por causa disso.
_Sandra... que histria estranha! Qual o motivo para agir com
tanta violncia?
_Lgia, o motivo  o que menos importa, a questo : voc quer
que seu filho tenha um ex-presidirio como sogro? Quer algum
violento desse jeito tendo contato direto com o seu filho? Eu no
estou contando isso para atrapalhar a vida do Leonardo, eu s
quero que ele seja feliz.

Naquela noite foi difcil para Lgia conseguir dormir, as palavras
de Sandra no lhe saam da cabea. "Ser que Leonardo sabe desta
histria sobre o pai de Suzana? O pior  que ele est to
apaixonada por esta garota..."- constatou com tristeza pois nunca
vira o filho to interessado em algum antes.

Era uma linda manh de segunda-feira, Leonardo estava no
escritrio organizando alguns documentos, olhou para o celular,

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                           Tnia Gonzales



eram dez e meia, pensou em Suzana; no dia anterior, aps chegar
do culto, sentiu uma vontade imensa de ligar para ela, mas no
cedeu, se o namoro deles fazia mal para ela era melhor se
distanciarem, pensou, s que ele sabia que seria muito difcil ficar
longe dela, pois j estava com saudades s de imaginar que no a
buscaria naquela noite. Seus pensamentos foram interrompidos
pelo toque do celular.
_Al? Oi, minha irm querida, como est a grvida mais linda do
mundo?
_Oi, meu irmozinho lindo, estou melhor, mas ontem me senti to
mal! Lo, eu estou com medo que acontea alguma coisa com o
beb... vou completar 3 meses nesta semana.
_Fique tranquila! Pare de se preocupar; esse beb vai ser to
paparicado! A mame quase que no viajou por sua causa.
_Eu sei, ela j me ligou vrias vezes. Esta to ansiosa para ser av
quanto eu para ser me. O Bruno dormiu to mal esta noite, s
ficava me perguntando se eu estava bem.
Leonardo conversou por mais alguns minutos com a irm e depois
foi at a sala de seu pai para levar-lhe os documentos que havia
separado.

Suzana passou a manh inteira pensando em Leonardo; saber que
no teria a companhia dele logo mais  noite muito a entristecia,
mas era ela mesma que havia provocado isso ao terminar o
namoro. Como ela gostaria de poder relacionar-se com ele sem
medo ou receio, sem ser atormentada pelo passado.

Eram nove e vinte da noite, constatou Leonardo olhando com
desnimo para o relgio. " Quem ser que vai busc-la? E se eu ...
no...  melhor eu respeitar a deciso dela; mesmo que seja difcil
eu tenho que aceitar que o nosso namoro acabou.

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     Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Suzana no contou para a sua famlia que o seu namoro havia
terminado, por isso foi para casa sozinha naquela noite de
segunda-feira. Estava torcendo para que ningum a visse chegar e
foi exatamente isso que aconteceu. Ao entrar, cumprimentou o pai
que estava assistindo TV e foi para a cozinha onde encontrou a
me e a vov Vivi. Conversou alguns minutos com elas, e a seguir
foi tomar um banho quente. Sentiu-se aliviada por conseguir
esconder a tristeza que invadia o seu corao e por no
perguntarem nada sobre o horrio que ela chegou. No dia
seguinte ela estaria de folga do trabalho, iria aproveitar para fazer
uma visita  Paulinha.




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                           Tnia Gonzales



Captulo 24 -Tristeza e alegria
Suzana acordou cedo e foi para a faculdade, onde passou mais
uma manh sem conseguir parar de pensar em Leonardo, estava
bem difcil se concentrar nas aulas. " Aquele sorriso lindo, o jeito
dele me olhar, a voz..."
Suzana estava saindo da faculdade quando seu celular tocou, por
um momento desejou que fosse ele dizendo que a estava
esperando.
_Oi, tudo. Qual  o hospital? Ah... meu Deus, que pena L!
Letcia deu-lhe uma triste notcia: Beatriz estava internada e havia
perdido o beb.
Suzana resolveu ir at o hospital pois a amiga lhe informou que
Leonardo estaria l. Chegou l quase duas horas da tarde.
Resolveu ligar para o celular de Leonardo.
_Suzana? O qu? Voc est aqui no hospital? Eu vou buscar a
minha me na rodoviria. Tudo bem.
Aps cinco minutos, Suzana encontrou-se com ele no
estacionamento do hospital. Olharam-se por alguns segundos at
que Suzana disse:
_Eu posso ir com voc?
_Pode,  claro... ento... vamos, ela deve chegar s trs horas.
Entraram no carro, Leonardo abaixou a cabea e disse:
_A Bia est arrasada! No d para entender... - a emoo
embargou suas palavras.
Leonardo continuou de cabea baixa e Suzana percebeu que ele
passava a mo no rosto discretamente para enxugar as lgrimas
que insistiam em cair. Ela se aproximou dele e comeou a
acariciar-lhe os cabelos, dizendo:
_Eu sinto muito... Leonardo... eu sinto muito.


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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Suzana levantou-lhe a cabea, puxou-o para perto e beijou-lhe o
rosto com carinho, em seguida tocou os lbios dele com os seus
e por alguns segundos ela permaneceu assim, cobrindo-o com
pequenos beijos nos lbios...com os olhos cerrados, Leonardo
estava inerte, s sentindo a ternura daquele momento, at que
Suzana, sem parar com os suaves toques nos lbios, apertou a
mo dele com fora, ento ele compreendeu o que deveria fazer...
movimentou os lbios que at ento estavam parados e a beijou
suavemente... mas como os dois ansiavam por aquele momento,
logo o primeiro beijo deles se transformou em algo mais intenso,
clido. Com receio de assust-la, Leonardo afastou-se bem
devagar acariciando o rosto daquela garota que mexia com o seu
corao.
Os lindos olhos verdes estavam marejados, mas nos lbios havia
um lindo sorriso.
Leonardo a fitava com um olhar terno e tambm com um sorriso
em seus lbios.
E assim permaneceram por alguns segundos, como se as palavras
pudessem quebrar o encanto daquele momento.
_ Bom... precisamos ir at a rodoviria. - disse Leonardo.
_ Voc est certo.
_Como voc ficou sabendo? E o seu servio?
_A Letcia me ligou quando eu estava saindo da faculdade e hoje
estou de folga.
_ Entendi.
_O que aconteceu com a sua irm?
_Ela passou muito mal logo pela manh, foi ao banheiro e ...
perdeu muito lquido, ela chamou pelo Bruno e eles foram para o
hospital, mas, infelizmente, quando chegaram no havia mais nada
para fazer. Estavam to felizes... era um beb muito esperado... a
Bia est muito desanimada.  a terceira vez...

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                          Tnia Gonzales



_ to difcil entender quando essas coisas acontecem...  to
triste. Ns confiamos em Deus, mas  complicado compreender os
seus caminhos. E a sua me j sabe?
_No. O meu pai achou melhor falar pessoalmente.
_Ento,  voc que ir dar a triste notcia.

Cinco minutos aps Leonardo e Suzana chegarem  rodoviria, o
nibus de Lgia e Sandra estacionou.
_Meu querido, que bom v-lo- disse Lgia beijando o filho.
_Seja bem-vinda, minha me, oi, Sandra, tudo bem? Como foi a
viagem?
_Oi, Leonardo, passamos dias maravilhosos- respondeu Sandra.
_Vocs so maravilhosas, facilitam as coisas  disse Leonardo ao
apontar as malas com rodinhas.
S ento as duas mulheres viram quem estava com Leonardo, pois
Suzana estava esperando um pouco afastada do fluxo de pessoas,
apesar de ser um dia normal            a rodoviria estava bem
movimentada.
_Me, a Suzana veio comigo.
_Como vai, Suzana? - perguntou Lgia um pouco sem graa, por
lembrar da conversa com Sandra.
_Estou bem e a senhora? Oi, Sandra.
_Estou bem, graas a Deus, vamos filho?- foi a resposta de Lgia.
Sandra no disse uma palavra s fez um movimento com a cabea
e deu um sorriso forado.
_Filho, eu no consigo falar com a Beatriz, a ltima vez que
conversei com ela foi ontem  noite. At com seu pai est difcil
falar, ele desligou to rpido, s me informou que voc viria nos
buscar, depois no consegui mais falar com ele. Como que ela
est?
_Vamos entrar no carro primeiro?  chato ficar conversando assim

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


com todo esse movimento - disse Leonardo segurando a mo de
Suzana com mais fora.
_E ento, agora voc pode me dizer o que acontecendo? -
perguntou Lgia com ansiedade, quando j estavam dentro do
carro.
_Calma, me; a Bia est internada.
_O qu? Por que vocs no me avisaram? Desde quando?
_Desde hoje de manh. Me...
_Mas, como ela est? O que aconteceu?
_Fique calma, me, por favor... mas eu no tenho boas notcias...
ela ... perdeu o beb.
_O qu? No... no pode ser... filho... como foi acontecer isso? Por
que vocs no me ligaram?
Lgia comeou a chorar e Sandra a abraou tentando consol-la.
_Ela passou mal logo pela manh e foi ao banheiro, bom... saiu
uma grande quantidade de lquido e ... quando chegaram ao
hospital...
_ Ela deve estar to mal! Coitada da minha filhinha... estava to
feliz!
_ Vamos direto ao hospital, est bem?
_Claro que sim... Sandra, voc quer que o Leonardo a deixe em
casa?
_No, eu vou com vocs ao hospital.

Lgia encontrou-se com o marido  entrada do hospital, ele a
abraou com carinho e ficaram assim por alguns instantes.
_Rafael... como isso foi acontecer? Por que Deus no...
_Calma, minha querida, no fale nada... vamos at o quarto dela,
ela est muito ansiosa para v-la.

_Voc almoou? - perguntou Leonardo para Suzana ao ver a me

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                           Tnia Gonzales



se afastar.
_Eu comi um lanche.
_Lanche? Me desculpe, s agora que eu pensei nisso. Voc veio
direto da faculdade e...
_No se preocupe. E voc almoou?
_Eu comi um pouco, estava sem apetite. Eu acho melhor lev-la
para casa, agora a minha me vai ficar l com a Bia e  melhor
que as duas tenham um pouco de privacidade; no vai adiantar
ficarmos aqui. Sandra, quer uma carona?
_Eu vou esperar um pouco, quero ver a Beatriz- respondeu Sandra
que at ento estava observando os dois conversarem.
Despediram dela rapidamente e saram. Sandra ficou olhando para
os dois at desaparecerem de seu campo de viso. Muito lhe
desagradava ver Leonardo de braos dados com aquela garota.

No quarto do hospital, me e filha se abraavam e choravam
muito. Era um duro golpe para ambas. Lgia havia passado por
isso duas vezes antes de se alegrar com o nascimento de Beatriz;
sabia muito bem como doa perder algum que j significava tanto
mesmo antes de nascer. Como ela gostaria de poupar a sua filha
de to grande sofrimento, mas a nica coisa que podia fazer era
consol-la.
_Me, eu no entendo... por que Deus no me permite ser me?
Por qu? O que eu fiz de errado? Qual o motivo para ele me punir
dessa maneira?
_Minha filha, pare com as perguntas pois eu no tenho as
respostas ... minha querida... eu sinto tanto! Eu no sei como pde
acontecer isso... no sei o porqu... s sei que amo voc e vou
ajud-la a superar isso, conte comigo, minha querida!
_Ah... me... eu sei o quanto a senhora gostaria de ser av... me
perdoe por no ser capaz.

                               260
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Beatriz, voc no tem que pedir perdo, querida, voc no tem
culpa de nada.
_O Bruno estava to feliz... ele casou com a pessoa errada. Eu
nem posso dar um filho para ele.
_Filha, no fale assim. O Bruno a ama tanto, ele ficaria muito
triste ao ouvir isso. Agora tente descansar. Eu vou ficar aqui bem
pertinho de voc.

_ A Suzana precisa se alimentar, vov!- avisou Leonardo ao
entrarem na casa de Suzana.
_E ele tambm- completou Suzana.
_Isso no  problema, vou preparar uma comidinha para vocs.
_No precisa se preocupar comigo- disse Leonardo.
_Preciso sim, pode sentar e ficar  vontade.
_Eu vou tomar um banho- disse Suzana dando um sorriso para
Leonardo.
_Que pena a sua irm ter perdido o beb, agora ela precisa de
muito carinho para superar... por trs vezes, no  fcil! Voc
espera com tanto carinho, a expectativa  to grande, e de repente
precisa voltar novamente ao ponto inicial. S Deus para consol-
la- disse vov com tristeza na voz- Voc vai precisar esperar mais
um pouco para ser tio.
_ uma situao muito difcil, se do em mim, imagine a dor que
a minha irm est sentindo, ela estava to feliz...
_ querido, existem coisas que nunca vamos conseguir entender.
H tantas mulheres que abortam por no querer o beb, por achar
que uma criana atrapalharia a sua vida, enquanto outras dariam
tudo para serem mes e no conseguem.
Alguns minutos depois, Suzana voltou, ento ela e Leonardo
saborearam a comida da vov.
Aps a refeio, como Suzana havia comentado com Leonardo

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                          Tnia Gonzales



que gostaria de fazer uma visita para Paulinha, ele a levou at a
casa dela.
_Eu vou deixar vocs duas conversando e dar um pulinho at em
casa para tomar um banho- avisou Leonardo- Daqui a pouco eu
volto para busc-la.
_Tudo bem, eu espero.
_Tchau, Lo. Pode ir tranquilo, gato- disse Paulinha piscando para
ele, e assim que ele saiu disse: No precisa ficar com cimes,
Suzana, eu adoro o Lo, mas infelizmente perdi a minha
oportunidade, agora ele  todo seu; pensa que eu no percebi o
jeito que ele olha pra voc? Um olhar to apaixonado! Voc 
uma sortuda!
_Paulinha...
_No precisa ficar com vergonha, e s peo uma coisa: no o
perca. No faa como eu, que fui uma boba, eu sei que perdi
muito, ele  tudo de bom! Hum... tudo de bom! Pode crer. Eu
percebi que voc no est gostando desse papo, tudo bem... eu
fiquei muito chateada com o que aconteceu com a Bia,  muito
triste, n? "P" como que foi acontecer isso?
_ um momento muito difcil para todos eles, a dona Lgia chegou
hoje de viagem e recebeu esta notcia to triste!
_Poxa!  muito chato... o pior  ter coragem para ficar grvida de
novo, aps trs abortos!
Suzana e Paula continuaram conversando at que Leonardo
voltou.
_Se comportaram bem na minha ausncia?
_ claro, "t" pensando o qu? Voc, hein? Como conseguiu
voltar mais lindo ainda?- brincou Paulinha.
_Que isso, so os teus olhos! Voc  que est linda, aquela sua
cor rosada j voltou ... estou feliz por voc estar seguindo
direitinho a dieta.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Eu estou, nossa... que alvio, estava me sentindo to fraca, era
horrvel! Mas, graas a Deus , aos amigos que ele me deu e  claro
 minha famlia, eu estou melhorando a cada dia. E voc  o
principal culpado por eu estar assim- disse segurando na mo dele.
_Quero sempre ser culpado por isso.
_E depois eu quero ter uma conversa com voc sobre aquele
assunto, "t" , meu gato?... - disse Paula se referindo aos pais.
_Ah... tudo bem. Agora ns precisamos ir, fique com Deus, minha
linda.
_Tchau, Paula, fiquei muito feliz por v-la to bem- disse Suzana.
_Obrigada pela visita, vou acompanh-los, a minha me vai ficar
muito triste por no v-lo, gato, voc sabe o quanto ela gosta de
voc.

_Agora so oito horas, quer dar uma passada no hospital comigo?-
perguntou Leonardo ao entrarem no carro.
_Eu quero, quem sabe eu consigo ver a sua irm dessa vez.
_Claro que sim. Mas, por causa do horrio, s d para ficarmos
um pouquinho.
_Voc e a Paula...
_Que foi? Ficou com cimes?
_No  isso...  que parece que vocs dois ainda no se
acostumaram com a ideia de que no so mais namorados...
_Por qu? O que fizemos de errado?
_No...  s... nada, esquece.
_Que coisa mais fofa! Voc com cimes fica ainda mais linda!
_Para com isso...  que  um tal de meu gato e de minha linda...
Ao ouvir isso, Leonardo riu com vontade.
_Voc acha engraado? Pois  isso mesmo.
_Que gostoso, voc com cimes de mim! Adorei! Ei... no pense
isso... olha,  s nosso jeito de tratar um ao outro, mas no tem

                                   263
                          Tnia Gonzales



nada a ver, ah... minha princesa!
_Vamos parar com isso?
_Tudo bem, mas foi voc quem comeou! E falando em
comear...  que ns ainda no conversamos sobre o que
aconteceu no estacionamento do hospital.
_... o que voc acha de deixarmos isso pra depois?
_Se voc prefere... mas eu posso considerar o nosso namoro
reatado, no ?
_... pode sim.
_Uau! timo! Voc me fez muito falta, sabia? Foram s dois dias,
mas s de pensar que tudo estava acabado entre ns...
_Eu tambm senti saudades.
_Pena que eu estou dirigindo, seno...
Poucos segundos depois, Leonardo entrou no estacionamento do
hospital.
_Boa noite, Bruno, e a, meus pais j foram?
_Oi, Leonardo. Faz uma hora mais ou menos que eles saram. A
Bia est no banheiro. Oi, tudo bem?- disse Bruno cumprimentando
Suzana.
_Oi, eu sinto muito, Bruno, se eu puder ajudar...
_Obrigado, a sua presena aqui ajuda muito, faz bem saber que as
pessoas se importam.
_Oi, meu irmozinho, que bom que voc veio com a Suzana...
-disse Beatriz.
_Oi, Bia, no era a minha inteno que vocs duas fossem
apresentadas em um hospital, mas... esta  a Suzana, minha
namorada, e Suzana esta  a minha irm, Bia.
_Beatriz, eu gostaria de saber o que dizer para voc em um
momento to difcil!
As duas se abraaram e deixaram as lgrimas carem livremente.
_Suzana, eu agradeo por voc estar aqui e por fazer o meu irmo

                              264
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


feliz. Ele estava dodo para ser tio, mas no foi desta vez, o papai
do cu no quis... eu no sei o porqu, mas preciso aceitar a
vontade dele.
_Beatriz, Deus vai lhe dar foras para suportar... no sabemos as
respostas para todos os nossos porqus, mas mesmo assim
devemos confiar Nele.
_Voc tem razo. Eu quero que voc marque um dia para ir l em
casa, t? Amanh eu j estarei l, ento combine com o Lo.

s nove horas se despediram e em quinze minutos chegaram 
casa de Suzana.
_Posso entrar um pouquinho, s at a garagem?
_Pode. Ainda  cedo.
Entraram e por alguns segundos os dois ficaram se olhando...
_Voc vai ficar assim longe de mim? Suzana? Est tmida, por
qu?
_No  timidez...  s que eu no... no sei o que fazer.
_Vem aqui, vem... podemos repetir o que aconteceu no
estacionamento do hospital?
_Ah... eu acho que sim.
_Voc quer?
_... voc tinha que fazer esta pergunta? Por que voc
simplesmente no se aproxima e...
_E... faz isso?  isso? ? - perguntava Leonardo enquanto se
aproximava dela e beijava-lhe os lbios com carinho.
_ - respondeu Suzana correspondendo queles pequenos beijos.
_S isso? - provocou Leonardo, sem parar com os selinhos- Posso
parar?
_Ah... no, no pode.
_Como eu fico feliz em ouvir isso desta boca linda e doce.
E essas foram as ltimas palavras dele antes de beij-la com

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                           Tnia Gonzales



ternura.
_Voc tinha tanto medo e agora... viu s? No havia motivo para
tanto receio. -disse Leonardo.
_ Eu no pensava que fosse to...
_To?
_To maravilhoso! To bom e...
_ No precisa ficar com vergonha de mim, diga.
_E... gostoso- ao dizer esta palavra, Suzana desviou o olhar.
_Minha princesa, voc tem razo,  maravilhoso, bom, gostoso,
especial e eu estava ansioso por beij-la! Seus lbios so doces,
meu amor.
_Eu... tinha tanto medo, eu fiz voc esperar e...
_Valeu a pena esperar, como valeu!
_Voc  to compreensivo! Eu quero agradecer por...
_Suzana, voc no vai me agradecer... isso no.
_Mas, eu preciso; Leonardo, quando eu estou com voc tudo
parece ser mais fcil... voc  to gentil e atencioso comigo, antes
de conhec-lo eu tinha a certeza de no querer me relacionar com
ningum, por um motivo que eu no gostaria de contar,  algo
muito doloroso para mim. Mas, voc com seu jeito especial, me
conquistou.
_Agora voc me deixou sem opo, vou precisar beij-la, as suas
lindas palavras  que provocaram isso.
_Eu no vou reclamar.
Se beijaram novamente e depois Suzana repousou a cabea no
peito de Leonardo, que acariciava os cabelos dela com carinho e
por alguns minutos ficaram assim.
_Agora, eu preciso ir, boa noite, minha princesa.
_Boa noite, meu prncipe.
_Adorei, o meu prncipe. Tchau.


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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Suzana participou de um lanche com sua famlia e antes das onze
horas estava na cama. Aquele dia fora muito especial para ela, pois
havia ultrapassado um obstculo enorme. Ela sabia que para a
maioria das mulheres o primeiro beijo era especial, mas para ela
era muito mais do que isso, era uma vitria contra o medo. " Eu
no imaginava que um beijo pudesse significar tanto... pudesse
trazer tantas coisas boas, sensaes agradveis... antes, o beijo,
para mim, estava relacionado  dor,  algo repugnante, nojento..."-
ao pensar isso, os lindos olhos verdes ficaram marejados.




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                           Tnia Gonzales



Captulo 25- Rindo  toa

Ao olhar pela janela de seu quarto, Lgia viu que o filho acabara
de chegar, resolveu descer e conversar com ele naquele noite
mesmo; pois o assunto sobre o pai de Suzana muito a inquietou.
_Que bom que chegou, filho, eu preciso falar com voc.
_Querida, eu acho melhor deixar esse assunto para amanh, hoje
foi um dia difcil para todos ns- disse Rafael querendo poupar o
filho, por j saber do que se tratava.
_Que assunto?
_Filho, sente-se aqui perto de mim- pediu Lgia- Eu pensei em
deixar para outro dia, mas eu estou to preocupada! Leonardo, eu
percebi o quanto voc est interessado por aquela garota...
_O nome dela  Suzana, me. Eu vou traz-la aqui para...
_No... pelo menos por enquanto. Filho, eu fiquei sabendo de algo
muito srio sobre a famlia dela..
_Sobre a famlia da Suzana? Me, so pessoas excelentes, me
tratam muito bem e...
_Leonardo... eu quero o melhor para voc, meu filho... o pai da
Suzana...  um ex-presidirio, ele ficou preso por quase trs anos.
_O qu? Como que a senhora soube disso?
_Filho, voc no sabia, no ? Est vendo s? Eles no contaram
pra voc.
_Me, isso no  algo que as pessoas gostariam de falar.
_Tem razo. Filho, afaste-se desta garota... por favor.
_Calma, Lgia! Deixe que ele decida- interveio Rafael.
_Quem foi que disse isso? - perguntou Leonardo.
_A Sandra, mas...
_Ah, eu estou comeando a entender, a Sandra no est satisfeita
em proibir o namoro da filha, agora ela quer...

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_No seja injusto com a Sandra, ela s quer ajudar.
_Atrapalhar  isso o que ela quer. Que absurdo!
_Filho, voc est pensando que ela inventou? Est enganado. Ela
sabe disso porque na poca a Marisa pediu ajuda ao Fernando, ela
queria que ele indicasse um advogado, e foi isso o que ele fez. Um
advogado que era amigo de um amigo dele que mora em Belo
Horizonte foi quem pegou o caso.
_E por que o seu Davi foi preso?
_Ele agrediu um homem, bateu tanto que ele foi parar na U.T.I; o
pai da Suzana usou a prpria bengala do homem que tinha um
problema na perna, e o pior  que era o patro dele.
_O qu? No... o seu Davi no faria uma coisa dessas... ele  um
homem to tranquilo e...
_Filho, as aparncias enganam, voc no l os jornais, no assiste
aos noticirios? Quantos que eram considerados como homens de
bem, pais de famlia e depois se descobre cada absurdo, alguns
so at pedfilos!
_Me, cuidado com o drama... deve haver alguma explicao, se
 que isso  verdade.
_Querido, termine o namoro com ela... eu tenho tanto medo...
pessoas violentas so capazes de tudo e se...
_Me, ei, calma... eu no posso chegar na Suzana e perguntar isso
para ela, ento, eu no sei o que fazer.
_Lgia, o Leonardo est certo. No  nada bom ele se precipitar, 
preciso saber a verdade. Eu posso conversar com o Fernando.
_Pai, o senhor no lembra disso?
_Eu sei que o Fernando indicou um advogado atendendo a um
pedido da Marisa, isso foi h mais ou menos cinco anos, mas no
fiquei sabendo os detalhes.
_Meu filho... se afaste dela, voc vai encontrar algum...
_Me, eu j encontrei na Suzana tudo o que eu queria e no vou

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                          Tnia Gonzales



deixar que isso atrapalhe o nosso relacionamento. Eu vou dormir,
boa noite para vocs, e me, v se dorme, a ansiedade no traz
nada de bom, t?

Leonardo estava certo de uma coisa: no conversar com a Suzana
sobre o assunto. Os dois estavam vivendo um momento muito
especial e ele no iria estragar tudo.

_Tem algum aqui nessa mesa que est radiante hoje! - foi o
comentrio de Sueli ao ver a irm toda sorridente; eram seis horas
da manh de quarta-feira.
_O qu? Falou comigo? Eu preciso tomar o caf rapidinho, seno
foi me atrasar para a faculdade, voc acordou cedo hoje, hein?
_, hoje eu preciso entrar mais cedo no servio. Suzana, voc est
nas nuvens hoje! O que aconteceu? Me conta... bom... com toda a
certeza um rapaz alto e bonito tem tudo a ver com a sua alegria!
_... voc acertou!
_Mas e a? O que rolou?
_  que aconteceu algo lindo... mas eu acho que no vou contar.
_O qu? A minha irm vai ficar de segredinho, ? Se liga, Suzana!
Vai contando e com detalhes.
_Detalhes? No mesmo. Sueli,  que ontem, eu e o Leonardo...
nos beijamos pela primeira vez.
_O qu? Vocs ainda no ...
_No. Voc sabe como eu sou para esse tipo de coisa e sabe muito
bem o porqu.
_Uau! Suzana, e a? Foi o mximo? Conta.
_Foi maravilhoso... mas nada de detalhes, pode esquecer!
_Ah, sua chata! Mas, eu fico feliz. Voc merece. Coitado do
Leonardo, hein? Haja pacincia!
_Nisso voc tem razo. Agora, eu preciso ir, tchau!

                               270
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Cuidado para no cair por a! Est nas nuvens!
Logo aps o almoo, Leonardo ligou para Rita, a me de Lcia, e
soube que ela estava cumprindo a parte dela no acordo, por isso
ele combinou de passar l no dia seguinte por volta das duas horas
da tarde. Rita agradeceu muito por ele se preocupar com a filha
dela.

Antes de buscar Suzana no servio, Leonardo foi visitar a irm
que j estava em casa se recuperando. Lgia tambm foi com o
marido, apesar de ter passado a tarde inteira com a filha. O
assunto sobre o pai de Suzana no foi mencionado; Lgia
continuava muito aflita, mas havia prometido a Rafael dar um
tempo para o filho.

_Est vendo? Agora nos cumprimentamos como qualquer casal de
namorados- comentou Leonardo aps dar um beijo em Suzana.
_E isso  timo, mas no precisa exagerar, t? No gosto de
plateia.
_Princesa Suzana, agora ficou difcil resistir.
_E a sua irm?
_Ela est bem, eu estive na casa dela e preciso levar a minha linda
namorada l, agora s depende de voc.
_Vamos combinar. Voc est bem? Parece preocupado.
_ Ontem eu conheci o sabor dos seus lbios como no poderia
estar bem, hein?
_Pare de falar assim, eu fico com vergonha.
_No... eu s paro se voc ocupar a minha boca.
_Leonardo, ns estamos no estacionamento de um shopping, aqui
no.
_Ento, entra logo no carro.
_Calma, apressadinho!

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                          Tnia Gonzales



_E agora?- perguntou Leonardo ao entrarem.
_Continuamos no estacionamento.
_Ah, no seja m, vem aqui, vem... Suzana!
_No.
_No? Voc me beijou dentro do estacionamento de um hospital!
_Aquilo foi uma emergncia.
_Emergncia? Pois agora tambm  uma emergncia, eu estou
morrendo...
_Morrendo?
_Morrendo de vontade de beij-la... vem aqui.
_No.
_No? Voc  to insensvel! Ento, agora sou eu que no vou
querer, nem que voc me pea de joelhos- disse ele dando partida
no carro.
_Nossa, que menino bravo! Leonardo? Olha pra mim e... vem.
_Oi? Voc me chamou? - desligou o carro e olhou para ela.
_Chamei.
_Ah, pois agora voc vai ficar querendo. Fique sabendo que eu
no sou desses que cedem facilmente, no adianta fazer esse
biquinho lindo e fofo- sem parar de falar Leonardo foi se
aproximando at que os lbios se tocaram.
_Ainda bem que voc no cede com facilidade- brincou Suzana.
_Voc viu? Eu sou assim... com voc,  claro. Agora podemos ir.

Naquela noite, Suzana teve um terrvel pesadelo...
_ Menina linda e teimosa! Eu j no avisei que voc  minha? No
h escolha. Voc s pode ficar comigo. Acha mesmo que ele iria
querer algum como voc? Se ele soubesse iria desprez-la e voc
viria correndo para os meus braos fortes. Est com saudades no
est? Estou pronto para t-la novamente... venha... venha.
_No! Me solte! No... por favor! No...

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Suzana? Suzana? Minha querida... filha?
_Me? Ah... me... eu estou com medo! Por que eu ainda sonho
com isso? Por qu? Quando vou me livrar desses pesadelos?
Quando?
_Eu no sei, minha querida! Fique calma.
_Ainda bem que a vov foi dormir com a tia Marisa! Ela sofre
tanto ao me ver assim!
_Ah... minha filha! Tente dormir novamente.

Eram sete horas da manh, Lcia j havia tomado banho e estava
toda arrumada esperando por Leonardo.
_Lcia? J acordou? Voc deveria aproveitar para dormir mais um
pouco.
_Estou esperando o meu anjo.
_Ele s vai chegar depois do almoo, vai demorar.
_Estou esperando o meu anjo.
_Enquanto espera tome o seu caf, ele ficar feliz.
Lcia saiu do quarto e foi tomar caf com a me. Sem dizer uma
palavra comeu tudo o que Rita havia preparado, depois voltou ao
quarto e ficou sentada escrevendo em seu dirio. Ao meio-dia,
Rita chamou a filha para almoar e foi o mesmo ritual: Lcia
sentou-se, fez sua refeio em silncio, voltou para o quarto e
pegou o dirio, continuou escrevendo at a chegada de Leonardo.
_Oi, Lcia. Como voc est? Eu estou aqui porque voc cumpriu a
sua parte em nosso acordo.
_Meu anjo- disse Lcia largando o dirio.
_Voc est bem?
_Meu anjo, voc voltou... voc voltou.
Lcia fitou-o com os olhos cheios de lgrimas. Por um momento,
Leonardo sentiu uma vontade imensa de abraar aquela garota
frgil, mas conteve-se.

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                          Tnia Gonzales



_Eu no disse que voltaria? Lcia, fale comigo... como voc est?
O que est sentindo?
_Eu estou bem porque voc est aqui, meu anjo.
_Por que voc no sai um pouco, faz um passeio com a sua me,
eu tenho certeza que ela ficaria muito feliz.
_No.
_Por qu?
_No posso sair... aqui  o meu mundo.
_H tantas coisas lindas para se ver l fora...
_No. H muitas coisas horrveis l fora, pessoas ms... 
perigoso... h muita tristeza e sofrimento...
Era a primeira vez que ela se expressava dessa maneira, as
palavras saram carregadas de tanto sentimento que Leonardo
ficou impressionado. " O que essas palavras significam? Com
certeza no so s meras palavras jogadas ao vento"- pensou ele.
_Lcia, voc pode se abrir comigo. Eu estou aqui para ouv-la.
_Eu quero ouvir a sua voz... leia algo para mim, por favor, meu
anjo.
_Voc tem uma Bblia?
_Bblia? A minha me deve ter uma.
_Ento, eu vou falar com ela, j volto.
Leonardo saiu do quarto e encontrou Rita na copa preparando um
caf.
_Eu j ia levar um cafezinho para voc.
_Obrigado, a senhora teria uma Bblia, a Lcia quer que eu leia
para ela.
_Eu tenho, est no meu quarto... beba um cafezinho enquanto eu
vou busc-la.
Leonardo ficou pensando o que leria para Lcia, fez uma rpida
orao pedindo direo a Deus... quando Rita voltou com a Bblia
nas mos ele j sabia qual a leitura que deveria fazer.

                              274
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Lcia, aqui est a Bblia... eu vou ler: " Jesus anda por sobre o
mar "15
Leonardo leu pausadamente e com uma voz muito tranquila;
durante a leitura, Lcia ficou com os olhos fechados.
_Lcia, voc sabe por que os amigos de Jesus ficaram com medo?
_Por causa do vento?
_O vento era motivo de preocupao, mas eles ficaram
assustados com a aproximao de Jesus, eles pensaram que era um
fantasma e comearam a gritar, Jesus acalmou-os dizendo:" Tende
bom nimo! Sou eu! No temais!", e quando ele subiu no barco o
vento cessou. Lcia, eu no sei o que provoca medo em voc... os
discpulos viram naquele que se aproximava, uma ameaa,
ficaram atemorizados, mas na verdade, a presena de Jesus iria
cessar o vento. Talvez voc esteja com medo de quem quer se
aproximar de voc para ajud-la. Eu no sei o que aconteceu com
voc, Lcia, se quiser me contar eu estarei pronto para ouv-la...
mas no impea que a sua me, por exemplo, a alcance... permita
que ela se aproxime, quem sabe assim o vento cessa. Jesus entrou
no barco e tudo se acalmou. Ele tambm quer fazer isso na sua
vida... no se feche em um mundo s seu, no faa isso. Deixe que
a alcancemos.
_Jesus enviou voc para me ajudar, voc  o anjo dele, eu sei.
_Voc precisa abrir o seu corao... fale comigo, Lcia, eu estou
aqui para ajud-la.
_Eu no quero falar... s quero ouvir a sua voz, ela  to suave...
traz paz... leia mais pra mim.
_Tudo bem, eu vou ler um Salmo que  muito conhecido e  o
favorito de muitos,  o Salmo 23.
Leonardo leu o Salmo 23 por seis vezes seguidas a pedido de

15 Marcos 6.45-52

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                          Tnia Gonzales



Lcia, que ficou com os olhos fechados durante todo o tempo da
leitura.
_Lcia, agora eu preciso ir, mas eu volto um outro dia, se voc
prometer que vai continuar se alimentando. Eu vou pedir mais
uma coisa.
_O qu?
_Que voc v tomar sol todos os dias l embaixo, perto da piscina.
Combinado?
_Eu no sei... no quero sair daqui.
_Por favor, por mim.
_T bom, meu anjo, mas por que voc precisa ir?
_Eu preciso trabalhar, eu ajudo o meu pai.
_Ah... o seu pai! ... os anjos ajudam.
_Eu volto na semana que vem, na tera-feira. Tchau, Lcia.
_Tchau, meu anjo.
Leonardo queria muito fazer algumas perguntas para a me de
Lcia, a encontrou organizando algumas coisas na cozinha.
_Dona Rita, me desculpe, mas eu preciso perguntar-lhe algo.
_Fique  vontade, pode perguntar.
_Aconteceu algo grave na vida da Lcia? E o pai dela? Me
desculpe se estou sendo indiscreto, mas...
_Tudo bem. Eu sou divorciada h mais de sete anos, ele mora em
Minas, ns morvamos l... ele vem aqui a cada um ou dois meses
para v-la.
_A Lcia tem irmos?
_O meu ex-marido tem mais dois filhos.
_E ela no tem contato com eles?
_No. So dois meninos, um de 6 anos e outro de 4 anos.
_A Lcia e o pai se... entendem?
_O relacionamento entre os dois  bem complicado. Ah...
...bom...  s isso.

                               276
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_A senhora gostaria de me contar mais alguma coisa?
_No. Eu s quero agradec-lo, eu sei que voc deveria estar
trabalhando agora.
_No se preocupe com isso. Eu fiz um outro acordo com ela...

Suzana saiu da loja, olhou ao seu redor e avistou um sorridente
rapaz, ela retribuiu o lindo sorriso e pensou: " Como  bom v-
lo... tudo se transforma, e at parece que no existe o passado,
somente este momento. "
_Boa noite, minha princesa, no imagina a alegria que invade o
meu corao ao v-la se aproximar com a sua beleza mpar, as
minhas pernas chegam a tremer no suportando tanta emoo.
_Nossa... fiquei de boca aberta agora! - disse Suzana rindo muito.
_Eu estou em um momento especial de inspirao e ela faz o qu?
Ri. Mas, se a princesa ficou de boca aberta... eu vou ajudar a
fech-la- ao dizer isso Leonardo beijou-a.
_Voc no perde uma, n?
_Ah... minha amada, como eu poderia perder oportunidade to...
_To? O que foi, acabou a inspirao?
_Voc est to engraadinha hoje e eu estou adorando isso. Vamos
sair daqui, antes que pensem que estamos representando alguma
pea de teatro. E o fim daquela frase : perder oportunidade
to...mpar. - ao dizer isso Leonardo riu com vontade.
_Beleza mpar, oportunidade mpar... para onde foi o seu rico
vocabulrio?
_A futura professora aqui  voc... e que professora... mpar! Eu
quero ser o seu aluno.
Os dois foram at o estacionamento se divertindo com a
brincadeira.
Durante o caminho para a casa de Suzana, eles conversaram sobre
os preparativos para o evento de domingo. Os grupos estavam

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                          Tnia Gonzales



trabalhando muito para que tudo estivesse pronto. Teriam o evento
para arrecadar fundos para misses e o grupo de Suzana ficou
encarregado de fazer Yakissoba e tambm teriam uma barraca
vendendo alguns produtos de artesanato.
_ E ser que eu posso entrar s um pouquinho, para viver um
momento... mpar com meu par?
Suzana nem conseguiu responder, pois comeou a rir e no
conseguia mais parar.
_Eu nunca vi voc desse jeito -disse ele.
_Que jeito? Jeito mpar?
_Para com isso... fiquei bravo agora... isso magoa viu? Como 
que eu vou beij-la se voc no para de rir?
_Eu vou parar... eu consigo, pelo bem da humanidade... parei.
Leonardo se aproximou dela e acariciou o queixo, as bochechas,
contornou os lbios dela com os dedos e quando ia beij-la...
parou e comeou a rir sem parar.
_Isso  um castigo? - perguntou Suzana- Leonardo? Pronto, agora
 voc que no para de rir.
_Me desculpe, hoje estamos parecendo dois bobos, sabe o que 
isso? Felicidade.
_Gracinha! Felicidade m...
_No fala... psiu...voc est proibida de falar.
_m...
Leonardo a calou com seus lbios.
_Eu vou embora, antes que d mais algum acesso de riso neste
casal... mpar. - disse Leonardo
_nico, sem igual, inesquecvel, imensurvel, impressionante...
_Incomparvel, incomum, incrvel, inigualvel...
_Incomensurvel- disse Suzana provocando-o.
_Humilha! Chega... voc venceu! O seu prmio ... um beijo. O
que voc acha disso?

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Eu quero o meu prmio, agora.
_Manda quem pode, obedece quem tem juzo. Como eu sou um
rapaz muito ajuizado...
Suzana recebeu o seu prmio. Depois despediram-se rindo muito.
_Hoje ns estamos...impagveis- comentou Leonardo enquanto
Suzana abria o porto.
_Impagveis? Ah, no, vamos comear tudo de novo?
_Eu vou embora, chega... ah, minha princesa, foi muito
divertido... eu amo voc.
_E eu a voc.
_Do que voc est falando, hein, minha princesa, mpar?
_No comea... eu amo voc,  isso.
_Ah, bom... eu queria ouvir com todas as letras. Tchau.
Suzana ficou observando o carro se afastar. Entrou na sala de sua
casa com um imenso sorriso nos lbios.
_Minha filha, que felicidade, hein?
_Oi, pai! ... eu estou feliz, mesmo.
_Se voc est feliz, eu tambm estou, tenho que agradecer muito
ao Leonardo.
_Meu pai querido, ele  to... especial- ao dizer disso Suzana
comeou a rir lembrando da brincadeira dos dois.
_O que foi?
_Nada, eu s lembrei de algo engraado, bom... eu vou tomar um
belo banho.




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                           Tnia Gonzales



Captulo 26 -De volta ao passado
Paulo Reis, desde a conversa com o pastor Pedro Gabriel, estava
se esforando para agradar Regina, nos ltimos dias ele havia
recusado alguns compromissos para estar com ela. E at
programou passar o final de semana s com ela em Campos do
Jordo, pois era uma cidade que Regina gostava muito. Saram
poucos minutos depois das sete horas da manh de sbado. Paula
iria passar o final de semana na casa de sua tia Carmem, junto
com a prima Aline. Elas tinham alguns preparativos para fazer,
pois ambas participavam dos grupos da REMA.16

Letcia e Suzana iriam etiquetar algumas peas de artesanato que
seriam vendidas no dia seguinte, por isso fizeram algumas
pesquisas de preo em algumas lojas da regio. s dez horas
estavam de volta na casa de Letcia. Sandra concordou que elas
trabalhassem l, mas, a presena de Suzana no lhe agradava.
_Quase meio-dia, eu preciso ir...  s o tempo de almoar e sair
para o trabalho- disse Suzana.
_Estamos quase terminando. Estou adorando passar estas horas
com voc, estava me sentindo to s. A minha me no me deixa
ir na sua casa.
_E o Daniel?
_Ele  outro cabea dura. Ele me disse que enquanto os meus pais
no aprovarem o nosso namoro, ns temos que nos afastar. No
quer namorar escondido. Ele no est errado, mas... sinto tanta
falta dele!
_Ah, amiga, eu sinto muito. Coitado do Daniel... ele deve sentir
tanta saudades... mas ele est certo, namorar escondido ningum

16 Rede Melhores Amigos.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


merece, n?
_... eu j pensei em conversar com o pastor sobre isso. Quem
sabe se ele falar com a minha me... sei l. Eu fico revoltada com
essas coisas, Su. O Daniel  responsvel, fiel a Deus, um
excelente filho e minha me no enxerga isso.
_Voc vai precisar de mais um pouquinho de pacincia.
_Agora, vamos falar sobre voc e o meu amigo Lo! Su, voc
est muito feliz, n?
_Muito. O Leonardo  maravilhoso. Voc tinha toda razo ao me
falar sobre as qualidades dele, voc no exagerou, ele  uma
pessoa incrvel. Ele me faz sentir como se eu fosse a mais linda
do mundo.  to atencioso e compreensivo.
_Eu fico feliz ao ouvir isso, eu estava to preocupada; ele,
completamente apaixonado e voc to distante! Vocs formam
um lindo casal.
_Letciaaa, a Elisa est te chamando no porto - gritou Sandra.
_Eu vou l ver o que ela quer, j volto, Su.
Elisa queria conversar com Letcia sobre Lcia, estava ansiosa
para contar que a amiga havia sado do apartamento para tomar sol
por ter combinado com Leonardo. Enquanto as duas conversavam,
Sandra foi at o quarto da filha, pois queria aproveitar que Suzana
estava sozinha.
_Eu quero falar com voc.
_Tudo bem.
_Suzana, no  nada pessoal, mas eu tenho que falar algumas
verdades para voc. Eu sei que voc est muito feliz e no  para
menos, est namorando o Leonardo, que alm de bonito, 
inteligente, tem uma excelente profisso,  de boa famlia,  um
jovem temente a Deus... enfim,  o namorado que toda garota
gostaria de ter; mas eu preciso dizer que ele no  para voc, me
desculpe, mas  a verdade. O que voc pode oferecer para ele,

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                          Tnia Gonzales



alm deste rostinho bonito? Voc deveria se afastar dele,  o
melhor que voc tem a fazer. Os pais dele no esto nada
satisfeitos com o namoro de vocs. A Lgia at j falou com o
Leonardo sobre isso, mas ele continua com voc por pena e... eu
tambm gostaria que voc se afastasse da minha filha.
_Por que a senhora est falando isso?
_Eu amo aquela famlia e quero o melhor para eles, pois so
pessoas honradas, de carter, enfim  uma excelente famlia e a
sua... bem... no posso dizer o mesmo, o seu pai por exemplo...
_A senhora no pode falar do meu pai.
_Posso sim. Voc acha mesmo que o passado de seu pai ficaria
escondido por muito tempo? Vocs so to falsos que nem
contaram para o Leonardo.
Ao ouvir aquelas palavras Suzana comeou a tremer.
_Mas ele j sabe que o seu pai  um ex-presidirio, que ele quase
matou um homem, que ele foi covarde ao espancar um homem
doente que usava uma bengala para se locomover. O seu pai no
teve d e usou a prpria bengala para bater nele sem piedade...
_Para com isso, a senhora no sabe de nada, a senhora no...
_Eu sei porque foi o meu marido que indicou um advogado para
defender o seu pai, por essa voc no esperava, no ? Achou que
poderia enganar o Leonardo?
_No...
_Voc acha que a Lgia fica tranquila ao saber que o filho
frequenta a casa de algum to violento? Ele est aflita e j
implorou para que o Leonardo termine o namoro.
_ O meu pai no  violento, ele  um homem bom...
_Claro que , to bom que o pobre homem foi parar na U.T.I; o
seu pai teve a coragem de espancar o prprio patro, realmente,
ele  um homem muito bom.
_No fale assim do meu pai, a senhora no sabe o que ele passou,

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


a senhora no tem ideia do que ele sofreu, no o conhece, no tem
o direito de julg-lo.
Suzana tremia muito ao falar e as lgrimas tambm comearam a
inundar seu rosto.
_Se voc gostar um pouquinho do Leonardo, o que eu duvido
muito, pois eu acho que voc est  interessada no que ele pode te
oferecer, voc se afastaria dele... ele no merece passar por essa
vergonha, j imaginou o que as pessoas vo pensar?  uma pena,
voc no tem culpa, mas o seu pai envergonhou o nome de sua
famlia, e, infelizmente, isso ele nunca vai poder mudar, ele
acabou com a sua famlia, ele manchou a honra...
_No! Pare de falar do meu pai dessa maneira, a senhora est
sendo muito injusta.
_Injusto foi o seu pai e cruel, nem deu chance para que o pobre
homem...
_Pobre homem? Aquele porco, imundo, sujo... a senhora chama o
meu pai de cruel? Aquele homem sim, foi cruel! Ele no pensou
que acabaria com a vida ... no pensou que destruiria uma
famlia... o meu pai sofreu muito.
_Sofreu? Bateu no homem sem piedade, quem  que sofreu? No
adianta querer defender... eu j entendi, voc tem medo dele, no
? Ele j agrediu voc?  claro... ele  agressivo... voc morre de
medo de seu pai,  por isso que est tremendo desse jeito!
_Chega! O meu pai no merece isso! Ele nunca tocou um dedo em
mim, ele  um pai excelente, ele s queria me proteger...  isso! A
senhora quer saber? O meu pai no suportou ver aquele homem
sujo em cima da filha dele, o meu pai no aguentou ver a filha
dele toda machucada... ele no conseguiu ver aquela cena
repugnante e no fazer nada... aquele pobre homem que usa uma
bengala  um homem sem carter,  um imundo que... me feriu
profundamente!  isso mesmo! Eu sou uma vtima de... estupro.

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                            Tnia Gonzales



Est satisfeita agora? A senhora tem razo, o Leonardo no merece
algum que tenha um passado horrvel como o meu.

Suzana estava tremendo muito e suando frio... sentia-se fraca.
Letcia, que havia escutado a revelao da amiga, a amparou.
_Me? O que a senhora provocou? Olha o estado dela? Vem, Su,
vou lev-la para casa.
Sandra no saiu do lugar, estava chocada com as palavras de
Suzana.
_Vem devagar, calma, amiga... voc est to fria! - disse Letcia
segurando no brao dela.

_O que aconteceu? Filha?- exclamou Marina ao ver Suzana
entrando.
_Senta aqui, Su; dona Marina  melhor trazer um copo de gua
com acar para ela.
_Eu vou pegar... o que aconteceu, Letcia?
_Eu acho melhor esperar que ela se recupere.
_Filha, beba um pouco dessa gua... e fale comigo. Minha
querida... por que ela ficou assim, Letcia? Vocs viram alguma
coisa? Algum acidente?
_No, estvamos l em casa. Ela e a minha me conversaram.
_Sua Me? Agora que eu no estou entendendo nada mesmo...
respire fundo, minha filha, vai sentir-se melhor.
_Eu quero deitar.
_Filha... minha querida, fale comigo.
_Me... acabou tudo, o Leonardo nunca mais vai querer chegar
perto de mim... ele vai me desprezar.
_Por qu? O que aconteceu?
_Eu... contei toda a verdade para a me da Letcia. Ela comeou a
falar coisas horrveis do papai... disse que era violento e... tantas

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


outras coisas, me, eu no suportei ouvir tudo aquilo, tinha que
dizer que tudo o que ele fez foi para me defender.
_Ah... minha filha!
_Me perdoe, Suzana, estou to envergonhada... a minha me no
tinha o direito de fazer isso com voc... eu sinto muito.
_Voc no tem culpa.. Me, a senhora precisa contar para o
Leonardo... explique tudo para ele, eu no quero que a me da
Letcia ...
_Su, eu vou conversar com a minha me, vou implorar para que
ela no fale com ningum sobre isso, fique tranquila.
_Faz isso, Letcia, por favor... eu no gostaria que o Leonardo
soubesse da verdade por sua me... agora eu quero dormir,  s
isso que eu quero. Me, avise a Cludia que eu vou faltar hoje...
eu no vou conseguir trabalhar.
_Fique calma, filha. V descansar.
_Su, mais uma vez eu peo desculpas... no estou reconhecendo a
minha me, depois que ela ficou sabendo sobre o meu namoro ela
mudou tanto! Estou com tanta vergonha.
_Letcia, no se culpe, voc  uma amiga maravilhosa!- disse
Suzana.
Suzana passou a tarde inteira na cama. Chorou a maior parte do
tempo. Vov Vivi ficou sabendo de tudo e tentou consolar a neta.
_Minha querida... no fique assim. Tudo vai ser esclarecido e voc
vai sentir-se melhor. Voc sempre dizia que no gostaria de
enganar o Leonardo, embora isso no pode ser considerado
enganar, pois  algo muito difcil para ser revelado, mas agora, j
que essa mulher sabe de tudo,  melhor esclarecer as coisas, e
voc tem razo quando diz para sua me conversar com ele, j que
 para ele saber a verdade que saiba como tudo realmente
aconteceu e pela pessoa certa, no por algum com pssimas
intenes.

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                          Tnia Gonzales



_Ah, v... o Leonardo no vai querer ter uma namorada como eu...
ele no vai.
_No fale isso, ele est to apaixonado!
_Por isso mesmo que  ele vai ficar mais decepcionado ainda. Eu
no vou conseguir mais olhar para ele... vou morrer de vergonha!
_Minha neta, no pense isso. Ele  um rapaz maravilhoso. No vai
ser fcil para ele, com certeza vai sofrer muito, mas ele vai
conseguir superar isso. Deus vai ajud-lo.
Neste momento, Marina entrou no quarto com o marido que
estava com os olhos cheios de lgrimas.
_Minha filha, me perdoe, se eu no... se ...
_Pai, no precisa pedir perdo... ah, meu pai.
_Preciso sim, se eu no tivesse me descontrolado as coisas seriam
bem diferentes hoje. Voc no precisaria se expor desse jeito,
ningum iria saber... a culpa  toda minha. Aquela mulher s
ficou sabendo porque eu fui para priso, eu poderia ter evitado
tudo isso e aquele canalha no teria ficado impune.
_Pai, no se culpe, o senhor j sofreu tanto!
_Minha filha, se o Leonardo no conseguir aceit-la... eu no vou
me perdoar.
Pai e filha se abraaram e choraram muito. Marina e a vov Vivi
saram do quarto, no suportaram ver a tristeza dos dois.
No final da tarde, Marina ligou para Leonardo avisando que
Suzana no estava bem e por isso estava em casa. Ela bem que
tentou dar um jeito para ele no ir at l, mas era difcil dar
alguma explicao para convenc-lo.
_Filha, o Leonardo est vindo.
_Me, ele no pode me ver assim.
_Querida, ele ficou to preocupado!
_O que vou falar? A senhora precisa conversar com ele.
_Eu pensei bem e cheguei  concluso que  melhor contar tudo

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


para ele na segunda-feira. Amanh tem aquele evento de misses e
vocs esto envolvidos, no seria nada bom atrapalhar algo to
importante, concorda?
_A senhora tem razo, mas como eu vou encar-lo? No vou
conseguir agir com naturalidade.
_Tente, se esforce, filha. No vai dar para pedir ao Leonardo que
mantenha distncia. Que desculpa daramos?
_E se a me da Letcia...
_Ela no vai contar.

Na casa da famlia Soares, Letcia mantinha uma sria conversa
com a me.
_A senhora provocou, por isso coopere ficando de boca fechada.
_No sei, no, elas querem  ganhar tempo, duvido que vo contar
a verdade. Voc acha que elas vo querem perder um partido
como o Leonardo? Depois que ele ficar sabendo de tudo com
certeza no vai mais...
_Me? A senhora est to insensvel! Aquela famlia est sofrendo
muito.
_Eu no quero que a minha amiga sofra. Voc acha que a Lgia vai
ficar feliz ao saber que a namorada do filho dela...
_Para com isso, me, por favor. A Suzana  uma pessoa
maravilhosa.
_Maravilhosa? Letcia, eu quero que voc fique bem longe dessa
famlia.
_No me pea isso. Eu no vou me afastar da minha amiga
quando ela mais precisa.
_Amiga?
_Me, o que est acontecendo? Por que toda essa insensibilidade?
No fale sobre isso com ningum, por favor. A dona Marina vai
conversar com o Lo.

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                           Tnia Gonzales



_Ser?
_O Lo est to apaixonado! Vai ser muito difcil para ele, ento 
melhor que ela conte. Seja compreensiva.
_O Leonardo vai querer distncia dessa encrenca.
_Ah... vou para o meu quarto, no d para conversar.

Leonardo chegou na casa de Suzana poucos minutos depois das
18h.
_O que a Suzana tem? Eu fiquei to preocupado. Para ela faltar ao
trabalho deve ser algo srio. - constatou Leonardo.
_No, querido. No precisa se preocupar, ela sentiu-se mal, mas
no  nada srio- explicou Marina para em seguida lev-lo at o
quarto.
_O que aconteceu com a minha princesa?
_Voc no deveria ter vindo.
_ sim que voc recebe o seu namorado? Estou muito preocupado
com voc.
Leonardo aproximou-se de Suzana e deu-lhe um beijo na testa.
_Eu s estou indisposta, voc no deveria se preocupar.
_Indisposta? Eu no sei, no. Voc no faltaria por uma mera
indisposio, voc est escondendo alguma coisa. Fale comigo,
meu amor.
_No  nada.
_Os lindos olhos verdes esto me dizendo que derramaram muitas
lgrimas hoje. No tente me enganar.
Ao ouvir isso Suzana no se conteve e comeou a chorar.
Leonardo sentou-se na beirada da cama, colocou a cabea dela em
seu peito e ficou acariciando os cabelos dela.
_Eu no sei o que aconteceu, vou esperar que voc consiga me
contar, mas no me impea que ficar ao seu lado.
Com estas palavras as lgrimas se tornaram mais abundantes,

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Suzana no conseguia segur-las.
_Meu amor, minha princesa, algum magoou voc? O que fizeram
com voc?
_Ah... Leonardo!
_Tudo bem, no fale nada. Eu vou enxugar estas lgrimas
teimosas... um dia voc me conta, agora fique tranquila. Voc se
alimentou hoje?
_Eu... no quero nada, estou sem fome.
_No, isso, no. Me diga, o que voc gostaria de comer?
_Nada.
_Suzana, voc precisa se alimentar. Eu no sou mdico, mas eu
estou percebendo que o seu problema no  fsico. Aconteceu
alguma coisa que mexeu a dentro, estou certo?
_Est. Minha me vai ter uma conversa sria com voc, segunda-
feira.
_Agora eu fiquei preocupado.
_Espere at segunda, por favor.
_Vai ser difcil esperar... mas, se voc est pedindo, eu espero.
Agora, o que voc acha de sairmos?
_Sair? No quero sair.
_Hoje  sbado, vamos aproveitar que voc no foi trabalhar, o
que voc acha, hein?
Suzana no estava com vontade de sair, mas essa poderia ser a
ltima vez que os dois sairiam juntos. Depois que Leonardo
soubesse da verdade provavelmente ele se afastaria, por isso ela
resolveu aceitar o convite.
_Me d um tempo, eu vou tomar um banho para me animar.
_Isso,  assim que se fala. Eu vou esper-la na sala. Vamos jantar
em um restaurante que voc vai amar.

_Voc faz milagres, Leonardo. Conseguiu convenc-la a sair? No

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                          Tnia Gonzales



poderia imaginar que a Suzana iria querer sair hoje, no mesmo-
disse Marina.
_Vai ser bom, ela precisa se distrair um pouquinho.
_Tem razo. Obrigada por voc ser to atencioso com a minha
filha.
_Eu amo a sua filha, e me corta o corao v-la to pra baixo.
Vou tentar anim-la.
Aps trinta minutos, Suzana apareceu na sala com um vestido cor
de ameixa, que fez o corao de Leonardo disparar.
_Nossa, voc quer acabar comigo. Est linda!
_Voc no acha que esta cor  muito... chamativa?
_Realmente... ela est me chamando para bem perto de voc.
Ao ouvir o comentrio dele, Suzana corou.
_O seu lindo rosto est combinando com a cor do vestido.
_ melhor voc parar com os comentrios, o meu rosto est
queimando.
Marina ficou olhando para os dois, estava sorrindo, mas,
discretamente precisou enxugar algumas lgrimas teimosas.
_Bom... vamos? No se preocupe, dona Marina, estaremos de
volta antes da meia-noite.
_Quando ela est com voc eu no me preocupo, bom jantar,
divirtam-se.
Ao chegarem prximos ao porto, Leonardo a puxou e beijou-a
suavemente.
_No resisti, j estava com saudades do sabor dos seus lbios.
_ melhor ns irmos- disse ela simplesmente.
Aps o trajeto de vinte minutos, Leonardo entregou as chaves do
carro ao manobrista.
Durante o jantar, Suzana conseguiu se divertir, pois Leonardo
fazia de tudo para anim-la, at lembrou do acesso de riso que
tiveram na quinta-feira, o que a fez rir bastante, esquecendo-se

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


por alguns momentos da tristeza que havia em seu corao.
_Estou feliz por voc. Comeu bem, riu bastante, conversou
animadamente,  assim que se faz. Voc reagiu e isso  timo.
Vamos fazer uma coisa?
_O qu?
_Danar.
_Danar? Eu no estou acostumada.
_Nem eu, mas... escuta a msica...  romntica e eu estou muito
romntico hoje, o que voc acha?
_Ah, Leonardo... eu...
_Vem comigo, vai ser timo.
Ele pegou-a pela mo e a encaminhou at a pequena rea onde
havia quatro casais danando.
Suzana s havia danado em seu aniversrio de 15 anos, l em
Belo Horizonte, mas, sentiu-se muito bem nos braos de
Leonardo. Era uma sensao maravilhosa estar ali com ele, por
isso ela aproveitou muito bem o momento deixando o passado no
lugar certo e vivendo o presente de maneira plena.

_Posso entrar? - perguntou Leonardo ao parar o carro.
_ claro.
Suzana queria usufruir da presena dele o mximo possvel, pois
em dois dias ele saberia de tudo e ento...
_Os meus pais vo viajar para Fortaleza na prxima quinta-feira, a
Bia e o Bruno tambm; o meu av far 80 anos.
_E voc?
_Eu no quero ficar longe de voc, sero duas semanas l.
_Leonardo, voc deve ir,  o aniversrio do seu av!
_No sei...  que foi tudo to repentino. Vov Joo tinha pensado
em passar um ms aqui com a minha v e assim ns iramos
comemorar o aniversrio, mas mudou de ideia, ento resolveram

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                           Tnia Gonzales



fazer uma festa l, e como o Bruno e a Bia esto de frias...
_A famlia vai estar toda reunida, voc no pode faltar.  perfeito.
_Voc no teria como tirar frias, agora? Assim voc iria comigo e
ento seria perfeito.
_No d,  impossvel. Leonardo aproveite a oportunidade, o seu
av vai ficar muito decepcionado se voc no for, e ningum
completa oitenta anos todos os dias, n?
_Eu vou pensar, mas no me agrada a ideia de ficar todos estes
dias sem v-la. Bom,foi timo sair... adorei passar essas horas
com voc.
_Eu tambm  disse ela.
_Voc estava to abatida hoje  tarde e agora, olha s pra voc,
est maravilhosa! Minha princesa, agora eu vou beij-la.
Suzana entregou-se totalmente quele beijo, aproveitou cada
segundo e quando ele afastou-se ela o puxou e o beijou
apaixonadamente.
_Calma, princesa, assim eu no resisto, ah...  complicado.
_Me desculpe, eu...
_Tudo bem...  que voc agiu de maneira to inesperada que eu...
_Estou morrendo de vergonha, eu exagerei.
_No precisa ficar assim, a medida que nos conhecemos melhor 
natural que voc se sinta mais  vontade e...
_Me desculpe.
_No pea desculpas, estamos to apaixonados que  difcil
manter o controle, mas  necessrio, eu no quero passar dos
limites,  por isso que eu me afastei. Suzana, para o homem isso 
mais complicado, voc me entende?
_Eu...
_Ah, minha princesa, no precisa ficar assim. Olha pra mim, ei, eu
a amo.
_Eu tambm o amo.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Eu vou deix-la descansar, amanh ser um dia bem cansativo.
Voc vai trabalhar e depois vai... trabalhar novamente, afinal ser
o dia do evento especial de misses. Vem aqui, no precisa ficar
longe... me d um beijo de despedida.

Deitada em sua cama, Suzana lembrava de cada detalhe daquela
noite, que para ela teve um sabor de despedida, pois no tinha
certeza se Sandra manteria o segredo. Naquela altura dos
acontecimentos seria timo que Leonardo viajasse para Fortaleza,
ela sentiria muitas saudades, mas, depois que ele soubesse da
verdade, se afastaria dela, e isso, com certeza, seria muito pior.




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                           Tnia Gonzales



Capitulo 27  A verdade

Finalmente o dia do grande evento de misses havia chegado. Os
jovens da IGAG estavam empenhados, fariam de tudo para que o
evento fosse um sucesso. Desde cedo, vrios deles j estavam na
igreja para organizar as barracas e outros estavam na ampla
cozinha para adiantar as coisas, pois a partir da uma hora da tarde
as pessoas chegariam para saborear vrios pratos; o grupo de
Letcia, por exemplo, estava encarregado de preparar Yakissoba,
mas teriam outras opes de pratos salgados, alm de muitos
doces para a sobremesa. Tambm seriam vendidos muitos
produtos, entre eles: livros, CDs, materiais de artesanato, que
foram feitos pelos prprios membros da igreja que possuam
habilidade em trabalhos manuais. At a vov Vivi contribuiu com
peas de tric e tambm com alguns doces.
Os membros da IGAG tinham um carinho todo especial pelo
trabalho de misses; todos os meses eles contribuam para que os
vrios missionrios mantidos pela igreja pudessem ter o seu
sustento; e sempre faziam eventos especiais para que pudessem
enviar um valor maior.
Leonardo trabalhou a manh inteira na igreja, antes de sair para
buscar Suzana ele resolveu conversar com a amiga Letcia, pois
havia percebido que ela o estava evitando.
_O que est acontecendo com voc?
_No entendi?
_Leca, voc me evitou a manh inteira, pensa que eu no percebi?
_Eu? Voc est viajando!
_Como se eu no te conhecesse...            fala logo, o que est
acontecendo?
_Nada. Lo, eu preciso ajudar na cozinha, as pessoas esto

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


comeando a chegar.
Letcia saiu rapidamente, ela sabia muito bem que se ele insistisse
seria difcil ficar calada; a histria sobre Suzana a havia deixado
muito triste, principalmente pelo fato da me ter provocado
aquela situao. Ao entrar na cozinha, ela recebeu um sorriso que
a fez esquecer por um momento de toda aquela confuso, pois
Daniel tambm ajudaria na cozinha, assim os dois teriam a
oportunidade de ficarem prximos um do outro.

Leonardo foi ao shopping buscar a namorada. Assim que
chegaram  igreja, Suzana fez uma rpida refeio e tambm foi
ajudar na cozinha.

Sandra, para evitar conversar com Lgia, no compareceu ao
evento, ela e o marido resolveram almoar fora, pois havia
prometido manter o segredo por algum tempo.

s cinco horas da tarde alguns missionrios tiveram a
oportunidade de compartilhar as suas experincias com os
membros que lotaram a igreja. Puderam ouvir testemunhos de f e
coragem o que fazia amarem ainda mais o trabalho de misses.
Pastor Pedro Gabriel agradeceu a todos pelo empenho no evento,
que teve uma arrecadao recorde.
Poucos minutos aps s nove horas da noite, Leonardo deixou
Suzana em casa.
_Eu no vou entrar, voc est muito cansada.
_Entra s um pouquinho- pediu ela.
_Como eu conseguiria recusar? Voc fez at biquinho!
_No fiz.
_Fez sim. Vou ficar s um pouquinho, amanh voc vai precisar
acordar cedo. O evento de misses foi um sucesso. Foi cansativo,

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                           Tnia Gonzales



mas maravilhoso, concorda?
_ lgico que eu concordo. Deu tudo certo, graas a Deus. O
pessoal estava to animado...mas... e voc j decidiu se vai
viajar?
_Ah... no sei, no quero ficar to distante de voc, quem iria
busc-la?
_No precisa se preocupar com isso. Eu at acho que no precisa
ningum me buscar.
_No comece com isso.
_Leonardo, aproveite a oportunidade para visitar os seus avs e
passar momentos especiais com a sua famlia.
_Estou pensando... mas, por que voc est to longe de mim? Vem
aqui, minha princesa.
Leonardo a abraou com carinho, ficou acariciando os cabelos e
depois deslizou a mo sobre o rosto dela.
_Minha linda princesa, como eu vou suportar ficar longe de voc,
como manter distncia de lbios to doces e macios, me diga,
como?
Beijaram-se por um longo tempo e enquanto Suzana vivia aquele
momento especial, ela pensava que este poderia ser o ltimo beijo
deles e por isso, ao perceber que ele iria afastar-se, ela o puxou,
pois queria prolongar o momento.
Despediram-se minutos depois.

Naquele noite, Suzana teve um pesadelo.
_Eu no posso mais namor-la, seria muito vergonhoso para a
minha famlia, eles nunca aceitariam- dizia Leonardo.
_Me perdoe, eu....
_Me esquea, Suzana. Eu no conseguiria mais... no depois de
saber que... no d. Voc  uma garota cheia de traumas.
Considere o nosso namoro terminado. Adeus.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Enquanto via Leonardo se afastar, uma dor enorme invadiu o seu
corao, era como se algum tivesse tirado um pedao dela...
sentou-se na calada e deixou que as lgrimas cassem livremente.

Ao acordar percebeu que o rosto estava molhado. "  exatamente
isso que vai acontecer, ele no vai me querer,  isso... seria uma
vergonha para a famlia dele. Eles nunca aceitariam algum como
eu... nunca. Ah, Leonardo, eu o amo... vou sentir tanta saudade! "


Era uma manh chuvosa. Suzana olhou para o relgio e pensou: "
So 5h20,  melhor eu me levantar, ai, ai, ai, est chovendo...
hoje vai ser complicado chegar at a faculdade. Vamos Suzana,
levante!"
Neste momento o celular tocou. Suzana deu uma olhada no visor e
pensou:" Algum acordou bem cedo hoje!"
_Al? Oi, no, j acordei. Resolveu madrugar hoje?
_Resolvi que no vou permitir que voc se molhe, vou lev-la
para a faculdade, aproveite e durma mais um pouquinho. Passo a
antes das sete. No discuta comigo. Tchau.
Suzana se afundou no edredom e pensou:" Como ele pode ser
assim to maravilhoso? Vai ser to difcil quando ele se afastar de
mim!"
Trinta minutos depois, Marina entrou no quarto da filha.
_Suzana? Minha filha, voc est atrasada! Vai faltar?
_H? Me... acabei pegando no sono. Eu recebi uma ligao de
algum muito prestativo que me ofereceu uma carona, bem...
ofereceu no  a palavra certa, na verdade ele me obrigou a
aceitar.
_O Leonardo ligou? Ele se preocupa muito com voc.
_Me, talvez seja a ltima vez que ele queira falar comigo.

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                          Tnia Gonzales



_ Suzana, voc precisa esquecer o passado. Filha, viva o presente!
Deus colocou o Leonardo em seu caminho e eu no acho que ele
vai se afastar de voc.
_Me, pare com isso, por favor!
_Vai doer muito quando ele ficar sabendo sobre... mas ele vai
entender.

s 6h40 Leonardo estacionou o carro e ligou para Suzana. Ao v-
la abrindo o porto, ele saiu do carro com um enorme guarda-
chuva e se aproximou dela.
_Bom dia, princesa Suzana!
_Bom dia, Leonardo, voc no precisava ter sado do carro, eu ...
_Voc acha que eu iria perder a oportunidade de ficar bem
pertinho de voc?
Suzana sorriu enquanto ele abria a porta do carro para ela.
_Voc no deveria ter todo este trabalho de vir at aqui.
_Trabalho? Suzana, voc ainda no entendeu que eu amo estar ao
seu lado? Que cada segundo que eu estou com voc  muito
precioso? No  possvel que voc no saiba disso, minha linda
namorada.
_Tudo bem, ento. No posso negar que foi timo dormir mais
uns minutinhos e que aqui  bem confortvel, quente e...seco. O
que mais eu posso querer ?
_Diga que me quer, eu iria adorar!
_Gracinha!

Leonardo trabalhou o dia inteiro muito ansioso; quando estava
com a Suzana ele conseguiu disfarar bem, mas a verdade  que
ele estava muito preocupado. " O que a dona Marina tem para me
contar? Ser que teria alguma coisa a ver com aquela histria do
pai da Suzana ser um ex-presidirio? Bom, se for isso... mas, e se

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


for alguma coisa sobre a Suzana? No adianta ficar nessa
ansiedade, logo eu saberei o que , j so seis horas, marquei com
a dona Marina s sete... vou trabalhar mais um pouco.

_Me desculpe, eu sei que ainda faltam uns vinte minutos, mas eu
no estava conseguindo me concentrar no trabalho- explicou
Leonardo.
_Tudo bem, entre- disse Marina.
_Dona Marina, eu gostaria que a senhora fosse bem direta, eu
estou muito ansioso.
_Percebi. Aceita um caf?
_Aceito se j estiver pronto.
_Calma, Leonardo, eu acabei de fazer, vou buscar.
Dona Marina voltou logo em seguida trazendo duas xcaras de
caf.
_Eu vou comear. Leonardo, a Suzana me pediu para conversar
com voc, porque ela no gostaria que soubesse da verdade por
outra pessoa. Sbado, ela e a Letcia saram juntas para comprar
algumas coisas para o evento de misses e depois foram at a casa
da Letcia, bom... em um determinado momento, a Suzana ficou
sozinha e a Sandra aproveitou para ter uma conversa com ela.
Voc j ficou sabendo que o meu marido esteve preso por quase
trs anos, certo?
_A minha me me contou. Eu achei melhor no mencionar isso
com a Suzana.
_Entendo. Sabemos que foi a Sandra quem contou. S que ela no
disse o motivo, pois ela no sabia o porqu do meu marido ser
um ex-presidirio.  um assunto muito delicado, e a Sandra
conheceu o motivo sbado e foi a Suzana quem contou. A minha
filha no suportou ouvir que o pai era violento, que era um
covarde por ter agredido um homem inofensivo. Que aquele pobre

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                          Tnia Gonzales



homem no teve a mnima chance, que o Davi bateu nele com
uma bengala e coisas desse tipo. Foi muito difcil para a Suzana
ficar calada ouvindo aqueles absurdos, porque o meu marido no 
um homem violento, ele teve um momento de fria, sim, mas no
 prprio dele... e a Suzana no quer que voc pense mal do pai
dela.
Marina no conseguiu segurar mais as lgrimas.
_Dona Marina, a senhora no precisa me dizer o motivo, eu
percebo o quanto esse assunto a machuca...
_Eu preciso... Leonardo, a Suzana gosta muito de voc, ela o
admira e acha que voc merece saber a verdade e depois voc
decide se... continua o namoro.
_Que isso? No estou entendendo, eu no...
_Espera, eu preciso contar... a Suzana estava sozinha em casa, na
poca ela tinha 11 anos, era o incio de uma noite fria do ms de
julho, eu, o meu marido e a Sueli, estvamos trabalhando; a
campainha tocou e quando a Suzana foi atender ela percebeu que
era o patro do Davi. Ela achou estranho porque ele perguntou
onde estava o pai dela e disse que ficou esperando por ele em um
determinado local que havia combinado e que ele no havia
aparecido. Disse que esperou por mais de uma hora e nada, ento
pegou um txi e foi at a nossa casa tirar satisfao com ele. A
Suzana explicou que ele no estava, o homem entrou e disse que
no iria embora at que o Davi chegasse. Sentou-se no sof e
pediu para Suzana lhe trazer um copo com gua. A Suzana foi at
a cozinha e enquanto ela enchia o copo... ele se aproximou e
comeou... a passar as mos nos cabelos dela... perguntou onde a
Sueli estava e como a Suzana disse que a irm estava trabalhando,
ele...
Marina fez uma pausa, pois era muito difcil para ela descrever o
que aconteceu a seguir. Leonardo estava muito tenso, algumas

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


coisas terrveis lhe passavam pela mente.
_Leonardo, aquele homem sem carter, aquele sujo... ele disse 
minha filha que j que a Sueli no estava l, ento ele seria
obrigado a ... fazer tudo o que ele havia imaginado com ela
mesma apesar dela ser muito nova. A Suzana me contou depois
com muita dificuldade, que ela achou muito estranho o jeito dele.
Ele comeou a ... abra-la e ... como ela gritou... ele a beijou
com violncia, para sufocar o seu grito. Ele era to canalha, que
mordeu os lbios dela... quando eu a encontrei eles sangravam
muito e estavam inchados... eu sinto muito dizer isso... mas
depois aconteceu o pior, ele a despiu e... a violentou.
Leonardo abaixou a cabea e fechou os olhos.
_Leonardo, quando o Davi chegou e presenciou aquilo... ele no
conseguiu pensar...ver aquele desgraado em cima da filha dele...
d pra imaginar o que passou pela mente do meu Davi? Ele pegou
aquela bengala e comeou a bater nele sem parar... foi ento que
alguns vizinhos vieram e tiraram a bengala das mos dele, mas o
estrago era grande, o homem foi parar na U.T.I, mas se recuperou
e conseguiu ficar livre da acusao de estupro, at hoje eu no
entendi como foi possvel. Bom... ele era e  muito rico... o meu
Davi foi preso... ah... foi terrvel, pois alm de ficar com a minha
filha naquele estado... fiquei sem o meu marido para me apoiar.
Ele sofre muito porque acha que se tivesse conseguido se
controlar as coisas teriam tomado outro curso. Aquele homem foi
na minha casa com a inteno de abusar da minha filha, ele foi
para isso! Ele inventou um endereo para o Davi busc-lo mas na
verdade o local no existia. Que homem cruel! A Suzana sofreu
tanto e ainda sofre, ela tem muitos pesadelos ... eu... Leonardo...
meu filho...
Leonardo estava chorando feito uma criana, Marina ainda no
havia presenciado um homem chorar daquela maneira... era de

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                          Tnia Gonzales



cortar o corao. Ele estava com a cabea baixa e as lgrimas
desciam... ele no esperava ouvir aquilo, pensar em Suzana
passando por tamanha violncia era demais para ele. Doa
profundamente saber da triste histria de vida da garota que ele
amava.
Marina o abraou e por vrios minutos eles ficaram assim...
chorando abraados, sem dizerem uma nica palavra.
_Dona Marina, a Suzana teve algum acompanhamento
psicolgico?- perguntou Leonardo ao se recuperar do choque
inicial.
_ Ela foi algumas vezes, mas no conseguia falar uma nica
palavra, ela me pedia chorando que no queria ir, como eu percebi
que no estava ajudando, eu concordei com ela. A Suzana era uma
menina muito alegre, simptica e isso a abalou profundamente.
Ns mudamos de bairro, porque ela no conseguia sair na rua,
sempre achava que as pessoas estavam olhando e apontando; ela
s voltou a estudar no outro ano. Foi um perodo muito difcil, as
minhas irms e a minha me nos ajudaram muito. A Sueli sentiu-
se culpada por no ter nos alertado sobre ele, porque ele j havia
falado algumas coisas para ela, mas ela no teve coragem para
contar. A Marisa pagou um advogado que era conhecido do dr.
Fernando, mas quando o Davi saiu da cadeia foi muito complicado
porque ningum dava emprego para ele. Ento, ele fazia bicos,
eu, incentivada pela Marisa, resolvi prestar um concurso, passei e
nos mudamos para c. A Suzana queria que voc soubesse por
mim, ela ficou com medo que a Sandra contasse.
_A Sandra foi muito insensvel, como ela pde mexer com a essa
histria que causa tanta dor em vocs?
_A Suzana pediu para que eu lhe dissesse que ela vai entender se
voc se afastar... no momento  at melhor, pois ela est
envergonhada, no conseguiria encar-lo.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Eu sinto muito, dona Marina.  muito difcil saber dessas
coisas... como existem pessoas cruis e desumanas! S pensam
em... satisfazer os seus prprios desejos nojentos e no pensam no
sofrimento que vo causar. O seu Davi vai busc-la?
_Pode ficar tranquilo, ele vai direto para l, a Marisa emprestou o
carro dela, embora ele deteste pegar esse tipo de coisa emprestado,
hoje ele concordou.

Leonardo saiu arrasado, pensou at em no ir direto para casa pois
no queria falar com ningum, mas ao mesmo tempo ele no via a
hora de se refugiar em seu quarto. Entrou, encontrou os pais
conversando na sala de estar, cumprimentou-os rapidamente e
disse que estava muito cansado e por isso iria direto para a cama.
Lgia percebeu que algo grave havia acontecido, por isso foi at o
quarto do filho.
_Querido, me desculpe atrapalhar, mas o que aconteceu?
_Me, por favor, hoje no. No estou com cabea para conversar
eu s quero tomar um banho e dormir, me entenda.
_Meu filho, permita que eu o ajude.
_Se a senhora me deixar aqui quietinho estar me ajudando muito.
_Tudo bem, mas se precisar  s me chamar.
_Obrigado, me.

As palavras de Marina no lhe saam da cabea... todo aquele
sofrimento... aquela maldade...ele comeou a lembrar de como era
difcil para Suzana permitir uma aproximao, agora ele entendia
o porqu dela tremer tanto. Como o contato fsico era difcil para
ela, mas tambm pudera, depois de tanto sofrimento, ela lgico
que ficaria traumatizada. " Ah... minha Suzana... minha princesa...
como algum teve a coragem, no, isso no  coragem,  covardia.
Como algum pde ser to covarde! Voc com esse rostinho to

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                          Tnia Gonzales



meigo... eu no suporto isso... no d para aceitar... o problema
no  com voc..  comigo, era assim que ela dizia. Ah... Deus "

Naquela noite, Suzana teve uma longa conversa com a me e
ambas choraram muito.

Era tera-feira, logo aps o almoo, como havia prometido,
Leonardo foi at a casa de Lcia, mesmo estando completamente
arrasado. No queria que ela sofresse, bastava os que j estavam
com o corao partido nesses ltimos dias.
Rita contou que a filha estava se alimentando bem e que todos os
dias descia com ela para tomar sol.
_Oi, Lcia, como voc est?
_Meu anjo, como  bom ver voc.
_ bom v-la tambm, Lcia. E ento, como voc est?
_Agora, tima, o meu anjo est aqui. Vai ler hoje?
_Se voc quiser.
_Quero.
Desta vez Leonardo havia levado sua Bblia, abriu-a em Joo 14.6
e leu:
_ " Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida;
ningum vem ao Pai seno por mim." Lcia, Jesus  o caminho, a
verdade e a vida, e a vontade dele  que entremos pelo caminho,
que conheamos a verdade e que a vida dele esteja dentro de ns.
Dentro de voc h algo que tem impedido que voc seja feliz,
voc quer compartilhar o que est a dentro? Quer se abrir
comigo?
_No. Aqui dentro existem coisas muito feias... voc  um anjo,
no pode ouvir essas coisas.
_Lcia, Jesus quer que voc receba a vida que ele d e com
certeza no  essa que voc est vivendo hoje. Jesus quer ver um

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     Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


sorriso neste rosto lindo.
_Voc acha que meu rosto  lindo?
_ claro que sim. Voc  uma garota linda, venha aqui e olhe para
o espelho, venha.
Lcia se aproximou bem devagar e olhou-se no espelho.
_Viu? Comprovou como voc  linda?
_No. S se  lindo quando aqui dentro est lindo e dentro de mim
existe algo muito feio.
Lcia sentou-se na cama novamente e abaixou a cabea.
_O que existe de feio dentro de voc? No pode... no h como ter
algo feio a.
_Voc no sabe? So coisas horrveis... coisas que ... ele fez... ele
fez... ele fez...ele fez algo horrvel... ele  um monstro.
Lcia comeou a tremer e chorar muito.
_Acalme-se, no precisa falar mais nada.
_Meu anjo... meu anjo... existem monstros l fora... muito
perigoso porque eles no tm cara de monstro... eles nos enganam,
cuidado com eles... eles tm cara de amigo, de irmo, de pai, mas
na verdade so monstros.
_Lcia, algum desses monstros machucou voc?
_Psiu! Psiu! No fale nada... cuidado... ele pode machucar o meu
anjo.
_Lcia, quem pode me machucar?
_Psiu... fale baixo.
_Tudo bem, vamos parar com este assunto. Voc gosta de msica?
_O que aconteceu com o meu anjo? Por que ele est com o rosto
triste? - perguntou Lcia como se no tivesse escutado a pergunta
de Leonardo.
_Triste?
_... o meu anjo est triste. Quem machucou o meu anjo?
_No  nada... eu perguntei se voc gosta de msica, e ento?

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                            Tnia Gonzales



_Gosto, s vezes...
_Eu gravei umas msicas para voc, so louvores a Deus, elas
fazem com que voc se sinta mais prximo de Deus. Eu toco
violino, aqui... - disse Leonardo mostrando o CD- eu gravei
especialmente para voc. Um dia, se voc quiser, eu vou trazer o
meu violino e toc-lo aqui.
_Violino... t bom. Eu vou ouvir o CD o dia inteiro.
_Que bom... Lcia, eu preciso ir...  ... eu vou precisar viajar e por
isso no poderei estar aqui com voc, mas eu ligo e conversamos
pelo telefone. No deixe de se alimentar e tambm de descer para
o seu banho de sol. Por que voc no sai com a sua me para
almoar fora, amanh?
_Sair no. Voc vai viajar? Eu no queria ficar muitos dias sem
ver o meu anjo.
_Eu preciso visitar algum que completar oitenta anos, mas eu
volto daqui a alguns dias.
_Oitenta anos! Ento, t...eu vou esperar por voc.
_Que bom... agora, preciso ir. Fique com Deus, Lcia.
Leonardo explicou para Rita sobre a viagem que faria, ela ficou
muito preocupada com medo da reao da filha, mas ele a
tranquilizou dizendo que ligaria. Saiu de l muito pensativo.
Lcia, que a maior parte do tempo parecia to distante, havia
percebido a tristeza dele. E muito o intrigou aquela histria de
monstros, ser que Lcia era mais uma vtima como Suzana?
Leonardo havia tomado a deciso de ir para Fortaleza com a
famlia, seria bom se ausentar por alguns dias, por isso ligou para
Marina avisando-a. No fez nenhuma pergunta sobre Suzana, era
melhor assim, pensou.
Ao saber que Leonardo viajaria, Suzana sentiu-se aliviada por no
precisar encar-lo to cedo, e feliz, pois seria bom para ele estar
com a famlia, mas ao mesmo tempo a tristeza invadiu o seu

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


corao.

Sandra resolveu no conversar com a amiga at que ela voltasse
da viagem, no queria preocup-la, mas tinha certeza que era
obrigao sua alert-la, pois, provavelmente, Leonardo no teria
coragem de falar sobre o passado da namorada.




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Captulo 28 -Viagem
s nove horas e trinta minutos da manh de quinta-feira, a famlia
Martins pegou o avio para Fortaleza. Beatriz percebeu que o
irmo no estava bem, todos estavam animados com a viagem,
conversando muito e ele ficou calado a maior parte do tempo.
Decidiu conversar com ele assim que tivessem um tempo a ss.
O voo foi bem tranquilo, o avio pousou em Fortaleza quando
faltavam cinco minutos para uma hora da tarde.
Luciano, o irmo mais velho de Lgia, estava esperando-os no
aeroporto.
_Que alegria! O papai e a mame esto ansiosos. Sejam bem-
vindos  Fortaleza.
_Meu irmo querido, voc est timo!
_Voc est maravilhosa! Uma gatona! Dr. Rafael, como est? E
os meus sobrinhos lindos? Bruno e a, tudo bem?
Cumprimentaram-se e aps quinze minutos de carro, chegaram 
casa de Luciano e Ftima, que tinham dois filhos: Thas de 29
anos e Lucas de 32 anos, ainda solteiros. Os avs estavam
esperando no porto. Foram muitos abraos e beijos. Ftima havia
preparado um almoo muito especial.
No incio da noite foi outra festa, pois Thas e Lucas chegaram do
trabalho.
Beatriz s conseguiu conversar com o irmo no outro dia logo
pela manh. Leonardo acordou bem cedo e estava apreciando o
lindo jardim da casa dos tios, que era cuidado pelos avs, eles
amavam mexer com a terra, tinham muita disposio e j estavam
h pelos menos uma hora se dedicando s plantas.
_Lo, vamos at a padaria? Eu quero conversar com voc.
_Vamos sim, avise a tia Ftima.


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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Cinco minutos depois os dois irmos estavam andando pelas ruas
tranquilas do bairro onde moravam os tios.
_Meu irmo, o que est acontecendo com voc? Algum problema
com Suzana?
_As coisas andam meio complicadas.
_Por isso voc resolveu viajar com a gente. A mame me disse que
voc s viria na prxima semana para participar da festa.
_... eu no queria ficar muitos dias longe da Suzana, mas...
_Mas...
_Eu no quero preocup-la.
_Fale comigo, desabafe, faz bem.
Andaram bem devagar para que Leonardo pudesse contar a
histria para Beatriz, que no final do relato do irmo, disse:
_Que coisa terrvel! Como existem pessoas ms neste mundo.
Coitada da Suzana... sofreu tanto!
_E ainda sofre.
_E a Sandra, hein? No a estou reconhecendo. Ah, Lo... a vida 
linda,  maravilhoso viver, s que essas coisas nos entristecem...
d um desnimo.
_Eu vou ter uma conversa muito sria com a Sandra, ela est
provocando o sofrimento da filha e agora quer fazer isso com
todos?
_, no d para entender como uma pessoa pode mudar tanto.
Voc achou melhor viajar para ficar longe da Suzana?
_Ela est muito envergonhada...  melhor assim, essa distncia vai
ajud-la.
_O que voc pretende?
_Vamos parar com este assunto, t? O pessoal no vai ficar
esperando a manh inteira para tomar caf, que tal andarmos mais
rpido?


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                           Tnia Gonzales



Naquela manh de sexta-feira, Suzana tinha um trabalho para
apresentar na faculdade; o grupo dela conseguiu uma excelente
nota e ela sentiu-se aliviada pois estava muito difcil para ela se
concentrar nos estudos. Pensar na distncia que a separava de
Leonardo muito a entristecia. " Ele est to longe! Ter a certeza
que no o verei por vrios dias di tanto! Mas... se ele estivesse
aqui, seria diferente? Ser que ele j teria me procurado? 
melhor eu ir me acostumando com a ideia de perd-lo... ele no
vai querer continuar com o namoro... quem gostaria de conviver
com uma garota traumatizada como eu? Com uma ferida que
nunca cicatriza?"

Paula estava muito satisfeita com a sua recuperao; e perceber o
esforo dos pais para se entenderem tambm a deixava muito
feliz. Paulo Reis e Regina, depois da conversa que tiveram com o
pastor e a sua esposa, mudaram muito, ele aprendeu a dizer no
para alguns convites e ela estava aprendendo a substituir a crtica
pela compreenso. Teriam um logo caminho pela frente, mais o
importante  que deram o primeiro passo.
No sbado  tarde, Paula recebeu a visita daquela garota ex-
paciente do dr. Romeu.
_Voc est muito bem, parabns  disse.
_Obrigada, eu, realmente, estou me sentindo bem. Para voc eu
confesso que no  nada fcil... alguns dias atrs, logo aps o
almoo, eu me olhei no espelho e aqueles pensamentos
comearam a me incomodar: " Voc  gorda, olhe s pra voc, no
tem vergonha? Faa alguma coisa com relao a isso, sua gorda! "
Eu fui ao banheiro e cheguei a pensar em provocar o vmito, mas,
de repente, as palavras de meus amigos da igreja e de meus pais,
vieram em minha mente e falaram mais alto.
_Paula,  assim mesmo. No  nada fcil... isso pode acontecer

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


vrias vezes ainda, mas o importante  que voc no cedeu. O seu
corpo est timo, nem pense que est gorda e continue se
alimentando, amiga. Eu passei por isso, uma vez eu coloquei o
dedo na garganta e fiquei por vrios minutos naquela dvida
cruel. Graas a Deus consegui resistir.
_Outro dia eu resisti a uma forte tentao de jogar a comida que
estava em meu prato no lixo.
_ uma barra! Mas, voc vai vencer, alis, j est vencendo.
_Pode crer,  difcil pra caramba, mas com f e a ajuda da famlia
e dos amigos eu vou conseguir.

Letcia, aproveitando que a me estava trabalhando, foi fazer uma
visita para Suzana, pois sabia que amiga estaria de folga.
_Oi, Su. Como voc est, amiga?
_Ah... no vou mentir, eu no estou nada bem.
_Amiga... est com saudades do Lo, n?
_Estou com muitas saudades... ah... eu preciso me acostumar, 
bem provvel que nem me procure quando voltar.
_Que bobagem? Eu duvido que o Lo vai conseguir ficar longe de
voc.
 _Eu acho que ele no vai continuar com o namoro. Letcia, ter um
relacionamento com algum que passou por um trauma como o
meu, no  fcil. O Leonardo, mesmo sem saber o porqu j teve
uma ideia de como  complicado. E a famlia dele no vai me
aceitar.
_Para com isso, Suzana. O Lo  louco por voc e os pais dele no
so preconceituosos como a minha me.
_S vai dar para descobrir isso depois que eles ficarem sabendo de
tudo. Voc achava que a sua me seria to radical com relao ao
seu namoro com o Daniel?
_Eu no, mas  diferente.

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                          Tnia Gonzales



_Tem razo,  diferente. A sua me no tem nenhum motivo real
para proibir o seu namoro, mas no meu caso... bom... as mes
querem o melhor para os seus filhos e eu no ...
_Suzana, para com isso. Voc  a pessoa mais doce que eu
conheo, ah, amiga, apesar de todo o sofrimento voc no se
transformou em uma pessoa amarga.
_Eu gostaria de ter o poder para apagar o meu passado, eu queria
tanto...
_Ah, Su, apagar o passado no d, mas voc pode ser feliz agora e
no futuro, no permitindo que essa dor tome conta de voc, amiga.
Deus colocou o Lo em seu caminho porque ele  a pessoa certa,
 compreensivo, atencioso, amigo para todas as horas... depois que
o Lo ficou pronto, Deus jogou a receita fora, pode acreditar.
_Nisso voc est certa, o Leonardo  maravilhoso. Eu nunca
imaginei que poderia existir algum igual a ele e  por isso mesmo
que ele merece algum especial.
_E voc  especial.
_No... eu preciso me preparar psicologicamente para quando o
Leonardo voltar, porque vou ter que aprender a viver sem ele. S
o verei de longe nos trabalhos da igreja e...
_ Su, voc precisa  parar com esse tipo de pensamento.
_A sua me est errada ao proibir o seu namoro com o Daniel,
mas eu tenho que concordar com ela em uma coisa.
_Concordar com a minha me depois de tudo o que ela falou para
voc?
_Ela acha que voc e o Leonardo formam o par perfeito e eu
concordo.
_Ai, ai, ai, Suzana, voc precisa descansar, eu j entendi, a
saudade que voc est sentindo  que est provocando isso, no
est conseguindo raciocinar direito.
_ isso mesmo. Voc  uma pessoa excelente e  linda. Vocs se

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     Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


do to bem e...
_Su, no me venha com esta histria porque eu amo o Daniel.
Voc ama o Lo e o Lo te ama. Ah, e o Daniel me ama,  claro.
_Letcia... voc  uma grande amiga. Mas, me conta uma coisa, e
voc e o Daniel, esto se encontrando?
_S na igreja; o Daniel no quer sair escondido. Eu tambm no
quero, mas  muito difcil manter distncia. Estamos orando,
Deus vai nos dar uma sada. No d para aceitar o comportamento
da minha me sendo ela uma pessoa crist. No concordar com o
namoro s porque o Daniel  negro? Olha, Su, eu no me
conformo,  tanta hipocrisia. A pessoa cumprimenta a outra com a
paz, participam da comunho atravs da ceia do Senhor e a?
Cantam todos juntos: " Uma famlia, sem qualquer falsidade,
vivendo a verdade, expressando a glria do Senhor"17; mas voc
no serve para namorar a minha filha, querido irmo, a sua cor
no combina com a dela, querido irmo! Ah! Eu vou ter uma
conversa sria com o meu pai, no d mais para suportar essa
situao, o Daniel no merece ser humilhado dessa forma.
_Eu oro sempre por vocs dois. Voc est certa, Deus vai dar uma
sada.
_Suzana, um dia, e eu espero que seja logo, ns vamos sair todos
juntos: Voc e o Lo, eu e o Daniel; sem impedimentos.

Em Fortaleza todos estavam bem agitados por causa dos
preparativos para o aniversrio de oitenta anos do vov Joo, que
seria no prximo sbado. Havia muito para ser feito, por isso cada
membro da famlia era responsvel por uma parte. Toda aquela
agitao estava ajudando Leonardo a no pensar tanto em Suzana,
mas  noite quando tudo se acalmava e ele colocava a cabea no

17 Louvor: Corpo e famlia -Compositor: Daniel Souza

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                           Tnia Gonzales



travesseiro, as lembranas vinham muito fortes. Ele lembrou do
primeiro dia que a viu na loja e de como ficou impressionado e
que a partir daquele dia ela no lhe saiu mais da cabea. Pensou
tambm em como foi difcil beij-la pela primeira vez, em como
ela tremia... tentou parar de pensar... mas, aquele rosto lindo
estava ali, dominando os seus pensamentos.

O final de semana se foi e uma nova semana comeou; para
Suzana os dias que viriam lhe traziam uma triste realidade: seriam
longos dias que s fariam aumentar a saudade que j era grande.
Estudou, trabalhou muito, participou de alguns trabalhos da igreja.
Jnatas, o lder do grupo Alfa, avisou a todos que no prximo
sbado seria realizada uma festa com todos os grupos para
comemorar mais uma etapa da REMA, pois em breve fariam um
novo sorteio. Dentre as pessoas que estavam organizando a festa
estavam: Letcia, Suzana e Paula, por isso nos ltimos dias elas
conversaram muito pelo telefone e sempre que possvel se
encontravam para tratar dos detalhes. Sandra no gostou de saber
disso, mas no pde fazer nada.

Leonardo, como havia prometido, ligou para Lcia a cada trs
dias.
_Lcia, como voc est hoje?
_Meu anjo... eu quero v-lo.
_Eu voltarei daqui a alguns dias, mas, como voc est?
_Estou com saudades.
_Est se alimentando bem?
_Estou. Eu ouo as suas msicas todos os dias.
_Que bom. O dia est bonito?
_H?
_O dia est bonito?

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Eu no sei, no sa do quarto hoje.
_Por qu?
_Estou com medo.
_Medo do que ou de quem?
_Medo.
_Lcia, me explique, o que a assusta?
_Meu anjo... preciso de voc, venha aqui, por favor.
_Lcia, eu vou demorar mais alguns dias aqui, mas, eu peo que
voc no se recuse a comer e saia para tomar sol. Posso confiar
em voc?
_Pode. Ele...
_Ele?
_Ele... ele ligou ontem.
_Ele quem?
_Ele.
_Lcia, qual o nome dele?
_O monstro.
_Quem  o monstro?
_Ele.
_Voc no vai me dizer o nome dele?
_No.
_Tudo bem, eu no vou insistir, preciso desligar. Lcia, eu ligo
sbado, t? Fique com Deus, um beijo.
Lcia desligou o telefone e olhou para a foto que estava em sua
mo.
_Ele... ele... ele...  o monstro.
Rasgou a foto e pegou outra que estava debaixo de seu travesseiro.
_Voc  um anjo, o meu anjo- disse para em seguida dar um beijo
na foto de Leonardo.

_Oi, pai, muito servio? - perguntou Letcia ao entrar no escritrio

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                          Tnia Gonzales



de Fernando.
_Oi, minha filha, que bom v-la aqui. Sem o Rafael e o Leonardo
est uma loucura, apesar de terem deixado tudo em ordem com os
processos deles, mas, mesmo assim...
_Ser que o senhor pode parar um pouquinho para conversar?
_ claro, querida. Eu no almocei ainda e voc?
_Tambm no. Podemos almoar?
_Devemos.
Fernando escolheu um restaurante bem prximo ao escritrio.
_E ento, o que est preocupando a minha linda filha?
_Ah, meu pai...
_A sua me, no ? A Sandra ficou to decepcionada por voc e o
Leonardo no namorarem que est impossvel.
_... o senhor est sabendo que ela est atrapalhando at o namoro
do Lo?
_Ela me contou algo muito chato com relao  Suzana, fiquei to
triste por ela, eu no podia imaginar que foi por isso que o pai
dela... voc sabe.
_Pai, a Suzana  uma excelente pessoa, ela no merece passar por
tudo isso, j sofreu tanto e agora precisa dar explicaes?
_Tem razo.
_Eu quero que o senhor me responda uma coisa.
_Pode perguntar.
_O senhor tambm  contra o meu namoro?
_No, eu no concordo com a sua me. Filha, eu tambm gosto
muito do Leonardo e ficaria muito feliz se vocs dois
namorassem, mas eu sei que voc est apaixonada pelo Daniel e
eu acho que ele  um bom rapaz.
_Obrigada, pai,  to bom ouvir isso. Eu no aguento mais... eu e
o Daniel s nos encontramos na igreja. Ele no quer sair
escondido, o Daniel deseja tanto a aprovao de vocs, mas a

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


mame...
_Eu sei, filha. Eu tenho conversado com a Sandra, mas ela est
irredutvel. Nunca vi a sua me assim.
_Me ajuda, pai. Racismo  um absurdo e vindo de algum que diz
servir a Jesus  pior ainda. O Daniel  trabalhador,  honesto, ama
a Deus, ele  to responsvel...
_Eu sei, filha, eu vou tentar... vou pensar em alguma coisa. Fique
tranquila, tudo vai se resolver.

Fernando teve uma conversa com Sandra naquela mesma noite e
foi uma conversa muito difcil.
_Eu no quero falar sobre esse assunto, para mim isso est
encerrado.
_Sandra, encerrado como? A nossa filha gosta do rapaz e...
_Isso passa, e eu acho que ela nem gosta dele,  s para me
provocar. Voc acha que a Letcia, uma menina linda, que est
fazendo faculdade de odontologia, iria se interessar por aquele...
aquele rapaz?
_Sandra, como voc pode falar assim? Ele  um timo rapaz.
_timo, pode at ser, mas no para minha filha, ele pode ser
timo para a Suzana, por exemplo.
_No coloque essa menina na nossa conversa, voc j a fez sofrer
muito.
_Sofrer? Eu estou tentando impedir que ela faa a famlia da
minha melhor amiga sofrer.
_Sandra, no se envolva mais nisso.
_Impossvel, assim que a Lgia voltar de Fortaleza eu vou
conversar com ela.
_No vai mesmo.
_Vou sim,  a minha obrigao.
_O assunto aqui  a nossa filha. Sandra, eu quero que voc aceite

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                          Tnia Gonzales



o namorado dela e o trate com respeito, pois  assim que deve ser.
_Fernando, voc s pode estar delirando. Eu nunca vou aceitar,
nunca!
_Sandra, a nossa filha est sofrendo. No faz sentido voc ser
contra s porque ele...
_Voc tambm acha que eu sou racista?
_ o que est parecendo, me diga mais algum motivo.
_Ele  um mecnico, no estuda e...
_Sandra, eu no estou lhe reconhecendo. Ele trabalha duro na
oficina do pai, voc sabe que o Isaque ficou to arrasado pela
morte da esposa que no conseguia fazer mais nada, foi o Daniel
que tomou conta de tudo e precisou abandonar a faculdade.
_Tudo bem, ele pode at ser um rapaz trabalhador, mas no serve
para a minha filha. Como que ele pode pensar em namorar a
Letcia?
_Sandra, voc precisa orar.
_No me venha com esta conversa, Deus sabe como o meu
corao est.
_E como sabe! Sandra d para ter comunho desta maneira? Eu
no sei como voc tem a coragem de participar da...
_Fernando, voc est indo longe demais. Est falando da minha
vida espiritual e isso eu no admito. No adianta querer me
convencer usando esse tipo de argumento, comigo no. Estava
tentando me sensibilizar falando sobre a luta que  a vida do
Daniel e agora quer que eu fique com medo de estar pecando?
Fernando, eu quero o melhor para a minha filha e Deus entende
isso, porque ele sempre quer o melhor para os seus filhos. Ns no
sabemos o que  melhor e s vezes desejamos algo que vai nos
prejudicar e Deus que  onisciente, que v l na frente, nos diz
no. Assim eu estou fazendo com a Letcia, ela no sabe o que 
melhor... se soubesse estaria noiva do Leonardo.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Ah! Chega! Vou dormir, est impossvel dialogar com voc.

Naquele exato momento Letcia estava conversando com Daniel
pelo celular.
_O meu pai vai falar com ela.
_Meu bem, tenha pacincia.
_Dani, eu no estou aguentando, isso  to injusto.
_Eu sei... mas o que voc quer que eu faa? Quer que eu tente
conversar com os seus pais novamente?
_No. Se ela o maltratasse, eu no suportaria. Estou com
saudades.
_Eu tambm.
_Vamos marcar algum encontro.
_Sair escondido novamente? No quero isso.
_Tambm no, mas, eu estou com saudades, v-lo s na igreja no
d.
_Vamos pensar em algo. Eu tenho pedido tanto que Deus amolea
o corao da sua me.
_ Vamos marcar alguma coisa.
_T bom, pense e depois voc me avisa. Fique calma, vai dar
tudo certo,  s uma fase. Tenha uma tima noite, eu te amo.
Letcia desligou o celular e ajoelhou-se perto de sua cama.
_Meu Pai, isso no  justo... transforme o corao da minha me.
Eu no sei mais o que fazer! S tu podes mudar essa situao e
tambm eu peo por minha amiga, Suzana, que ela seja feliz ao
lado do Lo, que a famlia dele compreenda que os dois se amam
e aceite a Suzana, tu sabes o quanto ela  maravilhosa. Em nome
do seu filho, Jesus,  que eu peo essas coisas. Amm.

Faltavam poucos minutos para a meia-noite quando Suzana
deitou-se. O dia seguinte seria sbado e ela estaria de folga, pois

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                          Tnia Gonzales



havia trocado com a amiga Cludia.  noite teriam a festa da
REMA, por isso seria um dia cheio de preparativos especiais;
Suzana estava achando timo toda aquela atividade, pois isso
ajudava amenizar a dor que sentia dentro do peito. Leonardo fazia
tanta falta! O lindo sorriso, a voz agradvel que dizia coisas que
ela adorava, o aconchego dos seus abraos, os beijos...

_No faa isso! Por favor, me solte...
_Soltar? Minha linda, no  isso o que os seus olhos me dizem...
voc quer que eu a abrace... voc me quer bem pertinho, diga a
verdade.
_No.
_Diga sim, porque para aquele rapazinho voc diz, no  mesmo?
_No... por favor, voc est me machucando!
_Voc diz isso para ele tambm?  claro que no, ento vai
precisar fazer o mesmo comigo.
_No.
_Sim, beije-me, vamos... como voc faz com aquele rapazinho...
eu quero que voc me beije, est ouvindo? Voc no pode escapar
de mim... no pode, minha linda!
O homem estava tentando beij-la, Suzana tentava se soltar
daqueles braos, mas ele era mais forte do que ela.
_Eu vou beij-la.
_No! No! Socorro!

_Suzana? Minha neta, ei... est tudo bem.
_V, v? Eu no aguento mais... esses pesadelos - disse Suzana
em lgrimas.
_Minha querida.
_Quando eu vou ficar livre disso? Por que Deus no me ajuda?
_Minha neta linda, acalme-se, vai ficar tudo bem.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_O Leonardo precisa ficar longe de mim...  melhor para ele.
_No fale assim... tente dormir.




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                          Tnia Gonzales



Captulo 29 -Saudade
Enfim chegou o grande dia do aniversrio do vov Joo;
acordaram bem cedo pois no podiam perder tempo.
Comemorariam os oitenta anos do vov em um chcara. s oito
horas da manh j estavam l organizando tudo. O vov Joo e a
vov Helena estavam muito felizes, principalmente pelo privilgio
de ver a famlia reunida.
s onze horas Leonardo ligou para Lcia.
_Oi, meu anjo.
_Oi, Lcia, voc est bem?
_Estava ouvindo voc tocar... quando vou ouv-lo aqui no meu
quarto?
_Breve. Tenha pacincia. Voc est se comportando bem?
_Estou fazendo tudo o que o meu anjo mandou.
_Eu pedi, no mando em voc, Lcia. Eu peo e voc atende, 
isso.
_Meu anjo, o monstro manda... faz coisas horrveis, ele no pedi
licena.
Leonardo pensou em perguntar que coisas horrveis seriam, mas
pelo telefone achou que no seria conveniente.
_Lcia, voc quer me falar o nome do monstro?
_No. Ele no vai gostar.
_Ele esteve a?
_No. Eu no quero que ele venha... ele disse que vir logo, mas
eu no quero.
_Quando ele falou com voc?
_Comigo no. Eu no falo com ele.
_Quem falou com ele?
_Minha me.


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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Ah... Lcia, eu preciso desligar. Tenha um timo sbado, por que
voc no almoa fora com a sua me? Ela ficaria muito feliz.
_Eu no vou sair... s se...
_Se?
_Se for com o meu anjo.
_Ento, quando eu voltar ns vamos sair, est bem?
_Est.
Depois de se despedirem, Leonardo desligou. Ele no sabia
explicar, mas todas as vezes que conversava com Lcia a saudade
de Suzana aumentava mais ainda. " Como  possvel algum fazer
tanta falta? E se eu ligasse s para ouvir a voz dela? No,  melhor
no.

A comemorao do aniversrio de oitenta anos do vov Joo foi
um evento maravilhoso. Ele e Helena at danaram valsa.
Leonardo olhava para os dois com orgulho. Deveria ser timo
passar tantos anos juntos. Os avs tinham 52 anos de casados e
ainda se diziam apaixonados um pelo outro. Leonardo desejou que
Suzana estivesse ali participando daquele momento especial.

A festa na igreja foi muito animada, os jovens cantaram muito,
fizeram muitas brincadeiras, houve tambm sorteios de vrios
brindes e  claro que muitas delcias para serem devoradas.
Havia po de metro com vrios tipos de recheios, salgadinhos
diversos, docinhos e um enorme bolo de chocolate.
Suzana, apesar da imensa saudade que a ausncia de Leonardo
provocava, divertiu-se bastante, principalmente com as
brincadeiras de Paulinha que estava animadssima. Letcia teve a
oportunidade de passar mais tempo com Daniel e at aproveitaram
para sair antes que a festa terminasse para terem um pouco de
privacidade.

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                           Tnia Gonzales



Meia-noite e quinze, Paulinha deixou Suzana em casa, havia
emprestado o carro de seu pai.
Neste ltimos dias, por causa dos preparativos para a festa, as duas
se aproximaram mais e Suzana estava gostando de aprofundar a
amizade com ela.

Daniel estacionou o carro em frente  casa de Letcia dez minutos
depois e encontrou a me dela esperando com uma cara de
poucos amigos,
_Eu sabia que no podia confiar em voc, Letcia. Saindo
escondida com este rapaz? No tem vergonha?
_Me, por favor, no faa escndalo...
_Vergonha que os vizinhos ouam a sua me falar voc tem, no
? Mas no tem vergonha de sair com esse a!
_Dona Sandra, ns estvamos na festa dos jovens e...
_No quero que voc me d explicaes. A minha filha vai entrar
agora e l dentro eu converso com ela.
_Me, no fale assim com o Daniel.
_Falo como eu quiser, ele no merece um pingo de considerao,
saiu com voc sem a minha autorizao. Gosta de sair s
escondidas, no ?
_Dona Sandra, eu no gosto disso, eu prefiro que tudo seja
esclarecido.
_Oua rapaz, eu quero que voc fique bem longe da minha filha,
entendeu?
_Me? Por favor, vamos entrar, deixe que o Daniel converse com
a senhora l dentro.
_Ns duas vamos entrar, eu no quero este rapaz dentro da minha
casa. Venha Letcia.
_ melhor voc entrar, Letcia, depois conversamos.
_Mas...

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Entre com a sua me, no vai dar para conversar com ela hoje.
_Nisso voc tem toda a razo. Venha Letcia!
_Tchau, Dani e me desculpe.
_No precisa se desculpar.
_Letciaaaa! - gritou Sandra impaciente.
Letcia entrou muito contrariada e foi direto para o seu quarto.
_Volte aqui, voc me deve uma explicao.
_O que est acontecendo, Sandra? Por que essa gritaria?-
perguntou Fernando saindo do quarto.
_Pai, pai... ela fez um escndalo l na rua, tratou o Daniel to mal
e...
_Calma, filha.
_Calma? Ela est saindo escondida com aquele rapaz, voc
acredita? Ele a trouxe de carro, eu os peguei...
_Sandra, vamos parar com isso, amanh conversamos melhor, v
dormir, minha filha.
_Amanh voc no me escapa, vou falar com voc- disse Sandra
em um tom ameaador.

Domingo  tarde, aps chegar do trabalho, Suzana pegou Meg, a
calopsita, e enquanto afagava aquela ave dengosa, seus
pensamentos voaram at Fortaleza. " O que ele estar fazendo
agora? A festa do av foi ontem, deve ter sido uma festa
maravilhosa. Ah... Meg... que saudades! Ser que ele lembra que
eu existo? Deve estar se divertindo tanto que  claro que no vai
perder tempo pensando em mim... pensar em algum como eu, pra
qu? Para sofrer?  melhor mesmo que ele me esquea, l na
IGAG existem muitas moas que seriam perfeitas para ele, eu... eu
no posso t-lo, no posso... a famlia dele nunca iria aceitar o
nosso namoro.
_Suzanaaa! Oiii! Sou eu, Letcia!

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                           Tnia Gonzales



_Pode entrar, L. Estou aqui com a Meg.
_Oi, ah, que gracinha! Ela  to doce quanto voc, amiga. Vem
aqui comigo, vem, Meg.
_Ela gosta de voc... e a como foi ontem com o Daniel?
_Bom... com o Dani foi timo, mas, a minha me estava me
esperando no porto, voc acredito nisso?
_Ah, no! Que coisa chata!
_Foi horrvel, ela falou cada coisa! Humilhou o Dani...
_Amiga...
_Su,  to injusto isso... eu e o Dani nunca mais havamos sado,
mas ela pensa que ns continuamos saindo escondido mesmo com
a proibio dela. Ela no me escuta.
_Nem sei o que dizer... ah, amiga!
_Vamos mudar de assunto,  melhor. Eu tenho uma boa notcia
para voc.
_Notcia para mim?  sobre ...
_ claro  que sobre o Lo. Meu pai conversou com o Rafael hoje
cedo e eles voltam quarta-feira.
_Quarta?
_Que sorriso mais lindo... no v a hora de estar com ele, n?
_Eu nem sei se ele vai me procurar.
_ claro que vai, voc acha mesmo que o Lo vai conseguir ficar
longe da amada dele? Deve estar com mais saudades do que voc.
_No sei... eu no quero me iludir.
_Eu me pergunto como ele conseguiu resistir... no ligou para
voc uma nica vez!
_... ele no deve estar com saudades como voc imagina.
_Ah... no  nada disso. Ele deve preferir conversar pessoalmente,
 natural, depois que ele ... ... ficou sabendo de tudo, vocs no
se viram mais, no ?
_Voc est certa. Eu nem sei se conseguirei encar-lo novamente.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Estou com tanta vergonha!
_Suzana, para com isso. Quarta-feira o seu prncipe chega e vocs
vo poder matar essa saudade enorme!
_Voc  bem otimista... eu no estou alimentando essa esperana
toda, porque se ele chegar e no me procurar, vai doer muito mais.
_S voc mesmo para imaginar que o Lo vai conseguir manter
distncia, no mesmo! Escreva o que eu estou dizendo: Ele vai
procur-la no mesmo dia que chegar.

Tera-feira, Suzana foi para a faculdade e depois para o shopping
trabalhar. J estava ansiosa, mas, na quarta a ansiedade aumentou
ainda mais por causa da expectativa pela chegada de Leonardo.
Faltavam cinco minutos para as dez horas da noite e ela no estava
suportando mais toda aquela ansiedade. Ele estaria esperando-a?
Esta era a pergunta que no lhe saa da mente. Dez minutos depois
ela saiu da loja e os lindos olhos verdes olharam em todas as
direes na esperana de encontrar aquele lindo sorriso que tanto
lhe fazia falta.
_Filha? Ei? No me viu? - perguntou Davi para decepo de
Suzana.
_Pai? Oi, eu estava distrada.
_Percebi. Procurando por algum?
_No.  claro que no.
_Voc mente to mal.
_Pai... me desculpe,  que eu pensei...
_Eu sei, filha, eu entendo. Vamos?
Deitada em sua cama, Suzana no pde conter as lgrimas... " 
claro que ele no iria me procurar. "

No dia seguinte, Cludia percebeu a angstia da amiga e a
interrogou.

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                          Tnia Gonzales



_Suzana, o que est acontecendo com voc hoje? Tudo bem que
nos ltimos dias voc tambm esteve bem distante... sei que est
com saudades de seu amor, mas, hoje...
_Ah... Cludia, deixa pra l.
_Fala comigo, o que aconteceu? Ele chegou de viagem? Vocs
conversaram?
_Ele chegou ontem e ... nem me procurou. Nem sei por que eu
estou assim, j esperava por isso.
_Suzana, voc no me contou o motivo, mas, ele vai procur-la,
pode ter certeza disso. Ele deve ter chegado tarde e...
_, pode ser.

Suzana saiu da loja na maior expectativa de ver Leonardo e mais
uma vez ficou decepcionada. Permaneceu calada durante todo o
caminho para casa, o pai, que a estava buscando com o carro da tia
Marisa, deixou-a entregue  seus pensamentos.

_Su? Oi, me desculpe pelo horrio, j estava dormindo?-
perguntou Letcia ao ligar, pois j era quase meia-noite.
_No, tudo bem. E a, quais as novidades?
Na verdade, a pergunta que Suzana queria fazer era: " E o
Leonardo? "
_Eu liguei porque tenho uma novidade sim. Eu disse que o
Leonardo chegaria ontem, mas s os pais dele voltaram de
Fortaleza. Ele ficou l, com o Bruno e a Beatriz. O meu pai disse
que como o Bruno pegou um ms de frias, quis aproveitar para
ficar mais alguns dias l. Ento ele e a Bia convenceram o Lo.
_Ah...
_Esse "ah" significa muita coisa, no , amiga?
_Significa alvio e tristeza ao mesmo tempo.
_Alvio: Ele no a procurou porque no voltou. Tristeza: ele ainda

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


no voltou.
_Exatamente. Voc disso tudo. Obrigada por ter me avisado, L.
Voc sabe qual  a previso do retorno deles?
_Meu pai disse que s na prxima semana. Como o Lo levou o
notebook est trabalhando quase que normalmente. O dr. Rafael
s no ficou tambm porque precisava comparecer em algumas
audincias e a Lgia tambm no podia mais se ausentar da
clnica.
Aps desligar o celular, Suzana pensou: " Do menos saber que ele
ainda no voltou... mas, e se acontecer o que eu mais temo? E se
ele preferiu ficar mais alguns dias para me esquecer de vez... ele
no deve nem pensar em mim...  claro que no.

Leonardo resolveu fazer algo diferente com relao  Lcia, pois
percebeu que ela ficou muito triste quando soube que ele ficaria
longe por mais alguns dias. Combinou conversar com ela pela
internet, usando webcam, assim ela poderia v-lo mesmo que
fosse  distncia.
Lcia ficou bem animada com a ideia.
_E ento?  melhor assim?
_S um pouco, bom mesmo seria t-lo aqui comigo.
_Sero s mais alguns dias, logo eu estarei a.
_A minha me quer que eu saa com ela, mas eu disse que s vou
sair com voc.
_Comigo? Para onde?
_Faz tempo que eu no vou...
_Onde? Pode falar.
_Ao cinema.
_Hum... ento, voc quer que eu a leve ao cinema. Tudo bem.
_Verdade? Jura?
_Preciso jurar?

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                          Tnia Gonzales



_No. Eu acredito em voc, meu anjo.
_timo. E voc est bem?
_Estou. Vou continuar assim se o monstro no aparecer.
_O monstro? Ele disse que iria at a?
_Disse.
_Disse para quem, Lcia?
_Para minha me. No quero que ele venha... meu anjo, voc
precisa chegar logo.
_Acalme-se.
Leonardo conversou mais alguns minutos com ela e depois ficou
muito pensativo. " Quando chegar l eu preciso ter uma conversa
muito sria com a me da Lcia. Preciso saber quem  o monstro,
embora eu j tenha uma ideia de quem seja."

Passar todos aqueles dias em Fortaleza estava sendo timo para
Beatriz e Bruno, curtiram muito as belas praias. Leonardo s
concordou em prolongar a viagem por causa da insistncia de
todos, mas, principalmente pelos avs que estavam muito felizes
com a presena dos netos. Sentia um aperto no corao s de
pensar que j faziam 18 dias que no via Suzana, pois a ltima vez
fora justamente um dia aps o evento de misses, quando ele a
levou para a faculdade. No dia seguinte, resolveu ligar para a
amiga Letcia, pelo menos iria saber se Suzana estava bem.
_Lo? Que surpresa! Puxa, como voc demorou para ligar!
Esqueceu a sua amiga, ?
_Como eu poderia esquecer da minha melhor amiga? Estou com
muitas saudades. E a, como esto todos?
_Depende. Sobre quem, especificamente voc gostaria de saber?-
provocou ela.
_Sobre voc e o Daniel, por exemplo.
_Sei... ento, t. Est uma grande confuso por causa da minha

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


intolerante me. Amigo, est to difcil... pessoalmente a gente
conversa melhor, quando voc volta?
_Logo.
_Logo? Isso l  resposta? Voc no est com saudades de uma
certa pessoa?
_Como ela est? No quero saber detalhes, s se ela est
trabalhando e estudando normalmente e se est participando dos
trabalhos do grupo Alfa.
_Est estudando e trabalhando. Ns tivemos uma festa com todos
os grupos reunidos, eu, a Suzana e a Paulinha fizemos parte da
organizao. Foi muito legal. Agora estamos aguardando a nova
formao dos grupos. Voc deve estar louco para v-la, no ?
_Leca, Leca... ah, eu tenho falado com a Lcia.
_Voc ligou para ela?
_Vrias vezes.  uma situao muito delicada, eu no posso ficar
muito tempo sem dar notcia seno ela se fecha ainda mais.
_ E o doutor Leonardo j descobriu o porqu dela ter ficado desse
jeito?
_Tenho algumas suspeitas, mas preciso falar com a me dela.
Bom... vou desligar. Foi timo falar com voc e...
_O que foi, quer mandar algum recado para uma certa pessoa?
_No. Leca, voc sabe se a sua me falou sobre aquele assunto
com a minha?
_Lo, sinceramente, eu no sei, est impossvel manter um
dilogo com a minha me.
_Ento, tchau amiga. Nos veremos em breve. Um beijo grande.
Adoro voc.
_Ah... Lo, volta logo, voc faz tanta falta! Um beijo maior ainda
e eu tambm te adoro.

Assim que o amigo desligou, Letcia fez uma ligao para Suzana.

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                          Tnia Gonzales



_Atrapalho? Ento, tudo bem,  que eu acabei de receber uma
ligao de algum que est l em Fortaleza...
_O Leonardo ligou? Ele est bem?
_Est.
_Que bom, eu fico feliz.
_Ai, ai, ai... vocs dois! Loucos para me encher de perguntas e
ficam nessa, ah... que bom... ela est bem? Ele est bem?
_Ele perguntou alguma coisa sobre mim?
_Ele fez igualzinho voc. Quis saber se voc estava bem.
_S isso?
_S. Perguntou se voc est realizando as suas atividades
normalmente.
_Ele pensou que eu iria passar os meus dias deitada na cama, me
lamentando e chorando?
_Calma, Su. Eu sei o que  isso...  uma saudade louca, maluca.
_Ele ligou s pra isso?
_Perguntou sobre o meu complicado namoro.
_Disse quando volta?
_Agora voc fez a pergunta que o seu corao estava pedindo.
_Letcia?
_No. Ele disse simplesmente que vai ser logo. Logo foi a palavra
exata que ele usou.
_Logo? Logo quando?
_No disse.

Aps desligar, Suzana ficou muito pensativa, a amiga Cludia,
percebeu que algo havia acontecido.
_Suzana, o que foi?
_Nada,  que eu recebi uma ligao de uma amiga e ela me deu
notcias do Leonardo.
_E...

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Ele no especificou o dia que vai voltar.
_E voc est cada dia mais ansiosa.
_No deveria, porque voltar de Fortaleza, com certeza ele vai,
mas isso no significa que ele volte para mim.
_Suzana, como voc est apaixonada! Isso  lindo!
_Vamos mudar de assunto?

_Est sem sono, minha neta?- perguntou vov Vivi, pois j
passava de uma hora da manh e Suzana estava sentada em sua
cama.
_Desculpe por t-la acordado, v. No estou conseguindo dormir.
_Pensando nele?
_. Amanh vai completar vinte dias que no o vejo.
_Que gracinha, est contando os dias!
_Ah, v...
_ Eu j deveria ter voltado para Belo Horizonte, sua tia me liga
quase todos os dias, ela quer saber se eu resolvi morar aqui.
_Seria timo.
_No posso ficar,      mas, eu quero esperar at que voc e o
Leonardo se entendam. Eu vim para passar um ms e ...
_Vou sentir tantas saudades, v! Agora, sobre o Leonardo eu peo
que a senhora no alimente muita esperana, no quero que fique
decepcionada.
_Tenho certeza que assim que ele chegar de Fortaleza, vai
procur-la.
_Eu no tenho esta certeza.




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                           Tnia Gonzales



Captulo 30 -Expectativa
Mais trs dias se passaram e finalmente a quarta-feira chegou.
Bruno, Beatriz e Leonardo pegaram o voo de volta para So Paulo
s nove horas da manh. O avio aterrissou no aeroporto de
Guarulhos poucos minutos depois de uma hora da tarde. Rafael
foi receb-los.
_Sejam muito bem-vindos. J estava com saudades. A Lgia no
pde me acompanhar porque havia um cliente marcado
exatamente neste horrio- explicou Rafael.

_E a, filho? Voc no precisa ir para o escritrio hoje... - disse
Rafael aps deixar a filha e o genro em casa.
_Tem certeza? Eu posso ir.
_No precisa, voc j adiantou muita coisa... trabalhou tanto! L
em Fortaleza voc quase que fazia o mesmo horrio daqui! No
posso reclamar.

Leonardo chegou em casa tomou um banho, almoou e depois foi
at a casa de Lcia.
_Rita, antes que eu veja a Lcia, eu gostaria de fazer uma
pergunta.
_O que voc gostaria de saber?
_Quem est para visitar a Lcia?
_O pai dela vir sbado.
_Ah... me desculpe, mas, como  o relacionamento dos dois?
_Nada fcil. Ela nem olha para ele.
_Tem algum motivo para isso ou seria por causa da separao de
vocs?
_Eu acho melhor voc ir at o quarto dela agora, ela est muito


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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


ansiosa!
_Tudo bem.

_Filha, olha s quem chegou de viagem!
_ Meu anjo, voc voltou !
Lcia abriu um sorriso enorme, o que no era nada comum, mas
no se aproximou de Leonardo; ela sempre mantinha uma certa
distncia e ele no queria invadir o espao dela.
_Voc est bem?
_Agora eu estou tima! O meu anjo est diferente... a sua cor...
_ verdade... as praias de Fortaleza so lindas! Peguei um
bronzeado.
_Ficou mais lindo ainda.
_Obrigado. Voc est com uma aparncia tima.
_Vamos sair, hoje?
_Se voc quiser.
_Eu quero.
_Ento, eu vou esperar l fora, est bem?

_A senhora gostaria de nos acompanhar?- foi a pergunta de
Leonardo para a me de Lcia.
_No, ela no iria gostar. Leonardo, voc no imagina a alegria
que eu estou sentindo, so quase sete meses sem colocar os ps na
rua, voc consegue imaginar isso?
_Sete meses? Ela saa bastante antes?
_Adorava ir ao shopping com a amiga dela, a Elisa, mas, de
repente foi se fechando e...
_Aconteceu alguma coisa?
_ melhor no falarmos sobre isso, ela pode escutar.

Ao sair do estacionamento do prdio Leonardo percebeu que

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                          Tnia Gonzales



Lcia havia fechado os olhos.
_Ei, Lcia? Voc est bem?
_Estou,  que faz muito tempo que no ando de carro e estou um
pouco tonta com o movimento.
_Ah...  natural, isso logo passa.
Durante o trajeto at o shopping Lcia abriu os olhos duas vezes,
mas logo os fechava novamente.
_Chegamos. Eu vou abrir a porta para voc,  bem provvel que
sinta uma certa tontura ao sair.
Leonardo abriu-lhe a porta e ofereceu-lhe o brao, ela o olhou por
alguns instantes e por fim colocou o brao no dele.
_Vamos andar bem devagar, para que voc se acostume, me avise
se estiver com tontura, certo?
_Certo.
_Lcia? Voc precisa abrir os olhos.
_Certo.
_Tem certeza que gostaria de ir ao cinema? No sei se  uma boa
ideia... aquela tela enorme e voc com tontura...
_Eu quero, por favor.
Lcia sentia-se estranha, mas conseguiu caminhar bem devagar.
_Tudo bem?
_Espera um pouco... estou com medo.
_No h motivo para sentir medo, estou aqui com voc, fique
tranquila. Voc confia em mim?
_Confio. Mas, so tantas pessoas...
_Sim, mas no precisa ficar assustada, estou aqui com voc. O que
vamos assistir?
_Pode ser um desenho?
_Claro. Ento, vamos.

Escolheram um conhecido filme de animao; Leonardo comprou

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


pipoca e Lcia comeou a sentir-se mais confiante. Durante o
filme, Leonardo percebeu que ela parecia uma criana. Ele ficou
admirado em como ela achava graa de tudo; Lcia estava
realmente se divertindo.
_Nem vou perguntar se voc gostou, est escrito em seu rosto-
disse ao sarem da sala de cinema.
_Adorei, foi muito legal! Obrigada.
_No precisa me agradecer. Vamos comer?
_Vamos. Eu posso escolher?
_ claro. O que foi?
_No estou me sentindo bem.
_Vamos parar um pouco, deve ser por causa do movimento...
segure em meu brao.

_No acredito! No pode ser!
_O que foi, Sueli?
_Como que ele pde fazer isso com a minha irm? Ela est
morrendo de saudades dele...
_Quem?
_Aquele rapaz de brao dado com... no acredito! Como que o
Leonardo teve a coragem de fazer isso com a Suzana? Ela pensa
que ele est em Fortaleza! Que canalha!
_Aquele gato  namorado da sua irm? Ele  muito gos...
_Gato traioeiro  isso o que ele !
_Pode no ser o que voc est pensando.
_Sei... eu no esperava isso do Leonardo! Nem conversou com a
Suzana e j est com outra? Caramba! Eu vou atrs deles...
_Sueli! Vamos perder o filme, deixa isso pra l, depois voc
conversa com ele ou conta logo para sua irm.
_Ele veio aqui pensando que no encontraria ningum conhecido,
por que no foi aonde a Suzana trabalha, hein?

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                          Tnia Gonzales



_L  bem mais longe, n? Sueli, vamos logo, esquece isso, depois
voc resolve, eles j foram embora.

_E ento? O que voc vai querer?- perguntou Leonardo ao
chegarem  praa de alimentao.
_Voc promete que no vai rir?
_Prometo.
_ que geralmente so as crianas que...
_J sei.
_ que eu adoro aquelas bonequinhas!
_Tudo bem. Eu tambm vou pedir o mesmo, assim voc ganha
duas.
_Voc tambm?
_ isso a, o lanche  pequeno,  melhor assim, eu comi muita
pipoca.

s oito horas da noite Leonardo deixou uma Lcia muito
sorridente em casa. Rita agradeceu tanto que ele ficou todo sem
jeito.
Chegou em casa, tomou outro banho, escolheu uma roupa com
bastante cuidado e saiu novamente. Os pais no estavam.

Suzana dava ateno a um cliente que estava com uma enorme
dvida. A namorada faria aniversrio e ele resolveu dar um
perfume, mas estava entre trs opes e no conseguia se decidir.
_ A fragrncia deste  bem suave, o senhor no disse que ela gosta
de perfume suave?
_... mas este aqui  to gostoso! Eu no sei... me desculpe, mas
eu sou to indeciso!
_Fique  vontade, no se preocupe.
_Voc poderia me mostrar mais duas opes?

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Tudo bem... olha s este... sinta... o que achou?
_Bem... ...
_Olha quem est entrando na loja com um bronzeado lindo!-
sussurrou Cludia nos ouvidos da amiga, ao ver Leonardo se
aproximando.
Suzana olhou rapidamente e pensou que no iria conseguir
permanecer em p. Era ele... Leonardo estava ali, fitando-a com
aquele lindo sorriso.
_Voc me mostra outro? -perguntou o indeciso cliente.
_... ... claro, s um minuto.
_Boa noite- disse Cludia cumprimentando-o- o senhor poderia
aguardar um momento,  que a sua vendedora favorita est
atendendo um cliente.
_Boa noite, eu espero.
Suzana pegou outro perfume e mostrou ao cliente, que continuou
na dvida. Leonardo no tirava os olhos dela e isso a estava
deixando mais nervosa ainda, ele percebeu que as mos dela
tremiam muito.
_E ento, o senhor j se decidiu?
_Bem... ... eu no disse que era muito indeciso? Para voc ter
uma ideia do grau da minha indeciso, mesmo sabendo que ela
gostava de mim, eu demorei seis meses para ped-la em namoro.
Voc acredita? Mas, eu prometo que no vou demorar tudo isso
para escolher o perfume.
Enquanto o cliente falava, Suzana prestava ateno nele e s vezes
dava uma discreta olhada em Leonardo que continuava com os
olhos fixos nela.
_... eu acho que vou levar este aqui... ou  melhor este outro? O
que voc acha, hein?
_No entendi?
_Eu quero uma ajuda... qual eu devo levar?

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                           Tnia Gonzales



_O senhor quer uma opinio minha... ento, eu acho que deveria
levar este aqui, porque ela gosta de perfume suave e este  muito
suave,  perfeito.
_ mesmo? Ser? Ai, dvida cruel! Ser ou no ser? Desculpe a
brincadeira, mas eu vou aceitar a sua sugesto. Vou levar este... ou
este? ... no, agora eu estou certo vai ser este mesmo que a
senhorita sugeriu e muito obrigado, voc  muito paciente.
_Que isso!  o meu trabalho.
Aps mais alguns segundos, Suzana estava livre para atender ao
seu cliente preferido.
_Boa noite, posso ajud-lo?
_Pode... eu preciso de uma loo aps barba,  a preferida da
minha namorada.
_Ah... eu vou busc-la.
Suzana pegou a loo e entregou-a para Leonardo que, por um
breve momento, tocou naquela mo trmula. Entreolharam-se por
alguns segundos.
_ esta, voc acertou. Vou lev-la.
_Deseja mais alguma coisa?
_Eu desejo esper-la l fora, posso?
_Pode.

_Ainda faltam quinze minutos, o relgio hoje no est ajudando,
n?
_Para com isso, Cludia, voc est me deixando mais nervosa
ainda!
_Ele veio! Est mais gato do que nunca! Uau! Bendita Fortaleza
com a suas belas praias...
_Cludia? Chega!
_Uma certa pessoa ainda ficou na dvida se ele iria procur-la!
_Ele est to lindo! Eu adoro v-lo com aquela camisa verde,  a

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


minha preferida!
_Voc j disse isso para ele?
_J.
_Que gracinha! Ele colocou pensando em voc, que romntico!

Suzana saiu da loja com o corao disparado... a ansiedade era
grande... Leonardo se aproximou rapidamente.
_Oi, como voc est?
_Bem. Quando voc chegou?
_Hoje. Quer comer alguma coisa?
_No.
Suzana estava to ansiosa que se colocasse alguma coisa no
estmago com certeza iria vomitar. Definitivamente, comer no
era uma boa ideia.
_Voc avisou ...
_Eu falei com a sua me, pode ficar tranquila. Vamos?
_Vamos.
Suzana no conseguia se mover...
_E ento? Vamos ou no?
_Eu no sei.
_Indeciso pega? Voc est at parecendo o seu cliente.
_Tem razo. Vamos.
Andaram lado a lado; Leonardo, durante o caminho at o
estacionamento, olhou para ela vrias vezes, mas Suzana no
virou o pescoo uma nica vez. Entraram no carro e, de repente,
ela ficou muito envergonhada ao pensar que agora ele sabia de
tudo, ele conhecia o seu triste passado: " O que ser que ele est
pensando de mim? "
_Suzana, voc est bem? Est to plida!
_E voc est to bronzeado!
_... voc gostou?

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                           Tnia Gonzales



_Eu?
_No precisa responder, voc est to nervosa! Acalme-se, no
estava esperando que eu fosse aparecer?
_Hoje no.
_Algum dia voc esperou?
_Por que voc sempre faz estas perguntas difceis?
_No precisa responder esta tambm.
_Como foi a festa de aniversrio do seu av?
_Foi show! Ele e a minha v at danaram valsa!
_Que legal!
_Voc teria adorado... e a festa da REMA?
_Foi tima, o pessoal estava animado como sempre.
_Eu fiquei sabendo que voc ajudou na organizao.
_ isso mesmo, foi bem legal trabalhar com a Paulinha e a Letcia.
A Paula  muito divertida!
_Com certeza. Eu fico feliz que ela esteja bem. E voc, est bem?
_Estou.
_Suzana, eu...
_Leonardo,  melhor voc no falar nada sobre aquele assunto.
O restante do trajeto at a casa de Suzana foi feito no mais
absoluto silncio.
_Posso entrar?
_Eu acho que...
_S um pouco.
_Voc quer entrar para cumprimentar a minha v e meus pais?
_Hoje no, eu s gostaria de ficar um pouco com voc. Posso?
_Pode.
Entraram e por alguns instantes os dois permaneceram distantes, o
clima entre eles estava estranho, parecia que havia um obstculo
que os impedia de se aproximarem um do outro.
_Suzana... eu senti tanta saudade, s fiquei todos esses dias longe

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


de voc porque estava em Fortaleza, se eu estivesse aqui, com
certeza eu...
_Leonardo... eu...
_Eu s resolvi viajar porque a sua me me disse que voc estava
muito envergonhada, ento eu pensei que seria melhor dar um
tempo para voc. Eu nunca tive dvida que...
_Leonardo, voc  livre para decidir, no se sinta na obrigao
de...
_Obrigao? Eu amo voc. Voc acha que me passou pela cabea
desistir de voc?
_Seria natural, depois de saber...
_ Eu pensei em ligar, mas, no seria bom conversar pelo telefone...
eu me segurei para dar um tempo para voc sentir-se melhor.
_Voc no merece uma namorada traumatizada como eu.
_Suzana, no fale assim. Eu a amo e sinto muito que tenha sofrido
tanto.
Suzana abaixou a cabea e deixou que as lgrimas inundassem o
seu rosto.
_Minha princesa... como algum pde machuc-la? Como? Eu
no entendo... Suzana? Olha para mim, no precisa abaixar a
cabea, no tenha vergonha, voc no teve culpa de nada,  mais
uma vtima da crueldade de um... canalha...olha pra mim.
_No... eu sinto tanta vergonha... eu nunca quis engan-lo, mas 
to difcil dizer... agora voc sabe porque algo normal como um
namoro, pra mim  to complicado! Voc... sabe o quanto foi
difcil me... beijar; eu no quero que sofra, eu...
_Suzana, olha pra mim, me deixe enxugar as suas lgrimas... ei...
eu amo voc.
_Voc no deveria me amar.
_Minha princesa... fique pertinho de mim, no se afaste... eu a
amo tanto! Vem aqui..

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                           Tnia Gonzales



_Eu estou morrendo de vergonha.
_No... ah, meu amor... ei, como ele pde machucar estes lbios
lindos?- Leonardo comeou a acariciar os lbios dela com o dedo-
Eu vou cuidar deles com carinho... eles merecem muito carinho;
posso beij-los? Eu posso?
_Leonardo...
_Eu posso?
_Sim... voc pode.
_Ah... minha princesa, eu estou com tanta saudade deles, tanta...
meu amor...  isso que eles merecem- enquanto dizia estas
palavras, Leonardo tocava os lbios dela com os dele bem
suavemente- eles merecem carinho... eu a amo.
_Eu o amo... senti tanta saudade de voc... eu pensei que no fosse
suportar!
_Ah... meu amor, eu tambm.
Neste momento as palavras no foram mais necessrias, os dois se
entregaram completamente quele beijo apaixonado e atravs dele
puderam diminuir a imensa dor que a separao lhes havia
causado.
_Minha princesa, como  bom t-la novamente em meus braos.
_Como voc me fez falta! Eu cheguei a pensar que voc no fosse
me querer mais e isso doa tanto!
_Como voc pde pensar isso? Ainda no entendeu que eu a amo?
No posso ficar longe de voc.
_E a sua famlia?
_No se preocupe com isso, eu converso com eles.
_Eles j sabem, no ?
_No sei. Eu acho que no, falei com a minha me pelo telefone
hoje cedo e ela estava normal. No nos vimos ainda.
_Eles vo pedir para voc terminar o namoro, com certeza.
_Eu no vou terminar o nosso namoro, s haveria um motivo que

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


me faria me afastar de voc.
_Qual?
_Se voc me pedisse isso, se voc me dissesse que no me ama,
mas voc teria que ser bem convincente.
_Ah...
_Qual  a sua prxima folga?
_Domingo.
_Perfeito. Eu quero passar o dia inteiro com voc. Pense em
algum lugar que voc queira conhecer.
_Um lugar? No sei... assim, de repente,  difcil.
_Hum... o que voc acha de passarmos o dia em Campos do
Jordo? J esteve l?
_No, eu tenho vontade de conhecer.
_Perfeito. Vamos passar o dia em Campos do Jordo. Vou embora,
voc precisa descansar, faltam cinco minutos para a meia-noite.
Amanh eu vou lev-la para a faculdade, assim voc pode dormir
mais um pouquinho.
_No precisa.
_Precisa, sim. Agora, me d um beijo de despedida.




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                           Tnia Gonzales



Captulo 31 -Lcia?
Ao entrar, Suzana notou que a casa estava bem silenciosa, foi at o
seu quarto e l encontrou Sueli que a estava esperando.
_Oi, j esto todos dormindo?
_Eles esperaram at onze e meia, a vov est na tia Marisa. ,
pelo jeito o reencontro foi bom.
_Foi timo.
_Suzana, eu no quero ser a chata que vai colocar coisas na sua
cabea e atrapalhar a sua felicidade, mas eu no conseguiria
dormir se no conversasse com voc.
_O que aconteceu, Sueli?
_O Leonardo chegou hoje de Fortaleza?
_Hoje  tarde, por qu?
_Irmzinha, ele comentou alguma coisa sobre ter ido ao cinema
hoje?
_Cinema? No.
_Bom... eu vou falar! Fiquei com muita raiva hoje! Caramba!
Hoje, aproveitei a minha folga e eu fui com uma amiga ao
shopping, vi o Leonardo saindo de uma das salas de cinema com
uma garota.
_O Leonardo com uma garota?
_Tenho certeza que era ele, eu quase que fui atrs... eles estavam
juntos.
_Juntos?
_Juntos, abraados.
_No pode ser... ele chegou na loja antes das nove e meia.
_Eram mais ou menos sete horas quando eu os vi. Me desculpa, eu
sei que voc estava feliz, no sei o que significa isso, mas que 
bem estranho, isso , voc concorda?


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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_ muito estranho.
_Ele comentou se veio algum parente de Fortaleza, vai saber, de
repente  uma prima dele...
_No disse nada. Como era a garota?
_Bem nova, deve ter mais ou menos a sua idade.
_Ele tem uma prima em Fortaleza, mas ela  mais velha que ele.
_Suzana, voc deveria falar com ele.
_Eu nem vou conseguir dormir.
_Me desculpa, por que voc no liga para ele, agora?
_Agora? Est to tarde!
_E da?  melhor do que ficar com a pulga atrs da orelha, n?
_Tem razo, eu vou ligar, agora.
_Vou deixar voc  vontade, mas seja firme!

Enquanto Suzana estava conversando com a irm, Leonardo
enfrentava um interrogatrio da me, pois Sandra havia contado
tudo para ela naquela tarde.
_Me, vamos deixar este assunto para amanh.
_No. Filho, eu estou muito preocupada, isso  muito srio.  um
tipo de coisa que se carrega para a vida toda. Eu acredito que a
Suzana seja uma pessoa tima, ela no teve culpa de nada, mas ela
vai conviver com esse trauma sempre e isso pode prejudicar o
relacionamento de vocs. No quero que voc sofra. Uma vtima
de... abuso sexual, pode ter srias dificuldades para se relacionar
fisicamente, voc est me entendendo?
_Calma, me. Ns nos amamos, vamos superar isso juntos.
_Falar  fcil,  to romntico! Mas, a realidade  muito diferente!
_Lgia, deixe que o Leonardo descanse, amanh vocs conversam
melhor- pediu Rafael.
_Eu estou muito preocupada.
_Me, fique tranquila... a Sandra no deveria ter contado, eu

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                            Tnia Gonzales



queria conversar com a senhora e ela adiantou-se.
_Ela esperou at demais. A Sandra se segurou, esperou voc
chegar de viagem.
_Agradea a ela por mim- disse Leonardo com ironia- Eu vou
dormir e tente fazer o mesmo, no adianta ficar nesta ansiedade
toda e agora a senhora j sabe que o pai da Suzana no  um
monstro que espancou um pobre homem indefeso. No podemos
julg-lo e ele at j pagou pelo que fez, enquanto aquele... sujo, se
saiu bem. Boa noite para vocs.
Assim que ele entrou em seu quarto, o celular tocou.
_Suzana? Aconteceu alguma coisa?
_Me desculpe por ligar to tarde, mas eu preciso falar com voc.
Eu no conseguiria dormir se...
_Tudo bem, o que aconteceu?
_Leonardo, voc ... foi ao cinema hoje  tarde, ou melhor ontem,
afinal j  madrugada. Voc foi ao cinema?
_Fui. Quem me viu l?- perguntou Leonardo bastante surpreso.
_Minha irm. Ela viu que voc estava acompanhado de... uma
garota.  verdade?
_ verdade. Suzana, no pense que eu a estou enganando.
_Eu achei tudo muito estranho.
_Quando eu contar tudo voc vai achar mais estranho ainda.
Bom... vou resumir, voc precisa descansar, por isso vou deixar os
detalhes para amanh. Suzana, eu sa com aquela garota, que se
chama Lcia, porque ela precisa de ajuda. Ela est deprimida, e
bom... no sou psiclogo, embora a Leca diga que eu escolhi a
profisso errada, mas eu acho que ela sofre de sndrome do
pnico. Bom... ela no saa h quase sete meses. Permanece dentro
do quarto a maior parte do tempo.
_A Letcia sabe disso?
_Ela foi procurada por uma amiga, a Elisa, que  amiga da Lcia.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Um dia elas apareceram l na igreja e...
Leonardo contou resumidamente sobre a primeira vez que viu
Lcia e tambm explicou para Suzana sobre as visitas que tem
feito quela infeliz garota.
_Meu Deus, que histria! O que voc acha que provocou tudo isso
na vida dela?
_Eu estou suspeitando de algo, mas, agora  melhor desligarmos,
descanse, minha princesa. Voc entendeu, n? Eu sei que  algo
bastante incomum, mas o que eu poderia fazer?
_Entendi, mas no  fcil aceitar que o meu namorado faa visitas
para uma garota e saia com ela.
_Eu adorei o " meu namorado " e  claro que no  fcil. Amanh
conversamos melhor. Um beijo.
Assim que Suzana desligou Sueli entrou no quarto cheia de
curiosidade. As irms conversaram por alguns minutos e depois
foram dormir.

Faltavam quinze minutos para as sete horas da manh quando
Leonardo chegou para levar Suzana  faculdade.
_Bom dia, minha princesa. Dormiu bem?
_Bom dia, muito bem, h dias que no tinha um sono to bom.
_Ser que eu tenho alguma coisa a ver com isso?
_Tudo a ver.
_Que bom, mesmo com toda aquela histria da Lcia...
_Aproveite o caminho e conte mais alguma coisa.
_Bem... eu disse como ela me chama?
_No.
_Meu anjo.
_Meu anjo? E por ser?
_Ela me v como algum diferente, eu no sei explicar... algum
que veio para proteg-la,  isso.

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                           Tnia Gonzales



_Leonardo... o que voc faz quando vai visit-la?
_Eu leio a Bblia, ela sempre diz que gosta de ouvir a minha voz...
e ento eu aproveito e explico algum versculo para ela, algo que
possa falar ao corao dela. Eu sinto que Deus tem me guiado
nisso, eu at me surpreendo com as minhas prprias palavras.
_Isso  bom... mas...  complicado, ela tem a minha idade, gosta
de ouvir a sua voz e tem uma foto sua debaixo do travesseiro.
_Ela dorme com uma almofada que tem o meu rosto estampado
nela, a Letcia tambm viu.
_O qu? Ah... ela est obcecada por voc! Isso  to perigoso,
Leonardo.
_Eu fiquei assustado ao ver a almofada, mas aos poucos eu fui
percebendo que ela usa esse "interesse" por mim como uma fuga,
ela tem a necessidade de fugir da realidade, eu no sei a razo
disso, mas, tenho certeza que aconteceu algo que a fragilizou.
Algo muito grave e eu acho que o pai dela tem a ver com isso.
_O pai dela? Voc me disse ontem que os pais esto separados h
anos...
_ isso mesmo. Ele mora em outro estado, vem de tempos em
tempos, e ele est para chegar por esses dias e a Lcia fica muito
nervosa ao falar nele.
_Cuidado, Leonardo.  um assunto muito delicado. Ela... esquece.
_O que foi? Voc quer me perguntar algo, no ?
_No, e de qualquer maneira, ns chegamos e eu preciso entrar.
_Espera um pouco... faa a pergunta, eu conheo esse seu olhar.
_ que... bom... ela se aproxima de voc? Como  que... ... quer
dizer...
_Minha princesa, voc no precisa ter receio, pode perguntar o
que quiser... eu compreendo a sua preocupao. Voc quer saber se
eu tive algum tipo de contato fsico com ela, no ?
_.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Suzana, eu sou um rapaz comprometido, ei... olha pra mim... a
Lcia mantm uma certa distncia,  interessante,  como se ela
me achasse... quase que intocvel. Eu sei o que est passando
nessa sua cabecinha linda: Como  que a sua irm viu ns dois
bem juntos, no ?
_ isso mesmo.
_Eu falei ontem que ela ficou quase sete meses sem sair de casa;
para voc ter uma ideia, ela ficou com os olhos fechados at
chegarmos ao shopping. Foi muita sorte ela no ter desmaiado,
sentiu-se tonta por vrias vezes, eu ofereci o meu brao para ela,
foi s isso. Mas, eu confesso que no me senti bem, era como se
eu estivesse fazendo algo errado.
_Entendi. Agora eu preciso ir, mas... foi ela quem pediu para voc
lev-la ao cinema, no foi?
_Voc est certa.
_E se por acaso ela pedisse para voc... beij-la?
_Suzana... por favor, no me fale uma coisa dessas!
_Nunca se sabe... o que voc faria?
_Eu no quero nem pensar nessa possibilidade. tima aula pra
voc.
_Eu tenho que concordar com a Letcia, voc est na profisso
errada. E se j no bastasse ter uma namorada complicada, agora
aparece a Lcia. Tchau.

Leonardo ligou para Sandra convidando-a para almoarem juntos.
Desejava ter uma conversa sria com ela.
_Fiquei bem surpresa com o seu convite, nem falei para sua me.
_Foi melhor assim, seno, com certeza, ela estaria aqui. Sandra, eu
vou ser bem direto. Fiquei muito chateado ao saber da sua
conversa com a Suzana, a me dela me contou tudo. Eu no gostei
nada de saber que voc fez a Suzana sofrer, eu sei que ela ficou

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                          Tnia Gonzales



muito nervosa e que passou muito mal.
_Leonardo, eu no podia imaginar que ... voc sabe.
_Sim, mas no havia necessidade de faz-la sofrer tendo que
reviver momentos to terrveis. Voc provocou... ficou falando
mal do pai dela, dizendo que ele era agressivo, como ela poderia
suportar ouvir tantos absurdos  respeito do pai e ficar calada?
Sandra, aquela famlia sofreu muito. So pessoas maravilhosas.
_Leonardo, eu tive a melhor das intenes, no queria que voc
fosse enganado, mas eu no podia imaginar que ela havia sofrido
tamanha violncia! A sua me est muito preocupada e com toda a
razo. Leonardo, uma pessoa que foi vtima de um... estupro,
carrega esse trauma por toda a vida e isso prejudica os seus
relacionamentos, eu s...
_Sandra, no fique colocando essas coisas na cabea da minha
me. Eu amo a Suzana e no desistir dela por isso.
_So traumas profundos que...
_Pare com isso, Sandra. A Suzana sofreu muito e merece ser feliz.
Se for pela sua teoria as pessoas que so vtimas desse tipo de
violncia devem ficar sozinhas para no prejudicar a vida dos
outros.
_Ela pode encontrar outra pessoa, no precisa ser voc.
_Ah! Acontece que eu amo a Suzana e ela sente o mesmo por
mim. Eu estou disposto  enfrentar seja o que for para ficar ao
lado dela.
_Voc est cego, eu concordo que ela  muito bonita, mas...
_Sandra, ela  linda por dentro, a Suzana  um doce de pessoa,
apesar de ter sofrido tanto! Ela  meiga, inteligente, sensvel,
compreensiva e tem um corao enorme. Voc foi to dura com
ela e sabia que ela no falou mal de voc uma nica vez? Sandra,
eu gostei da Suzana desde a primeira vez que a vi, e olha que eu
no sou desses que acreditam em amor  primeira vista! Eu fui at

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


um shopping para comprar um perfume para minha me, com
tantas opes mais perto eu fui parar aonde a Suzana trabalha.
Quando eu vi a Suzana pela primeira vez ela estava atendendo 
um cliente e eu esperei para ser atendido por ela e depois de
alguns dias eu voltei l, s para ficar perto dela por pouqussimos
minutos, eu mesmo achei aquela situao ridcula, mas eu no
conseguia resistir e eu fiquei muito surpreso ao v-la um dia l na
IGAG conversando com a L, eu no acreditei que ela estava ali e
que pertencia  mesma igreja que eu. Sandra, eu creio que Deus
tem seus caminhos, ele tem os seus propsitos e eu acredito que
no foi por acaso que eu encontrei a Suzana. Voc pode at achar
isso um absurdo, mas  assim que eu penso.
_Leonardo, isso  tudo muito lindo, romntico, mas na hora que...
_Sandra,  melhor voc no falar mais nada sobre isso. Eu s
gostaria de pedir para que voc no tratasse a Suzana mal, ela no
merece ser desprezada, no impea a amizade dela com a L, as
duas se do muito bem. Com relao ao namoro da Letcia com o
Daniel...
_Leonardo, agora  minha vez de dizer que  melhor voc no
falar sobre isso.
_Voc no  preconceituosa, s ficou decepcionada porque
esperava que eu e a L...
_Fiquei muito decepcionada. Vocs dois tinham tudo para dar
certo. Para que se envolver com pessoas que no tm nada a ver
com vocs? Eu no me conformo com isso.
_Sandra, o Daniel  uma pessoa excelente, d uma oportunidade
para que ele demonstre isso, voc precisa conhec-lo de verdade.
Eu sei que a faculdade para voc  muito importante e para ele
tambm, ele s parou porque o pai ficou arrasado e no conseguia
fazer mais nada aps a morte da esposa. O Daniel adiou os seus
projetos para se dedicar  oficina do pai e ele est fazendo um

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                          Tnia Gonzales



timo trabalho. Se ele fosse mau-carter eu seria o primeiro 
concordar com voc porque eu gosto muito da L, tambm quero
o melhor para ela. Sandra, pense na sua filha, ela est sofrendo.
Voc sabe que tem uma filha de ouro, no seja to dura com ela!
_Eu preciso voltar  clnica e voc ao escritrio.
_Pense nesta nossa conversa com carinho. Eu sei que voc
tambm sofre com essa situao, o clima entre vocs duas est
pssimo e isso afeta a sua famlia. Converse com Deus e depois
tente um dilogo com a sua filha, voc vai ver como as coisas vo
mudar. Eu tenho certeza que voc ainda vai gostar muito do
Daniel.




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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 32 -Novamente o passado
_E ento, tudo certo para domingo? - perguntou Leonardo ao
buscar Suzana.
_Acho que sim. Ns vamos chegar a tempo para o culto?
_Provavelmente no. Quero passar um dia bem tranquilo com
voc, sem pressa. Eu... almocei com a Sandra.
_ mesmo? E como foi?
_Tivemos uma conversa bem sria, mas fomos civilizados, pode
ficar tranquila. Eu precisava falar com ela. A Sandra no  m
pessoa. Eu at consegui falar sobre a Letcia e o Daniel!
_E a, acha que teve algum sucesso?
_No sei, mas pelo menos eu mexi com ela. Tenho certeza que ela
vai refletir bastante. Princesa, amanh eu vou visitar a Lcia.
_De novo?
_No faa este biquinho para mim, agora eu estou dirigindo e no
posso fazer nada com ele.
_Voc j saiu com ela.
_Eu sei, mas o pai dela est para chegar e eu quero ver se
descubro alguma coisa antes disso.
_Leonardo, tenha cuidado.
_No se preocupe, eu sou bem discreto. Que bom que chegamos,
agora eu posso cuidar desse seu biquinho lindo.
_Voc...
_Eu?
_Voc ... mpar.
_Ah, no! Vamos comear tudo de novo?


Leonardo tinha razo ao dizer que mexeu com Sandra; aps o


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                           Tnia Gonzales



almoo ela no voltou para a clnica, foi at a casa do pastor Pedro
Gabriel para conversar com a esposa dele, a irm Rute.
_O que a est preocupando, Sandra?
_Rute... eu fico at com vergonha de dizer, mas... a minha filha
est interessada no Daniel, o filho do Isaque, o mecnico.
_Qual  o problema? Ele  um timo rapaz. Ela no 
correspondida?
_Pelo contrrio, os dois estavam at namorando escondido. Ele foi
at em casa para pedir a nossa permisso, mas eu no consigo
aceitar.
_Por qual motivo?
_Eu sempre sonhei em ver a minha filha namorando o Leonardo...
_Ah, agora estou comeando a entender. Sandra, eu concordo que
o Leonardo  um rapaz maravilhoso, qual a me que no gostaria
de t-lo como genro? Mas, se a Letcia gosta do Daniel... Sandra,
no estamos mais naquela poca que os pais arranjavam
casamento para seus filhos. Voc pode achar que a Letcia e o
Leonardo formam o casal perfeito, mas as coisas no funcionam
assim. O Daniel  um rapaz srio, cuida muito bem da famlia;
voc sabe que a me dele morreu e que o Isaque ficou muito
deprimido e que foi o Daniel que tomou conta de tudo. Qual  o
problema? Qual  o real motivo para que voc no aceite o
namoro dos dois? Seja sincera comigo.
_Ah, Rute... eu tenho vergonha de dizer, eu sei que Deus no est
nada satisfeito comigo.
_Pode falar.
_Eu olhava para o Leonardo e a Letcia juntos e pensava: Eles
formam o casal ideal; se do muito bem e nossas famlias so
muito unidas. Era perfeito. At que apareceu o Daniel e estragou
tudo. Em pouco tempo ele destruiu o que eu constru durante
anos! Ele no tem nada a ver com a minha filha, nada.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Sandra, seja sincera, incomoda o fato dele ser negro?
_Rute...
_Sandra, no se envergonhe, pode falar.
_Incomoda muito, eu no quero ter netos negros, no quero.
_Ah, Sandra! Mas,  bom que voc fale, muitas pessoas no
teriam a coragem de dizer uma coisa como essa. Muitas vezes
valorizamos coisas que no fazem a mnima diferena. As pessoas
so todas iguais, independente de raa, cor, posio social...
precisamos aprender a valorizar a essncia, o que a pessoa  por
dentro, o carter. Voc busca harmonia fsica, a sua filha
encontrou o amor. Ore, tenha uma conversa franca com Deus, sem
mscaras, porque com ele, elas no adiantam, no funcionam, ou
melhor nem existem. Deus nos v exatamente como ns somos,
no h disfarces. Ento no adianta voc fazer oraes cheias de
enfeites, de firulas, porque Ele sonda o seu corao. Deus conhece
o que voc tem de bom a dentro e isso  timo, mas Ele tambm
conhece as coisas ms; os pensamentos que voc desejaria no ter.
Saber que existe algum que nos conhece de verdade 
perturbador, nos preocupa e assusta. Sandra, deixe que Deus cuide
dos seus sentimentos, entregue tudo a Ele, sem reservas; voc ver
que tudo vai mudar.
_Obrigada, Rute. Podemos orar juntas, agora?
_Sandra, eu acho melhor voc ficar aqui sozinha, eu vou orar em
meu quarto, fique  vontade, o Pedro saiu e vai demorar para
voltar. Voc precisa falar a ss com o Pai.

Sandra, no comeo, no conseguiu falar nada, s chorava, mas,
aos poucos, ela fez a orao mais sincera que j havia feito em
toda a sua vida crist.

_Pai, me perdoe! Eu tenho sido to m e egosta, tenho vergonha

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                              Tnia Gonzales



dos meus sentimentos mesquinhos...eu no sabia que era
preconceituosa e racista... eu no consigo aceitar aquele rapaz, s
por causa da cor dele e isso  terrvel. Confessar isso di muito!
Tenho me comportado to mal com a minha filha que 
maravilhosa, ela no merece isso... me ajuda... eu quero aceitar o
Daniel, eu quero am-lo como a um filho. Retire de mim esse
preconceito horrvel!       Por favor, me perdoe! Tenho sido
intolerante e hipcrita... a Letcia tem toda a razo quando canta
aquele hino da famlia... " recebi um novo corao do Pai,
corao regenerado, corao transformado, corao que 
inspirado por Jesus" 18 Pai, eu quero receber esse novo corao...
eu preciso de verdade... e me perdoe por ter magoado aquela
moa, a Suzana, ela no merecia isso, no merecia... j sofreu
tanto, ela precisa de algum como o Leonardo, ela precisa muito.
Eu te agradeo por colocar pessoas na minha vida que no tm
medo de dizer a verdade. Obrigada, eu sei que com a sua ajuda eu
vou conseguir aceitar do fundo do meu corao, o relacionamento
da Letcia.  em nome de Jesus que eu oro, porque sei que por
causa do sacrifcio que Ele fez na cruz, eu, mesmo sendo to
pecadora, posso ter o privilgio de falar contigo, amm.

Rute voltou  sala e encontrou Sandra ajoelhada e chorando muito.
As duas se abraaram e puderam sentir a comunho que s a
presena de Deus pode proporcionar. Depois tomaram um
delicioso caf com um pozinho caseiro preparado por Rute.
Sandra saiu de l revigorada. Foi at a clnica pois havia um
paciente com hora marcada. Aproveitou para ter uma conversa
com Lgia que ficou muito feliz com a nova atitude da amiga.


18 Corpo e famlia- Compositor: Daniel Souza

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_O qu? Eu no estou entendendo, Leonardo?
_Voc sabe muito bem o que eu quero dizer... Suzana, no
mantenha essa distncia de mim, eu sou o seu namorado... eu
quero aproveitar bem o nosso dia, afinal estamos s ns dois aqui,
podemos fazer tudo o que tivermos vontade.
_No  bem assim... eu no estou te reconhecendo... voc est
muito estranho hoje.
_Estranho, eu? Estou agindo normalmente. O que voc acha que
os namorados fazem? Que s ficam nesses beijinhos sem graa?
Se voc pensa isso est muito enganada. Suzana, minha princesa...
vem aqui... fica pertinho de mim, estamos sozinhos, eu te amo
tanto!
_Eu vou ficar longe de voc, no estou gostando nada dessa sua
conversa. O que est acontecendo com voc?
_O que est acontecendo comigo? Eu tenho uma namorada que
me nega um msero carinho,  isso. Ela no compreende que
preciso ter a certeza de que ela me ama! Voc acredita que para
conseguir beijar a minha linda namorada foi um sacrifcio
enorme? D para acreditar nisso? Suzana, estamos s ns dois
aqui e nada!
_Parecia que voc havia compreendido a razo do meu medo,
voc foi to atencioso e...
_Eu cansei de ser to bonzinho! Basta! Minha princesa, vem
aqui... estamos perdendo tempo. Voc acha que eu vim at
Campos do Jordo para olhar as lindas paisagens? Para curtir o
clima? Eu vim aqui para ter um pouco de privacidade com voc. E
agora chega de conversa... ns viemos aqui para namorar e eu no
vou ficar satisfeito s com alguns beijinhos, no mesmo! Vem
aqui, Suzana.
_No faa isso, eu pensei que voc...
_Pensou que eu fosse o qu? Suzana, eu sou homem! Eu preciso

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                           Tnia Gonzales



de voc.
_Eu quero ir embora.
_Embora? No mesmo! No vou perder a viagem... voc  uma
ingrata,  isso o que voc ... eu tenho sido to paciente com voc,
acho que mereo uma recompensa.
_No, por favor! Vamos sair daqui!
_Para comear eu quero que voc me d um beijo. Eu vou ficar
esperando, mas no demore, no sou to paciente assim como
voc imagina.
_Leonardo, no faa isso! Voc est estragando tudo! Eu confiei
em voc e...
_ O qu? Chega dessa conversa, voc est falando demais. Se
voc no quer se aproximar ento eu vou at voc, no vou
esperar mais...
_No, por favor, no se aproxime... estou com medo de voc.
_Medo de mim? Eu sou o seu namorado, eu mereo que voc me
d um pouco de ateno. Aquele homem conseguiu tudo o que
quis de voc, e eu? Nada? No, isso no vai ficar assim... eu quero
voc e agora.
_No, no, por favor, Leonardo, no se aproxime de mim...

Suzana acordou chorando e tremendo muito. Olhou para a vov
Vivi e sentiu-se aliviada por ela estar em um sono profundo.

Durante o trabalho, Suzana pensou muito sobre o pesadelo da
noite anterior. Naquela noite, ao encontrar-se com Leonardo em
frente  loja, ela no conseguiu agir normalmente, quando ele se
aproximou para beij-la, ela, inesperadamente, afastou-se.
_O que foi? Algum problema?
_No. Est tudo bem. Vamos?
_Eu no vou ganhar um beijo? Eu fiz alguma coisa errada?

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Voc no fez nada errado. Vamos?
_Suzana, o que foi?  por causa que eu fui visitar a Lcia? Voc
ficou chateada, no ? Eu fui at l, mas nem falei com ela porque
ela estava dormindo. A Rita me disse que ela dormiu muito mal
ontem. O pai dela vai chegar tera-feira, deve ser por isso.
_No fiquei chateada por voc ter ido at l.
_Vamos at o carro, l ns conversaremos melhor.
Leonardo pegou a mo de Suzana que estava muito fria e mida.
Suzana ficou calada durante todo o caminho at o estacionamento.
O silncio foi quebrado por Leonardo assim que entraram no
carro.
_Minha princesa, o que aconteceu?
_Nada. Leonardo, voc ficaria chateado se ns no fssemos para
Campos do Jordo, domingo?
_Por que voc mudou de ideia to de repente?
_Eu no quero ir.
_Posso saber o motivo?
_Eu no estou com vontade,  s isso.
_Suzana, olha pra mim... eu j estou te conhecendo bem, sabia?
Aconteceu alguma coisa.
_No foi nada e chega de me perguntar isso.
_, seja o que for, deve ser bem srio.
Leonardo no conseguiu tirar mais nenhuma palavra dela.

_Posso entrar?
_Eu acho melhor no, no fique bravo comigo, eu estou muito
cansada hoje.
_Suzana, ns precisamos conversar, no se feche desse jeito, por
favor. Voc est inacessvel e isso  pssimo para o nosso
relacionamento. Deixe que eu entre, fale comigo.
_Ah... Leonardo, eu avisei que no seria uma boa namorada para

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                          Tnia Gonzales



voc, eu avisei.
_No vamos ficar aqui no porto.
_Tudo bem...vamos entrar.
_Fale, o que aconteceu? A minha me te procurou?
_No  nada disso. Eu no posso contar, voc me odiaria.
_Como eu poderia odi-la? Eu te amo. Vem aqui, fique perto de
mim.
_No... eu no posso me aproximar de voc.
_Por qu?
_Estou com medo.
_Medo de mim?
_Me perdoa! Eu no queria isso... eu no... voc no merece isso.
_Suzana, fala comigo.
_Eu sou horrvel!
_No  no, voc  linda! Por que voc est to longe de mim?
_Eu... tive um pesadelo com voc, eu nem deveria contar isso,
voc vai ficar muito zangado.
_Pesadelo comigo? Suzana, ns no podemos controlar os nossos
sonhos. Eu no sei o que aconteceu em seu sonho, mas seja o que
for, voc no teve culpa e nem eu.
Com muita dificuldade, Suzana contou sobre o seu pesadelo para
Leonardo.
_Ah... agora eu entendi porque voc se afastou quando eu fui
beij-la. Ento  por isso que voc no quer viajar comigo!
Bom... eu no posso obrig-la, se voc no se sente segura
comigo... se no confia em mim, o que eu posso fazer?
_Isso machucou voc,  lgico. Eu disse que voc no deveria
namorar comigo, eu disse.
_Suzana...
_Eu sou uma ingrata mesmo, pelo menos nisso o Leonardo do
sonho tem razo. Voc  to bom pra mim e eu tenho a coragem

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


de sonhar esse tipo de coisa ?
_Ah, como se voc tivesse poder sobre os seus sonhos! Suzana,
voc se culpa demais, at pelos sonhos? Olha, ns no precisamos
ir para Campos, no tem problema algum.
_Voc quer entrar um pouco?
_Eu gostaria de cumprimentar a sua famlia, mas j est tarde.
_ rapidinho, a minha v quer v-lo.

_Leonardo, quanto tempo! J estava com saudades, como voc
est bronzeado!- disse alegremente a vov Vivi.
_Oi, v, fico feliz em v-la. Tambm estava com saudades. E o
restante da famlia?
_A Marina est trabalhando, o Davi j foi dormir e a Sueli no
chegou da faculdade ainda. Domingo vocs vo fazer um belo
passeio, no ?
_Bem...  que ...
_Vamos sim, v.
_Antes que eu volte para Belo Horizonte, eu quero marcar um
jantar, certo?
_Certssimo, pelo jantar, agora sobre a senhora voltar para BH,
no concordo.
_Eu preciso ir, a minha filha me espera, ela est to ansiosa!
_Vou ficar com muitas saudades.
_Voc pode me visitar l.
_Eu vou, pode estar certa disso. Boa noite, v.
_Boa noite, meu neto querido.

_O que foi aquilo? Por que voc no disse para sua v que ns no
amos mais?- perguntou Leonardo ao se aproximarem do porto.
_Porque ns vamos.
_Vamos? Suzana, voc disse que...

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                          Tnia Gonzales



_ um absurdo no irmos por causa de um sonho bobo.
_Eu no quero que voc faa isso s para me agradar.
_Eu quero ir para Campos com voc. Eu nem deveria ter contado
o sonho.
_Ento tudo bem, tchau.
_S isso? No vai me dar um beijo?
_Voc me evitou l no shopping, lembra? Eu no quero forar
nada, eu no sou aquele Leonardo do seu sonho.
_Voc est magoado e tem toda a razo. Leonardo, no vai embora
assim... vem aqui, vem... eu confio em voc, eu no tenho medo,
me perdoa.
Suzana se aproximou, colocou a cabea no ombro dele e comeou
a acariciar-lhe o rosto. Depois afastou-se um pouco e ficou
olhando para ele por alguns segundos, em seguida puxou-o para
perto, encostou o rosto no dele e ficou apreciando o perfume da
loo aps barba que ela adorava. Leonardo permaneceu imvel,
deixando que ela tomasse a iniciativa.
_Eu confio em voc... confio... eu amo voc- dizia ela enquanto
dava pequenos beijos no rosto dele... aos poucos os lbios dela
tocaram os dele e ela o beijou, a princpio bem suavemente; at
aqui, Leonardo deixou-a no controle, sem nem sequer abra-la...
mas quando ela intensificou o beijo, ele a apertou sobre o seu
peito e a beijou apaixonadamente.
_Boa noite, minha princesa e no sonhe comigo.
_No gostei da piada.
_Tem razo, foi bem sem graa. Boa noite. At amanh.




                              364
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 33 -Campos do Jordo

Ao buscar Suzana naquela noite de sbado, Leonardo percebeu o
quanto ela estava se esforando para anim-lo. Falou o tempo todo
sobre o passeio que fariam no dia seguinte. Comentou sobre os
pontos tursticos e em como estava ansiosa para ver tudo.
_Nossa, que animao! - foi o comentrio dele.
_Voc que no est nem um pouco animado, no ?
_No  isso. Suzana voc no precisa demonstrar algo que no
est sentindo. No combina com voc. No adianta disfarar. Voc
no est to ansiosa assim por causa do passeio. Voc est 
preocupada, isso sim.
_No  verdade. Eu estou animada por causa da nossa viagem
para Campos do Jordo, sim.
_Tudo bem, eu vou fingir que acredito. Bom... at amanh.

Suzana levantou-se s seis horas da manh aliviada por ter
dormido tranquilamente. Tomou banho e foi fazer um caf,
apesar de ter combinado com Leonardo que tomariam o caf
juntos em alguma padaria, mas seria s um cafezinho puro para
despertar.
Quando faltavam dez minutos para as sete, ela recebeu um torpedo
do namorado dizendo que j estava esperando no porto. Pegou a
sua bolsa e saiu para encontr-lo. Estava vestida com jeans,
camiseta e um tnis bem confortvel.
_Bom dia, minha princesa. Dormiu bem?
_Dormi maravilhosamente bem- disse ela cumprimentando-o com
um carinhoso beijo.
_Voc est linda, mesmo com essa carinha de sono. Eu tenho uma
surpresa para voc, ou melhor, duas.

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                          Tnia Gonzales



_Surpresa?
_Olha s quem vai conosco...
Letcia e Daniel estavam dentro do carro e tambm iriam para
campos do Jordo.
_No acredito! Vocs dois juntos? A sua me...
_Ela sabe. Estamos aqui com permisso.
_Que legal!
_Oi, Suzana, Deus fez um milagre! - disse Daniel todo sorridente.
_Su, Deus usou o So Leonardo e tambm a irm Rute para
conversar com a minha me- explicou Letcia toda animada.
_So Leonardo?
_ isso mesmo, Su. O Lo almoou com ela...
Durante o caminho, Letcia contou sobre a conversa da me com a
irm Rute. Aps alguns minutos, eles pararam em uma padaria.
_Vamos tomar um belo caf? - perguntou Leonardo- depois eu
gostaria de saber como foi a sua conversa com a Sandra, certo,
Leca?
_Vou contar tudo.

Suzana aproveitou que Daniel e Letcia estavam um pouco
distantes para perguntar algo ao namorado.
_Leonardo, voc convidou os dois s por causa daquele sonho,
no foi?
_O qu? Eu quis convid-los. Voc no gostou?
_ claro que eu gostei! S no gostei do motivo. Voc no havia
pensado em convid-los. Eu...
_Minha princesa, eu s queria que voc tivesse um belo dia em
Campos do Jordo, sem se preocupar com nada, sem medos e...
_Est vendo s? Se ns fssemos sozinhos eu no...
_Tudo bem... esquea isso. Eu tive a ideia, s que no imaginei
que seria possvel. Eu fiquei bem surpreso com a reao da

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Sandra.
_Voc acha que eu no confio em voc, no ? Leonardo... me
perdoe.
_Suzana, para com isso! Voc no tem culpa se sonhou que...
_No tenho culpa por ter sonhado, mas por ter evitado o seu beijo
e por no querer mais viajar, eu tenho culpa sim.
_Chega... vamos tomar caf, eles esto nos esperando. E no fale
mais sobre este assunto.
Suzana concordou, mas estava se sentindo muito culpada.

_E ento, Leca? Como foi a conversa com a sua me? - perguntou
Leonardo ao entrarem no carro aps tomarem o caf.
Letcia lembrou da conversa especial que teve com a me na tarde
de sbado.
_Filha, preciso falar com voc.
_Pode falar, mas se for sobre o Daniel....
_ sobre ele mesmo que eu quero falar. Me escute, filha, eu sei
que tenho sido muito intransigente com relao ao seu namoro. Eu
confesso que fiquei muito decepcionada. Eu esperava que o
Leonardo....
_Me? Vai comear tudo de novo?
_Fique tranquila. Deixa eu falar... eu esperava que voc e o
Leonardo namorassem; era o meu sonho e por isso fiquei to
decepcionada. Eu disse que era o meu sonho, mas no era o seu e
nem do Leonardo. Doeu muito, fiquei arrasada e fechei o meu
corao. Eu no me conformava com o fato da minha filha estar
namorando algum que no fosse o Leonardo. Para mim era
inadmissvel. Eu sei que magoei vocs. Fui injusta at com a
Suzana, eu sei que preciso ter uma conversa com ela tambm. Eu
olhava para a Suzana e sentia raiva porque o Leonardo estava
apaixonado por ela e no por voc. Filha, ontem eu almocei com o

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                          Tnia Gonzales



Leonardo e depois fui at a casa da irm Rute. Deus usou os dois
para abrir os meus olhos; eu estava me sentindo pssima... no
conseguia aceitar o Daniel e isso era um absurdo! Eu abri o meu
corao para Deus, e ento eu enxerguei que estava sendo
preconceituosa. Foi duro reconhecer o meu erro, mas depois veio
um alvio enorme. Por isso eu quero pedir perdo para voc e ao
Daniel tambm e dizer que a partir de hoje vocs tm a minha
permisso para namorarem.
_Me? Ah... me! Obrigada! Me perdoe tambm por ter falado
algumas coisas que...
_Voc no precisa me pedir perdo, eu estava errada.
_Minha me! Estou to feliz! No imagina o alvio que estou
sentindo, no aguentava mais ficar sem conversar com voc, me!

Me e filha se abraaram e permitiram que as lgrimas flussem
livremente.

_Depois desta conversa, eu liguei para o Daniel e  noite ele foi
at em casa e pediu novamente permisso para namorarmos e foi
timo, minha me at o abraou e pediu perdo tambm.
_Que beno! Deus sempre nos surpreende - comentou Leonardo.
_Letcia, estou to feliz por vocs! - disse Suzana com
sinceridade.
_Deus  fiel! Eu orei tanto, chorei, clamei - disse Letcia.
_E aqui estamos. Deus agiu em nosso favor- completou Daniel.

Durante o percurso at Campos do Jordo eles mantiveram uma
animada conversa. s 10 horas chegaram  "Sua brasileira".
Foram para a Vila Capivari que  o principal centro turstico da
cidade. Aps caminharem um pouco, pegaram o Bondinho Urbano
que  um pequeno trem turstico. Ele sai da Estao de Vila

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Capivari e faz um percurso que dura aproximadamente 40
minutos. Depois andaram de Telefrico e conheceram o Morro do
Elefante. Aps um delicioso almoo, Leonardo sugeriu que eles
fossem para o Parque dos Lagos que  uma das reas naturais mais
importantes e visitadas e  localizado a 11 km do centro da
cidade. Andaram um pouco pelo parque e depois fizeram um
passeio de barco. Os dois casais apreciaram muito o passeio.
Aps um lanche rpido continuaram a visita pelo parque.
Eram sete horas quando eles retornaram para a Vila Capivari.
_Eu no sei quanto  vocs mas eu estou cansado e com fome!
Que vocs acham de um delicioso jantar antes de voltarmos?-
perguntou Leonardo.
Todos concordaram e aps um apetitoso jantar eles pegaram a
estrada.

s 23h Leonardo j estava sozinho com Suzana na garagem da
casa dela.
_Adorei o passeio. Eu s no posso dizer que estou
completamente feliz porque eu sei que... - Suzana no conseguiu
completar, foi interrompida por Leonardo.
_Suzana, no comea... o passeio foi maravilhoso.
_Eu preciso falar, Leonardo. Voc tem razo ao dizer que o
passeio foi maravilhoso e eu fiquei muito feliz pelo namoro da
Letcia e o Daniel agora ter a aprovao da Sandra e eu adoro a
companhia deles, mas eu no me perdoo... eu sei que voc ficou
magoado. Voc fez questo de convid-los para que eu viajasse
tranquila. Leonardo eu no tenho medo de voc, eu confio em
voc, acredite em mim!
_Minha princesa, voc no precisa falar estas coisas, eu sei que
voc confia em mim. Meu amor...
Aps dizer isso, Leonardo se aproximou dela e a beijou.

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                           Tnia Gonzales



_Me perdoa...
_No precisa pedir perdo, minha princesa.
_Diz que me perdoa, por favor!
_Se isso far voc se sentir melhor, tudo bem, eu a perdoo.




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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 34 -O pai de Lcia
Lcia acordou muito assustada, era tera-feira. Ela pegou o celular
e ficou pensando se deveria fazer uma ligao, verificou a hora:
passava das nove horas da manh. Decidiu ligar.
_Al? Sim,  o Leonardo. Lcia? Voc est bem? Voc quer que
eu v at a, agora? Calma. Aconteceu alguma coisa? Ele vai
chegar s 11horas? Lcia... fique tranquila. Tudo bem, eu vou sair
daqui agora mesmo. Tchau.
Leonardo resolveu passar em sua casa e pegar o violino, ele havia
prometido que tocaria para Lcia e achou que aquela era uma
tima oportunidade.
_ Leonardo, eu agradeo a sua ateno, eu sei que voc deveria
estar trabalhando agora, mas ela est to aflita! - disse Rita ao
receb-lo.
_No se preocupe, eu vou conversar com ela.
Segundos depois, Leonardo entrou no quarto de Lcia tocando o
seu violino.
_Meu anjo... meu anjo... que som mais lindo! Toque mais, no
pare.
Leonardo tocou uma msica bem suave que ele mesmo comps.
_Esta msica  linda! Toque mais - pediu Lcia.
_Agora eu gostaria de ter uma conversa com voc, Lcia. O seu
pai est para chegar.
_Eu sei... estou com medo! No quero ficar sozinha com ele, por
favor, fique comigo!
_Fique calma, Lcia, por que voc... - Leonardo fez uma pausa,
pois no tinha certeza se deveria fazer aquela pergunta, mas
resolveu arriscar- por que voc tem medo de seu pai?
Lcia abaixou a cabea e ficou em silncio.


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                          Tnia Gonzales



_Lcia, me responda! Ele machucou voc?
Sem obter resposta, Leonardo insistiu:
_Lcia, o que ele fez? Qual o motivo para tanto medo? Ele
machucou voc?
_Ele machucou o meu corao.
_Como? O que ele fez?
_Machucou o meu corao... ele machucou o corao dela,
tambm, mas no foi s o corao dela ... ele a machucou muito...
_Quem  ela?
_Ela... ela... era to linda.
_Ela quem, Lcia?
_Ela.
Foram interrompidos por uma batida na porta. Era Rita
anunciando a chegada de seu ex-marido.
_Fique perto de mim, por favor!
_Calma, Lcia.
Leonardo chegou bem perto e segurou a mo de Lcia que estava
muito fria e mida.
_Voc quer ir at a sala?
_S se voc no deixar ele se aproximar de mim.
Leonardo concordou mesmo sem saber se isso seria possvel.
Ao chegarem  sala Lcia se posicionou atrs de Leonardo e ficou
apertando a mo dele com muita fora.
_Minha filha, como voc est linda! - disse o homem alto e
musculoso- Vem aqui eu quero dar um abrao bem forte e vrios
beijos.
Paula continuou atrs de Leonardo sem dizer uma palavra, ele
ficou sem saber o que fazer. Observou, por alguns segundos,
aquele homem que aparentava ter uns 50 anos e chegou 
concluso que ele deveria ter uns dois metros de altura. O pai de
Lcia tinha uma aparncia imponente.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Paulinha, fale com o seu pai.- pediu Rita meio sem jeito.
_E ento? Vai ficar a se escondendo de mim? E este rapaz  o seu
namorado?
Como Lcia continuava parada e sem dizer nada, Leonardo
resolveu se apresentar:
_Eu sou um amigo dela, meu nome  Leonardo.
_Leonardo, muito prazer, eu sou Valter.
_Eu quero voltar para o meu quarto- pediu Lcia quase
sussurrando para Leonardo.
_Minha filha, h quatro meses que eu no a vejo e  assim que sou
recebido? Eu quero um abrao e um beijo. O que o rapaz vai
pensar?
Valter se aproximou de Lcia, a abraou e beijou, mas ela ficou
dura como uma pedra e assim que se viu livre dos braos dele,
correu para o quarto.
_Jovens! Quem os entende? Ela deve estar brava porque eu
demorei muito para visit-la; mas eu sou muito ocupado.  a vida,
Leonardo,  a vida!
_Bom, eu... vou conversar com ela, com licena- disse Leonardo
para em seguida sair rapidamente da sala.
_Rita, voc deixa esse rapaz entrar no quarto dela?
_Valter, no pense bobagens, ele a est ajudando muito,  muito
atencioso.
_Atencioso... sei.
_Voc no tem o direito de pensar mal dele, eu no vou admitir
isso.
_Nossa! Ele tambm conquistou voc?
_ melhor ir embora, voc sabe muito bem o quanto a sua
presena faz mal  nossa filha.

No quarto de Lcia...

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                          Tnia Gonzales



_Fala comigo, Lcia! Por que voc est assim? Voc ficou
apavorada ao v-lo, por qu?
_Eu no quero falar. S quero que ele v embora e no volte
nunca mais.
_Por qu? O que ele fez com voc?
_Ele... acabou com os sonhos dela, ele a machucou.
_Como? O que ele fez? A sua me sabe?
_Minha me sabe de tudo.
_Lcia, foi por isso que eles se separaram?
_No quero falar.
_Lcia, eu quero muito ajud-la, mas se voc no...
_Por favor, meu anjo, chega.
_Tudo bem, se voc no quer falar eu vou respeitar a sua deciso.
Lcia, eu preciso ir, tenho que voltar ao trabalho. Amanh eu
volto.
_Meu anjo, obrigada.
_No precisa me agradecer.
Leonardo saiu do quarto e encontrou Rita no corredor.
_Ele j foi?
_Acabou de sair. Como ela est?
_Assustada. Rita, eu j percebi que  um assunto que vocs duas
evitam, mas, eu preciso saber...
Leonardo no conseguiu completar, foi interrompido por Rita.
_Eu peo que voc no insista, quem sabe um dia eu conte, mas eu
gostaria que a Lcia tomasse a iniciativa de contar para voc.
_Ah, tudo bem, o que eu posso fazer? Bom... preciso ir, volto
amanh.
_Agradeo muito. A sua presena  muito importante para a minha
filha.
Leonardo se despediu, j estava perto da porta quando lembrou
que havia deixado o violino no quarto de Lcia.

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     Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Eu esqueci o meu violino no quarto da Lcia, voc poderia peg-
lo para mim?
_Claro.
Rita j estava se encaminhando at o quarto da filha quando o
telefone tocou.
_Leonardo, voc mesmo pode buscar, vou atender ao telefone.
Ele se aproximou do quarto de Lcia que estava com a porta
entreaberta, ia bater, mas mudou de ideia ao ouvir a voz de Lcia.
_Eu sinto muito, amiga! Me perdoe... voc sofreu tanto! Minha
amiga querida... ele  um monstro, um monstro... como deve ter
dodo! Minha amiga... minha amiga.
Leonardo estava impressionado com as palavras de Lcia, ele
esperou por mais alguns segundos, e, como ela estava em silncio,
resolveu dar uma leve batida na porta.
_Entre.
_Lcia, me desculpe, mas eu deixei o meu violino aqui.
_Meu anjo... ele... ele foi embora?
_Ele j foi. Voc est melhor agora?
_Um pouco. Voc pode tocar algo para mim, rapidinho.
_Eu toco. Eu gosto muito de um louvor que diz assim: " Perto
quero estar, junto aos teus ps, pois prazer maior no h, do que
me render e te adorar..."19 Vou tocar, porque a minha voz no 
to boa.
_Eu acho que a sua voz  linda.
_Voc  um anjo.
Leonardo comeou a tocar e Lcia fechou os olhos, poucos
segundos depois as lgrimas comearam a molhar o seu rosto. Ele
continuou tocando e quando terminou se aproximou daquela
atormentada garota e a abraou com carinho; Lcia nunca havia se

19 Perto quero estar-Compositor: Desconhecido

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                          Tnia Gonzales



sentido to segura, aquele abrao a confortou, as lgrimas
continuaram a rolar.
_Obrigada, Leonardo, obrigada. No sei o que seria de mim sem
voc.
_Querida... voc pode contar comigo, sempre vou estar ao seu
lado. Lcia, voc confia em mim?
_Claro que confio.
_Ento me diga o que aconteceu. O que ele fez? Quem  esta
pessoa que ele machucou?
_ algo muito feio, eu tenho vergonha de dizer.
_Lcia, o seu pai... ele...
_No fale, meu anjo- Lcia colocou a mo na boca de Leonardo-
No fale,  muito feio,  horrvel.
Leonardo tirou a mo dela que estava fechando a sua boca e a
acariciou.
_Lcia, quem  esta pessoa que o seu pai machucou?  voc?
_Chega. Eu no quero contar.
Leonardo pegou o violino colocou em seu estojo, deu um beijo no
rosto de Lcia e saiu do quarto. Resolveu no insistir mais com o
assunto, pelo menos por enquanto. Ao sair de l teve a ideia de
fazer uma visita a um amigo da igreja.
_Lo, que surpresa! Voc aqui em meu humilde consultrio? -
disse Henrique com alegria.
_Henrique, meu amigo, me desculpe por no ter ligado, ser que
voc teria um tempinho?
_ claro, Lo. Sente-se e fique  vontade. Aceita um caf?
_Aceito, obrigado.
Henrique era formado em psicologia e tinha um consultrio h 6
anos. Ele era membro da IGAG desde a adolescncia; agora estava
com 32 anos e era casado com Shirley, uma sobrinha do pastor
Pedro Gabriel.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Henrique, eu gostaria de saber a sua opinio sobre um assunto.
Leonardo contou tudo, desde quando conheceu Lcia at a visita
do pai dela; Henrique ouviu atentamente sem interromp-lo.
_O que voc acha? Esta amiga que ela se refere, pode ser ela
mesma?
_Lo, eu j atendi mais de um caso exatamente assim. A pessoa
no consegue dizer que aconteceu com ela, ento ela inventa
algum. Eu tive uma paciente que deu nome, sobrenome, idade,
profisso... tudo diferente dela e no fim era ela mesma.  um tipo
de proteo que a pessoa cria. Ela tem a necessidade de falar algo
sobre o assunto, mas no deseja se expor. Pode ser o caso da sua
amiga. Voc poderia tentar traz-la aqui.
_Ah...acho que no. Henrique, ela no se abre, eu fico deduzindo
pelo o que ela diz. Eu acho que s pode ser abuso sexual, mas...
_ bem provvel, mas pode ser tambm que ele batia muito nela
quando ela era criana. Voc disse que a Lcia ficou apavorada,
ento no pode ser s uma raiva por ele ter se separado da me,
por exemplo.
_No, isso no, e foi a me dela que quis a separao. A Lcia
disse vrias vezes que ele  um monstro e ao v-lo ela ficou
desesperada, dava para ver o quanto ela tem medo dele.
_Pelo que voc me contou ela confia em voc, ento  s uma
questo de tempo, ela vai contar. Lo,  necessrio muito tato para
tratar desses assuntos, precisa ir bem devagar. No convm ficar
insistindo. A sua companhia e a sua compreenso a est ajudando
muito, ento continue assim, eu sei que no  fcil, ainda mais
para voc que tem uma namorada, mas no se afaste dela agora.
_Eu sei, amanh eu vou voltar para visit-la. Henrique, mais uma
coisa: nos casos de abuso sexual... ...  um trauma que a pessoa
carrega por toda a vida? Algum que sofreu uma violncia assim,
consegue superar e ... bom... consegue se relacionar normalmente,

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                          Tnia Gonzales



ou...
_Lo,  um trauma profundo porque  uma violncia terrvel. Note
bem, uma garota que foi vtima de um estupro, teve a sua
intimidade violada. Algum chega de repente e invade o corpo
dela. Tem todo um processo de recuperao, muita conversa,
carinho dos familiares, mas com muito cuidado, porque h garotas
que ficam com muita dificuldade, elas no conseguem sequer ser
abraadas, ficam apavoradas. Eu tive uma paciente que sofreu um
abuso quando tinha 13 anos , o trauma foi to grande que ningum
podia se aproximar dela, nem a prpria me. Demorou um bom
tempo para que ela permitisse a aproximao. A palavra chave:
compreenso; outra: pacincia. Mas, muitas conseguem superar,
formam uma famlia e so felizes. Meu amigo, voc j pensou em
mudar de profisso?
_Henrique, no brinca. Tratar com o emocional das pessoas no 
para qualquer um, eu deixo isso com voc. Eu acabei entrando
nessa situao e agora no tem para onde fugir e nem quero; eu
me preocupo muito com a Lcia e gostaria que ela vivesse como
uma jovem de 19 anos, que estivesse estudando, trabalhando,
namorando...
_Ela vai superar isso. Se voc quiser que eu v visit-la...
_Henrique, eu tenho medo que ela fique chateada e perca a
confiana em mim.
_ Tudo bem. Continue sendo um bom amigo para ela.

Leonardo voltou para o trabalho e no conseguia parar de pensar
em Lcia e em seu conturbado relacionamento com o pai. Pensou
muito em Suzana tambm e na resposta que Henrique deu para a
pergunta dele sobre ser possvel superar o trauma de uma
violncia to grande como o estupro.
 noite foi buscar a namorada no trabalho e contou tudo o que

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


havia ocorrido naquela manh na casa de Lcia e tambm sobre a
sua conversa com Henrique, mas preferiu omitir a ltima pergunta
que havia feito ao amigo, no queria que ela se entristecesse.
_Leonardo, cuidado com esse homem, se a Lcia tem tanto medo,
ele deve ser perigoso. Voc precisa mesmo voltar l amanh?
_Preciso, eu no posso abandonar a Lcia nesse momento, eu
espero que voc compreenda.
_Sim, eu entendo, mas eu tenho medo que possa sobrar para voc,
esse homem...
_Fique tranquila, logo ele volta para a cidade dele. Ele tem
muitos negcios em Porto Alegre. A me da Lcia me contou que
aps a separao deles, ela mudou-se para c com a filha e ele foi
para Porto Alegre e casou-se novamente, tem dois filhos. Eles
eram de Minas Gerais.
_ mesmo? Qual cidade?
_No sei. Ela s me disse que moravam em Minas. Vamos parar
com esse assunto, agora eu quero...
_O que voc quer?
_Voc no consegue adivinhar?
_Hum... deixa eu pensar... ser que  algo que eu tambm quero?
_Eu espero que sim, minha princesa.
Leonardo chegou mais perto dela e beijaram-se longamente.
_Ah... que bom... isso me faz esquecer de tudo. Suzana, eu amo
voc.
_ to gostoso ouvir isso, e eu o amo tambm, muito, muito,
muito.

Naquela noite, ela teve um pesadelo. Estava caminhando em uma
rua deserta, ouviu alguns passos... havia algum atrs dela... ela
andou mais rpido e depois comeou a correr... os passos
continuavam e estavam cada vez mais perto, ela corria mais e

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                          Tnia Gonzales



mais rpido e percebeu que a pessoa tambm estava correndo. De
repente ela escorregou e caiu, sentiu que algum a levantou,
quando ergueu a cabea, ela o viu... e agora? Como iria escapar?
No havia mais ningum ali. Ele deu um sorriso e disse:
_Que saudades! Pensei que nunca mais me encontraria com voc,
minha menina linda!
Suzana acordou assustada.




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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 35 - Nunca fui beijada
Eram duas horas da tarde quando o celular de Leonardo tocou, era
Lcia suplicando para que ele fosse at a casa dela pois o pai
havia avisado que chegaria s trs horas.

_ Eu sinto muito, Leonardo, eu sei que voc precisa trabalhar, mas
ela s consegue se sentir segura com voc por perto- explicou
Rita.
_No se preocupe, eu vou l conversar com ela enquanto ele no
chega.
Leonardo deu uma leve batida na porta e a seguir ouviu Lcia
gritando:
_Voc no vai entrar aqui, voc no vai... volta para sua famlia,
eu no sou mais sua filha.
_Lcia, sou eu... Leonardo.
_Eu odeio voc, eu odeio voc, eu odeio voc.
_Lcia, no  o seu pai, voc me ligou, lembra?
_Meu anjo?  voc?
_Sou eu mesmo.
_Rpido, antes que ele venha, entre.
_Lcia, acalme-se, ele nem chegou ainda. Como voc est agitada
hoje!
_Eu no quero falar com ele. No me obrigue.
_Eu no vou obrig-la a fazer o que no quer, fique calma. Voc
estava assistindo algum filme?- perguntou Leonardo ao ver a TV
ligada.
_Quer assistir comigo?  um romance,  a histria de dois amigos
que depois de um beijo descobrem que esto apaixonados. Falta
pouco para acabar.


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                          Tnia Gonzales



_Pode continuar assistindo eu a acompanho.
Aps vinte minutos o filme terminou. Leonardo percebeu que
Lcia estava bem pensativa.
_Eu tive uma ideia- disse ela depois de alguns instantes em
silncio.
_Ideia?
_Leonardo... eu nunca fui beijada.
Ele no estava esperando ouvir aquelas palavras. Lcia nunca
havia falado nada sobre esse tipo de assunto. Leonardo, com
receio do que viria depois, permaneceu em silncio.
_Voc ouviu o que eu disse?
_ claro que eu ouvi, Lcia.
_O que voc acha?
_Eu? Bom... ... um dia voc vai conhecer algum e...
_Eu tive uma ideia. Eu no gostaria de ser beijada por qualquer
um, eu sei que para muitas meninas isso  bem normal, mas eu
quero ser beijada por algum muito especial.
_Um dia voc vai encontrar algum e....
_Eu j encontrei.
Leonardo lembrou de uma pergunta que Suzana fez: " E se ela
pedisse um beijo para voc? "E estava torcendo para que Lcia
no fizesse esse tipo de pedido.
_Voc ouviu o que eu disse? Eu j encontrei.
_Ouvi sim.
_ voc. Voc  muito especial para mim. Eu nunca fui beijada e
quero que voc seja o primeiro.
Leonardo no queria acreditar no que havia acabado de ouvir. E o
pior, Lcia, que raramente o encarava, estava com os olhos fixos
nele.
_Lcia... eu...
_Leonardo, eu quero ser beijada por voc, eu nunca teria a

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


coragem de falar assim com outro rapaz. Voc me encoraja, sabia?
Eu me sinto to segura quando voc est perto!
Ele no sabia o que fazer. No queria mago-la, mas...
_Lcia, eu acho que ns no podemos confundir as coisas, somos
amigos.
_Voc viu o que aconteceu no filme? Eles descobriram que
estavam apaixonados depois do beijo.
_Lcia,  um filme.
_Mas, essas coisas acontecem. Voc acha que eu sou feia?  isso?
Voc no me acha atraente?
_Voc  uma garota linda, no  isso.
_Ento, qual  o problema?
Leonardo respirou aliviado ao ouvir uma batida na porta.
_Filha, a Elisa est aqui. O seu pai ligou dizendo que s vir
amanh.
_Que notcia tima. O que a Elisa quer?
_Lcia? Ela quer conversar com voc, o que seria?
_Eu preciso voltar para o escritrio. Lcia, se voc precisar,
amanh eu volto.
_Vou precisar sim, meu anjo, o monstro disse que vir amanh.
Leonardo despediu-se de Lcia e Rita o acompanhou at a porta,
no meio do caminho encontrou-se com a amiga de Lcia, a
cumprimentou e saiu aliviado.

Foi para o escritrio e trabalhou at as sete horas, antes de sair
ligou para a amiga Letcia, precisava muito conversar com ela;
combinaram de encontrar-se em uma lanchonete no muito
distante da casa dela.
_Oi, Lo, voc me deixou bem preocupada, o que aconteceu?
_Me desculpe, Leca, mas eu precisava muito falar com voc.
Passei por uma situao hoje que eu estou sem saber o que fazer

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                          Tnia Gonzales



at agora.
_Ai, Lo, para com isso, fala logo, estou ficando angustiada.
Ele contou tudo e quando terminou a amiga estava de boca aberta.
_No acredito que ela te pediu isso. Ah... Lo, s voc mesmo.
No  a primeira vez que voc recebe esse tipo de pedido vindo
de uma amiga. Quem sou eu para julgar a Lcia!
_Ah,  bem diferente, n? Eu fiquei sem saber o que fazer,
agradeci a Deus por a amiga dela ter aparecido.
_Lo, Lo... deixa a Suzana saber disso!
_Ela nem pode imaginar. Bem que ela me alertou.
_E a? E se ela insistir?
_Eu quero a sua ajuda. O que eu posso fazer?
_Vou ser bem prtica, h duas opes: beijar ou no beijar.
_Que legal, voc me ajudou tanto!
_Ah, amigo!
_Eu no posso beij-la, eu no posso fazer isso com a Suzana. E
tem mais, mesmo se eu no estivesse namorando eu tambm no
poderia. No posso bagunar a cabea dela, eu sou algum que
deseja ajud-la, no quero complicar ainda mais as coisas.
_ isso, voc respondeu. Agora s precisa usar as palavras certas
para no machuc-la.
_A que est o problema. Como eu vou explicar para ela?
_Leonardo, pea sabedoria a Deus. Ele vai colocar as palavras
certas na sua boca. Voc  to sincero, eu acho que o caminho 
esse: a sinceridade.
_Valeu, amiga.

Naquela noite ao buscar Suzana, Leonardo conseguiu agir
normalmente, no queria preocup-la, eles estavam vivendo uma
fase muito boa e ele no queria estragar tudo.


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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


No dia seguinte, cada vez que tocava o celular, Leonardo ficava
apreensivo, temia ser uma ligao de Lcia;          desejava no
precisar v-la naquele dia. Ainda no havia pensado no que dizer
para ela. Quando faltavam poucos minutos para as seis horas da
tarde, Lcia ligou dizendo que o pai iria s oito horas e implorou
para que Leonardo fosse at l antes daquele horrio. Ele ficou
por mais alguns minutos no escritrio, depois foi para casa tomar
banho e comer algo.

_Voc chegou, que alvio!
_Oi, Lcia, voc est bem?
_Por enquanto sim. Eu gostaria que o monstro fosse embora para
cuidar da famlia dele e nos deixasse em paz.
_Lcia, ele  o seu pai,  natural que queira v-la.
_Eu no o considero mais como meu pai.
_Desde quando?
_Desde... no eu no quero falar sobre isso. Tenho um assunto
mais interessante para conversar com voc.
Leonardo esperou calado as prximas palavras de Lcia, sabia
muito bem qual era o assunto.
_Leonardo, ontem eu disse que gostaria de ser beijada por voc e
eu quero que seja agora.
Ao ouv-la falar assim, Leonardo pensou em como Lcia estava
diferente, ele no podia imaginar que ela teria coragem de ser to
direta neste tipo de assunto. Ela nem parecia mais aquela menina
frgil e tmida.
_Leonardo, eu quero que voc me beije, agora.
_Lcia, eu nem sei como dizer, mas... eu vou ser bem sincero com
voc; eu no posso beij-la porque eu tenho uma namorada e isso
no seria justo para ela. Voc entende?
_Voc tem uma namorada? Voc nunca disse isso.

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                            Tnia Gonzales



_No tive oportunidade para dizer. Lcia, eu no quero mago-la,
gosto muito de voc e quero ajud-la, mas eu no posso, seria
uma traio. Mesmo que seja s um beijo, que namorada aceitaria
isso?
_Voc deve gostar muito dela, n?
_Muito. Ela  uma pessoa muito especial.
_Que sorte a dela ter um namorado assim como voc, to sincero e
fiel. Voc est certo, eu no teria feito esse pedido se soubesse que
voc est comprometido, no mesmo.
_No quero que fique com raiva de mim.
_ claro que no. Eu j o admirava muito, agora ento... ela no
sabe nada a meu respeito, no ?
_Sabe.
_Ela sabe e aceita numa boa que voc venha me visitar?
_ claro que no comeo ela achou tudo muito estranho, mas
depois ela entendeu. E ela confia em mim.
_Ela tem toda razo para confiar. Qual o nome dela?
Antes que Leonardo pudesse responder, Rita bateu na porta e
avisou que Valter estava na sala esperando pela filha. Lcia
mudou completamente, comeou a tremer e olhou para Leonardo
como se estivesse suplicando por ajuda.
_Calma, eu vou at l com voc.
_E-e-eu no quero ir.
_Lcia, me d a sua mo, eu prometo que no vou solt-la. Vem
comigo.
Ela obedeceu, mas continuava tremendo; ao chegar  sala de estar,
Valter se aproximou dela para abra-la, mas logo mudou de ideia
ao ver o rosto amedrontado da filha. Resolveu se afastar.
_Querida, minha filha, como voc est linda! O que voc acha de
ns dois sairmos juntos, voc escolhe, pode ser qualquer lugar.
Lcia continuou calada; Leonardo estava se sentindo bem

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


desconfortvel com aquela situao e percebeu que Rita tambm
estava.
_E ento, vamos sair?
_No! - Lcia respondeu quase gritando.
_Minha filha, eu vim de longe s para passar alguns momentos
com voc, deixei meus negcios, meus...
_Pode ir, pode voltar para a sua famlia. Eu no quero v-lo nunca
mais.
_Filha, Verinha, minha Verinha!
_No me chame assim! Eu odeio quando voc me chama assim! -
Lcia estava gritando agora.
_Rapaz, voc poderia ir embora, eu preciso falar com ela.
_No! No! O Leonardo no vai embora, voc vai. A sua presena
aqui me faz mal, muito mal. Eu odeio voc, eu odeio voc, voc 
um monstro!
_No fale assim comigo! O que o rapaz vai pensar?  melhor que
voc v embora,  um assunto de famlia, por favor- disse Valter
olhando para Leonardo.
_Eu s vou se a Lcia pedir.
_Voc  bem atrevido, rapaz, cuidado!
_Cuidado por qu? Vai machuc-lo tambm?  s isso que voc
sabe fazer, machucar as pessoas que eu amo.
_Lcia, pare de falar assim.
_Valter  melhor voc ir, ela est muito nervosa- pediu Rita.
_A culpa  toda sua, voc faz tudo o que ela quer.
Neste momento Lcia correu at o seu quarto e fechou a porta.
_Viu s o que voc fez? Ela tem toda razo, voc deveria voltar
para sua famlia e nunca mais aparecer por aqui.
_Rita, eu vou embora, mas eu volto. Eu quero conversar com a
minha filha sem este rapazinho a.
_Eu no vou deixar que fique sozinho com a Lcia, ela no quer,

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                          Tnia Gonzales



ela morre de medo do senhor, por qu?
_Rapaz, no se intrometa em assuntos de famlia.
_Valter, v embora.
_Voltarei amanh e avise a Verinha que vou lev-la para almoar.
Diga para ela ficar pronta, eu chego aqui mais ou menos ao meio-
dia.
Valter saiu e Leonardo foi at o quarto para conversar com Lcia.
_Lcia, ele j foi embora, posso entrar?
_Pode.
_Como voc est? Est mais calma agora?
_Eu no quero ver aquele monstro nunca mais.
_Ah, Lcia... ele j avisou que voltar amanh. Ele quer lev-la
para almoar fora.
_No, isso no, Leonardo, meu anjo... me ajude, eu preciso sair
daqui.
_Lcia, eu no sei. O que eu posso fazer? Deixa eu pensar... quer
almoar comigo amanh?
_Quero.
_Eu te pego s 11h, assim no corremos o risco dele chegar.
_Obrigada, meu anjo.
_Agora, eu preciso ir, tenho que buscar a minha namorada no
servio dela.
_Ela trabalha onde?
_Em um shopping, ela  vendedora em uma loja de perfumes. Ela
est cursando Letras, quer ser professora.
_Que legal.
_Lcia, fique com Deus e at amanh.
_At amanh e mais uma vez: obrigada.
_No precisa me agradecer.

Leonardo foi direto para o shopping. Enquanto esperava por

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Suzana ficou pensando em Lcia. " Que relacionamento mais
estranho; aquele homem deve ter feito algo horrvel, ele deve ter
violentado aquela indefesa garota, s pode ser isso, mas, ento
por que Rita no o impede de ver a filha? "
_E ento, vou precisar esperar quanto tempo para o meu namorado
notar que eu estou aqui?
_Suzana? Me desculpe, eu estava to distrado! Minha princesa, 
to bom v-la, voc est linda!
_Gracinha! Aconteceu alguma coisa? Voc est com uma cara de
preocupado!
_Vamos para o carro, no caminho eu conto.
Leonardo contou para Suzana o que havia acontecido na casa de
Rita, menos sobre o assunto do beijo, preferiu deixar para outro
momento.
_Leonardo, eu j falei pra voc tomar cuidado, esse homem deve
ser perigoso. Voc acha que ele est gostando da sua interferncia?
_ claro que no, mas o que eu posso fazer? Suzana, eu no posso
abandonar a Lcia. Minha princesa, no fique chateada comigo,
mas amanh eu vou levar a Lcia para almoar, para evitar que ele
a encontre. Ela no quer sair com ele.
_Leonardo... isso est ficando cada vez mais complicado! Voc e
ela juntos... eu no quero ser egosta, mas...
_Minha princesa, voc egosta? Nunca.  normal que voc no
goste desta situao, eu tambm no gosto nada disso, mas voc
entende que eu no posso me afastar dela agora?
_Entendo, quer dizer, mais ou menos. Quando o pai dela vai
embora, hein?
_Ah, eu gostaria que fosse hoje, agora. Suzana, hoje eu falei pra
Lcia que eu tenho uma namorada.
_S hoje? Ela no sabia ainda?
_Suzana, eu no tive oportunidade para contar, no fazia sentido

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                          Tnia Gonzales



eu chegar e dizer: olha, eu tenho uma namorada!
_No?
_Minha princesa, antes de hoje eu no vi razo para isso.
_O que aconteceu hoje para voc resolver revelar o seu grande
segredo?
_Ah, Suzana... no fale assim, no era segredo. Eu vou falar sobre
isso outro dia, voc est muito brava hoje.
_Brava? Eu no, pode falar.
_Voc no vai gostar nada. Vamos entrar na garagem, eu vou
contar tudo- disse ele ao estacionar o carro.
_Vamos namorar um pouquinho, depois eu conto, porque seno eu
acho que vou ficar sem beijo hoje.
_Leonardo, agora voc vai me contar. Nada de namorar, conta
logo!
_S um pouquinho, me d um beijo, s um.
_Depois voc fala?
_Fazendo chantagem comigo?
_Para de brincadeira, eu estou ficando angustiada!
_Vem aqui, me d um beijo...
Suzana o beijou rapidamente e ficou olhando para ele, ansiosa.
_Eu, hein? Que beijo foi esse? Muito rpido.
_Leonardo! Diz logo, por favor!
_Eu deveria ter ficado calado, sabe aquele velho ditado? Em boca
fechada...
_Leonardo, eu no quero saber de velho ou de novo ditado, fala
logo!
Ento, como ela estava muito ansiosa, ele resolveu contar sobre a
histria do beijo.
_O qu? Eu sabia, eu falei pra voc, eu avisei... eu... - ela no
conseguiu continuar, as lgrimas comearam a molhar aquele
delicado rosto.

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     Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Minha princesa, calma, eu no terminei ainda, me escuta.
_No quero ouvir. S de imaginar voc e ela... vocs dois se ...
_No, Suzana.
_Eu sabia, no d certo, um homem e uma mulher se encontrando
assim, conversando tanto e...
_Suzana, espera, deixa eu falar... no aconteceu nada, eu disse
para ela que tinha uma namorada e que no poderia fazer isso e ela
entendeu perfeitamente, eu estava at com receio da reao dela,
mas a Lcia at me pediu desculpas, ela disse que se soubesse que
eu tinha uma namorada ela no teria feito um pedido desses.
_Ah...
_Linda, me desculpe, eu deveria ter comeado pelo final...mas,
no fique brava, eu gostei da sua reao.
_O qu?
_No fique brava comigo.
_Estou brava sim e muito. Que coisa mais feia, Leonardo! Voc
est se divertindo comigo, no ?
_No, minha princesa, no.  que  to bom saber que voc me
ama!
_Eu no disse isso!
_Os seus lindos olhos me disseram. Brigue com eles depois. Eu
amo voc, amo muito...
Leonardo segurou o rosto dela com ambas as mos e foi se
aproximando para beij-la, a princpio ela tentou se afastar, tentou
virar o rosto para evitar o beijo, mas a sua resistncia durou
poucos segundos.
_Voc acha que eu quero beijar outra boca? Acha mesmo? Eu s
quero a sua, minha princesa, foi to difcil chegar perto dela... to
complicado, acha que vou por tudo a perder? Eu amo voc.
_Eu no deveria dizer isso, no hoje, mas... eu te amo. E v se da
prxima vez voc comea o seu relato pelo desfecho, por favor.

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                          Tnia Gonzales



No gosto de suspense.
_E perder a sua reao? No mesmo.
_Sem graa.
Ficaram mais alguns minutos desfrutando da companhia um do
outro. Quando faltavam dez minutos para a meia-noite, Leonardo
deu um beijo de despedida na namorada, abriu o porto para sair e
teve uma desagradvel surpresa.




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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 36 -Valter
_O que voc est fazendo aqui?
_Eu que pergunto, seu espertinho! Fica de conversinha com a
minha filha e agora est com outra?
_Cuidado com as suas palavras. Voc me seguiu?
_Eu no lhe devo explicaes, agora voc sim, seu conquistador
barato! Visita a minha filha e depois...
Enquanto os dois discutiam, Suzana, que no havia sado da
garagem, estava paralisada, no conseguia sair do lugar. " No
pode ser verdade- pensava ela- eu reconheo essa voz, eu sei
quem ... no... no pode ser, por favor, no! "
_Como teve a coragem de me seguir? Foi longe demais, j no
chega o que fez  sua filha, hoje?
_Cala boca, rapaz! Cuidado, voc no me conhece.
_Nem quero conhec-lo, o pouco que sei j basta para eu saber
que tipo de homem voc .
_Rapaz, me respeite. Eu vou contar para minha filha o
conquistador barato que ela foi arrumar. Ela vai saber muito bem...

Suzana, que no podia ser vista, pois o porto de alumnio era
quase que totalmente fechado. Ela queria gritar, pedir para
Leonardo entrar, mas as palavras no saam, de repente ela
comeou a pensar se aquilo tudo no era mais um de seus
pesadelos, e desejou que fosse, desejou do fundo do corao, mas
logo ela percebeu que era tudo real. Estava apavorada- " E se ele o
machucar, e se ele veio aqui atrs de mim, e se.... meu Deus, me
ajuda! Eu no consigo me mover, estou apavorada..."
_V embora daqui, ou eu chamo a polcia! E nunca mais volte
aqui!


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                          Tnia Gonzales



_Voc acha mesmo que eu tenho medo de voc, rapaz? Olha bem
para mim, olha... voc at que  alto, tem um certo porte, mas,
olha aqui, rapaz, eu posso acabar com voc, eu posso...
_Voc foi longe demais. Eu vou ligar agora e dizer que fui
ameaado- Leonardo pegou o celular e isso fez com que Valter se
afastasse dizendo:
_Tudo bem, rapaz, eu vou embora, mas amanh a minha filha vai
saber quem voc .
Valter entrou em seu carro e saiu cantando pneus.
_Suzana, voc ouviu tudo, n? Me desculpe, eu ... Suzana, voc
est bem?
Ela no respondeu, simplesmente no conseguia sair do lugar e
nem se expressar, o medo a dominou.
_Suzana, fala comigo, Suzana, por favor...
Leonardo a abraou e s ento ela conseguiu sair daquele transe.
_Eu... eu... estou com medo- disse com uma voz quase que
inaudvel.
_No precisa ficar com medo, estou aqui. Aquele homem... como
pde vir at aqui? Minha princesa, calma, ele j foi. No... no
chore, est tudo bem. No aconteceu nada, fique tranquila.
_Aquele homem...
_ o pai da Lcia.
_No... no... Leonardo fique longe dele, por favor, fique longe
dele.
_Suzana, acalme-se. Voc est ainda mais nervosa do que a Lcia,
se  que isso  possvel. Ele no pode fazer nada contra voc, ele
nem a viu.
_Tenho medo por voc. Leonardo, por favor, afaste-se deles, eu
imploro!
_Suzana, acalme-se, isso no faz bem, voc est ... apavorada.
Enquanto estava no aconchego dos braos de Leonardo, Suzana

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


pensou: " no posso contar a verdade para ele, no posso, se ele
soubesse poderia acontecer uma tragdia. Meu Deus, como isso 
possvel? Eu no vou me livrar disso nunca?"
_Est mais calma, agora?- Suzana fez que sim com a cabea- 
melhor voc descansar. Eu vou embora, mas me prometa que vai
ficar bem e que no vai encher essa sua cabecinha linda de
bobagens, pare de pensar na Lcia e no pai dela. Certo?
_Prometa que no vai l amanh.
_Suzana, eu no posso prometer isso, a Lcia...
_Leonardo, esse homem teve a coragem de seguir voc, ele 
perigoso, voc mesmo disse o quanto a filha dele tem medo e...
_Suzana, calma. Vai ficar tudo bem, logo ele volta pra famlia dele
e...
_Afaste-se deles, por favor!
_Eu vou embora, descanse. Que Deus lhe d um sono bem
tranquilo.

Ao entrar em casa, Suzana sentiu-se aliviada por todos j estarem
dormindo. Ela no sabia o que fazer:, " Devo contar para meus
pais? E o Leonardo? Qual seria a reao dele, que j sente raiva
daquele homem por causa da Lcia? Se ele soubesse que... e se eu
estiver errada, e se no for ele? Estava to apavorada que nem
perguntei o nome do pai dela. Aquela voz... no, eu no estou
enganada... mas Leonardo no mencionou nada sobre ele andar
com uma bengala. Ah, meu Deus, o que eu fao?"
Suzana demorou muito a pegar no sono. No conseguia parar de
pensar em toda aquela situao. Tomou uma deciso: contar para
a vov Vivi; aproveitaria que no dia seguinte estaria de folga do
trabalho para almoar com ela.

Logo pela manh, antes de ir para a faculdade, Suzana combinou

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                          Tnia Gonzales



com a av. Ela estava fazendo caf na casa de Marisa porque
havia dormido l.
_Minha neta, voc dormiu bem?
_No v, dormi muito mal. Eu quero conversar com a senhora
algo muito srio; vamos naquele restaurante que a senhora tanto
gostou, lembra?
_Estou preocupada com voc. Tudo bem, eu chegarei antes de
voc.
Despediram-se e Suzana foi para a faculdade, mas foi muito difcil
para ela se concentrar nas aulas. Leonardo ligou no horrio do
intervalo. Estava bem preocupado por causa da reao dela no dia
anterior. Suzana aproveitou para perguntar o nome do pai de
Lcia, e, ao ouvir a resposta, suas pernas amoleceram, pensou que
iria cair ali mesmo.
_Suzana, est me ouvindo? Eu no posso conversar com voc
sobre esse assunto, ontem voc ficou to mal.
Suzana conseguiu se recompor e tratou de tranquiliz-lo.
"Ento  ele mesmo, o Valter- pensou, assim que Leonardo
desligou- Meu Deus, e agora? O que eu fao? Aquele homem
horrvel to prximo de mim, da minha famlia e o pior  que ele
est mais prximo ainda de Leonardo".
Ela precisou se esforar bastante para participar das aulas
seguintes.

Vov chegou ao restaurante meio-dia e cinco, aps vinte minutos
Suzana j estava sentada ao lado dela.
_Suzana, minha neta, e ento, o que est acontecendo?
_Ah, v, a senhora nem imagina!
Suzana contou tudo. Vov Vivi ficou muito surpresa e preocupada.
_Meu Deus! Aquele homem to perto? Voc tem razo por estar
com receio de contar para o Leonardo. Ser que ele fez o mesmo

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


com aquela pobre garota? Ah, desculpe, eu no deveria falar isso.
_Tudo bem, v, eu tambm penso o mesmo. Estou apavorada, eu
quero que o Leonardo se afaste deles, mas a Lcia conta muito
com ele, agora mesmo eles devem estar almoando juntos.
_Que situao! S Deus para nos guiar. Ah, Suzana, vamos pedir a
Ele que nos oriente, pois tem o seu pai tambm. Eu tenho mais
medo da reao dele.
_Dos dois, v! Imagine o que o Leonardo vai...
_Calma querida!

Enquanto isso, Leonardo e Lcia tambm estavam almoando.
_Eu queria tanto que ele fosse embora, tanto!
_Ele vai, Lcia. Afinal tem uma famlia esperando por ele, certo?
_Eu no sei mais o que fazer.
_Voc no pode se apavorar. Lcia, eu preciso contar algo que
aconteceu ontem, porque, com certeza, ele vai falar pra voc.
_O que ele vai me falar? O que aconteceu?
_O seu pai me seguiu ontem at a casa da minha namorada.
_Que absurdo! Como ele foi capaz de fazer uma coisa dessas?
_Lcia, ele acha que eu estou enganando voc. Ele pensa que
entre ns dois tem algo mais, ento como ele me viu com a
Suzana...
_Suzana?
_Por que a surpresa?  o nome da minha namorada.
_Suzana? No pode ser... no... que coisa estranha!
_O que  estranho, Lcia?
_Ah... no... no  possvel,  muita coincidncia!
_Lcia, voc est me assustando! Ontem eu j fiquei bem
impressionado com a reao da Suzana.
_Por qu? Diz, por favor!
_Ela nem chegou a ver seu pai, porque estava dentro da garagem

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                            Tnia Gonzales



e ele me pegou saindo, mas depois que ele foi embora, eu entrei
novamente e a encontrei apavorada, ela se assustou muito.
_No... no...
_Lcia, o que foi? Por que voc est to aflita?
_Ah, no... vamos sair daqui, eu j terminei, a gente conversa no
carro.
_Tudo bem.

_Lcia, voc est me preocupando...
_Leonardo, no pode ser... me diz mais alguma coisa sobre a sua
namorada, me diz algo sobre a famlia dela.
_Ela tem uma irm, a Sueli, que  mais velha que ela; a me,
Marina, o nome do pai dela  Davi...
_Meu Deus! No acredito, no acredito.
Lcia colocou a mos no rosto e abaixou a cabea.
_Lcia... o que est acontecendo? Fale comigo.
As lgrimas comearam a rolar e logo o rosto dela estava
completamente molhado, Lcia passava as mos para tentar
enxug-las, mas era em vo. Leonardo no sabia o que fazer.
_Fala comigo, Lcia! Por favor!
_Meu anjo... no deixe que o monstro se aproxime dela, no
deixe... no... ele vai machuc-la, ele vai... ele... ele vai machuc-
la de novo.
_Lcia, o que voc esta falando? O seu pai... ele... ele ... Lcia,
voc conhece a Suzana?
_Ah... sim. Meu Deus... esse pesadelo novamente!
_Lcia, o pai da Suzana trabalhou para o seu? - perguntou
querendo desesperadamente que tudo no passasse de uma
coincidncia.
_Trabalhou. Ah... minha amiga... minha amiga. Ela sofreu tanto!
_Lcia... era sobre ela que voc...

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Leonardo no conseguiu completar, agora era ele que estava com
os olhos cheios de lgrimas.
_Era. Eu sinto muito.
_Lcia... eu sei que ela sofreu muito, a me dela me contou, mas...
foi o seu pai que... foi ele, aquele...
Leonardo queria desabafar, gostaria de falar tudo o que pensava de
algum que comete tal violncia, mas se controlou por causa de
Lcia.
_Pode falar, ele  um monstro,  isso o que ele , um monstro, um
covarde... eu no entendia o porqu de no poder mais brincar
com a Suzana. O pai dela a levava at a minha casa uma vez por
semana, o monstro no me deixava ir na casa dela. Temos a
mesma idade e meu... o monstro, no permitia que mais nenhuma
menina fosse l, s a Suzana. De repente, sem mais nem menos, o
pai dela sumiu. Meu pai foi parar em um hospital, minha me
disse que foi um assalto e que bateram nele. Eu perguntava sobre
a Suzana, ela dizia que a famlia dela havia mudado de cidade.
Eu fiquei sem entender pois ela nem se despediu de mim. Cerca de
dois meses depois, meus pais se separaram. Eu vim com a minha
me para c. Ela tinha algumas amigas que moravam aqui e
sempre falavam bem, ento, como ela queria ficar bem longe de
Belo Horizonte, nos mudamos. Ele sempre vinha nos visitar, mas
minha me nunca me deixava sozinha com ele e os dois quase
nem se falavam. Um dia eu acordei e ouvi algumas vozes que
vinham da sala, percebi que era uma discusso, ainda era bem
cedo, sete horas da manh, eu acho; abri a porta bem devagar e fui
at o corredor e ouvi tudo o que eles falavam. Leonardo... eles
estavam brigando, a minha me resolveu colocar tudo para fora...
foi ento que eu descobri a verdade sobre o afastamento da
famlia da Suzana. Fiquei sabendo que o pai dela esteve preso por
algum tempo e tambm ouvi minha me dizendo que a culpa era

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                          Tnia Gonzales



do meu pai, e ela comeou a xing-lo. Quando ela falou sobre o
sofrimento da minha amiga... ah... foi horrvel, como doeu ouvir o
quanto ela sofreu nas mos dele. Me desculpe... eu sei que
machuca ouvir isso. Eles perceberam que eu estava l, mas era
tarde demais... foi a partir da que eu me fechei. Fiquei
deprimida... bom... voc sabe.
_Lcia,  muito difcil ouvir isso. Agora eu estou entendendo a
reao dela ontem. Ela no quis me contar com medo que eu faa
alguma loucura. Coitada, ficou to apavorada!
_Leonardo, fique longe dele, por favor. No tente nada.
_Calma, Lcia. A vontade que d  de procur-lo e ...  melhor
nem dizer, mas eu vou manter a calma. Deus vai me ajudar.
Espera a...tem uma coisa que eu no estou entendendo... eu j
falei vrias vezes o seu nome e ela nunca esboou qualquer
reao.. tudo bem que h vrias Lcias no mundo...
_ fcil explicar, o meu nome  Vera Lcia. A minha me queria
que fosse Lcia e ... o meu pai gostava muito de Vera, ento ele
props: Vera Lcia. S que as pessoas me conheciam como Vera,
e a maioria me chamava de Verinha, porque ele preferia assim e
proibia a minha me de me chamar de Lcia. A Suzana me
chamava de Verinha tambm.
_Ah... outro dia ele a chamou assim e voc ficou uma fera.
_Depois do que eu descobri sobre ele, eu nunca mais deixei que
me chamassem de Vera e muito menos de Verinha.
_Lcia, tem outra coisa, bem... eu sei o quanto esse assunto 
delicado, mas... o pai da Suzana bateu no seu com uma bengala...
_O meu pai sofreu um acidente de carro meses antes de contratar
o pai da Suzana, foi at por esse motivo que ele dispensou o
antigo motorista. Ele usou uma bengala durante algum tempo, mas
aps algumas cirurgias ficou bem. Se voc reparar ele ainda
manca, mas quase que no d para notar- explicou ela.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Depois de se assegurar que o pai de Lcia havia desistido de
esperar, Leonardo a deixou no apartamento e voltou ao escritrio.
Lcia contou para a me quem era a namorada de Leonardo. Rita,
como no podia deixar de ser, ficou muito surpresa com a
revelao e muito preocupada tambm.

Leonardo ligou para Suzana e combinaram de jantar fora para
aproveitar a folga dela. Ele resolveu no contar nada durante o
jantar. Ele percebeu o quanto ela estava apreensiva, mas conseguiu
manter uma conversa bem agradvel apesar de tudo.
_Minha princesa, voc tem o rosto mais delicado e lindo que eu j
vi na vida, eu a amo tanto!
Ele a abraou com ternura e depois beijaram-se apaixonadamente.
J estavam na casa dela.
_Voc sempre me surpreende, ah, Leonardo, voc  o melhor
presente que eu poderia ganhar. Como pode existir algum assim?
Eu o amo.
_Suzana,  to bom ouvir isso.  to bom poder viver esses
momentos com voc... ns dois estvamos precisando, no ?
Tantos problemas... as coisas esto to complicadas; estar ao seu
lado  um maravilhoso presente, eu agradeo a Deus e espero que
possamos estar sempre juntos. Princesa, no fique aflita, no se
preocupe, eu j sei sobre ... a Verinha.
_Leonardo, como foi que...
Ele passou ento a falar sobre sua conversa com Lcia.
Suzana deixou as lgrimas rolarem livremente; Leonardo a
aconchegou em seus braos.
_Minha princesa, fique calma, eu no vou fazer nenhuma loucura.
_Leonardo, voc promete que no vai...
_Claro que prometo. Fique tranquila.
_Um dia eu gostaria de rever a Ve... ou melhor a Lcia.

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                           Tnia Gonzales



_Eu posso cuidar disso, mas primeiro vamos esperar que aquele...
que ele v embora. Suzana, me desculpe, eu sei o quanto  difcil
para voc falar sobre este assunto, mas, o que aconteceu depois
que seu pai foi preso? Eu quero dizer com relao ao Valter.
_Eu no sei muita coisa... eles mudaram do bairro deles e ns
tambm mudamos do nosso, era muito difcil para mim... se
continussemos l eu teria demorado bem mais para voltar 
rotina.
_Mas, ele no pagou pelo que fez?
_No. Eles sumiram e a minha famlia estava to fragilizada que
no... sei l.
_Tudo bem. No, no est tudo bem. Suzana, ele precisa pagar
pelo que fez. Eu vou conversar com seu pai e...
_No, por favor, Leonardo, eu quero esquecer tudo isso, para
acus-lo eu vou precisar me expor e toda a minha famlia, ns j
sofremos tanto, chega.
_Suzana, ele cometeu um crime, eu gostaria que houvesse uma
maneira dele pagar, mas quem sabe se ele j no pagou. Ter aquele
tipo de relacionamento com a prpria filha deve doer bastante e
sabe l o que mais ele precisou enfrentar por causa do que fez. Se
bem que mesmo assim...
_Por favor, eu no ...
_Minha princesa, chega desse assunto por hoje.
_Eu vou conversar com meus pais,  melhor eles saberem logo.

Ao entrar em casa, Suzana aproveitou que estavam todos reunidos
na sala, contou tudo e implorou para seu pai no procurar por
Valter.
_Que pesadelo, at o Leonardo precisou conhecer aquele...
_Pai, calma. Ele vai voltar para a nova famlia dele e tudo vai ser
como antes.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Aquele sem vergonha, canalha... ele merece pagar pelo que fez.
Ns devamos denunci-lo,  isso.
_Davi, olha s para nossa filha, ela est to aflita! Ele deveria
pagar, mas para isso teramos que...
_Eu sei, Marina. Filha, no quero que voc tenha que contar e
recontar aquela histria que tanto a machuca, eu no vou permitir
que voc passe por tudo aquilo novamente, mas, para isso,
infelizmente, ns precisamos pagar o preo, o preo da
impunidade.
_Pai, eu sei que Deus no  injusto, aquele homem j pagou ou
ainda vai pagar pelo que fez.

No dia seguinte, Leonardo recebeu uma ligao de Lcia.
_Como voc est feliz, o que aconteceu?
_Ele foi embora, o monstro se foi. Ele ligou para minha me e
disse que precisava voltar urgente e que vai demorar para dar
notcias, falou que vai viajar com a famlia. No podia ter notcia
melhor. Que alvio! Voc acredita que ele falou de voc para
minha me? Disse que voc estava me enganando, que voc
namorava escondido. Sem noo!
_Lcia, eu conversei com a Suzana e ela gostaria muito de
encontrar-se com voc.
_Srio? Eu pensei que isso fosse a ltima coisa que ela gostaria.
_Que isso, Lcia! E ento?
_Eu no sei... ser que eu estou preparada para um encontro como
esse?
_Vamos combinar uma coisa: no prximo sbado teremos um
encontro de jovens l na IGAG, seria uma tima oportunidade de
voc conhecer a minha igreja e de rever a Suzana. Voc ter uma
semana para decidir. Que tal?
_Eu vou pensar.  muita novidade para minha cabea perturbada!

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                          Tnia Gonzales



_Lcia, a sua cabea j est bem melhor. E eu acho que vai ser
muito bom para vocs duas esse reencontro.
_Depois eu dou a resposta. Leonardo, por enquanto eu gostaria de
agradecer por tudo, voc  um grande amigo.  um exemplo do
que  se doar por algum. Voc conviveu com uma jovem
confusa, deprimida, meio maluquinha, e se saiu muito bem. Voc 
incrvel! A Suzana precisa de algum como voc, ela merece ser
feliz depois de tudo o que ela passou.




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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 37  Suzana e Lcia

A semana passou sem novidades. Leonardo comentou com Suzana
sobre o provvel reencontro dela com Lcia no prximo sbado e
ela passou os ltimos dias bem ansiosa.
Na sexta-feira Leonardo chegou na casa de Suzana s sete horas
da manh pois iria levar a vov Vivi at a rodoviria, ela pegaria o
nibus s 9h. A tia Marisa tambm estava com as malas prontas,
ficaria um ms em Belo Horizonte. Davi, Marina e Sueli j
haviam sado para o trabalho. Suzana faltou da faculdade para
acompanhar o namorado.
_Vou sentir tanta saudade, v! - disse Suzana.
_ s me visitar, minha neta. Eu estou to feliz, passei momentos
maravilhosos com a minha famlia e ganhei at um novo neto!
Leonardo, voc vale mais do que ouro.
_Vov, a senhora que vale! Pode deixar que eu vou visit-la e irei
com a minha princesa.

Na rodoviria...

_Suzana, eu espero que d tudo certo em seu reencontro com a
Verinha.
_Eu tambm, v. Ah... vou morrer de saudades!
_Minha neta linda, eu tambm.
_V, foi to bom t-la aqui, a senhora no imagina o quanto!
_Eu imagino, porque para mim tambm foi.

Minutos depois me e filha entraram no nibus com destino 
Belo Horizonte.



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                           Tnia Gonzales



_O que voc acha de irmos at a casa da Lcia?
_Leonardo, ela nem deu a resposta ainda sobre o encontro de
jovens e voc quer que eu aparea l de surpresa?
_Eu ligo e pergunto, voc concorda?
_No sei, ah... eu estou com um certo receio.
_Por que, minha princesa? Eu tenho certeza que vai ser timo para
as duas; deixa eu ligar, vai?
_Tudo bem, se ela concordar eu vou com voc.
_Legal. Vou ligar.

_Agora? Eu... sei l. Estou com medo. Ela est a com voc,
Leonardo?
_Est sim. Lcia, para que esperar at amanh? No precisa ter
medo, vai ser um encontro emocionante.

Depois de alguns segundos, Leonardo desligou.
_E a? Ela concordou ou no? - perguntou Suzana com ansiedade.
_Hum... deixa eu pensar... ser que ela concordou?
_Leonardo!
_Calma... vamos l. Voc vai rever a sua amiga de infncia, agora.
_Ah, meu Deus!

Quando chegaram ao apartamento de Lcia eram quase onze horas
da manh.

_Bom dia, Rita. Esta  a Suzana.
_Suzana... ah, menina, nem sei o que dizer, posso abra-la?
Abraaram-se e a emoo tomou conta das duas. Leonardo foi
buscar Lcia.

_Ansiosa? Ela est l com a sua me.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Voc e as suas ideias! Estou tremendo, olha isso...
_Calma, Lcia, ela tambm est. Vem comigo.
_Espera um pouco... ser que eu vou conseguir?
_Claro que vai.
_Vai primeiro, eu vou logo atrs de voc.

Lcia foi andando bem devagar, estava muito nervosa, o corao
estava disparado, por um momento pensou que no iria conseguir
acompanhar Leonardo.

Na sala de estar a ansiedade de Suzana tambm era grande.
" O que eu vou falar para ela? Como ela vai reagir ao me ver? O
que eu fao? Ah, meu Deus, me ajude."

_Muito bem... Suzana, esta  a sua amiga Lcia. E Lcia, esta 
sua amiga, Suzana.

Elas ficaram paradas, uma olhando para a outra sem saber o que
fazer. Leonardo precisou intervir.
_E a, vo ficar assim o tempo todo?
Ele pegou na mo de Lcia e a levou at Suzana. As duas amigas
estavam com os olhos marejados. Mais alguns segundos se
passaram, s ento Suzana quebrou o silncio.
_Oi, Lcia,  assim que voc gosta de ser chamada, no ?
_. Suzana... ah, Suzana, eu nem sei, eu...
As duas amigas se abraaram e choraram muito uma no brao da
outra. No conseguiam dizer uma palavra, deixaram que as
lgrimas falassem por elas. Leonardo e Rita foram at a cozinha
para que elas pudessem viver aquele momento especial.
_Suzana, eu sinto muito. Amiga, eu sofri tanto com a sua ausncia,
eu no conseguia entender o porqu que ns duas no podamos

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                          Tnia Gonzales



mais brincar juntas. E depois os meus pais se separaram e eu vim
com a minha me para c, eu s fiquei sabendo de tudo h pouco
tempo. Doeu muito saber o quanto voc sofreu, ah... Suzana, eu
sinto muito. No podia imaginar que uma coisa to horrvel...
_Veri... desculpe, Lcia, no vamos falar sobre este assunto. Eu
sei que para voc tambm  muito difcil. O importante  que ns
estamos aqui juntas novamente. Eu pensei que nunca mais me
encontraria com voc. Estou feliz por v-la. O Leonardo me
contou tudo sobre voc. Foram meses de muito sofrimento, n?
_E voc? Anos e mais anos sofrendo por causa daquele monstro.
Que bom que o Leonardo apareceu em sua vida.
_Em nossas vidas. Ele tem sido um bom amigo para voc, no ?
_ verdade. Ele me tirou de um poo bem fundo. Eu estava to
mal! Me fechei, no conseguia conversar, foi terrvel. O Leonardo
foi um presente de Deus, ele  muito especial, se bem que voc
sabe disso muito melhor do que eu. Ele  um anjo. Era assim que
eu o chamava, agora estou usando o nome dele mesmo.
_, eu sei. Eu acho isso incrvel porque ele nos uniu novamente.
_Tem razo,  mesmo incrvel. Eu no acreditava em milagres,
mas depois de conhecer o Leonardo, a minha opinio mudou.

Suzana ficou muito feliz ao saber que Lcia iria voltar para a
faculdade e que tambm estava decidida a arrumar um emprego.
As duas amigas conversavam animadamente quando Rita
apareceu na sala anunciando que o almoo estava pronto,
Leonardo veio logo atrs trazendo os pratos e talheres para
arrumar a mesa.
Foi um almoo muito especial. Leonardo e Suzana se despediram
delas e combinaram de buscar Lcia para o encontro de jovens
no dia seguinte.
Leonardo deixou Suzana no shopping para mais um dia de

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


servio.

O encontro de jovens naquela noite de sbado prometia ser
maravilhoso. Suzana e Leonardo buscaram Lcia s sete horas.
_Estou to ansiosa, nunca participei de um encontro deste tipo-
disse Lcia.
_No se preocupe, o pessoal  incrvel, voc vai gostar, tenho
certeza- assegurou Leonardo.
_ isso mesmo, voc vai se sentir muito bem- completou Suzana.

E a previso de ambos se confirmou, Lcia gostou de tudo: dos
louvores, palestra, bate-papo e muita pizza com refrigerante.
Na ocasio ela pde conhecer Letcia e ambas se deram muito
bem. Lcia nem lembrava que ela havia acompanhado Leonardo
em seu primeiro dia no apartamento dela.
_Estava to confusa... sinceramente Letcia, eu no me lembro de
voc. Que coisa estranha, n? Estava mal mesmo!
_Mas, graas a Deus, tudo isso j passou.
_ verdade. Que alvio! Como  bom poder viver, porque aquilo
no era vida, no mesmo!

Lcia tambm conheceu Paulinha e as duas conversaram muito.
Compartilharam da triste experincia que cada uma viveu.
Naquela noite, Lcia conversou com a me e a convidou para irem
juntas participar do culto de domingo. Rita ficou muito feliz com a
nova atitude da filha, principalmente pelo fato das duas terem a
oportunidade de sarem juntas, pois fazia um bom tempo que isso
no acontecia.

Os meses que se seguiram foram muito especiais: Suzana e Lcia
sempre se encontravam; Paulinha estava se alimentando bem e

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                          Tnia Gonzales



estava cheia de planos para o prximo ano; o namoro de Letcia e
Daniel ia  mil maravilhas; Leonardo e Suzana estavam curtindo
cada momento juntos. A famlia dele a recebeu com muito
carinho, at Lgia que  princpio estava muito temerosa, ao
perceber o quanto o filho amava Suzana, tambm ficou feliz com
aquele relacionamento.

Aquele final de ano foi inesquecvel para todos: para Paula, por
estar se recuperando muito bem, por estar na expectativa de no
prximo ano voltar para a faculdade de Veterinria e tambm
pelos pais estarem se entendendo; para Lcia por ter sado de sua
priso interior, por ter encontrado em Leonardo um amigo muito
especial e ter se reencontrado com a sua amiga Suzana; para
Letcia, por seu namoro, principalmente pelo fato de seus pais
estarem se dando muito bem com Daniel e finalmente, para
Suzana, pelos encontros e reencontros daquele ano: encontrou o
amor em Leonardo, a amizade em Letcia e reencontrou a alegria
de viver e a sua amiga de infncia, Lcia.
E Leonardo? Est muito feliz, por ter participado das conquistas
das amigas e principalmente por ter o amor de Suzana.




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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 38 -Novidades
14 meses depois...

_Boa noite, minha princesa! Como est a minha professora
favorita? - perguntou Leonardo ao se encontrar com Suzana em
frente  faculdade onde ela est fazendo ps-graduao.
_Estou bem... cansada! E voc? Trabalhou muito hoje, meu
advogado favorito?
_Muito, estou com duas causas complicadssimas. Voc sabe que
agora o meu pai est pegando pesado comigo, n? Est passando
para mim os processos mais trabalhosos, mas tudo bem, faz parte.

Suzana saiu do shopping h um ano e est trabalhando em uma
escola de educao infantil; terminou a faculdade de Letras no ano
anterior e se inscreveu em um concurso pblico para ser
professora do ensino fundamental.
Aqueles ltimos meses foram maravilhosos para Leonardo e
Suzana, estavam cada vez mais unidos e felizes, e mais um motivo
de muita alegria era a gravidez de Beatriz, que chegou ao 6 ms,
ela estava radiante por dois motivos: nunca havia conseguido
passar dos trs meses e por saber que o seu beb seria uma
menina.

E quanto a Letcia, Paula e Lcia?
Letcia est no ltimo ano da faculdade de Odontologia e vai tudo
muito bem com o seu namoro, pretende ficar noiva em breve.
Paula anda muito atarefada, a faculdade de veterinria ocupa todo
o seu tempo e o casal: Regina e Paulo Reis, continuam muito bem.
Paulo ainda sai bastante para pregar e a esposa o acompanha na
maioria das vezes.

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                          Tnia Gonzales



Ah... Paula tem se alimentado bem, aprendeu a importncia de se
cuidar e de amar a si mesma.
Lcia est cursando direito e trabalha no escritrio de Rafael e
Fernando, por indicao de Leonardo. Ela continua firme nos
trabalhos da igreja, desde que comeou a frequentar se tornou
assdua, bem como a sua me, Rita. Valter nunca mais voltou, liga
a cada dois ou trs meses para saber as notcias, o que faz Rita
suspeitar que ele est fugindo de algum.

Naquela tarde de domingo, Sueli, a irm de Suzana, chegou com
uma novidade que pegou todos de surpresa:
_Bom... no tem outro jeito, eu vou ser bem direta: estou grvida.
_Grvida? Filha... mas... como assim?- perguntou a me, ainda
sem acreditar no havia acabado de ouvir.
_Como assim? Isso l  pergunta, me? Estou no 3 ms.
_Por isso que voc andava to estranha!
_Estranha? Me... eu sei que vocs gostariam que eu tivesse
esperado pelo casamento, mas aconteceu, desculpe por ter
decepcionado vocs. Pai, no vai falar nada? E voc Suzana?
_Quem  o pai? - perguntou Davi.
_O nome dele  Maurcio, ele trabalha comigo. Ns estvamos
namorando h um ano.
_Um ano! Por que voc nunca mencionou isso?- quis saber a me.
_Ah... sei l...  que ele  divorciado, eu fiquei com receio de
contar para vocs, ele tem um filho que est com 8 anos agora. O
menino mora com a me.
_Qual a idade do seu namorado? - foi a pergunta do pai.
_Ele tem 40 anos.
_So 11 anos de diferena! - comentou Marina.
_O que so 11 anos, me? O importante  que ele me ama. Ele 
uma tima pessoa, vocs vo comprovar isso em breve. Vamos

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


nos casar daqui a um ms. J est tudo certo no cartrio.
_Um ms? - perguntou Suzana que ainda no havia se
pronunciado.
_E s agora voc nos avisa?
_Me, calma, est tudo certo, vamos nos casar s no civil. Eu s
gostaria que a vov Vivi viesse. S quero um almoo em famlia,
vocs concordam?
_Bem... voc j resolveu tudo. Aonde vocs vo morar?
_Pai, o Maurcio tem um apartamento, vamos morar l. No fique
assim, pai, vai dar tudo certo. Eu gostaria de ter o apoio da minha
famlia.
_ claro, minha irm! Pode contar comigo, e parabns pelo beb-
disse Suzana para em seguida abraar a irm.
_Obrigada, voc vai ser uma tia incrvel!
_Tudo bem. Fazer o qu?Vocs so to apressadinhos!Eu quero
conhecer o seu futuro marido hoje mesmo-pediu Davi.
_Eu vou falar com ele, pai. Vov Davi!
_Para com isso!
_E vov Marina! Gostou me?
_Ah... filha, ... eu acho que gostei!

_A sua irm est grvida? Uau! Vai casar daqui a um ms! Que
inveja!
_Leonardo? Inveja, ?
_Ah... eu gostaria que o nosso casamento estivesse marcado, como
eu gostaria! Mas, espera a... eu...
_Leonardo, nada de ideias mirabolantes... precisamos esperar.
_Esperar o qu? Suzana, estamos namorando h quase dois anos,
eu quero...
_Calminha a... agora  a vez da minha irm. E ns estamos
namorando h um ano e meio.

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                          Tnia Gonzales



_Mas ns podemos marcar a data, no podemos? No vai ser
daqui a dois ou trs meses no, mas, quem sabe daqui a seis
meses, o que voc acha?
_Leonardo, eu preciso terminar a ps e...
_Minha princesa, por qu?
_ melhor assim, j imaginou que correria?
_Suzana, eu quero que voc seja minha esposa.
_Eu sei, mas vamos esperar.
_Quanto tempo? Eu quero uma data.
_Nossa, s porque a minha irm vai casar? A situao dela  outra
e...
_No  s porque ela vai casar, eu j tenho pensado nisso h
algum tempo. Suzana, quer casar comigo?
_No faz assim... voc me deixa sem jeito.
_Responda, por favor! Voc quer casar comigo?
_Leonardo, isso no se faz, voc j me colocando em uma
situao bem desconfortvel...voc me pegou de surpresa.
_Eu pensei que voc me amasse tanto quanto eu a amo.
_Ah, agora voc abusou. Est muito dramtico!
_Dramtico? Eu amo voc e quero que seja a minha esposa. Por
que estamos namorando ento?
_Leonardo, para com isso.  claro que eu quero ser a sua esposa,
mas...
_ isso que eu queria ouvir. Quando?
_Eu vou pensar com calma e dou a resposta daqui a uma semana.
Combinado?
_Tudo bem. Eu no quero pression-la, mas j est na hora, n?
Eu quero acordar todos os dias e v-la ao meu lado, vai ser
maravilhoso.
_Meu Leonardo... eu amo voc.
Ele chegou mais perto e a beijou.

                              414
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Minha princesa, eu a amo tanto! Voc nem imagina o quanto eu
sou feliz, mas eu quero que a nossa felicidade seja completa.

Sueli apresentou Maurcio para a famlia. Davi teve boas
impresses do futuro marido da filha.

Naquela noite Suzana demorou para conciliar o sono. Aquele
assunto sobre o casamento a estava preocupando muito.  claro
que ela gostaria de se casar, mas uma sensao de pnico comeou
a tomar conta dela. Ela amava Leonardo de todo o corao, mas
tinha algo que a incomodava muito e que no daria para fugir: a
lua de mel. Suzana se apavorava s de pensar em ter uma
intimidade maior, as cicatrizes do passado ainda estavam
presentes. Mas, o que ela poderia fazer? Leonardo estava certo.
No ia dar para adiar, ela no gostaria de mago-lo, mas ser que
ela seria uma boa esposa?
Aps uma semana de muita insnia, Suzana estava diante do
namorado s esperando que ele tocasse no assunto. Conversaram
sobre os preparativos para o casamento de Sueli e ento Leonardo
fez a to temida pergunta:
_E ento, j passou uma semana. Qual  a sua resposta?
_Qual era mesmo a pergunta?
_Suzana, no brinca comigo.
_Tudo bem, desculpa. Eu... pensei muito e...estamos no final de
fevereiro, bem... o que voc acha de setembro?
_Nosso casamento em setembro?
_ isso mesmo.
_Voc est falando srio?  que quando eu mencionei o assunto
voc no gostou muito.
_Voc me pegou de surpresa, foi isso. E ento?
_Setembro  perfeito! Voc me surpreendeu, ah... Suzana, eu amo

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                          Tnia Gonzales



voc.

Trs semanas depois a famlia Souza estava reunida para o almoo
especial, em comemorao ao casamento de Sueli.
Vov Vivi e a tia Marli vieram de Belo Horizonte.

_Que notcia maravilhosa, teremos mais um casamento! Em
setembro estarei aqui novamente.
Foram as palavras da vov Vivi aps Leonardo anunciar a data do
casamento aproveitando que a famlia estava reunida.

Um ms aps o casamento de Sueli, em um sbado  tarde,
Suzana estava estudando quando o celular tocou.
_Oi, o qu? Ela est bem? E o beb? Eu vou com voc. Um beijo.
Suzana fez uma rpida orao e foi se arrumar pois iria com
Leonardo at o hospital. Beatriz, que havia completado 8 meses de
gravidez, precisou ser levada s pressas ao hospital, estava com
fortes dores.
Vinte minutos depois Suzana fechou o porto e entrou no carro do
namorado.
_Oi, como voc est? Muito preocupado?
_Ah, Suzana, eu no vou negar, eu estou preocupadssimo. No
quero nem pensar se...
_Calma, vai dar tudo certo. Tenha f.
_Eu tenho, mas no  fcil, esto todos to apreensivos... ela j
passou por trs abortos. Suzana, se acontecer alguma coisa eu
acho que a Beatriz no vai suportar. Agora  diferente, nos outros
ela chegou s at o terceiro ms.
_Fique tranquilo, vai dar tudo certo, confie em Deus. Voc vai ser
titio, pode ter certeza disso.
_Obrigado, meu amor. Suas palavras ajudam muito.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Ao chegarem  recepo do hospital encontraram Lgia e Rafael
que estavam esperando por notcias.
_Nada ainda? - perguntou Leonardo.
_Nada, filho. Precisamos esperar- disse Rafael- Oi, minha futura
nora, tudo bem?
_Tudo. Estamos todos loucos para ouvir muito choro de beb, n?
_Suzana, se estamos! Ah...no  fcil esperar, estou to ansiosa!
_Calminha, a, minha me. A sua netinha vai chegar, tenha
pacincia.
_Isso  que  difcil! O Bruno, coitado, estava todo perdido, no
conseguia nem falar direito.

Vinte minutos depois, aparece Bruno com um grande sorriso.
_Podem comemorar, a Vitria chegou!
_Ah, meu Deus, obrigada! - disse Lgia- Parabns, Bruno, e a Bia
como est?
_Est bem. A nossa menina quis chegar um pouco antes. Nasceu
com 2,7kilos.
_O parto foi normal?
_Sim, e eu vi tudo, pensei que no ia conseguir.
_Parabns, papai!
_Valeu, Leonardo, Suzana, sogro! Parabns para todos ns!
Dois dias depois, Vitria saiu do hospital com os pais mais
sorridentes do mundo.
_Que coisinha mais fofa, a minha sobrinha  linda!
_Ah, Lo, at que enfim... meu maninho, estou to feliz! Quando
eu comecei sentir aqueles dores eu pensei que... ah... pensei que a
perderia. Voc no imagina o alvio que senti ao ouvir o choro
dela, Lo, foi emocionante. Agradeci tanto a Deus, tanto!
_Voc  a me mais linda do mundo, quer dizer a me mais nova
mais linda do mundo, porque a me mais linda  a minha me.

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                        Tnia Gonzales



_Engraadinho, a nossa me.
_E aproveite bem, porque voc ter este ttulo s at a minha
princesa ser me.
_Calma, apressadinho, nem casamos ainda! protestou Suzana que
estava com Vitria em seus braos.
_Realmente ele est bem apressadinho- concordou- Beatriz.




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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 39 -Casamento
Apesar de toda a preocupao e de todos os seus receios, Suzana
estava feliz; os ltimos meses foram de muita correria, por causa
dos estudos e principalmente pelos preparativos para o casamento.
Faltava s um ms para o to esperado dia. Eles encontraram uma
casa bem agradvel, prxima  casa dos pais de Leonardo. Tinha 3
quartos, sendo um com sute, uma sala ampla, copa e cozinha,
com um pequeno, mas convidativo quintal com churrasqueira.
Demoraram alguns dias para escolher os mveis e tambm
correram para entregar todos os convites com uma certa
antecedncia. Suzana, assim que ficou tudo certo com a data do
matrimnio, saiu com a me para escolher o vestido, e at que foi
uma tarefa fcil porque ela j havia olhado algumas revistas, assim
ela j tinha uma ideia do que queria.
Os padrinhos de Leonardo seriam: Letcia e Daniel, Paulinha e
Willian, Beatriz e Bruno, Jnatas e Jessica; os de Suzana: Sueli e
Maurcio, Cludia (que trabalhou com ela na loja de perfumes) e
Mrcio (namorado dela), Lcia e Henrique (um jovem da IGAG),
Marli e Moacir (tios dela de BH).

_Minha princesa, s falta um ms para que eu possa cham-la de
minha esposa, estou to ansioso- disse Leonardo.
_Quanta coisa para pensar, n? So tantos detalhes... ser que no
estamos nos esquecendo de nada?
_Est tudo certo, no se preocupe. A minha me est toda
animada, nem parece que j passou por isso!
Foram interrompidos por Marina.
_Suzanaaaa... filha!
_A minha me me chamando toda apavorada? Ser que aconteceu


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                           Tnia Gonzales



alguma coisa? Vamos entrar.
_O que aconteceu?
_Desculpe atrapalhar o namoro de vocs dois, mas  para dar uma
tima notcia: o Mateus nasceu!
_Nasceu? Quem avisou?
_O Maurcio ligou; eu ganhei um netinho!
_Me, parabns! E a Sueli est bem? Foi parto normal?
_Est tima, mas foi uma cesrea. Parabns para voc tambm, tia
Suzana! O Mateus pesa 4 kilos e mede 52cms.
_ um menino, hein? Parabns vov!
_Obrigada, Leonardo. Eu vou ligar para o Davi.


Vov Vivi chegou de Belo Horizonte trs dias depois do
nascimento de seu primeiro bisneto; estava ansiosa para peg-lo
no colo.
_Bisav coruja! No resistiu, n? Aqui est o seu bisneto- disse
Sueli assim que a av chegou em sua casa.
_Que lindo, que fofo! Estou to emocionada...
_Calma, no chore vov.
_Ah... eu preciso,  muita emoo! Parabns, Sueli, ele  uma
graa!
_Obrigada, vov! E parabns para a senhora tambm, bisav! A
Suzana ficou feliz ao saber que ficar at o casamento dela! Vai
ser timo t-la aqui.
A bisav passou a tarde inteira com o bisneto.  noite Leonardo
foi at l com Suzana, assim puderam matar um pouquinho da
saudade que estavam da vov.

_T-la aqui  to bom, v linda! - disse Suzana ao ficar a ss com
a av- Nunca esqueo daqueles meses que a senhora passou aqui.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Eu e o Leonardo nem sequer ramos amigos ainda e agora s falta
um ms para o nosso casamento. Ah, minha v linda, a senhora
faz parte de tudo isso, me ajudou tanto! Viu tantas lgrimas... eu a
amo muito.
_Suzana, minha neta querida, assim eu no aguento! Eu estou to
feliz por voc e o Leonardo. Sempre agradeo a Deus em minhas
oraes. E eu tambm te amo muito, muito.
V e neta se abraaram e conversaram at a madrugada.

Duas semanas depois as duas famlias: Martins e Souza, se
reuniram para um animado almoo. O feliz evento foi realizado na
casa de Beatriz.
_A sua menina est to linda! Est com quantos meses mesmo?-
quis saber Sueli que estava com o pequeno Mateus no colo.
_Completou 4 meses; e o Mateus est com quantos dias?
_Est s com 17 dias!
_Passa to rpido, voc vai comprovar isso. Olha s para a
felicidade daqueles dois- disse Beatriz apontando para Leonardo e
Suzana- Daqui a duas semanas estaro casados.
_A Suzana vai ficar maravilhosa, o vestido  lindo!


Dez dias depois se reuniram novamente na IGAG para o ensaio.
Alm da famlia estavam tambm todos os padrinhos.
_Lo, est chegando a hora! Est muito ansioso? - perguntou a
amiga Letcia.
_Eu, ansioso? Que isso! Estou to calmo! A quem eu quero
enganar, hein? Ah, Leca, eu estou muito ansioso.
_Eu sabia! Deve ser emocionante pensar que falta to pouco! Ah...
o meu dia tambm vai chegar.
_E a, j decidiram quando vai ser?

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                          Tnia Gonzales



_Daqui a um ano mais ou menos. O Daniel quer terminar a
faculdade. L vem a noiva...
_Oi, o que os dois amigos esto cochichando, hein?
_Su, o Lo estava me dizendo o quanto ele est ansioso! E voc,
como est?
_Eu? Estou... ansiosssima! Est to prximo!
_Vocs formam um casal to lindo!
_Letcia, eu concordo plenamente com voc- foram as palavras de
Paula ao se aproximar.
_Com o que voc concorda? - foi a pergunta de Lcia ao juntar-
se ao grupo.
_Que a Suzana e o Leonardo formam um casal lindo!- explicou
Paula.
_Ento eu tambm sou obrigada a concordar.
_Ah, amigas, valeu!  maravilhoso ter vocs aqui participando
deste momento especial, concorda comigo meu prncipe
Leonardo?
_Eu sempre concordo com voc, princesa Suzana.


Era sexta-feira  noite, Suzana estava tentando dormir.
_Minha neta, pare de se revirar na cama, durma! Voc precisa
descansar.
_Eu sei vov, me desculpe por t-la acordado.
_O que est acontecendo?  a ansiedade?
_... mas no se preocupe.
_Suzana, fale comigo... tem alguma coisa te preocupando e muito.
_Ah, v... deixa pra l.
_Conte para mim, querida.
_... v, nem sei como dizer.
_Voc sabe que pode me dizer qualquer coisa. Vamos, fale!

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_V... eu estou preocupada com...
_Com o qu?
_Com a ...
_Suzana, fale!
_Estou com vergonha.
_Ah... j sei. Voc est preocupada com a lua de mel, no ?
_.
_Suzana, querida... fique tranquila. O Leonardo  to gentil e
carinhoso com voc, no h motivo para pnico.
_Eu... eu... eu tenho medo de no ser uma boa esposa para ele.
_Suzana, voc ser uma tima esposa, eu tenho certeza disso.
_V, eu... a senhora est certa. Vamos dormir.

Felizmente, aps a sua curta conversa com a av, Suzana
conseguiu dormir. Acordou s 9h, tomou caf e foi para o seu dia
da noiva.

Na cada da famlia Martins a alegria era completa por estarem
recebendo a visita dos parentes que moravam em Fortaleza; at o
av de Leonardo fez questo de comparecer ao casamento do neto
apesar de j estar com 82anos.

O casamento estava marcado para as 19h; a festa seria em um
salo prximo  IGAG.
A igreja foi lindamente decorada. Dez minutos antes do horrio j
estava completamente lotada.

Leonardo estava muito elegante em seu fraque e muito nervoso
tambm.
_Meu filho, como voc est ansioso! Acalme-se, a sua noiva deve
chegar a qualquer momento.

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                          Tnia Gonzales



_Pai, o senhor tambm ficou assim?
_Eu fiquei muito agitado, no parava um minuto sequer, ia de um
lado para o outro.
_Ento o senhor estava bem pior.
_Com certeza. E ento, tudo certo para a viagem?
_Tudo. O vo sai s nove horas.
_O Bruno vai lev-los para o hotel onde vocs passaro a noite
hoje e amanh eu os levo at o aeroporto.
_Tudo bem. Que horas so?
_Hum... deixa eu ver... sete e dez.
_J? Os padrinhos esto todos a, no esto?
_ claro que sim, fique tranquilo, maninho- disse Beatriz ao se
aproximar dos dois.
_S falta a noiva- foi o comentrio do pai.
_Ela est demorando muito.
_Meu irmozinho querido, calma! Toda noiva atrasa.


_Suzana, filha... vamos? O seu pai j est no carro.
_Me... espere um pouco... a vov j foi?
_J, ela foi com a Sueli. Voc est to linda! Est nervosa?
_Ah... me... eu estou com medo.
_Medo? Suzana, hoje  um dia especial,  o seu grande dia, no h
razo para ter medo!
_Me, me desculpe, mas eu tenho medo de no ser a esposa que o
Leonardo espera... eu tenho medo de...
_Filha, voc ser uma esposa maravilhosa. Esquea os seus medos
e receios. Viva o presente e seja feliz. Podemos ir agora? O seu
noivo deve estar muito ansioso.
_Podemos sim.


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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Dez minutos depois o carro da noiva estacionou.

_A noiva chegou! - avisou Beatriz.
_Tem certeza?
_Leonardo!  claro que eu tenho certeza. Eu vou me posicionar,
os padrinhos vo entrar. E voc est lindo!

Os primeiros padrinhos a entrar foram Bruno e Beatriz, depois
entraram: Sueli e Maurcio, Letcia e Daniel, Cludia e Mrcio,
Paulinha e Willian, Lcia e Henrique, Jnatas e Jessica e por
ltimo os tios de Suzana que vieram de Belo Horizonte: Marli e
Moacir. A seguir entrou Leonardo e Lgia.
Melissa, a filha de Jnatas e Jessica, entrou jogando ptalas.
E ento, ao som de "Agnus Dei "20, entrou Suzana. Davi estava
todo orgulhoso conduzindo a filha. Ela estava conseguindo sorrir
apesar de estar muito emocionada, mas ao encontrar os olhos de
Leonardo, os dela ficaram marejados. Ela conhecia muito bem
aquele olhar apaixonado e aquele sorriso lindo.
Davi encontrou a filha ao noivo com uma satisfao imensa.
Leonardo deu um beijo na testa dela e disse:
_Minha princesa, voc est belssima, eu a amo.
_Eu... eu o amo.

O pastor Pedro Gabriel fez uma orao e aps pediu para que os
convidados se sentassem.
_Queridos, hoje  um dia muito especial na vida destes dois.
Suzana e Leonardo, esto aqui hoje para se unirem. O casamento
 algo precioso aos olhos de Deus. O prprio Deus realizou a
unio do primeiro casal: Ado e Eva. Ele viu que no era bom

20 Msica de Michael W. Smith.

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                           Tnia Gonzales



para o homem ficar s e ento fez Eva especialmente para Ado.
Leonardo, Deus fez Suzana para voc e Suzana, Deus fez
Leonardo para voc. O amor os trouxe at aqui e  ele que os
conduzir. Antes de continuar com as minhas palavras eu vou
realizar o casamento civil. Gostaria de viessem at aqui os dois
casais que sero os padrinhos.
Letcia, Daniel, Sueli e Maurcio se aproximaram.
Pastor Pedro Gabriel, logo aps realizar a cerimnia civil,
anunciou:
_Agora os noivos tero uma surpresa: Letcia e Daniel vo fazer
uma homenagem a eles atravs de um louvor.
Eles cantaram: " Um verso de amor ":
"Me lembro bem, a primeira vez que te olhei
 Nos seus olhos eu encontrei ternura e amor
 Como nunca vi igual..."21

Suzana e Leonardo se emocionaram muito, foi uma surpresa
maravilhosa pois foi justamente aquela msica que Leonardo
colocou para ela ouvir quando eles estavam comeando a se
conhecer.
_ Daqui a pouco a noiva ter mais uma surpresa- falou o pastor-
Agora eu vou continuar as minhas palavras. Eu disse que o amor
os trouxe at aqui e que ele os conduzir. Tudo precisa ser feito
com muito amor, pois s assim vocs sero vitoriosos. Os
problema viro, mas onde existe amor, tambm existe
compreenso, respeito, confiana e assim vocs chegaro a uma
soluo. O apstolo Paulo nos deixou uma mensagem linda sobre
o amor: " O amor  paciente,  benigno; o amor no arde em
cimes...no procura o seu interesse... regozija-se com a

21 Cantora: Pmela  Compositores: Davi Fernandes e Dereck

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     Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


verdade...tudo sofre, tudo cr, tudo espera, tudo suporta."22
Que palavras lindas! Mas se forem praticadas elas ficam melhores
ainda. Queridos noivos, vivam estas palavras. Existir momentos
que a pacincia ser testada, vocs passaro no teste? Existir
momentos em que ser mais fcil mentir, mas lembrem-se que o
amor regozija-se com a verdade, ou seja ele fica alegre com a
verdade. Cimes? No; o verdadeiro amor no se arde em cimes.
Se voc abrir o dicionrio nesta palavra, a primeira definio diz
assim: Insegurana em relao a uma pessoa querida23. Leonardo,
no tenha medo de demonstrar o seu amor; Suzana, no tenha
medo de demonstrar o seu amor. Eu digo isso porque uma pessoa
quando sabe que  amada sente-se segura, ento o cime no
encontrar lugar. Queridos noivos, Deus quer que sejam felizes,
ento se esforcem, se empenhem neste relacionamento. E nunca se
esqueam que o mais importante de tudo  o amor. Ele  mais
importante do que voc ter razo em uma discusso,  mais
importante do que o seu ego; ele  sempre mais importante, nunca
se esqueam disso. Bem... agora chegou o momento da surpresa
para a noiva. Leonardo ensaiou bastante com a orquestra. Suzana,
ele vai cantar especialmente para voc. Leonardo,  a sua vez.
Leonardo comeou a cantar com os olhos fixos em Suzana que j
no estava suportando tanta emoo. Conforme ele cantava, ela
lembrava de cada momento vivido pelos dois... quando Leonardo
chegou no refro, o rosto dela estava molhado pelas lgrimas.

"Meu amor, quando palavras no conseguem expressar, veja o
brilho em meu olhar, acredita em mim, o que eu sinto por voc, 


22 1 Corntios 13.4-7
23 Mini dicionrio Caldas Aulete

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                           Tnia Gonzales



amor."24
A emoo tomou conta de todos os presentes, principalmente dos
pais de Suzana e da vov Vivi, que sabiam o quanto aquelas
palavras significavam para ela.
Ao terminar, Leonardo beijou a mo de Suzana e sussurrou:
_Eu te amo!
Suzana nem conseguiu retribuir, as palavras simplesmente no
saam. Leonardo tirou um pequeno leno do bolso e enxugou as
lgrimas dela.

_Que romntico! O amor  lindo... queridos, agora estamos
prontos para a entrada das alianas.
A neta do pastor Pedro Gabriel entrou com as alianas. A pequena
Raquel de 4 anos veio com os pais missionrios para visitar os
avs. Lucas, filho do pastor e Rebeca, a nora, ficaro um ms no
Brasil, depois retornaro para Moambique para continuar o
trabalho de misses.
_Ela no  linda? Permitam-me ser um pouco coruja. Muito bem...
aqui esto, duas alianas, smbolo do compromisso de vocs, mas
 claro que o verdadeiro compromisso est a dentro do corao de
cada um. Compromisso aqui  sinnimo de fidelidade. Leonardo,
o seu compromisso, ou seja o seu acordo,  com a Suzana, por isso
voc deve ser fiel a ela. Suzana, com voc  a mesma coisa, o seu
compromisso  com o Leonardo, por isso voc deve ser fiel a ele.

Depois de fazerem os votos e colocarem as alianas, os noivos
foram abenoados por toda a igreja atravs de uma orao
especial.

24 Acredita em mim- Novo Som- compositores: Davi Fernandes e
   Renato Csar.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Muito bem... eu como ministro do evangelho, os declaro marido
e mulher. Que as benos de Deus estejam sobre a vida de vocs.
Parabns! Leonardo, pode beijar a sua noiva.
Leonardo acariciou o rosto de Suzana e a beijou suavemente.
_Leonardo, eu amo voc- enfim Suzana conseguiu se expressar
atravs da palavra.
_E eu a voc- respondeu ele.

Ao receber o abrao dos pais, Suzana mais uma vez se emocionou
muito. Ela pde perceber o quanto eles estavam felizes. E cada
casal que os cumprimentava tinha um significado todo especial.
Lgia chorou muito ao abraar o filho. Rafael bem que tentou
esconder algumas lgrimas que insistiam em cair mas foi em vo.
Beatriz nem tentou segurar ao chegar perto do irmo j estava com
o rosto todo molhado.
Sueli e Suzana se abraaram emocionadas.
_Suzana, eu agradeo a Deus por ele ter colocado o Leonardo em
seu caminho- foram as palavras de Lcia ao abraar a amiga.

Foi um verdadeiro estrondo quando o mais novo casal chegou ao
salo de festas. Aps algumas fotos. O casal foi de mesa em mesa
para serem cumprimentados pelos convidados.
_V, at que enfim eu a encontrei, ah, minha v linda!- disse
Suzana que estava ansiosa por abraar a vov Vivi.
_Minha neta, parabns! Foi lindo, chorei muito... o Leonardo  o
principal culpado, quando ele comeou a cantar eu desabei a
chorar.
_V, linda! Obrigada por tudo. Eu te amo tanto.
_E eu, no ganho um abrao da minha v? - reclamou Leonardo.
_ claro que ganha! Leonardo, eu tenho certeza que voc far a
minha neta muito feliz.

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                          Tnia Gonzales



Depois os noivos foram at a mesa onde estava a famlia Reis.
_Regina, Paulo, que bom ter vocs dois aqui!- disse o noivo.
_Parabns aos dois, a cerimnia foi perfeita- disse Paulo
_Voc cantando foi a melhor parte- completou Regina.
_A minha voz no  grande coisa, mas eu cantei com o corao.
_Que fofo! - disse Paulinha.
_E a, amiga, est namorando?
_Lo, no comea! Eu e o Willian somos s amigos; a faculdade
ocupa todo o meu tempo, mas quem sabe...
_Gostei do " quem sabe".
Depois foi a vez da famlia Soares.
_Suzana, parabns! Estou muito feliz por vocs dois, acredite  de
corao- falou Sandra toda emocionada.
_Eu sei, Sandra, agradeo muito a presena de vocs.
_Leonardo me d um abrao! Voc ficou muito bem de fraque- foi
o comentrio de Fernando.
_Valeu mesmo, Fernando, a presena de vocs  muito importante
para ns.

Aps muitos cumprimentos, os noivos conseguiram enfim sentar
para comer. Mas a tranquilidade durou pouco, pois precisaram
tirar mais e mais fotos.
_Suzana, chegou a hora de jogar o bouquet; lembra de mim, t? -
pediu Cludia.
Suzana se divertiu muito ao ver as amigas ansiosas para pegar o
bouquet; simulou jogar por vrias vezes.
_Vai logo, chega de enrolao!- gritavam elas.
Segundos depois o lindo bouquet estava nas mos da amiga
Letcia.
_Marmelada! Marmelada! - gritavam elas.
Letcia, toda sorridente, se aproximou do namorado Daniel.

                               430
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Uau! Agora tenho que me apressar... vou comear agora mesmo:
quer casar comigo?
_Muita calma nessa hora, no precisa ter pressa. Eu sou bem
paciente, s no pode exagerar, t? - brincou ela.
Suzana chegou perto do casal e deu um grande abrao na amiga.
Leonardo aproveitou para brincar com a amiga de infncia:
_E a, Leca, tinha que ser voc, a Suzana mirou bem... e acertou
no alvo! Acertou na minha amiga Leca!
_Lo, meu amigo ,eu j disse vrias vezes para no me chamar
de...
_Leca? Ah... por favor, eu adoro cham-la assim, minha amiga
Leca!
_Suzana, posso bater nele? Voc me permite?
_Ah, no faz isso com ele.
_Tudo bem, voc precisa dele inteirinho, n?
_Uau! Gostei! - brincou Leonardo que ia falar mais alguma coisa,
mas resolveu ficar calado ao ver que Suzana corou.




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                           Tnia Gonzales



Captulo 40 -Lua de mel?
Quando Bruno deixou os noivos no hotel era quase uma hora.
_ E ento, feliz? - perguntou Leonardo ao fechar a porta do quarto.
_Muito; foi uma cerimnia emocionante. Voc cantar para mim
foi maravilhoso, aquela msica  linda, eu ...
_Minha princesa, eu amo voc, maravilhoso  saber que a partir
de hoje voc  minha esposa. Gostei de dizer isso: Minha esposa.
Leonardo se aproximou e comeou a acariciar o rosto dela, depois
deslizou os dedos bem lentamente at os lbios, chegou mais perto
e a beijou, a princpio bem suavemente, mas aos poucos ele foi
intensificando at que se transformou em um beijo cheio de
paixo. Suzana estava correspondendo aos carinhos dele, mas de
repente afastou-se.
_Eu... preciso tomar um banho, quero lavar os meus cabelos
urgentemente... ficar livre de todo este laqu.
_Tudo bem. Voc ficou linda com o coque, mas eu prefiro que os
seus cabelos estejam soltos, eu adoro acarici-los. Quer
companhia?
_No... eu vou tomar um banho bem rpido.
_Vai mesmo lavar os cabelos a esta hora?
_Eu trouxe o meu secador. Est pensando o qu?
_Que mulher prevenida!

Suzana escolheu uma roupa rapidamente. Ela no queria vestir
algo que chamasse muito a ateno de Leonardo, pelo menos no
naquela noite, por isso preferiu uma camisola bem discreta.
"Deveria ter trazido um pijama"- pensou.

Poucos minutos depois ela saiu do banheiro. Estava meio sem


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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


jeito, no sabia o que fazer.
_Voc est linda... e... hum... que cheiro bom...  melhor eu tomar
banho tambm.
Enquanto Suzana secava seus cabelos, Leonardo tomava o seu
banho.
Instantes depois ele saiu vestido s com o shorts de um pijama
azul escuro. Ao v-lo assim, Suzana estremeceu e pensou se ele
estaria pretendendo algo mais naquela primeira noite juntos; ela
desejava poder dormir tranquilamente, era s o que ela queria.
_Est muito cansada?
_Estou.
_Quer que eu faa uma massagem?
_No, obrigada. Eu s quero... dormir.
_Tem certeza? Iria gostar da minha massagem. E voc est to
tensa... ajuda a relaxar.
_Eu... gostaria de descansar agora.
_Tudo bem, descanse. Mas eu quero um beijo de boa noite.
Suzana deu um rpido beijo em seu marido e a seguir deitou-se.
_Voc est mesmo cansada. Eu estou feliz por t-la aqui ao meu
lado, muito bom saber que verei o seu rosto pela manh.
_Um rosto todo amassado.
_Um rosto lindo que eu amo muito.
_Boa noite, Leonardo.
_Boa noite, minha princesa.
Suzana virou-se para o lado oposto ao de Leonardo e fechou os
olhos, mas demorou muito para pegar no sono. Ficou pensando
se Leonardo estaria decepcionado com ela.

Eram seis horas da manh. Leonardo abriu os olhos e deu um
sorriso ao ver Suzana ao seu lado, ela ainda estava dormindo. Ele
ficou por alguns segundos admirando-a: " como ela  linda... t-la

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                          Tnia Gonzales



aqui comigo  to bom... saber que a partir de agora passaremos
todas as noites juntos  ..."- seus pensamentos foram
interrompidos pelo toque do celular.
_Sim? Tudo bem, no se desculpe. Ainda no... daqui a trinta
minutos? Certo. Abrao.
_Bom dia.
_Bom dia, minha princesa. O meu pai acabou de ligar; temos que
tomar caf, ele chega em trinta minutos.
_Eu vou me arrumar.
_Dormiu bem?
_Sim- mentiu e logo lembrou-se das palavras do pastor: " Existir
momentos em que ser mais fcil mentir"- ento completou-
Quero dizer, mais ou menos.
_Foi pouco tempo, no deu para descansar direito, n?
_.
Tomaram caf ali mesmo no quarto. s 6h30 entraram no carro de
Rafael.
_Bom dia aos noivos! Descansaram bastante?- perguntou Rafael e
completou a seguir- No precisam me responder isso, me
desculpe.
_Tudo bem, pai. Deu para descansar um pouco sim, mas j estava
to tarde! Hoje vai dar para descansar legal.
_, sei... quer dizer,  melhor eu ficar quieto.
Suzana fez que no percebeu o constrangimento dele.

_Filho, avise o horrio do retorno de vocs que eu venho busc-
los, ou o Bruno, se eu tiver algum problema. Boa viagem , curtam
bastante Porto de Galinhas,  um lugar lindo.
_Valeu, pai.



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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


O avio pousou no Aeroporto Internacional dos Guararapes25
poucos minutos antes do meio-dia; pegaram um txi para
chegarem at Porto de Galinhas. Poucos minutos depois da uma
hora eles j estavam na recepo do hotel.
_E ento, qual  a sua opinio at agora?- perguntou Leonardo
assim que ficaram a ss no confortvel apartamento.
_Estou de boca aberta, que lugar maravilhoso! Que presente
incrvel, vamos precisar agradecer muito  Bia e ao Bruno.
_Com certeza! Eu j fiquei impressionado assim que chegamos;
que vista espetacular para o mar! Vamos almoar agora?
_Vamos sim, estou faminta!

_Adorei... estas portas e janelas de vidro deixam o ambiente to
claro e arejado... - foi o comentrio de Suzana ao entrar no
restaurante.
_Eu estou gostando  do que est bem  minha frente... que
delcia! Todas estas opes esto me deixando com mais fome
ainda.
Participaram de um delicioso almoo e aps foram caminhar para
conhecer o local que era um verdadeiro paraso.
No final da tarde voltaram para o apartamento.
_Agora eu s quero um belo banho! - disse Suzana.
_S? Voc no me quer tambm?
_Precisa falar assim todo dengoso?
_Preciso sim... posso acompanh-la?
_Leonardo... eu prefiro tomar banho sozinha.
_Tudo bem, como voc desejar, minha princesa- disse meio
decepcionado.
Leonardo ligou a TV e ficou zapeando sem muito interesse.

25 Recife- Pernambuco

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                          Tnia Gonzales



Assim que Suzana saiu do banho ele desligou imediatamente a
TV, aproximou-se dela e comeou a acariciar aqueles cabelos
sedosos e perfumados.
_Que cheiro bom... eu vou tomar banho tambm para ficar bem
cheiroso para voc.
_E depois vamos jantar?
_J est com fome?
_No ria de mim, mas eu estou sim, acho que  o clima daqui.
_Tudo bem, minha princesa esposa.

Aps o jantar, Leonardo e Suzana ficaram conversando e
apreciando a linda vista para o mar. s 22h Leonardo a puxou
pelo brao e disse quase sussurrando:
_O que voc acha de voltarmos para o apartamento agora?
Suzana quase respondeu que gostaria de continuar ali mesmo, mas
algo no olhar dele a fez mudar de ideia.
_Vamos  disse simplesmente.

Assim que entraram, Leonardo pegou a mo de Suzana e a beijou
com carinho, a seguir beijou o brao e foi subindo at alcanar o
canto dos lbios dela, se deteve por alguns segundos... ela
estremeceu... ele comeou a dizer:
_Ah, minha princesa, eu te amo... eu esperei tanto por este
momento, estar aqui com voc  maravilhoso.
_Leonardo... eu...
O beijo comeou tranquilo... suave... mas segundos depois se
transformou em algo intenso, clido... ele deslizou as mos nas
costas de Suzana e a apertou com mais fora junto ao peito...
_Leonardo, por favor... pare.
_Suzana... minha princesa, eu...
_Leonardo, me solte... por favor  disse ela em um tom urgente.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Ele, sem entender, afastou-se rapidamente.
_O que aconteceu? Est tudo bem?
_Eu... eu quero dormir.
_J? Est cedo ainda.
_Eu estou cansada.
Ao dizer isso, Suzana foi at o banheiro deixando Leonardo com
uma grande interrogao. Ela reapareceu instantes depois, ajeitou
o seu lado da cama e deitou-se.
_Boa noite.
_Boa noite- respondeu ele.

" Como ele deve estar decepcionado comigo! No  para menos...
mas eu no pude evitar, entrei em pnico s de pensar no que viria
depois; o que eu vou fazer? Eu no posso fugir dele o tempo todo.
Eu gostaria de sumir daqui... eu sabia que isso no ia dar certo. Eu
nunca vou conseguir superar, nunca... e isso  to injusto pra ele!"

Leonardo levantou-se antes das 8h e saiu para dar uma volta pelo
hotel, quando retornou Suzana j estava acordada.
_Bom dia, j podemos tomar o caf da manh?- disse ele.
_Bom dia.  claro que sim.
_Posso... no... no  nada, vamos ento.
Leonardo, por um momento, pensou em perguntar para ela se ele
poderia beij-la, mas mudou de ideia.

Antes do almoo eles resolveram tomar um banho de mar. 
tarde, aproveitaram as opes de lazer que havia no hotel.
Jantaram s 20h; durante todo o dia eles conversaram sobre tudo
e todos, menos sobre o relacionamento dos dois.
Ao entrar no apartamento, Leonardo ligou a TV, estava passando
um filme de James Bond, ele resolveu assistir. Suzana deitou-se

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                         Tnia Gonzales



sem dizer nada.
Leonardo queria muito question-la sobre a noite anterior, mas
decidiu esperar at o outro dia.

_ Eu aluguei um carro para irmos at Recife, o que voc acha de
passarmos o dia l?- perguntou ele logo aps o caf.
_Tudo bem, acho timo.
Durante todo o dia eles conversaram bastante, at riram juntos,
mas, semelhante ao dia anterior, no falaram nada sobre eles
mesmos.
Voltaram ao hotel somente no incio da noite; aps o jantar
ficaram conversando olhando para mar. S foram para o
apartamento depois das 23h.

_Suzana, ns precisamos conversar.
_Mais?
_Sobre ns.
_Ah...
_O que est acontecendo com voc? Por que voc tem me
evitado?
_Eu... eu no quero falar sobre isso.
_Ns precisamos. Voc est com medo?
_Eu j disse que...
_Suzana, eu sou seu marido agora, eu...
_Eu sou uma pssima esposa... ou melhor nem esposa eu sou!
_Pare com isso, no quero que fale assim. Minha princesa, eu
nunca machucaria voc, no precisa ter medo.
_Eu... eu nunca vou conseguir, nunca. Voc no deveria ter se
casado comigo, eu... eu no posso, eu...
Ela no conseguiu falar mais, as lgrimas rapidamente inundaram
o seu rosto.

                             438
    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_No chore, meu amor. Suzana...
Leonardo tentou aconcheg-la em seus braos, mas ela correu at
o banheiro e fechou a porta.
_Suzana, abra a porta, por favor.
 Ele no obteve resposta, s ouvia o som de um choro abafado.
_Suzana, no faa isso. Esconder-se no vai resolver nada, venha
at aqui para conversarmos.

Vinte minutos se passaram...
_Suzana, eu vou ligar para recepo e dizer que voc ficou
trancada no banheiro.
Poucos segundos depois ela abriu a porta.
_Deite-se e tente dormir; amanh voltamos a conversar. Boa noite-
disse ele beijando-lhe a testa.

Foi muito difcil para Suzana adormecer...

_No... eu no quero... me solte, por favor! No! No! Voc...
no... me solte! Socorro! No!
_Suzana... amor... eu estou aqui, foi s um pesadelo.
_H? H? Leonardo? Eu....
_Acalme-se.
_Eu no sei o que fazer, eu...
_Psiu! No fale mais nada... descanse. Deite-se em meu peito...
calma... ei,  s para que eu possa acariciar os seus cabelos, eu
quero que fique confortvel... pode aconchegar-se em meus
braos eu no vou fazer nada.
Vrios minutos se passaram at que ele percebeu que ela havia
dormido.
No dia seguinte Leonardo preferiu no tocar no assunto. Passaram
o dia inteiro bem longe do apartamento.

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                          Tnia Gonzales



_Quer assistir comigo?  um filme bem interessante;  um dos
meus favoritos, tem um advogado de defesa obstinado, uma
promotora implacvel... - disse Leonardo; eram 22h e Suzana
havia acabado de sair do banho.
_Eu... tudo bem vou assistir com voc.
Na verdade Suzana gostaria de dizer que preferia dormir, mas para
no mago-lo ainda mais ela resolveu acompanh-lo.
_Minha princesa, no precisa ficar to longe de mim, vem aqui
pertinho, eu prometo que vou ficar bem quietinho e no vou...
 Ele achou melhor no continuar a falar para no complicar ainda
mais a situao, pois iria dizer que no tocaria nela.
Suzana se aproximou e comeou a se interessar pelo filme. Antes
da meia-noite j estavam prontos para dormir. Ela deu um rpido
beijo nele e desejou-lhe boa noite.

Os ltimos dois dias foram bem semelhantes, passavam o dia
inteiro fora do apartamento; curtindo a praia, caminhando, tirando
fotos, conversando muito, mas nunca mencionavam aquele
delicado assunto. No ltimo dia que passariam ali Suzana
comprou algumas lembrancinhas.
 noite Leonardo tentou uma aproximao.
_Amanh vamos embora deste paraso tropical, mas eu quero
voltar em breve e voc?
_Eu? ... acho que sim.
_Nossa, que falta de interesse!
_Me desculpe...  que... eu s acho que foi um desperdcio do
dinheiro da sua irm; ela nos deu um presente maravilhoso e ...
_Voc no gostou daqui? Isso  impossvel!
_O lugar  maravilhoso...  claro que eu adorei! O problema foi a
companhia.
_Companhia area? - brincou ele tentando descontrair um pouco.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_No tem graa.
_Se no  a companhia area... voc est se referindo  minha
companhia? Pensei que voc gostasse de estar comigo.
_Leonardo, estou me referindo  minha companhia; se a Bia e o
Bruno soubessem o quanto o dinheiro deles foi mal empregado...
_Para com isso. Se voc pensa assim por que no se aproxima de
mim para mudarmos isso? Vamos aproveitar a nossa ltima noite
aqui.
Ele chegou bem perto dela e a levantou, pois Suzana estava
sentada na cama.
_Minha princesa, esquea tudo e...
_Leonardo...
_Eu quero tanto t-la em meus braos, ah, Suzana, eu amo voc.
Enquanto ele a beijava bem suavemente, Suzana pensava:
" Eu tenho que conseguir, no posso me afastar dele novamente,
ele no merece isso... eu vou conseguir... preciso. No, no, eu no
posso me afastar, ele  o meu marido."
Leonardo, bem gentilmente, a deitou na cama e continuou com
aquele beijo cheio de ternura, sem pressa alguma. Estava tomando
todos os cuidados para no fazer nenhum movimento que pudesse
assust-la. Ela continuava com aquele exerccio da mente:
" No posso decepcion-lo... no posso... ele  to carinhoso e
compreensivo! Eu vou conseguir..."
De repente algumas imagens apareceram em sua mente, aquelas
imagens do passado que deveriam estar bem enterradas. Eram to
ntidas... ela queria se livrar daquele peso em seu corpo... ela
precisava sair dali, ela queria gritar!
_Me solta, me solta! Saa de cima de mim, por favor! Eu no
quero! - Suzana gritava desesperada.
Sem dizer nada, Leonardo afastou-se dela e foi at o banheiro.


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                         Tnia Gonzales



O alarme do celular tocou: eram 8h, Leonardo levantou-se, tomou
um banho e comeou a mexer em sua mala; Suzana tambm
acordou e fez o mesmo que ele; os dois organizaram as malas em
silncio.
_Eu vou tomar caf, quer me acompanhar? - perguntou ele.
Ela concordou. Durante o caf houve um silncio constrangedor.
Voltaram para o apartamento. Leonardo ligou para o pai
confirmando o horrio.
_O que voc gostaria de fazer antes do almoo? Lembre-se que
precisamos almoar cedo, o vo est marcado para as 15h.
_Nada. Eu vou ficar aqui mesmo.
_Ento eu vou caminhar um pouco.
Assim que ele saiu, Suzana desabou em lgrimas.
Leonardo s voltou perto da hora do almoo.




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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 41  O retorno
Deixaram o hotel s 13h; durante o trajeto at o aeroporto eles
permaneceram entregues cada um ao seu prprio pensamento; e
durante o vo at So Paulo no foi diferente. A situao s
mudou quando encontraram-se com Rafael, a resolveram colocar
uma mscara para no transparecer que o clima entre eles no
estava nada bom.
_E ento? Qual a opinio de vocs sobre Porto de Galinhas?
_Um verdadeiro paraso- foi a resposta de Suzana.
_O lugar  maravilhoso, pena que a Suzana no gostou da
companhia- ironizou ele.
_Por qu?Vocs tiveram algum problema com a companhia area?
_No,  brincadeira do Leonardo- disse Suzana lanando ao
marido um olhar de reprovao.
_A minha esposa tem razo, eu s estou brincando, estou com um
timo senso de humor hoje.
_Tem todos os motivos para isso. Suzana, domingo eu vi o seu
sobrinho, o nome dele  Mateus, certo?
_ isso mesmo.
_Ele est lindo.
_E a Vitria? - quis saber Leonardo.
_Est uma fofura, precisa ver a careta que ela faz! E o biquinho
quando vai chorar?  uma graa!
_Vov coruja.
_Ns tiramos os presentes do quarto de vocs; colocamos no outro
quarto; so muitos presentes, vocs vo ter bastante trabalho.
_Que bom, ns no temos nada para fazer mesmo- Leonardo
respondeu novamente com ironia.
_Sei.  claro que vocs no tm nada para fazer e isso  timo,


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                          Tnia Gonzales



no ? Desculpe pelo comentrio, Suzana, no queria deix-la
constrangida.
_No, que isso!
_Vocs gostariam de almoar l em casa amanh?
_No sei, pai. Depois eu resolvo com a Suzana.
_Ento, tchau. Curtam bastante a casa de vocs.
_Obrigada, sogro.
_Valeu, pai.

_Nem precisava tirar os presentes de nosso quarto, no ? Com
certeza vai ser o lugar que menos vamos ficar- disse ele ao entrar
na casa.
 _Leonardo, eu no estou gostando do seu tom de ironia,tudo o
que voc tem falado desde que encontramos com seu pai...
_No est gostando? Pois eu tambm no estou gostando. Eu no
estou gostando nada do pssimo clima entre ns.
_Eu... o que eu posso dizer? Que sinto muito? Vai adiantar alguma
coisa? Vai apagar o desastre que foi a nossa lua de mel? No vai
adiantar nada, mas mesmo assim eu quero dizer que sinto muito.
_Eu tambm. Me perdoe pelo meu pssimo humor. Ah, princesa...
eu amo voc.
_Eu amo voc. Mas, o que adianta falar? Eu deveria demonstrar,
no ?
_Tudo bem. Vamos parar com isso. Eu vou pedir uma pizza e
depois ns vamos abrir os presentes, o que voc acha?
Passaram horas abrindo os presentes, lendo cada carto e tentando
organizar pelo menos parte deles nos armrios.
Era meia-noite quando eles foram dormir.
Aps o banho Suzana deitou-se rapidamente. Fechou os olhos e
ficou prestando ateno aos rudos que vinham do banheiro.
Leonardo, poucos minutos depois, deitou-se ao lado dela. Suzana

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


resolveu fingir que j havia adormecido. Ele estava muito
desapontado com a atitude dela, mas resolveu no incomod-la.
Leonardo acordou antes da esposa; queria fazer uma surpresa para
ela. Foi at a padaria e ao retornar para casa verificou que Suzana
ainda estava dormindo. Fez o caf, esquentou o leite, preparou um
suco de laranja; pegou uma bandeja e colocou nela pedaos de
queijo, pes, dois pedaos de bolo e tudo que havia preparado.
_Bom dia, minha princesa.
_H? Voc j levantou? No deveria ter preparado tudo sozinho.
Por que voc no me chamou?- perguntou ela ainda sonolenta.
_Eu queria fazer uma surpresa para minha linda esposa.
_Ah... sua esposa... Leonardo, eu quero me desculpar por ontem.
Eu no estava dormindo quando...
_Que tal voc esquecer isso e aproveitar o caf?
_No. Voc  to gentil e eu ... Leonardo, eu fingi que estava
dormindo. Me perdoe.
_Minha princesa, tudo bem. Podemos comer agora?
_Podemos. Obrigada por voc ser to...
_Suzana, para com isso. Abra a boca e experimente o queijo...
isso.
Tomaram o caf e no falaram mais sobre aquele assunto durante
todo o dia. Concordaram em no sair e continuaram a organizar
as coisas na nova casa, pois o dia seguinte seria segunda-feira e
eles teriam que enfrentar a rotina.
Acordaram cedo e cada um foi para o seu trabalho. No incio da
noite Leonardo props fazerem uma visita aos pais de Suzana
antes de lev-la para faculdade.

_Como  bom rev-los. Gostaram de Porto de Galinhas?- foi a
pergunta de Marina.
_O lugar  maravilhoso, me.

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                           Tnia Gonzales



_ verdade, sogrinha.  um lugar lindo e o hotel era timo.
_J conseguiram organizar as coisas?- perguntou Davi.
_Um pouco. Ganhamos muitos presentes- disse Suzana.
_Filha, est tudo bem?- quis saber Marina assim que ficou a ss
com Suzana- Me desculpe, mas eu tenho a impresso que voc
est triste e o Leonardo tambm no me parece feliz, me desculpe
mais uma vez.
_Est tudo bem, me. Eu acho que  cansao. Ontem ficamos at
tarde organizando tudo.
_No precisam fazer tudo em um s dia; aos poucos vocs
conseguem se organizar.
_Tem razo, mas a senhora sabe como eu sou, quero deixar tudo
arrumado e...
_Querida, no precisa exagerar, afinal vocs ainda esto em lua de
mel. Fiquei at surpresa por vocs terem vindo aqui hoje.
_ que... j estvamos com saudades,  isso. Bom, agora temos
que ir. Preciso ver o que perdi nestes dias que faltei na faculdade.
_Vocs no quiseram esperar at dezembro!

Naquela semana o novo casal trabalhou muito fora e dentro de
casa tambm. O clima entre eles no estava muito bom, pois
Suzana no conseguia se aproximar do marido e ele permaneceu
distante, s esperando pela iniciativa dela. E para piorar a
situao, na quarta-feira Marina recebeu um telefonema de Rita
que a deixou muito preocupada.
No dia seguinte resolveu ligar para Suzana.
_Est tudo bem com a Lcia, o problema  com... o pai dela. O
Valter est internado em Belo Horizonte, o estado de sade dele 
grave; est com srios problemas de corao. Ele estava... preso.
_Preso?- perguntou Suzana surpresa.
_A Rita disse que ele foi acusado de ...

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Do que ele foi acusado?
_De... estupro. Uma menina de 13anos, filha da empregada dele.
_Ah, meu Deus...
_Filha, acalme-se, eu no deveria ter ligado, mas eu preciso falar.
 que a Rita disse que o Valter quer... ele quer falar com voc.

Suzana contou tudo para Leonardo assim que chegou da faculdade
naquela noite.
_O qu? Aquele canalha... se ele pensa que eu vou deixar, est
muito enganado- disse Leonardo indignado.
_Leonardo, a situao  bem complicada. O estado de sade dele 
bem grave. A Lcia e a Rita j esto l. No sei o que fazer!
_Voc no tem nada a ver com isso. Eu no vou permitir que
passe por isso, era s o que faltava, j est tudo to... - Leonardo
interrompeu suas palavras e pensou bem antes, pois no queria
falar sobre a vida ntima deles- Voc sofreu tanto e no faria nada
bem ficar diante daquele... homem.
_Ele disse que quer morrer em paz.
Leonardo encerrou o assunto com Suzana e ligou para Marina.

_ Quando foi que ele foi preso?
_Leonardo, voc deve lembrar bem daqueles dias que ele esteve
visitando a Lcia e depois sumiu; pois ele foi preso logo em
seguida. A Rita contou que ele... abusou da menina dias antes de
vir visitar a filha. Ele morava com a famlia em Porto Alegre mas
ainda tinha alguns negcios em Minas e at ainda possua uma
casa l onde vivia uma empregada com a filha. Ele foi acusado e
conseguiram a condenao dele.
_Dona Marina, se vocs tivessem feito a acusao contra ele, se
tivessem reaberto o caso... eu sei que a Suzana iria sofrer, mas...
talvez a pobre menina teria se livrado daquele monstro. Me

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                           Tnia Gonzales



desculpe, eu sei que  duro ouvir isso mas  isso que acontece
quando h impunidade. O canalha se sentiu inatingvel, s Deus
sabe se ele no fez isso com mais meninas. Agora, depois de tudo
o que ele fez... no, a Suzana no vai passar por isso.
_Leonardo, voc no acha que  ela que deve decidir?
_Eu no sei...
_Leonardo, se ele morrer isso pode ser outro trauma para ela. Ele
quer ter a oportunidade de pedir perdo.
_Vamos deixar que ela decida.

Sexta-feira  noite os jovens se reuniram na IGAG para um culto
especial de orao; Suzana sentiu que ela e Leonardo deveriam
participar, por isso faltou  aula naquela noite. Aps orarem
durante alguns minutos, Pastor Pedro Gabriel abriu a Bblia e leu:
"...e perdoa-nos as nossas dvidas, assim como ns temos
perdoado aos nossos devedores..."26
_Amados, nesta noite falarei sobre o perdo. Perdoar  fcil? Pedir
perdo  fcil? Algum j perguntou: O que  mais fcil: pedir
perdo ou perdoar? Responda a em seu corao. Eu digo que
nenhum dos dois  fcil de fazer.  necessrio vontade, 
necessrio deixar o orgulho de lado.  preciso deixar de ter razo
mesmo tendo. Voc com certeza j ouviu a frase: " Errar 
humano, perdoar  divino." Eu digo que perdoar  divino e
humano tambm, pois se no fosse assim, Deus no nos mandaria
perdoar. Na Bblia ns encontramos vrios versculos que falam
sobre o perdo e o prprio Jesus falou sobre isso algumas vezes.
No  fcil perdoar porque se h necessidade de perdo  porque
ocorreu algo.  porque algum cometeu algum erro. Amados,
quando voc perdoa  como se um enorme peso fosse retirado dos

26 Mateus 6.12

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


seus ombros e a mesma coisa acontece quando voc pede o
perdo. Neste momento eu gostaria que voc pensasse em algum
que precisa ser perdoado por voc e depois eu tambm gostaria
que voc lembrasse de algum que voc precise pedir perdo.
Pense bem. Voc pode estar com srias dificuldades. Pode estar
pensando: " Eu no vou perdo-lo nunca. O que ele me fez 
imperdovel! Esta pessoa no merece." Pois  por isso mesmo que
esta pessoa precisa do seu perdo: porque ela no merece.
Amados, se ele merecesse no seria necessrio perdoar. O perdo
 justamente para quem no merece. Na orao que ns
conhecemos como " Pai nosso ", Jesus diz " perdoa-nos as nossas
dvidas, assim como ns temos perdoado aos nossos devedores";
preste ateno: " temos perdoado aos nossos devedores", ou seja
h uma dvida. Que dvida? Amados quando  falado dvida no se
refere somente  uma soma em dinheiro. Uma dvida pode ser
qualquer coisa. Algum talvez esteja devendo para voc o
respeito, a dignidade, a honra. Talvez algum tenha tirado de voc
algo de muito valor e isso o machuca muito. Seja o que for que
esta pessoa tirou de voc e que fez toda a diferena em sua vida,
voc pode colocar um ponto final em tudo isso e continuar a sua
vida. Ser feliz sem este peso. Voc pode at estar pensando agora:
" Eu no tive culpa nenhuma, ele  o culpado, ela  a culpada",
mas  exatamente por isso que o perdo est sendo pedido para
voc.  voc que precisa dar a liberdade para aquela pessoa. 
voc.  necessrio perdoar porque ele ou ela no merece. Deus
nos perdoou atravs de Jesus por isso Ele nos diz para perdoar. Vai
ser fcil? No; mas voc no est sozinho.

Naquela noite Suzana chorou muito; Leonardo a envolveu em seus
braos sem nada dizer pois sabia que ela estava travando uma
batalha consigo mesma e que tomaria uma deciso muito difcil

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                           Tnia Gonzales



porm extremamente necessria.

Na manh seguinte Suzana j havia decidido o que fazer.
_Eu gostaria muito que voc me acompanhasse nesta viagem.
_ claro que vou. Arrume as coisas, eu vou at a mecnica do
Isaque para ele dar uma olhada no carro.

Chegaram em Belo Horizonte no final da tarde de sbado.
_Suzana, eu agradeo muito a sua presena aqui, eu sei o quanto 
difcil para voc- disse Rita.
_Tudo bem, Rita. E a Lcia, como est?
_Ela est reagindo bem. Est com o pai no hospital. Voc prefere
deixar para amanh?
_No, Rita. Quero resolver isso o mais rpido possvel. No d
para adiar, ele est mal, no ? E ns precisamos ir embora
amanh mesmo por causa do trabalho e da faculdade.
_Sim. Ento vamos at l.

Durante o trajeto at o hospital, Suzana comeou a pensar que
seria a primeira vez que se encontraria com aquele homem que
tanto a machucou. Com tristeza deu uma rpida olhada no marido
que tambm estava sofrendo as consequncias da maldade daquele
homem. " Ah, Leonardo, por culpa deste homem que veremos
daqui a pouco eu no consigo ser uma esposa de verdade para
voc, ah, meu Deus, como  difcil pensar em perdoar!" - pensou.

_No se afaste de mim nem por um segundo, est bem?
_ claro, Suzana. Eu vou ficar ao seu lado o tempo todo, fique
tranquila- assegurou Leonardo.
Havia um policial  porta do quarto. Rita entrou e chamou a filha.
_Suzana, minha amiga. Obrigada por ter vindo.

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     Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


As duas se abraaram e ficaram em silncio por um momento.
_Amiga, eu pedi foras a Deus e consegui perdoar meu pai.
Apesar de tudo eu espero que voc tambm consiga.
Suzana apertou a mo de Leonardo e juntos entraram no quarto.
Ao olhar para a pessoa deitada naquele leito de hospital, Suzana
no conseguiu ver nele aquele homem forte e assustador do
passado. Valter estava abaixo do peso e tinha o semblante bem
abatido.
_Voc veio- disse em uma voz quase inaudvel.
_Sim.
_Fale logo o que deseja, ns precisamos ir embora o quanto antes-
disse Leonardo sem esconder a raiva.
_Leonardo... eu... primeiro gostaria de... de... eu preciso do seu
perdo.
_Eu? No, no  para mim que deve pedir perdo.
_Voc tambm. Eu quero... que-ro... ah... agradecer por tudo o que
voc fez por minha filha.
_Fiz por ela, no por voc.
_Eu sei. Mas... voc pode me conceder o seu perdo? Por favor!
_Fale logo com a Suzana, acabe com isso de uma vez.
_Sim. Suzana... menina.
Ao ouv-lo dizer " menina ", Suzana estremeceu e pensou que no
ia conseguir ficar em p, Leonardo a amparou.
_Eu sei que... que fiz algo terrvel e sujo. Sei que a machuquei e...
_Pare com isso. V direto ao ponto, ela no precisa ficar ouvindo
estas coisas- disse Leonardo em um tom nada amistoso.
_Sim... me desculpe. Eu sou um monstro. Eu a fiz sofrer... eu... eu
sei que no mereo ser perdoado, mas eu preciso, eu preciso- disse
em lgrimas.
_Por Deus eu o perdoo, s por Deus. Eu preciso esquecer isso de
uma vez por todas. Eu... eu... quero sair daqui.

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                          Tnia Gonzales



_Espere um pouco. Suzana, eu agradeo muito, eu... sinto muito
por tudo o que lhe causei.
_Tudo bem, agora chega. Eu vou lev-la daqui, ela j disse o que
voc queria ouvir.
_E voc?
_Eu?
_Voc consegue me perdoar?
_Eu... se a Suzana lhe concedeu o perdo, eu no posso neg-lo.
Fique em paz.
_Obrigado.

Suzana, que at ento havia conseguido segurar as lgrimas, ao
sair daquele quarto no se conteve. Leonardo a abraou
consolando-a.
Despediram-se de Rita e Lcia e foram para a casa da vov Vivi.
No dia seguinte, logo aps o almoo saram de Belo Horizonte.
Chegaram em casa naquela noite de domingo exaustos por causa
da rpida viagem.

_Leonardo, durante o sermo do pastor Pedro sobre o perdo,
quando ele disse para pensarmos em algum para pedirmos
perdo eu pensei em voc.
_Em mim?
_. Eu preciso que me perdoe.
_Por qu?
_Voc ainda pergunta? Eu no tenho sido uma esposa para voc.
Eu sei que voc est sofrendo muito. Ns dois nem se sequer
parecemos como um casal de namorados quanto mais casados! Eu
no consigo, eu no sei o que fazer.
_Suzana, olha, voc est cansada. Vamos deixar este delicado
assunto para um outro dia.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Adiar? De novo?
_Por favor, eu estou muito cansado.
_Tudo bem.

Quatro dias depois de receber o perdo de Suzana, Valter faleceu.




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                         Tnia Gonzales



Captulo 42- Tentao

Era segunda-feira, 5 de outubro, Suzana e Leonardo estavam
completando um ms de casados. Logo pela manh, ela recebeu
um lindo bouquet de rosas vermelhas; Leonardo pediu para que
entregassem na escola infantil aonde ela trabalhava. Havia
combinado com a esposa de sarem para jantar naquela noite
especial. Suzana queria que tudo fosse inesquecvel para ambos,
por isso decidiu que naquela noite ela daria um presente muito
especial e tambm muito esperado por Leonardo. Ela estava
cansada de ter medo de algo to natural e no aguentava mais a
tristeza e a decepo do marido.
Durante o jantar eles conversaram animadamente, algo que no
estava acontecendo h dias. s 22h chegaram em casa. Suzana
tomou um belo banho e vestiu uma camisola bem provocante; no
pretendia e no queria fugir de Leonardo naquela noite.
Quando ele viu Suzana se aproximando o corao dele disparou.
" Como ela est maravilhosa... hoje ns vamos comear a nossa
lua de mel, com certeza."- pensou ele.
_Como voc est linda, minha princesa.
_Estou assim pra voc.
_Adorei ouvir isso. Suzana... meu amor.
Leonardo comeou acariciando aqueles cabelos sedosos, passou
para o rosto e a puxou para si. Beijaram-se longa e
apaixonadamente. Aps muitos beijos ardentes ele a pegou no
colo e a deitou na cama.
Segundos depois Suzana estava trancada no banheiro chorando
muito e Leonardo estava na cozinha tomando um copo de gua
gelada; completamente decepcionado.



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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Eram sete horas da manh, Suzana terminou de se arrumar para o
trabalho e foi at a cozinha para tomar o caf. Leonardo j havia
sado. Enquanto saboreava o caf ela olhava com profunda tristeza
para o sof que o marido havia dormido. Ela tinha pensado em
proporcionar uma noite inesquecvel para ambos e havia
conseguido. A noite anterior foi mais um inesquecvel fracasso.
Mais uma vez ela foi uma grande decepo para o marido.

Se concentrar no trabalho depois daquela noite estava sendo muito
complicado para Leonardo." Ser que eu cometi um grande erro
me casando com ela? Ser que ela nunca vai superar o trauma?
Eu no aguento mais, eu sinto que estou chegando ao meu limite.
O que eu vou fazer? "
_Nossa, como voc est pensativo hoje, Leonardo!- disse
Alessandra, que estava trabalhando ali com eles h apenas trs
meses.
_Oi?
_Est distrado mesmo!
_Me desculpe, o que voc disse?
_O quanto voc distrado! Eu estou indo almoar, quer me
acompanhar?
_Ah... no, eu preciso terminar este servio, vou almoar mais
tarde, obrigado.

Alessandra era uma linda mulher de 22 anos. Alta, loira, olhos
azuis clarssimos; estava no quinto semestre de direito. Morava
sozinha em uma pequena casa alugada ali mesmo em So Caetano
do Sul. A famlia mora em uma pequena cidade do interior de So
Paulo.
_Aceita um caf? - perguntou Alessandra ao voltar do almoo.
_No, eu vou almoar agora. Mas, muito obrigado.

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                            Tnia Gonzales



Ao v-lo se afastar ela pensou: " No me agradea por to pouco,
gato! Deixe para agradecer um outro dia... ou melhor uma noite.
Gato... para quem casou h to pouco tempo voc est muito pra
baixo, eu posso cuidar disso, se posso!"

No final da tarde Leonardo pensou em ligar para Suzana, mas logo
mudou de ideia." O que eu vou falar pra ela? "

Suzana foi direto para faculdade, chegou cedo e resolveu estudar
um pouco na biblioteca. Sempre, aps o trabalho, passava em casa
para fazer um lanche rpido e muitas vezes Leonardo tambm
chegava cedo e assim lanchavam juntos, mas naquele dia ela no
queria encar-lo; no tinha nenhuma explicao para o que havia
ocorrido na noite anterior. H alguns dias tinham financiado um
carro para ela, pois s vezes Leonardo precisava ficar at mais
tarde no escritrio e por isso agora ela ia para a faculdade sozinha.
"Pelo menos s vamos nos encontrar  noite em casa. Ah, meu
Deus, ele deve estar me odiando!"

Suzana entrou e encontrou Leonardo deitado no sof. Havia
adormecido. Ela procurou fazer de tudo para no acord-lo mas
antes que ela chegasse na cozinha...
_H? J chegou?
_Oi, acabei de chegar. Me desculpe, vocs estava dormindo to
profundamente que eu...
_Achou timo, no ? Que maravilha, ele est dormindo! No
preciso falar com ele hoje! No  isso que voc pensou, minha
princesa?
_No. Eu s queria que voc descansasse,  s isso.
_ mesmo? Pois eu estou cansado de descansar.  s isso que eu
fao nesta casa: descansar.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Eu sinto muito.
_Sente mesmo?
_Leonardo, eu acho que no... eu no deveria ter me casado.
_Nossa, que revelao!
_Voc no merece isso. Eu nunca vou conseguir... ento 
melhor...
_ melhor o qu?
_Nos separarmos- disse ela com lgrimas nos olhos.
_Esta  a soluo que voc encontrou?  a mais fcil?
_No,  claro que no , mas talvez seja a nica. Ontem eu desejei
que tudo fosse perfeito e...
_Foi um perfeito fiasco. Um desastre total.
_Eu sei.
_ melhor voc descansar. Eu vou dormir aqui mesmo para no
incomod-la.
Sem dizer uma palavra, Suzana foi direto para o quarto. Chorou
muito; demorou horas para conseguir adormecer.

No dia seguinte Leonardo chegou s sete horas no escritrio para
evitar falar com Suzana logo pela manh.

_Bom dia, Leonardo. Voc sabe quando a Lcia volta?- perguntou
Alessandra.
_Acho que na prxima semana, ela ainda est em Belo Horizonte
com a me.
_Voc chegou cedo hoje, n? Eu deixei estes documentos ontem
no final da tarde e voc j est me devolvendo?
_Cheguei cedo. Est tudo certo a, pode devolv-los ao Fernando.
_Me desculpe, mas voc est com uma cara que teve uma noite
pssima.
_Alessandra, por favor, leve os documentos.

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Prximo  hora do almoo, Alessandra foi at a sala de Leonardo.
_Me desculpe incomod-lo, mas eu estou saindo para o almoo,
quer ir comigo?
_Alessandra, eu acho que no... ou melhor... sim. Eu vou almoar
com voc.
Ela olhou para ele e sorriu satisfeita.

Durante o almoo Alessandra falou bastante sobre a famlia dela.
_Eles ficam muito preocupados porque l tudo acontece muito
devagar,  uma cidade pequena onde todos se conhecem, enquanto
aqui... eles assistem os noticirios todos os dias e me ligam
assustados perguntando se o local daquela notcia que eles
ouviram  perto de onde eu moro.
_Eles tm razo de se preocuparem, afinal voc mora sozinha!
_Bom... os donos da minha casa moram na casa da frente, mas
eles viajam muito, eles tm uma casa no litoral. Amanh mesmo
eles vo para l e s voltam domingo  noite.

Leonardo trabalhou at s oito horas da noite e aceitou o convite
de seu pai para jantar.
_Querido, que bom que voc aceitou jantar com a gente- disse
Lgia- Fico com uma peninha de saber que voc fica l sozinho at
a Suzana chegar da faculdade.
_Tudo bem. No precisa se preocupar.
_Leonardo, est tudo bem, mesmo? Voc parece to desanimado
filho!
_Estou cansado,  s isso, tenho trabalhado demais.
_Rafael, v se pega leve com o nosso filho, afinal ele acabou de se
casar, est em lua de mel ainda!
_ ele que trabalha demais, eu no posso fazer nada, ele insisti.


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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Quando Suzana chegou em casa, Leonardo estava no banho.
Minutos depois ele saiu e disse simplesmente:
_Boa noite.
_Boa noite, voc no precisa sair, aqui tambm  o seu quarto-
disse ela ao v-lo se aproximar da porta.
_Eu quero que voc fique  vontade, mas no se preocupe, eu no
vou dormir no sof, comprei um colcho e o coloquei no quarto ao
lado. Tenha uma tima e tranquila noite, minha princesa.

Minutos depois Suzana deitou-se; logo o travesseiro ficou todo
molhado, foi mais uma terrvel noite para ela.

Na noite seguinte, quando Suzana chegou, Leonardo j estava no
outro quarto, ela pensou em falar com ele, mas logo mudou de
ideia.

Eram oito horas quando Alessandra foi at a sala de Leonardo, ele
j estava trabalhando h pelos menos uma hora.
_Nossa, como voc ama o seu trabalho! J est a todo
concentrado! Bom dia.
_Oi, bom dia, Alessandra. Tem razo ,eu amo o meu trabalho.
_Eu acho que do trabalho ns devemos gostar, h outras coisas
mais interessantes para amar e que do mais... alegria e prazer.
_Ser?
_Com certeza. ... eu estou um pouco sem jeito, mas eu preciso de
um favor.
_Pode falar.
_Bem...  que ontem  noite a chave do meu banheiro quebrou
dentro da fechadura.
_Tem um chaveiro aqui perto.  bem prximo ao restaurante que
almoamos ontem.

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                          Tnia Gonzales



_ que, bem... os meus pais no querem que eu deixe entrar um
desconhecido em minha casa.
_Eu o conheo bem. O nome dele  Alfredo.
_Mesmo assim, se os meus pais soubessem que eu deixei um
desconhecido entrar na minha casa eles ficariam em pnico. Eu
prometi para eles que nunca faria isso.
_Alessandra, o Alfredo  um senhor muito respeitador. Ele 
conhecido por todos aqui do bairro.
_Obrigada, mas eu no posso. O que eu vou fazer agora? S usei o
banheiro quando cheguei aqui. Ser que... acho que no.
_O qu?
_Os donos da casa viajaram ontem  noite...eles iriam hoje, mas
resolveram adiantar, estou perdida! Mas, voc me faria um
favor?
_Fale.
_Voc poderia ir at a minha casa, tenho certeza que rapidinho
voc resolve o meu problema.
_Eu?
_. Com as ferramentas certas voc consegue. De repente voc
arranca a porta, no tem problema depois eu resolvo com o dono.
_No sei... eu...
_Eu no conheo mais ningum que eu possa confiar. Voc  to
gentil e eu com certeza vou saber agradecer este grande favor. Vou
agradecer muito.
Dizendo isso ela deu uma piscada para ele e s ento ele entendeu
a real inteno dela.
_Alessandra, eu...
_Leonardo, voc  to especial, eu nunca conheci um homem to
gentil e cavalheiro como voc. Este  o meu endereo. Vou sair
s seis horas, passarei em um mercado para comprar algumas
coisas e ficarei esperando por voc.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


Alessandra colocou um pequeno pedao de papel na mesa de
Leonardo e saiu sem dizer mais nada. Ele pegou o papel, leu e o
colocou no bolso da cala. Passou a manh inteira pensando
naquela proposta. " Ela no deve ter nenhum problema com a
porta do banheiro. Ela estava me paquerando! E se eu... no.
Mas... se eu fosse at l e... ah, como eu posso estar pensando
nisso? Eu no estou aguentando mais... o clima est pssimo l
em casa, a Suzana falou at em separao! Se eu aceitasse o
convite da Alessandra, ficaria mais calmo e daria mais um tempo
para Suzana, eu conseguiria ser mais compreensivo e... o que 
isso que eu estou pensando? No posso fazer isso com a Suzana.
No posso. Ah, meu Deus, me ajude!"
Eram quase onze horas da manh. Leonardo resolveu ligar para
Suzana.

_O que voc acha de faltar  faculdade hoje? Assim podemos
jantar juntos e ir ao cinema, que tal?
_Leonardo, eu no posso faltar hoje.
_Suzana, por ns.
_No posso.
_Tem certeza?
_Sim, ns podemos ir amanh.

Assim que ele desligou, ouviu duas batidas na porta. Era
Alessandra.
_Oi, podemos almoar juntos hoje?
_Podemos.
_Daqui uma hora eu volto aqui.
_Tudo bem.

Durante o almoo Alessandra aproveitou para se insinuar bastante.

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                           Tnia Gonzales



Ela queria que Leonardo tivesse a certeza das suas intenes para
logo mais  noite em sua casa.

Eram cinco horas da tarde, Leonardo resolveu ligar para Suzana
novamente.
_Suzana, falte hoje, por favor. Eu preciso de voc.
_Eu... no posso. Sinto muito.
_Eu tambm sinto muito.

Leonardo desligou o telefone e pegou o pedao de papel que
estava em seu bolso. Ficou olhando para ele por alguns segundos
e pensou com tristeza: " Eu tambm sinto muito."

s seis horas, Alessandra deu duas leves batidas na porta e entrou
com um largo e provocante sorriso em seus lbios.
_Eu j vou embora. Ficarei esperando por voc com muita
ansiedade e com muito...

Saiu sem completar a frase. Leonardo trabalhou mais uma hora e
meia. Rafael e Fernando saram meia hora antes. Pegou o celular e
ligou para Suzana, mas o celular dela deveria estar desligado.
Pegou o papel no bolso e ficou olhando para ele por alguns
segundos. Levantou-se, pegou o palet que estava na cadeira,
recolocou o papel no bolso da cala e saiu do escritrio. Eram sete
e quarenta.

Quando Leonardo chegou em casa era meia-noite, estava tudo
muito silencioso. Entrou em seu quarto para pegar uma roupa e
viu que Suzana j estava deitada e deveria estar dormindo ou
fingindo pois no disse uma palavra. Saiu do quarto e foi tomar
banho no banheiro do corredor. Assim que ele saiu Suzana

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


levantou a cabea e olhou para a porta com profunda tristeza.

Leonardo s conseguiu adormecer depois das trs horas. No
conseguia parar de pensar em tudo o que estava acontecendo;
estava sentindo um peso enorme; sentia-se culpado e derrotado.

Suzana levantou-se s oito horas e foi at a padaria. Voltou vinte
minutos depois e foi ver se Leonardo j havia acordado. Abriu a
porta e entrou sem fazer barulho pois percebeu que ele estava
dormindo profundamente. Ficou ali por alguns segundos olhando
aquele rosto que ela tanto amava. Saiu de l em silncio. Foi at a
cozinha e deixou a mesa pronta para o caf da manh. Ligou a TV
e ficou assistindo a um programa evanglico. s 9h30 Leonardo
se levantou.

_Bom dia, estava te esperando para tomarmos o caf juntos. Vou
ligar a cafeteira e esquentar o leite.
_Eu perdi a hora e voc tambm?
_Leonardo, hoje  sbado.
_Ah...  verdade.
_Voc chegou bem tarde ontem.
_Cheguei.
_Eu cheguei antes das dez; eu tinha um trabalho para apresentar,
sa assim que terminei. Me desculpe por no ter faltado para
sairmos juntos, mas pode ser hoje, se voc quiser.
_Pode ser.
_Vamos tomar caf?
_Vamos.
_Leonardo, eu estive pensando muito... o clima entre ns est
pssimo e eu no gostaria que continuasse assim. Me perdoe por
falar sobre separao. No quero me separar de voc, eu o amo.

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                          Tnia Gonzales



Eu tive uma ideia, bom... ela no  original, na verdade a ideia 
sua. Lembra o que voc inventou para o nosso primeiro beijo?
_Claro.
_Ento... ... Leonardo, ns estamos muito distantes um do outro,
assim nunca vamos resolver o problema. Bom... eu pensei que ns
poderamos fazer que somos namorados e comear tudo do zero.
O que voc acha?
_Eu... eu acho que pode ser.
_Voc est to desanimado! Mas eu no posso culp-lo, a culpa 
toda minha por estar sempre fugindo. Eu quero resolver isso, eu
quero do fundo de meu corao ser uma esposa pra voc.
Leonardo, amor... voc est chorando?
_Me desculpe... eu no mereo voc... eu...
_Meu amor, no fale assim, voc tem sido to paciente, mas tudo
tem o seu limite. Olha, eu vou me esforar...
_Ah, Suzana...se voc soubesse... eu tenho pensado tantas coisas e
me arrependo tanto!
_Pare com isso. Vamos sair um pouco? Eu preciso comprar umas
coisas e depois ns podemos almoar.

Foram at o shopping. Suzana fez compras, eles almoaram e
depois foram ao cinema.

_Hoje ns estamos parecendo com um casal de namorados.
Concorda?- perguntou ela ao sarem do shopping no final da tarde.
_Tem razo.
_S faltou uma coisa.
_O qu?
_Um beijo.
_Aqui no estacionamento?
_Por que no?

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Vamos entrar no carro pelo menos.
_Tudo bem, meu namorado.
Assim que entraram, Suzana se aproximou de Leonardo e o beijou
apaixonadamente.
_Nossa, voc me pegou de surpresa e eu adorei.
_No consegui esperar por voc. Leonardo, eu te amo.
_Suzana, minha princesa. Eu te amo.
Agora foi a vez dele beij-la.

 noite resolveram ficar em casa. Pediram uma pizza;
conversaram muito e tambm namoraram bastante. Quase meia-
noite, Leonardo deu um beijo na esposa e encaminhou-se para o
outro quarto.
_O que voc est fazendo? Este no  o seu quarto.
_Ns somos namorados e...
_No. Leonardo eu quero que voc durma em nosso quarto.
_Tudo bem. Como voc quiser.

Domingo foram para escola bblica e depois almoaram com os
pais de Suzana.  noite foram ao culto.
Quando chegaram em casa ficaram na sala namorando por algum
tempo.
_Leonardo, voc est entendendo o que eu estou fazendo? Eu no
quero que voc pense que a minha inteno  provocar voc e
depois fugir. Eu estou me aproximando aos poucos para que...
_Eu sei, Suzana. Voc tem razo,  a nica soluo. Nestes
ltimos dias ns estvamos totalmente afastados um do outro
mesmo vivendo sob o mesmo teto e assim as coisas s foram
piorando. Eu estou entendendo perfeitamente.
_E amanh?  feriado, lembra? O que ns vamos fazer?
_Eu tinha esquecido completamente. A Bia nos convidou para

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                           Tnia Gonzales



almoar na casa dela.  tarde vai ter uma festa para comemorar o
dia das crianas l na igreja.
_ verdade me pediram para ajudar.
_Ento eu vou com voc.  noite ns podemos jantar fora.
_Combinado.

No dia seguinte eles acordaram bem tarde, tomaram caf e foram
para a casa da irm de Leonardo. Depois foram todos juntos para a
festa na igreja. Era a primeira festa de dia das crianas que Bia
participava com a sua filha Vitria e ela estava radiante por isso.
 noite Suzana e Leonardo jantaram em um aconchegante
restaurante.




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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo



Captulo 43- Presente de aniversrio

Naquela manh de tera-feira, Leonardo chegou ao escritrio s
oito horas. Ele e Suzana haviam tomado o caf juntos. Alessandra
j estava na recepo conversando com o office-boy; Leonardo
cumprimentou ambos e foi para sua sala. Minutos depois ele
ouviu duas batidas na porta. Era Alessandra.
_O que deseja?
_O que eu desejo? Fiquei muito decepcionada com voc sexta-
feira.
_Decepcionada? Por qu? Eu pedi para o Alfredo ir at l para
resolver o seu problema e ainda expliquei para ele que voc
morava sozinha e ele disse que levaria a neta dele; ela 
adolescente j. Ele foi sozinho?
_Que cinismo! Ele foi com a neta sim.
_E resolveu o seu problema?
_No precisei dos servios dele; quando ele chegou estava tudo
certo com a minha porta.
_Ento por que voc est brava? Ele quis cobrar pela visita?
_Muito engraado. Eu estava esperando por voc.
_Eu no sou chaveiro. E agora, se voc d licena eu preciso
trabalhar.
_Voc me fez pensar que iria e...
_Eu? Alessandra, sou um homem casado e se voc quiser
continuar trabalhando aqui dever respeitar isso. Evite vir at a
minha sala, se eu precisar falar com voc eu aviso. Mais uma
coisa, nunca mais faa qualquer tipo de insinuao, fale comigo
somente assuntos profissionais e nada de convites para almoar, j
que voc no quer s a minha amizade. Fui claro?
_Sim. Com licena.

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                          Tnia Gonzales



Leonardo, naquela noite de sexta-feira, saiu do escritrio e foi
direto para a casa de Alfredo, mesmo tendo a certeza que no
havia nenhum problema com a porta dela, porque queria dar uma
lio em Alessandra. Entregou o endereo para ele e explicou a
necessidade dele ir acompanhado. Aps, como no queria ir para
casa cedo, foi at o shopping onde ele havia conhecido Suzana.
Comeu um lanche, andou um pouco e depois escolheu um filme
qualquer para passar o tempo, por isso s chegou em casa meia-
noite. Sentia-se culpado e muito desanimado por ter passado pela
cabea dele comparecer quele encontro; por ter chegado a pensar
que seria uma soluo. Agradeceu muito a Deus por ter-lhe dado
foras para suportar a tentao. Quando, no dia seguinte, Suzana
falou sobre a ideia dela, ele no aguentou mais todo aquele peso
que estava carregando por isso chorou.

Naquela noite Suzana e Leonardo conversaram animadamente e
ela aproveitou para falar sobre os planos para o aniversrio dele
que seria na sexta-feira.
_Suzana, por favor, nada de festa surpresa.
_Que chato! Agora  tarde demais.
_O qu?
_Claro, afinal voc vai completar 26 anos!
_Suzana, eu...
_Calma, voc acha mesmo que se eu estivesse organizando uma
festa surpresa voc iria suspeitar, no mesmo!
_Suzana!
_Fique tranquilo. Eu estou pensando em algo bem ntimo. Um
jantar s ns dois. At j avisei a sua famlia.
_Que timo. Voc no est me enrolando, n? Ns dois chegamos
no restaurante e ... surpresa!
_No,  srio.

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Obrigado.

Suzana estava pensando em algo muito ntimo. Havia prometido
para si mesma que aquela noite seria inesquecvel para ambos.
No iria comprar um presente para Leonardo. Ela seria o presente.
Ela o amava muito por isso iria conseguir.
Passou aqueles dias se preparando psicologicamente e tinha
certeza que no o decepcionaria.

_Bom dia! Feliz aniversrio!
_Nossa, faz tempo que voc levantou!
_Faz uma hora mais ou menos. Preparei um caf especial para
voc.
_Para ns dois.
_Parabns, meu amor!
Suzana o beijou demoradamente.
_Uau! Acho que prefiro os seus beijos do que o caf.
_Voc precisa se alimentar. Bom, voc tem como sair mais cedo
hoje?
_Acho que sim.
_Eu vou estar aqui s cinco horas e vou ficar esperando por voc.
_E a faculdade?
_Hoje  aniversrio do meu marido!
_Tudo bem. Eu vou fazer de tudo para estar aqui antes das seis.

Suzana estava muito ansiosa. Passou o dia inteiro pensando em
como seria aquela noite. Pediu a Deus foras para vencer aquele
trauma de infncia. Ela precisava dar o presente que Leonardo
tanto queria." Este presente est atrasado! Ele deveria ter sido
entregue l em Porto de Galinhas. Hoje eu vou conseguir. Eu vou!
Devo isso a ele. Devo isso a ns dois.

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                          Tnia Gonzales



Suzana chegou em casa poucos minutos antes das cinco horas;
tomou banho e escolheu um vestido verde musgo que usou no
casamento de um primo de Leonardo e ela lembrava que ele havia
gostado muito. Escovou os cabelos e resolveu deix-los soltos
pois sabia que o marido adorava v-los assim.
Poucos minutos aps as seis horas foi a vez de Leonardo chegar.
_Nossa, como voc est linda! Eu no mereo tanto!
_Merece muito mais. Eu j estou pronta.
_Uau, como voc est cheirosa! Vou tomar um belo banho e ficar
bem bonito e perfumado pra voc.
_Recebeu muitas ligaes hoje?
_Sim, o pastor Pedro, a Sandra, a Paulinha, a Leca, minha me, a
Bia, o Bruno, sua me e almocei com o meu pai e o Fernando. A
Lcia mandou um grande beijo pra voc. No final da tarde
cantaram parabns, tive at bolo, presentes. Eu trouxe um pedao
e coloquei na geladeira, est delicioso.  bolo mousse de limo,
muito bom. At a minha me e a Sandra apareceram por l. Ah, a
minha me levou a Vitria; a Bia no pde ir porque tinha
pacientes para atender.
_Elas tinham comentado comigo.
_Ento voc j sabia!
_Claro. Eu pensei em dar um jeito de ir mas no deu.
_Tudo bem. Ah, eu recebi uma ligao muito importante.
_De quem?
_Vov Vivi.
_Que legal. Eu no sabia que ela ia ligar. Ela est bem?
_Est tima. Mandou um beijo enorme e disse que est com
muitas saudades, mas agora chega de conversa, vou tomar banho.

Saram de casa s sete horas. Leonardo vestiu um terno preto com
listras de giz bem discretas, uma camisa branca e uma gravata

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


vinho.
Jantaram em um restaurante muito aconchegante; conversaram
muito e at danaram duas msicas romnticas.
_Lembra quando ns danamos pela primeira vez?
_ claro que lembro. Eu estava to triste aquela noite; s ficava
pensando em sua reao ao saber do meu passado.
_Bom,  melhor no falarmos sobre isso. Suzana, voc est
maravilhosa.
_E voc tambm. Eu amo voc. Vamos pra casa agora?
_Tudo bem, meu amor. Voc manda.
_Mas voc  o seu aniversrio.
_Ento eu vou dar uma ordem: beije-me!
_E eu obedeo.
Ela o beijou demoradamente e depois os dois foram para casa.

Durante o caminho Suzana ficou em silncio; estava muito
ansiosa. Chegaram s 23h.
_Leonardo, eu... ... eu vou para o quarto e quero que voc me
espere aqui.
_Agora  voc que est no comando.
_Eu no demoro.
Leonardo tirou o palet e a gravata e sentou-se no sof.

Suzana voltou vinte minutos depois com uma pequena caixa
dourada nas mos; no estava usando mais o vestido verde e sim
uma delicada camisola preta. Leonardo levantou-se rapidamente e
ficou olhando para ela fixamente.
_Bom...  o seu presente  dizendo isso ela entregou para ele a
pequena caixa.
Leonardo desfez o lao e ao abrir encontrou um carto com os
seguintes dizeres: " eu estou lhe entregando um presente muito

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esperado; sei que o fiz sofrer demais mas eu quero que isso fique
no passado e que voc considere que hoje  o primeiro dia de
nossa lua de mel; no comprei um presente para voc de
propsito porque eu quero ser o seu presente, eu! Te amo muito,
me perdoe! A partir de hoje serei a sua esposa, hoje! E tenha certeza
que no vou decepcion-lo. Feliz aniversrio! "

Aps terminar a leitura do carto, ele olhou para ela com um largo
sorriso e disse sem esconder a emoo:
_Eu sei que vou amar muito este presente, muito.

O beijo comeou suave, mas em poucos segundos se tornou
intenso. Leonardo pegou Suzana no colo e a levou para o quarto.

Trs horas depois, Suzana estava olhando para o marido que havia
adormecido. Ela enxugou algumas lgrimas que insistiam em cair
e sentou-se na cama, este movimento fez Leonardo acordar.
_O que foi? Aonde voc vai?
_Vou tomar gua, j volto.
_Ah... no demore.
_No.
Segundos depois ela estava de volta.
_Suzana, voc estava chorando? Conseguiu dormir um pouco?
_Chorando? Eu ainda no consegui dormir.
_Meu amor, por qu?
_Estou muito feliz, estou eufrica! Leonardo....
As lgrimas comearam a cair novamente.
_Minha princesa, pare de chorar.
_Eu preciso, so lgrimas de felicidade. Consegui, eu finalmente
consegui vencer o trauma. Parecia um obstculo intransponvel.
_Meu amor, ns conseguimos juntos. Eu a amo tanto! Voc foi

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


perfeita! Valeu a pena cada dia de espera.
_No fale isso, por favor. Estes ltimos dias foram terrveis!
_Tem razo, mas hoje estamos felizes e satisfeitos um com o
outro. Bom, eu disse que estamos satisfeitos? Hum... acho que
no. Voc disse que  o incio de nossa lua de mel, no disse?
_Disse.
_Ento, o que voc acha de continuarmos, hein?
_Eu acho... timo.

Quando conseguiram dormir j passava das cinco horas da
manh.
Leonardo levantou-se s 9h e saiu sem fazer barulho; Suzana
acordou s 10h e viu que estava sozinha no quarto; levantou-se,
usou o banheiro, colocou uma roupa e foi at a cozinha. O cheiro
estava delicioso.
_Bom dia! Por que voc no me chamou?
_Estava dormindo to gostoso e eu queria fazer uma surpresa. Fui
at a padaria e comprei tudo que voc gosta.
_Hum... este cheirinho de caf  maravilhoso!
_Espera a, eu j volto.

Voltou em seguida com um lindo bouquet de rosas vermelhas.

_Para minha linda e maravilhosa esposa. A noite ontem foi
perfeita em todos os sentidos. Perfeita. Eu amo voc.
_Obrigada, so lindas! Ah... voc disse exatamente o que est
escrito no carto.
_Sim. Que tal agora ns tomarmos caf?
_Concordo. Estou com muita fome.
_Gastou muitas calorias ontem.
_E voc tambm.

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                         Tnia Gonzales



_Eu? No tenho nada a ver com isso!
_ mesmo?
_No. Eu tenho tudo a ver e sempre quero ser o responsvel por
isso, sempre.

_Suzana, filha? Tudo bem com voc? - perguntou Marina ao ligar
naquela tarde de sbado.
_Oi, me. Tudo timo.
_Filha, eu liguei para fazer um convite.
_Convite?
_Ns gostaramos que vocs almoassem conosco amanh.
_Almoo a, amanh?- perguntou Suzana olhando para Leonardo
que estava      ao seu lado na cama e balanou a cabea
afirmativamente.
_Tudo bem, me, amanh estaremos a. Um beijo. Tchau.
_Eu pensei em passar o final de semana inteiro s com voc, mas
posso abrir uma exceo- disse Leonardo assim que ela desligou.
_Voc no est cansado de ficar aqui sozinho comigo?
_Cansado, nem pensar. Eu adoro ficar aqui sozinho com voc,
principalmente aqui neste cmodo da casa.
_ mesmo? Nem havia percebido.
_No? Duvido. Mas, eu acho que estamos conversando demais,
que tal voc me acompanhar?
_Para aonde voc pretende me levar?
_Para o banho.




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Eplogo

_ Vocs vo mesmo para Porto de Galinhas no prximo feriado?_
perguntou Davi durante o almoo.
_Vamos, sim, sogro. E ficaremos no mesmo hotel; pena que sero
s trs dias.
_Compensa?  to longe!- disse Marina.
_Vai compensar com certeza- disse Suzana dando uma discreta
piscada para o marido.


Antes de comear o culto, Suzana encontrou-se com Letcia, Paula
e Lcia que estavam conversando na lanchonete da igreja.
_L vem a senhora Martins- disse Letcia.
_Ol, amigas. Tudo bem com vocs?
_Tudo timo. Mas que sorriso  este? J tem novidade para ns? -
perguntou Lcia.
_Novidade? O que... ah, j sei. No, ainda no. Calma, ainda nem
completei dois meses de casada!
_ verdade, calma, Lcia. Estamos sabendo que voc vai prestar
um concurso,  verdade? - foi a pergunta de Paulinha.
_ isso mesmo. Pretendo dar aulas para o ensino fundamental e
depois quero ser professora universitria.
_ isso a, amiga. Voc consegue. Ento no prximo ano voc vai
continuar estudando, no ?- desta vez foi Letcia que perguntou.
_Vou, com certeza. No posso parar e o Leonardo me d a maior
fora. Ele me incentiva muito. Mas e vocs, quais as novidades?
Lcia?
_Bom... eu estou indo muito bem na faculdade e tambm est tudo
timo no escritrio Martins e Soares associados. Esto gostando

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                          Tnia Gonzales



muito do meu servio. E... o que mais... o Willian anda me
convidando para sair, um dia desses eu aceito.
_Hum... que legal! E voc L?
_Voc sabe que termino odontologia neste ano e estou estagiando
em uma conhecida clnica; confesso que simpatizo muito com as
proprietrias. Eu e o Dani pretendemos casar no prximo ano.
_Que notcia maravilhosa! Paulinha...
_Depois de tantas novidades... estou indo muito bem na faculdade
de Veterinria. Meus pais esto cada dia mais unidos. No estou
namorando, pelo menos por enquanto, quem sabe em um futuro
prximo... ah, estou me alimentando muito bem.

 noite aps o culto...
_Amanh eu vou acertar tudo para nossa viagem. Achei engraado
a sua me perguntar se compensava.
_Ela no imagina o que ns estamos pretendendo fazer l.
_Ser?
_Bom... no mnimo ela pensa que queremos aproveitar o local
para passear...
_Eu s quero aproveitar o quarto.
_Leonardo, Leonardo. Ns dois merecemos ir at l e...
_E... por que voc ficou toda vermelha, hein?
_Para com isso.
_Foi ideia sua voltarmos para l e...
_Tudo bem, foi ideia minha, eu confesso. Eu quero apagar aquela
nossa primeira viagem juntos. Desta vez, com certeza, ser muito
especial.
_Com certeza.
_Leonardo, voc no sabe o quanto eu agradeo a Deus por ter
colocado voc em meu caminho. Voc sempre foi to
compreensivo, atencioso e...

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    Suzana, Letcia, Paula e Lcia  uma histria de dor, amor e perdo


_Mas ultimamente eu estava insuportvel, pode dizer.
_Meu amor, tudo tem limite. Voc estava cansado de esperar por
mim e com toda razo.
_O importante  que est tudo bem agora e que estamos muito
felizes.
_Muito felizes. Que alvio! Eu entrava em pnico s de pensar que
voc iria se aproximar, agora eu no vejo a hora de voc chegar
bem pertinho de mim. s vezes eu acho que  um sonho. Parece
que estou sonhando desde sexta-feira.
_Vem aqui que eu vou te mostrar que no  um sonho, vem...

                                  Fim




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